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Quando seu avô faleceu, a ficha de como a vida era algo frágil caiu pesadamente nas costas de Itadori. A saúde do velho não estava nas melhores condições, mas esperava uma boa recuperação, apesar da idade. Yuuji imaginou que ele viveria o suficiente para vê-lo se formar no colégio e ingressar numa faculdade, comemorando juntos suas pequenas conquistas, já que seu avô era sua única família.
Mas não foi assim.
Na sua opinião, Wasuke Itadori havia sido um bom avô, talvez não tão carinhoso como ouvia sobre os avôs dos seus colegas , e Yuuji sentia que cumpriu seu papel como neto. Porém, o tempo de vida humana era ínfimo — Yuuji sabia — podendo se esgotar antes do previsto para qualquer pessoa. Só que saber não é o suficiente para lidar com a perda real.
Se Yuuji carregava alguns arrependimentos, agora era tarde demais. Lembranças e coisas que gostaria de ter dito martelavam em seu peito, mas talvez fosse inevitável se sentir assim. Seu avô pediu para que fosse forte e bom com as pessoas, antes de partir, então era isso que faria — depois de algumas lágrimas que escaparam sem que percebesse.
E, então, no mesmo dia, ele quase perdeu seus colegas do clube para algo que não conhecia. Na mesma noite, Itadori selou seu destino com uma futura execução e uma maldição de brinde, enquanto tentava fazer o que prometeu ao avô. Sua vida virou do avesso e ele quase a perdeu algumas vezes no processo — na verdade, ele morreu uma vez. O combo de acontecimentos mudaram sua forma de ver o mundo, inevitavelmente.
A perda da sua pacata vida escolar.
A falta de um luto adequado.
A maldição zombeteira e mortal presa dentro de si.
Os olhares desconfiados dos outros feiticeiros.
A necessidade de lutar constantemente pela sua vida e manter um espírito de luta inabalável.
A solidão.
A verdade é que a vida ensinou a Itadori, num curto espaço de tempo, que poderia não haver um amanhã , seja para ele ou para quem fosse próximo. Por isso, ele tentava aproveitar o seu hoje ao máximo — talvez de modo forçado e desesperado —, fosse rindo com Gojou, Nobara e Megumi ou lutando com tudo. Às vezes, nem sequer conseguia dormir, para não desperdiçar seus valiosos minutos de vida.
Faculdade, relacionamentos, viagens… Não adiantava planejar um futuro. Isso não pertencia mais a ele.
Mas algumas vezes como agora, acordado na calada da noite, quando o peso da realidade batia à porta e entrava sem dar chance de fuga, Itadori se sentia cansado e receoso. A falta de algo estável — e durável — na sua vida entristecia-o. As poucas coisas que tinha poderiam ser tiradas de si num piscar de olhos. Um vazio o preenchia, como se Sukuna não tivesse restaurado seu coração de verdade.
Talvez seus companheiros nem o consideravam um deles, apenas estavam de olho e sendo legais para evitar que Yuuji se unisse à maldição ou perdesse o controle. Suspirou pesadamente, numa tentativa de sair do turbilhão de negatividade que se enfiou, não precisava de pensamentos como aquele, j á estava tudo ruim o suficiente para que ele piorasse por conta própria . Abraçou o travesseiro com força e enterrou o rosto, algumas lágrimas já escapando.
Sentiu uma energia por dentro — de Sukuna provavelmente —, como se a maldição estivesse se remexendo em seu interior, aquecendo-o . Não sabia se era proposital ou estava apenas hiperconsciente da presença de Sukuna , mas trazia algum conforto. Não estava sozinho.
A maior ironia da vida era o causador de todo o caos ser, ao mesmo tempo, a única certeza na vida de Yuuji. A única coisa permanente. Ambos estavam presos um ao outro e esse pensamento, de alguma forma, trouxe um alívio indescritível. Talvez estivesse enlouquecendo por se apegar daquela forma à maldição, mas o pensamento era o suficiente para que Itadori engatasse num sono tranquilo.
