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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-01-06
Words:
15,729
Chapters:
1/1
Kudos:
7
Hits:
154

Adendo

Summary:

Orihime Inoue uma estudante do ensino médio desapareceu na noite de sexta-feira sem deixar rastros, depois de um fim de semana todo a segunda chega e ela não dá as caras, onde ela poderia estar?

Talvez uma coletânea de histórias desconexas voltadas para Orihime.

Notes:

é a minha primeira vez publicando nesse site e também escrevendo algo desse tipo de coisa, eu tenho um favoritismo muito grande pela Orihime então sinto muito

Work Text:

 

Não era assim que deveria ser, mas foi assim que teve de ser.

Eu apenas abri seus belos olhos, estava cega e isso a machucava cada vez mais, como consequência agora esses olhos castanhos tão claros estão opacos. Minhas mãos ensanguentadas e seu belo corpo violado com um buraco bem no meio de seu tórax, mas qualquer coisa em você fica magnífica, até seu cadáver fica deslumbrante manchado de sangue. Sua boca com um rastro seco de sangue esfarelado, suas mãos tinham minha carne embaixo de suas unhas, não consigo me arrepender, não posso me arrepender, no dia que eu me juntar a você, você verá, entenderá, me entenderá, você irá me perdoar me abraçar e abrir seu belo sorriso soltando a sua risada tão gostosa que me faz derreter.

Você irá fazer tudo isso, tudo tudo tudo. Porque eu te livrei desse amor platônico que você tanto odiava.

 

–-------------------------------------------------------------------- –

 

— Você ouviu? Orihime Inoue da classe sete, ela desapareceu — Eram aqueles os cochichos que invadiam a escola, rumores para lá e para cá, não demorou muito para a melhor amiga da ruiva dar falta de sua presença, foram apenas duas noites. Todos ainda estavam chocados, uma pessoa tão fácil de gostar sumiu sem avisar ninguém, nem mesmo seus amigos próximos.

Isso fazia os corações daqueles 6 baterem de ansiedade, pensando onde ela estaria.

Ichigo, Rukia, Renji, Sado, Tatsuki e Uryu, esses eram os principais amigos dela, talvez os melhores ou talvez os únicos que eram realmente amigos dela. Saídas, conversas, desabafos, apoios, definição perfeita de amizade mesmo eles sendo tão diferentes um dos outros.

Eles se encontravam atualmente em uma sala vazia iluminada apenas pelo pôr do sol, em outra situação todos estariam andando para suas casas apreciando a bela vista mas nenhum deles estava com ânimo para falar do céu, do clima ou de qualquer outro assunto.

— Alguém viu ela sexta passada? — O ruivo perguntava em tom cansado estampado com belas olheiras nos olhos que surgiram depois de apenas uma noite sem dormir. 

Ficou descontente ao ver todos negando com a cabeça, as duas morenas pareciam depressivas, de cabeça baixa enquanto claro os rapazes tentavam se manter fortes.

— A última vez que a vi foi quando estávamos saindo da escola — Uryu revelou — Nos despedimos e ela foi pelo caminho de sempre e eu fui para o curso —.

— A vi só no intervalo, tive que ficar depois das aulas por causa de alguns negócios — Ichigo coçou a nuca e suspirou. Nunca pensou que sentiria tanta falta dela.

— Eu a vi junto do Uryu antes de ir para a academia — Sado os informou, novamente nada.

— Tatsuki, você é a mais próxima dela, não tem nem ideia? — Rukia viu a morena espetada negando com a cabeça.

— Clube de karatê, não consegui ir junto dela para casa e quando cheguei em casa ela não respondeu nenhuma das minhas mensagens… —.

—  E só foi atrás no domingo? — O ruivo-sangue finalmente se pronunciou, em grande dúvida encarando a quase desconhecida.

— Tá querendo dizer o que? É comum ela não responder de vez enquanto, a Orihime é péssima com o celular ela já ficou um fim de semana todo sem me responder porque ele descarregou e ela não percebeu! — Sua voz elevada era evidente para todos, parecia ficar nervosa a cada palavra com uma carranca pior que a de Ichigo se formando pela possibilidade de ser acusada por alguém.

Ouviram um bufo cortando o desentendimento deles — Não precisa se irritar, a gente acredita — Ichigo se forçou a relaxar os ombros.

— Ninguém precisa se acusar, não sabemos o que aconteceu, ela deve tá com algum problema só isso — A morena estava de braços cruzados.

Estava sendo otimista, infelizmente muito otimista.

A ruiva era solitária, todos sabiam, ela não dependia de ninguém mesmo adorando a companhia de pessoas. Sempre evitou qualquer preocupação que alguém pudesse ter com ela.

Então para ela preocupar alguém sumindo assim tão de repente…

— Rukia está certa, mesmo sendo Orihime. Ela é ela, deve estar bem — Ichigo concluiu suspirando — Eu vou para o apartamento dela de novo hoje depois da aula, se ela aparecer… —.

— Eu vou junto! — Uryu deu um passo à frente e o ruivo o encarou.

— Não precisa, a minha casa fica no caminho — Sem dar chances ao moreno de responder, o ruivo saiu. Depois dele não demorou muito para os outros se retirarem.

Todos com o mesmo pensamento e objetivo.

Descobrir o paradeiro da amiga.

 

— --------------- —

 

Primeiro foi Tatsuki, a primeira pessoa quem Orihime conheceu. Na verdade foi Ichigo mas a garota não se lembra de quando o conheceu.

Então após Tatsuki foi Ichigo, Sado, Uryu, Rukia e por último o Renji. Eles não se conheciam tão bem, estavam no processo de se tornarem amigos mas tinham algo em comum.

Ciúmes de uma suspeita de um relacionamento.

E a pessoa da qual Orihime sentia ciúmes acompanhava sua melhor amiga até uma cafeteria próxima naquele momento. No fim da tarde, ainda uniformizadas após uma ligação nada agradável.

 

“O apartamento dela estava escuro e a porta tava trancada, não quis entrar mas pelo que vi não pegaram a correspondência”.

Orihime não tinha voltado.

 

E a ideia da karateka foi uma cafeteria que a amiga frequentemente ia sem nenhum acompanhante. Ela iria mentir se dissesse que a curiosidade não a invadia.

Poder finalmente descobrir o motivo de Orihime preferir ir sozinha àquele estabelecimento depois de tanto tempo com aquela dúvida gravada na garganta.

Mas preferiria que essa visita fosse em outro cenário .

 

— Com licença — Rukia se dirigiu a uma garçonete que se aproximava de ambas para recebê-las.

— Vão querer uma mesa? —.

— Não, na verdade queríamos perguntar se vocês viram essa garota — Ela entregou uma foto impressa da ruiva na papelaria ao lado.

Assistiu o rosto da mulher se contorcendo tentando lembrar da imagem e uma luz pareceu se acender naquela cabeça.

— Acho que já vi alguém parecida, ruiva com certeza, não é sempre que vimos um japonês ruivo — Riu e logo limpou a garganta envergonhada — Ela é bem frequente aqui se não me engano… —.

— Ela passou aqui sexta ou no fim de semana? — Tatsuki tomou a frente tentando controlar seu tom.

— Sinto muito, eu não trabalho aqui fim de semana e sexta eu estava ajudando na cozinha… — A mulher mais velha olhou em roda como se procurasse por algo — Ah! Mas Ulquiorra é sempre quem a atende, tenho certeza de que ele deve saber! —.

Seguiram a garçonete e esperaram no local pedido pela moça, a mais baixa suspirou em alívio por ela estar colaborando tão fácil, esperava uma confusão ou elas sendo expulsas de lá mas elas acabaram dando a sorte grande.

Demorou uns cinco minutos até um rosto pálido dar as caras saindo diretamente dos fundos. Era difícil explicar o que Rukia sentiu naquele momento, mas toda a sua espinha esfriou, nem sabia que aquilo poderia ser possível. O homem era assustador mesmo pequeno, seus olhos pareciam mórbidos e sua aparência era parecida com a de um cadáver, emanava uma sensação ruim como se fosse um boneco de um filme de terror.

Era ele quem se aproximou das duas.

— São vocês que queriam falar comigo? — Um tom seco, rude e sem emoção alguma.

— Sim, somos amigas de Orihime Inoue… — O susto da morena aumentou ao ver os olhos verde esmeralda se arregalando e brilhando de uma forma que ela pensou ser impossível — … Queríamos saber se a viu sexta feira ou final de semana —.

— … Porque? —.

— Porque -- — Fechou a boca se interrompendo, não queria dar a informação de bandeja e Tatsuki parecia ter a mesma opinião — Queremos saber, tem algum problemas em nos contar? —.

— Tenho, tenho bastante — Respondeu sem medo algum — Não daria informações sobre clientes para qualquer um —.

— Somos amigas dela! Não somos desconhecidas! —.

— Para mim são — Ele se virava para voltar aos seus afazeres quando a voz de Tatsuki o chama alto.

— Você é Ulquiorra Cifer, o cara de dar um frio na espinha mas que na verdade é “uma pessoa muito gentil” segundo Orihime, que faz doces deliciosos e decora o café dela com um coração — Isso o fez acreditar nas duas entretanto ele ficou imóvel sem se virar — E eu sou Tatsuki Arisawa, melhor amiga da garota que tá sempre rindo que nem idiota. Você a viu na tarde de sexta para domingo? —.

— … A vi — Arisawa suspirou, pelo menos Orihime esteve presente em algum lugar — No fim da tarde de sexta, então não a vi mais… Porque? —.

Ou não estivesse tão presente assim.

Engoliu seco. Dois dias, dois dias! Ela foi vista pela última vez há dois dias?

— … Ela sumiu — Rukia olhou para ela incrédula por revelar com tanta facilidade — Não mandou mensagem ou apareceu na escola hoje, também não está em casa —.

Viu os olhos tão frios criarem um medo avassalador, como se a coisa mais horrível tivesse sido dita naquele momento, bem, na verdade foi e Ulquiorra pareceu ter o mesmo sentimento que seus outros amigos. Se não mais fortes. Aquilo lhe deu um arrepio diferente, um desconforto como se o medo de que algo realmente grave tivesse acontecido com ela. 

Rukia mordeu o lábio, pareceram que tinham alguma pista tão boa mas na verdade estavam na estaca zero.

— --------------- —

Se lembra quando nós conhecemos Orihime? … Não sei porque ainda faço essa pergunta em pensamento. Mas, acho que você foi minha primeira amiga.

Eu era uma rabugenta que não sabia falar com ninguém, era próxima de Ichigo porque nossas famílias tinham… Vamos dizer um relacionamento, e eu e ele tínhamos o mesmo temperamento então acabamos nos dando bem.

Quando eu te conheci foi a primeira vez que eu fui para a escola depois de uma vida estudando em casa, naquela época eu pensava que meu cunhado não queria mais olhar para minha cara depois da morte da minha irmã.

 

— Rukia! Quer almoçar com a gente? — Foi aquilo que você me disse, mal tínhamos trocado algumas palavras mas você queria ficar próxima de mim. E eu burra perguntei quem você era e ganhei um xingão daquele idiota com cabelo de cenoura.

Mas você apenas pegou minha mão e riu. Eu nunca tive que me preocupar em agir estranho perto de você, você sempre acharia graça ou me compreenderia.

Agora quando eu quero agir de forma estranha de novo você evapora.

 

— --------------- —

 

O sinal de que alguém tinha usado as portas automáticas foi tocado, era uma pequena loja de conveniência com apenas dois funcionários operando, na verdade era muito para uma loja tão pequena, entretanto parecia ser bastante necessário.

Em passos largos Renji entrou no estabelecimento, explorou com os olhos o local desconhecido, ele parecia muito suspeito, tinha certeza disso.

Estava acostumado com olhares tortos, tatuagens e cabelo extravagante não eram tão atrativos ali. Poderia passar facilmente por um gangster, sabia disso.

Se fosse um dia ou ocasião comum ele não sairia para ir em locais desconhecidos, seguiria sua rotina normal e tomaria cuidado para ir apenas nos estabelecimento que o conheciam. Mas naquele dia suas intenções falavam mais alto.

Não era amigo próximo de Orihime mas tinha de admitir o quão bem ela fazia à Rukia, de adendo eles tinham algo bastante em comum, um sentimento que ambos dividiam por duas pessoas e que os comia por dentro. Ambos tinham empatia um pelo outro.

Juntando esse sentimento com o quão ela era importante para a mulher que amava, ele tinha o dever de ajudar.

Discretamente se aproximou do caixa vazio, com um pouco de vergonha e medo ele começou a falar.

 

— Com licença, estou atrás de uma colega minha… Ela sumiu alguns dias atrás e não deu notícia, ela costuma frequentar esse lugar — Foi direto, não queria correr o risco de ser confundido por algum tipo de criminoso perseguindo uma pobre adolescente, também queria ser rápido, se sentia desconfortável ficando lá.

Entregou a foto impressa junto de Rukia e Tatsuki e a mulher não demorou em pegar.

Parecia uma mulher gentil, examinou a foto e seus olhos não demoraram para reconhecer a pessoa.

— Sabe o nome dela? — A mulher de cabelos verde-água olhou-o de forma modesta, sem julgamentos, só queria ter certeza.

— Inoue Orihime — Colocou as mãos no bolso em forma de proteção esperando uma resposta vindo da mulher.

— Sim, acertou, bem, Orihime frequenta aqui regularmente, o que precisa saber? — Deixou as mãos flutuarem pelo caixa de forma despreocupada.

— Ela veio aqui de sexta pra cá? —.

— Ah bem, é difícil lembrar — Coçou a cabeça vasculhando as memórias enquanto encarava a foto preto e branco com certa dificuldade.

— OH NEL TÁ FORMANDO FILA AÍ! O QUE TÁ FAZENDO? — O outro funcionário que parecia operar como repositor se aproximou parecendo irritado.

— Grimmjow! Invés de gritar use seu cérebro! — O homem a xingou mas ela estava ocupada demais mostrando a foto à ele — Sabe se a Hime veio de sexta pra cá no mercadinho? —.

“Hime”  Renji estranhou o apelido, elas eram próximas? Tecnicamente não poderia se surpreender… Falavam pouco mas sabia a facilidade dela em fazer amigos.

— Hmm… Pra que? —.

— Ela sumiu! — Ao contrário da reação de choque comum que todos estavam tendo, Grimmjow soltou uma gargalhada.

Estava para uma gargalhada de graça e horror do que só graça.

— O Ulquiorra vai ficar desesperado — Riu mais um pouco antes de se recompor e começar a pensar — Sexta à tarde… pelas quinze, por aí —.

— Ai sim! Seu cérebro funciona — Grimmjow mostrou o dedo do meio com o tamanho elogio que recebeu, a caixa se voltou a Renji e lhe entregou a foto — Ela esteve aqui sexta feira na metade da tarde! —.

— ELE OUVIU, SEU CÉREBRO DE VENTO, LIBERA LOGO O CAIXA! —.

O homem de cabelos azuis já começava a se afastar quando Renji o chamou.

— Espera! Quem é Ulquiorra? — Ouviu mais uma risada.

— Então ela não contou? — O ruivo sangue se perguntou o que ela teria para contar — Ele tinha mesmo falado alguma bobagem sobre “não estarem assumidos” ou algo parecido —.

“Assumidos”? 

— Espera, quer dizer–- — Renji não conseguiu formar a pergunta sem travar. Ele pensava, não, tinha certeza, ela gostava de Ichigo! Talvez a ruiva estivesse tentando seguir em frente?

— Hm hm, algo do tipo… Tá mais só pra favores, saca? — De modo nada discreto ele fez um movimento com o punho em direção a boca e Renji se sentiu envergonhado e um pouco enojado.

Amigos sexuais? Uma amizade colorida, talvez, Renji ficou com isso batucando enquanto saia da loja. Não a conhecia bem o suficiente mas tinha certeza do tipo de pessoa que ela era… Pelo menos achava isso.

Não conseguia imaginar, em hipótese alguma em cenário nenhum… Só se…

É, nenhum cenário vinha a mente, não a conhecia o suficiente para imaginar algo.

 

— --------------- —

Quando eu conheci ela não a vi pessoalmente, a conheci pelas histórias que a Rukia contava, o modo que ela sorria o jeito que ela contava de como você a fazia sorrir… Eu sempre fui grato à você por causa disso, mesmo antes de saber como você realmente era.

Você foi o calor que meu amor precisou para se esquentar. Quando te conheci pessoalmente tive certeza disso, você me acolheu tão bem quanto acolhia todo mundo. Os enchia de ternura, de sorrisos e estava lá sempre que eles choravam.

Então porque está fazendo os outros chorarem agora? 

 

— --------------- —

 

No fim de segunda-feira começou a chover, de forma calma mas com uma melancolia incrivelmente gigante.

Uryu suspirou, estava em uma praça onde todos eles tinham ido uma vez à convite dela. Para ele aquele lugar era chato, mórbido e desinteressante.

Mas estava lá, espalhando o rosto dela na mente das pessoas com uma foto enquanto perguntava se a tinham visto.

Ele não era nada sociável, nada, nem com seus melhores amigos ou com Orihime… Então Orihime conseguir fazer ele se abrir tanto para ela a fez se tornar sua amiga mais querida. Iria retribuir tudo que ela fez fazendo de tudo para salvá-la.

Pessoas e mais pessoas, pergunta sendo repetida toda vez, andou pela praça, pelo chafariz, focou no centro mas desistiu e foi para o canto onde encontrou um pequeno lago com alguns patos fazendo barulho e um velho grande e gordo sentado na frente dele, era estranho ver aquele senhor com cabelos rosas segurando uma sacola de migalhas e jogando para as aves. Ele era uma pessoa que Orihime deveria conhecer, essa foi a conclusão dele.

— Com licença, você viu essa jovem? —Falou de um jeito mal educado.

O velho pareceu não ligar, pegou a foto com um rosto calmo e a observou — Himezinha! — Disse contente acenando — A conheço a conheço, você é o Ichigo? —.

— Não! Não sou, a viu aqui de sexta pra cá? — Se sentiu enojado em ser confundido pelo ruivo, mas pelo visto o senhor pareceu só ouvir a primeira parte.

— Hmm… Quem seria você então… Shushigawara? — Estalou os dedos e Uryu negou, quem seria esse? Era algo para perguntar à ruiva quando a encontrasse — Grimmjow? Você parece estressado, deve ser o Grimmjow —.

— Não, só sou um ser humano comum… — E para Uryu qualquer ser humano estaria bravo naquela situação.

— Nem Ichigo, Grimmjow, Shushigawara… AAAAh — Bateu as mãos — Isso, lembrei de ti, ela fala muito de você, senta, senta — Bateu na banco o convidando com um sorriso idiota no rosto.

Uryu ficou encarando o banco molhado e o velho, bufou, sabia que se não fosse na onda dele não iria obter as respostas que queria.

— Então… Agora eu sei quem você é — Gargalhou baixinho, Ishida pensou se ele talvez fumasse, aquela risada estava muito falha para alguém com o pulmão bom — Você é o Ulquiorra… — Balançou o dedo o apontando para o moreno.

E mais um bufo saiu de sua boca, ficou amargo, Orihime conhecia tanta gente e nunca tinha falado disso para nenhum de seus amigos mais próximos? Pensou se deveria corrigir o velho ou não, nunca mais o veria mesmo, poderia ser mais rápido se só concordasse.

— Sim sim, tá, eu sou o Ulquiorra… Agora fala, viu a Orihime fim de semana? —.

— Hihihihi, você não? —.

— NÃO! É POR ISSO QUE EU TÔ AQUI! —.

— Mas ela sempre me dizia que vocês dois estavam de encontrinho — Uryu gelou, o velho cutucou-o com o cotovelo dando uma piscadela a ele.

— Encontrinho? Namorando? —.

— Ohohoho, não não não ela não me falou isso exatamente… Mas falou como você é gentil — Deu batidinhas agora no peito do moreno com a palma de sua mão.

— Gentil… Ulquiorra e Orihime estavam saindo juntos? — Murmurou olhando para o além, falou aquele nome desconhecido como se o conhecesse naquele momento.

— E Hachi sempre ouvia as histórias… — Brincou jogando mais um pouco de migalhas para os patos — Quer alimentá-los também? —.

— A viu sexta, sábado ou domingo? —.

— Só sexta passada, vi ela voltando da escola — Chacoalhou o saco.

— Ela estava com alguém? — Ele negou com a cabeça.

Uryu tinha de agradecer a ele. Mesmo sendo um completo esquisito, agora tinha uma pista bem forte, um desconhecido que Orihime tinha sentimentos além de Ichigo.

Aquilo era impossível.

 

— --------------- —

 

A terça-feira chegou e pela infelicidade de todos, Orihime não deu as caras.

Resolveram cabular aula naquele dia, nenhum deles tinha cabeça para assistí-las. Três dias de sumiço já era demais.

— Ninguém tem o contato de nenhum parente dela? — Antes de dar a oportunidade de alguém divulgar seu relatório, Rukia perguntou parecendo irritada.

Todos se entreolharam e logo negaram com a cabeça.

Se sentiram horríveis mesmo sem necessidade, Orihime nunca teve um parente desde que o irmão dela faleceu, apenas uma tia distante que enviava algumas misérias para ela uma vez ao mês mas nada mais. 

— A tia pode ter falecido? — Seria muito otimismo o que Abarai disse, se fosse o caso teriam pelo menos um bilhete avisando de seu sumiço.

— Aquela bruxa não iria convidar Orihime para o funeral — Tatsuki confirmou brava — Chega de enrolar, pelo visto ninguém achou ela mas acharam alguma pista? —.

Ichigo deu um passo à frente iniciando o que fez — Fui no apartamento, falei com o síndico e vi a caixa de correio, tem algumas coisas entregues bem recentemente mas ela não costuma deixar a correspondência parada por um dia todo, o velho lá disse que não à via desde sexta de manhã —.

— Então talvez não tenha voltado pra casa depois do meio-dia… — Sado cogitou com os braços cruzados esfregando sua barbicha com os dedos.

— Ela voltou, fui na praça que fica no caminho da casa dela, um velho que ela conhece disse que a viu indo direto para casa sozinha —.

— Ok ela voltou pra casa e depois? — Ichigo os olhou esperando uma resposta e Renji a deu.

— Pelas quinze, me falaram na loja de conveniência que ela tinha passado lá — Reteve a parte do tal amigo colorido dela, não parecia uma informação necessária ou confortável.

— E finalizou a tarde indo para um café que ela gosta — Tatsuki finalizou com um suspiro — Depois disso, ela não foi mais lá, pelo visto ela não tinha o costume de ir lá fim de semana então o garçom que atende ela não se preocupou —.

— Mas se preocupou bastante quando soube do sumiço dela — Rukia completou com grande suspeita.

Uryu continuava batendo o pé com o silêncio se levantando.

— O que foi em Ishida? — O ruivo o encarou com raiva.

— A Orihime conhece muita gente… Ela é sociável demais, isso é preocupante —.

— Hm… Você acha… — Sado lhe deu abertura para completar seu pensamento.

— Que ela andou conversando com alguém perigoso — Disse por final —O velho estranho que me contou de um cara chamado Shushigawara, outro chamado Grimmjow e por fim… Um idiota chamdo Ulquiorra —.

Rukia e Tatsuki se olharam assustadas e Renji… Coitado, sentiu que podia cair duro ali mesmo. Então no final aquela informação era importante.

— Ulquiorra… Ele é o garçom — Agora foi a vez de Uryu arregalar os olhos.

— No café? — Rosnou bravo.

— O que aconteceu pra você ter tanta raiva dele? — Ichigo parecia tenso rangendo os dentes — O velho falou se ele fez algo de ruim pra ela? —.

Uryu ficou em silêncio mas pareceu se acalmar repentinamente, claro, mantendo o desgosto em seus olhos.

— Pior —.

— O que? — Ichigo se aproximava do amigo e Renji se afastava tentando esconder a expressão de confusão enquanto organizava suas ideias.

— … Ele falou que esse tal de Ulquiorra saia com a Orihime —.

Como reagir a isso? Era hora de reagir a isso? Porque Uryu se importou tanto com isso e porque Ichigo se importava mais ainda?

Tinham um motivo para se importar tanto, um namorado secreto escondido de todos menos de um velho (e do repositor Grimmjow, mas apenas Renji sabia dessa parte) que eles descobriram logo após o sumiço da amiga.

— Por isso ele parecia tão próximo dela — Rukia deduziu, uma expressão mudando tão de repente para apenas um cliente regular, é claro, ela tinha que ter percebido isso antes, Tatsuki deveria… “Tatsuki” A morena mais baixa pensou e olhou para a mais alta com pressa — A Orihime falou dele pra você né? O que ela contou? —.

Todos a olharam.

— Pra limpar minha barra deixa eu dizer, eu não fazia ideia! Ela só falava que ele era legal e tinha um jeito estranhamente fofo e a cara dele lembrava de um fantasma de filme de terror mas de um idol ao mesmo tempo… O que, sinceramente depois de ver a cara dele eu to estranhando muito o que a Orihime disse —.

— É a única coisa que sabemos dele então? Um namorado secreto que ela não queria contar a ninguém próximo e foi o último a vê-la naquela noite… — Ichigo olhou para o chão, tentava esconder a expressão machucada mas era nítida.

Machucado pelo que? 

— Acham que ele pode… — Sado não terminava nenhuma de suas frases propositalmente, sabia muito bem que os amigos queriam falar por conta própria, só dava a deixa.

— Pela cara que aquele desgraçado tem — Tatsuki diz fazendo uma carranca.

— Pois é… Calma, Renji você  tá muito quieto — A baixinha olhou para cima em busca do amigo estranhamente distante, levantando a mão ela o chamou balançando o dedo indicador, ele não a encarou em nenhum momento mas se dirigiu à ela rapidamente — O que você sabe? —.

— … Nada, Orihime é apenas bem amiga de uma Nel do mercadinho — Sentiu um beliscão forte em suas costelas e gritou de dor — QUE CARALHOS, RUKIA! —.

— Fala a verdade seu mentiroso fajuto! —.

— EU JÁ FALEI! — Mentiu.

— MENTIROSO! — Repetiu lentamente, pondo as mãos na cintura.

Antes que pudesse se defender novamente sentiu os olhos de Ichigo quase o matando pedindo informações.

— d.e.s.e.m.b.u.c.h.a — Abarai não tinha ideia de que Kurosaki conseguia ter um tom de voz tão fundo — AGORA! —.

— … — Respirou fundo e encarou o chão — Orihime não tem um namorado, tem  um amigo de foda — Sério? Amiga de foda? Ele falou aquilo? Tinha tantas formas mais gentis de falar sobre a amizade intima da jovem mas ele escolheu amiga de foda? Amiga colorido, encontro noturno, relacionamento carnal.

— Amiga de foda… — Uryu, Ichigo, até Sado murmuraram aquilo quase perdendo o ar enquanto Rukia e Tatsuki ficavam vermelhas.

— Renji… Como descobriu? — O ruivo não hesitou em pegar o colarinho de sua camisa e levantá-lo mesmo ambos tendo praticamente a mesma altura.

— O repositor da loja, ele conhece o cara e a Orihime… Disse que o cara ficaria em desespero quando descobrisse — Sentiu muita mais facilidade para confessar tudo que tinha descoberto.

— É o Ulquiorra? — Ishida quase gritou de angústia e Renji concordou com a cabeça ainda mais angustiado.

Ichigo permaneceu mais alguns segundos quietos e falou quando Rukia chamou seu nome baixinho.

— Ele não vai ficar puto se for ele quem sumiu com a Orihime — Soltou o amigo e sem dar muitas opções aos amigos (que pareciam acreditar muito na lógica dele) foram todos em direção a cafeteria.

 

Não teria motivos tão grandes para desconfiar dele mas todos estavam, esconder algo tão importante, um relacionamento tão importante até mesmo de Tatsuki significava que tinha um motivo grande por trás, se o motivo for ele ser um doido que a sequestrou então eles tinham que correr atrás dele o mais rápido possível.

Esperaram até o horário de almoço e o viram sair, Tatsuki e Rukia confirmaram sua identidade e sem perder tempo foram os seis até lá ter uma conversa nada gentil com ele.

Sem nem dizer um oi foi Ichigo quem deu os cumprimentos, chutou sem estômago e o colocou contra a parede vendo como oportunidade muito boa para socar seu rosto e assim o fez, deixando um belo nariz provavelmente quebrado sangrando em um segundo soco antes dos amigos o pararem ele lhe deu um olho roxo belíssimo.

— CADÊ A ORIHIME? — Gritou para ele ainda segurando seus cabelos, ele era fraco, tinha o desestabilizado em três ataques ou Ichigo deixou toda a raiva soltar.

— Quem… É você? — Sua voz estava falha da dor de seu estômago e da dificuldade de respirar adquirida, mas ainda não perdia o olhar gélido de julgamento.

— Fala logo seu arrombado… — Rangia os dentes e preparava o punho para o próximo soco quando agarraram seu braço mais forte dessa vez.

— Não sei —.

— Você e a Orihime tavam se encontrando, fala logo cadê ela — Tatsuki parecia formar fila para ser a próxima a socar aquele homem, sua voz estava tão furiosa quanto a do ruivo e seus punhos preparados também.

— Já disse não sei, vi ela sexta à noite… — Tatsuki o acertou em cheio.

— ANTES ERA TARDE AGORA É NOITE? — Ichigo estalava os dedos para ser o próximo.

— CHEGA, deixem o homem falar e parem de alvoroço — Rukia olhava em volta, a multidão mesmo pequena ainda se formava, os funcionários pareciam assustados e prestes a ligar para a polícia se já não tivessem feito.

— Já disse… Foi no fim da tarde… — Respirava com dificuldade mas tentava se manter de pé — Ela ficou lá até a hora de fechar e saiu, antes do sol se por —.

— O que ela tava fazendo? — Uma pergunta muito avulsa se for perceber mas Ichigo estava com interesses egoístas enquanto dialogava com o moreno.

— Comendo e bebendo, o que mais? — Encarou-o se segurando para não formar um sorriso cínico mas não conseguiu — Nossos encontros eram em lugares reservados… Um motel, ou minha casa -- —.

E mais um soco.

— Chega Ichigo — Uryu pousou a mão em seu ombro e o empurrou ficando na frente do cara já vendo estrelinhas — Inoue Orihime sumiu sem dar notícias, você já sabe disso e em todos os lugares que fomos atrás dela eles falaram de você — O viu com o sorriso novamente mas ignorou suprimindo a própria raiva aumentando — De todos, é você quem parece que sumiu com ela —.

— O que te garante que ela não se foi sozinha? —.

— Porque é Orihime — Falou de forma simples e plena ainda mantendo a carrando o encarando — E você a conhece tão bem quanto a gente… —.

— … Não fiz nada — Deu de ombros — Ela não quis me ver mais desde sexta passada —.

Encarou Uryu como se falasse com os olhos para o quatro olhos compreender, ele acenou com a cabeça e se levantou.

— Vamos embora, não foi ele — Ichigo gritou frustrado e sem entender a lógica do amigo — Ichigo, eles terminaram —.

O ruivo piscou algumas vezes e encarou o homem todo ferido no chão.

— Mais um motivo para ele ser suspeito! —.

— Se ele for já demos o gancho para a polícia ter ele como suspeito — Foi a vez de todos ficarem confusos — VAMOS LOGO! —.

Era raro ver Uryu gritando daquela forma, os 5 esconderam os rabos entre as pernas e correram junto do amigo.

Ichigo se deu por vencido, tudo bem, se fosse por ele iria atrás do homem ele mesmo mais tarde.

 

— --------------- —

 

Sado deu um passo para fora da delegacia junto de Renji e Rukia, quem diria, os com visuais mais suspeitos do bando, segundo a polícia, claro,  foram os que fizeram o registro do desaparecimento da amiga.

— Demoramos bastante ein… — Rukia divagou se aproximando dos outros três sentados na calçada um pouco longe da delegacia.

— Não, até que foi rápido… —Renji encarava o chão e acompanhava Sado em silêncio logo atrás da morena.

— To falando pra registrar o sumiço dela — Travaram, era verdade, não fizeram isso desde o começo.

Tatsuki não fez isso desde o começo.

Registrar ela como desaparecida… Aquilo significava que ela não estava segura.

— Talvez tráfico humano —.

— SADO! — Uryu berrou.

— AH PORRA CHAD! — Ichigo bateu o pé e se afastou um pouco do bando escondendo sua expressão, passou ambas as mãos na nuca parecendo ter dificuldades para respirar.

— ISSO É IDEIA? — Rukia tentou chutá-lo pelas costas mas sua perna se machucou mais do que o corpo do grandalhão.

— É só… Temos que pensar no pior… Para o que vier não nos surpreenda tanto — Era uma maneira incrivelmente triste de se pensar, ele se juntou a Uryu e Tatsuki no chão apoiando ambos os braços no joelho.

— … Então o pior é tráfico humano, o melhor seria o que? — Finalmente Ishida conseguia olhar para o céu, talvez Orihime estivesse lá naquele instante?

— Sei lá… Vai ver Orihime caiu em um bueiro e agora tá em algum hospital em coma — Tatsuki riu, era dessa forma que Orihime pensaria se ela desaparecesse do nada, suspirou, a amiga estaria doida se algum deles sumisse em seu lugar, talvez no lugar deles ela nem tivesse coragem de ir para cama e tentar dormir, iria sair de madrugada atrás de quem quer que tivesse sumido e seria sequestrada por estar andando em ruas perigosas em plena lua.

Era dessa forma que ela pensaria.

“Pensaria”.

— Esse é o menos pior? — Rukia tentava lutar contra as lágrimas nervosas, não tinha motivos para chorar ainda mas algo gritava em sua garganta que a situação era avassaladora — E se… Se ela só estiver com um problema que não quer envolver a gente? Talvez ela esteja trancada no apartamento triste e sozinha por algum motivo não querendo falar com a gente… —.

— Estamos falando da Orihime — Ichigo elevou a voz ao longe olhando o rio de frente à rua onde eles estavam — Ela não faria isso —.

— … Ela iria ir para a escola normalmente, rindo e então iria correr para casa e chorar — Uryu deu a versão certa, Orihime faria isso, não iria querer preocupar ninguém, apenas queria ver todos sorrirem.

Então naquele momento todos seguravam as lágrimas e xingavam mentalmente sem saber o motivo daquelas malditas lágrimas.

Não era nem tarde o suficiente para o sol começar a se por, melhor, ele nem chegava ao ponto de meio-dia e os jovens já sentiam que o dia tinha acabado lá.

Internamente torciam para que ela retornasse meio dia para se empanturrar em casa, mas ela não fez.

 

— --------------- —

 

Todos se separaram, nenhum voltou para casa ou foi para a escola, iriam querer ficar sozinhos ou acompanhados de alguém importante ou reconfortante.

Ichigo se sentia a pior merda existente naquele momento, porque ele tinha alguém importante dele na noite de sexta, mas ela não estava mais lá.

 

— --------------- —

 

Eu perdi minha mãe logo cedo, minha vida virou de cabeça para baixo por causa disso. Segundo meu velho eu sorria toda hora mas depois da minha mãe morrer eu nunca mais sorri do mesmo jeito inocente que eu fazia.

Você foi diferente, eu lembro disso.

Para  lidar com o luto eu me rebelei, decidi me tornar o homem da família, deixar meu pavio ainda mais curto e aceitar toda briga que buscavam comigo por causa do meu cabelo.

Mas você foi exatamente o contrário. Você teve a coragem e a força de carregar seu irmão para a clínica enquanto eu fiquei parado vendo minha mãe sangrar, você ficou em silêncio igual a mim quando soube que ele não sobreviveu. Quando te atacavam ou tentavam puxar briga você ficava em silêncio… Naquela época você estava péssima.

Mas com apenas um empurrão… Um empurrão você se ergueu de novo. Só um, eu tinha toda uma família, amigos incríveis, mas ainda era um miserável que não conseguia lidar bem com ninguém.

Você sorriu Orihime, de uma pessoa triste e silenciosa você foi para alguém solta, sem medo de conversar ou de demonstrar suas fraquezas. Isso foi o que eu mais admirei em você.

Porque você foi embora?

 

— --------------- —

 

Finalmente o céu ficou laranja, um laranja próximo a cor de cabelo ruivo que a amiga possuía, ambos eram ruivos, isso era um fato bem conhecido, no japão dois ruivos naturais era coisa de sobrenatural mas ela tinha um ruivo muito mais doce que o dele, talvez fosse uma regra, o cabelo combina com a personalidade afinal.

Ichigo não percebeu que estava indo de novo para o apartamento dela, passos largos cheios de pressa como se ela o esperasse lá, uma angústia, uma ânsia de ver seu sorriso, ele imaginava ela lá, sonhava acordado com ela lá.

Quando chegou na frente do prédio percebeu o que estava fazendo. Era um prédio de corredores abertos dando para ver a porta de entrada e a janela, ela ainda estava apagada, ela não estava lá. O Kurosaki não contou quanto tempo ficou lá encarando a porta mas soube o exato momento em que seu coração parou ao ver a porta se mover.

Ela estava lá? Ela iria sair de lá? Ela iria olhar para ele, ele poderia gritar, gritar por ela.

“Eu te amo” Era a voz dela que veio a mente dele, naquela noite, ele iria poder ouvir aquilo de novo…

Seu mundo caiu quando quem saiu de lá foi um rosto muito familiar. Pela infelicidade dele, a pessoa familiar era uma de seus melhores amigos.

— Sado… — Murmurou chocado, se apressou em esgueirar-se por um beco para observar o que o amigo meio mexicano faria.

O viu fechando a porta devagar e apenas saindo, como ele entrou lá? A porta estava trancada, ele tinha a chave?

 

Ichigo o seguiu sem saber o que esperar.

Sado estava indo até Orihime? O que ele tinha feito com ela? Porque ele teria feito algo com ela?

Seus olhos arregalavam mais e mais à medida em que as ruas calmas se transformavam em um local perigoso, pessoas parecendo má encaradas, cachorros bravos, estabelecimentos estranhos.

Trincou o maxilar pensando o que ele teria feito com Orihime.

Ao chegar em uma rua seu sangue ferveu de tanto andar e de Sado continuar tão tranquilo, correu e anunciou com barulho que ele estava lá antes de agarrar o amigo latino terminando de se virar.

— PORQUE VOCÊ TAVA NO APARTAMENTO DELA? — Gritou com todo pulmão que tinha na cara dele, não se importando com a diferença de altura evidente que eles tinham — O QUE VOCÊ FEZ COM ELA? ONDE ELA TÁ? TÁ TENTANDO DESVIAR A GENTE DA PISTA? —.

— O que? Não tô entendo, Ichigo… —.

— NÃO SE FAZ DE IDIOTA, O TEMPO TODO VOCÊ FICOU QUIETO. VOCÊ FOI O ÚNICO QUE NÃO PUXOU INFORMAÇÃO NENHUMA, VOCÊ NÃO FOI ATRÁS DE NADA E APENAS JOGOU PILHA NO PRIMEIRO SUSPEITO QUE APARECEU, FOI VOCÊ? FOI VOCÊ NÃO FOI? —.

Yasutora lhe encarou, seus olhos estavam cheios de dor, vermelhos e sensíveis com a acusação, pela primeira vez na vida o ruivo o viu lacrimejar.

— Chad… — O soltou.

— Venha comigo — Foi isso que ele disse e o amigo o obedeceu.

Foram apenas poucos passos, poucos passos que o ruivo podia ter aguentado quando chegaram no lugar.

Era uma caixa esfarrapada com um cachorro todo sujo dentro, não parecia mal cuidado mesmo com a aparência nada limpa, estava bem gordo e abanando o rabo de alegria ao ver a cara conhecida.

— O que… —.

— Eu e Orihime o achamos uma vez que ela veio me ajudar a desempacotar algumas coisas no meu novo quarto — Esclareceu em voz mansa enquanto tirava a comida de cachorro que Ichigo demorou a perceber de sua mão e a colocava no pote improvisado do pequeno cachorro amarelo — O nome dele é Kon —.

— … M-me… Eu… —.

— Você  tá paranóico — Não o deixou terminar ou começar uma nova frase depois de ter começado — Não julgo, eu também tô… O medo, o medo é grande… Mesmo Orihime sendo forte imaginar o motivo do sumiço dela… Ela não sumiu por algo bom, todos sabemos —.

O ruivo fechou os punhos, dessa vez não de raiva como na manhã daquele dia, ele segurava o choro incontrolável querendo sair, soluçava  só de imaginar.

— Me desculpa… A Orihime… Por te acusar, eu achei que… É tudo minha culpa —.

— Nunca vi esse lado tão crianção teu — Riu ao se levantar e pegar o cachorro — Quando Orihime voltar… — A fala foi interrompida pelo celular de Ichigo tocando.

Não era hora de ignorar o celular, poderia ser alguma informação importante, viu o contato: Rukia.

Atendeu nervoso deixando a ligação em modo de que Sado pudesse ouvir.

— Alô? —.

A primeira coisa que ouviram fez ambos tremerem, era um berro vindo ao fundo, um choro horroroso, saindo do fundo do pulmão e cortando toda a garganta e cordas vocais, parecia longe então significava que a pessoa que emitia o barulho estava gritando bem alto.

— Ichigo… — Uma voz fraca o chamou, pertencendo a dona do contato — Vem logo… E o Sado… —.

— Ele tá comigo, o que aconteceu? — Não conseguia segurar bem o aparelho, tinha medo, muito medo, não queria descobrir o motivo daquele choro e nem à quem ele pertencia, seria pior se ele soubesse de quem era, o ruim é que ele já tinha uma ideia.

— A ponte… A ponte que a gente vai pra escola —.

Era essa a informação que ela deu.

Os dois amigos se olharam e sem tempo tiveram que deixar Kon lá.

 

— --------------- —

 

Ah aquela ponte… Para Orihime ela tinha a vista mais bela de lá.

Tinha acabado de sair da cafeteria naquela hora e esperava alguém, estava nervosa, tremendo muito, quando ouviu sua voz ela se virou rapidamente não querendo perder um minuto daquele rosto.

Quantas vezes queria ter esquecido aquele rosto mas não tinha conseguido…Então aquela foi a melhor maneira que ela encontrou em tentar esquecê-lo.

— Porque me chamou aqui? —.

A voz grossa dele soava de uma forma morna, não fazia sentido mas para Orihime aquela voz era morna, era gostosa, em um ponto perfeito para ser ouvida.

— É o nosso último ano na escola… — O cabelo dela voava com o vento forte, impedia um pouco de ver os traços do homem mas os que ela mais gostava estavam lá — Então… Eu não queria perder a oportunidade uma última vez —.

— Do que você tá falando? — aquela voz com um tom preocupado era tão boa, tão familiar, tão agradável, adorava ouvir ela voltada para ela, só para ela.

— Eu… Queria te dizer isso a muito tempo… mas, não tive coragem… — Encarou o chão com as bochechas completamente vermelhas — Eu… Te amo… —.

— ------- — Ichigo — -------- —

 

Aquela bela ponte, aquela bela lua, aquelas palavras.

covarde

Ele foi um completo covarde.

E agora aquela bela ponte e aquele belo luar pertenciam a outro cenário, não mais aquele tão lindo 

O ambiente estava tão barulhento, policiais, pessoas curiosas, sirenes, seus amigos, Tatsuki no chão chorando sem conseguir ficar de pé, Rukia quase igual apoiada em Renji que também segurava as lágrimas, Uryu estava sentado na grama, ele não conseguia ficar de pé também mas não iria admitir, ele estava acabado tentando segurar as lágrimas encarando a grama sem desviar a atenção dela.

Em silêncio eram apenas ele e Sado. Ichigo apenas observava tudo aquilo sem conseguir fechar a boca.

Como?

Como?

Como?

Isso rodeava a cabeça dele. Orihime foi achada.

Ela estava lá.

Estava lá, embrulhada em saco preto com seu corpo sendo colocado em uma maca após o retirarem do rio.

Foi culpa dele, ele sabia disso, seu peito subia e descia respectivamente, não conseguia ver o corpo de lá de tão longe, não sabia o que tinha acontecido, como ela tinha morrido…

“Ela estava realmente morta?”

Um tambor cerimonial pareceu tocar na cabeça dele.

— ICHIGO! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO? — Sado gritou ao amigo, ele viu o ruivo correndo até lá em tropeços lutando contra suas pernas desejando para falhar.

Não conseguia respirar mas não iria parar de correr, os policiais tentaram parar ele mas o jovem passou por cima, empurrou os paramédicos e agarrou a maca que a levava.

— Orihime… Orihime… — A chamou com alguma esperança, tremendo ele pegou o rosto tão delicado dela ainda amostra.

Poderia ter morrido ali mesmo com o que viu.

— Orihime… —.

Era seu corpo. Os cabelos ruivos eram dela, a boca, o nariz, orelhas, olhos, os olhos… 

— Seus olhos… — Murmurou com dor na voz, seu choro saia sem medo ou vergonha alguma.

Aqueles olhos estavam opacos, sem cor, sem vida, sem os brilhos incontestáveis que eles tinham, o que os tornavam tão únicos.

Sua boca rachada e ressecada, sua pele pálida, sua cabeça manchada por sangue seco e parecendo um pouco deformada como se tivesse tido acertada em cheio.

Sua expressão estava tristemente serena, calma, como se estivesse apenas contemplando o céu seguindo um costume típico que ela tinha.

“Ela se jogou?” Ele perguntou ainda examinando seu corpo e segurando sua bochecha gélida.

Não, ele teve certeza de não ao descer os olhos por seu corpo nu. Até a parte onde o saco estava aberto. Tinha um furo, um corte, parecendo que suas costelas tinham sido arrancadas em um círculo tentando ser perfeito e arrancado seu coração.

— Não… — Divagou perdendo o foco de seus olhos ao ver a cena, não tirou o braço de cima dela, continuou chorando até ser tirado de cima e tendo que ser praticamente puxado pelos policiais para fora.

Ele queria morrer, queria morrer ali mesmo, ele queria acompanhá-la, não queria deixá-la sozinha, não de novo.

 

— --------------- —

 

Ela foi o anjo mais bondoso que já passou em minha vida, só fiz o que era certo a devolvendo para o céu.

 

— --------------- —

 

 — Muito obrigado por trazerem meu filho de volta — Isshin se inclinava terminando a despedida aos policiais e fechava a porta da clínica.

Ao lado dele estava Ichigo, caído no chão e escorado na parede ao mesmo tempo, ofegante e com o olhar perdido no além, não havia falado mais nada desde que saiu de lá, não olhou para cara dos seus amigos ou para os dos policiais que o levaram até lá.

 

— Pai? O que aconteceu? — Vozes femininas desceram a escada encontrando ambos lá parados, Yuzu foi a primeira a ficar chocada com a situação do irmão — Ichi? O que foi!? —.

Ela correu até ele enquanto Karin foi calmamente até o mais velho, sentia algo ruim no ar, algo péssimo.

— O que aconteceu? — Perguntou ao ver a cara de tristeza que o velho tinha estampada junto do filho mesmo não se comparando com a dele, o ruivo parecia um cadáver vivo naquele momento.

— … Algo muito ruim aconteceu… — Foi isso que ele disse, não se sentia no direito em dar a notícia, era uma amiga próxima de seu filho, ele que tinha de contar.

— Ichi? — Yuzu chamou por ele e permaneceu em silêncio por alguns instantes encarando seu rosto.

O ruivo se movimentou, levantou e cambaleou em passos desengonçados até o banheiro próximo, se jogou na frente da privada e deixou tudo que tinha em seu estômago sair.

Era aquela imagem, as imagens no geral, ele já tinha visto outras pessoas mortas, um fato muito estranho mas verdade, entretanto a diferença era que era ela. Era o corpo dela.

Foi culpa dele? Aquela pergunta era inútil, o corpo foi encontrado no mesmo dia após abrirem o boletim.

Era culpa deles.

As imagens não iriam sair, nunca iriam sumir, ele não suportaria se lembrar mas também não suportaria esquecer.

Ouvia suas irmãs preocupadas atrás dele e seu pai em um silêncio barulhento roçando o pé no chão tendo certeza de como a expressão do velho estava destruída.

Continuou parado no vaso mesmo depois de ter vomitado tudo que tinha no estômago sem motivos para se mexer, estava concentrado demais em suas lembranças ignorando todas as perguntas de seus familiares.

O coração.

O coração dela tinha sumido. Alguém a matou e roubou seu coração.

“roubou seu coração”.

O tick tack em sua cabeça estava mais alto com aquela frase. Conseguiu ver o que estava em sua frente pela primeira vez desde que chegou em casa.

Alguém roubou o coração dela, alguém queria aquele coração…

 

Estava endoidando, já tinha ficado doido, todavia sua lógica brilhava forte demais em sua cabeça, aquela lógica mostrou o que tinha a ser mostrado.

Quem matou Orihime.

 

— --------------- — 

 

Quando aqueles pés pisaram na cafeteria meu coração parou mais uma vez, foi a mesma sensação de sempre, aquela sensação que me inundava nos últimos meses sempre que eu via você.

— Boa tarde, Ulquiorra! — Você veio com um sorriso tão bonito para mim que me fez desmanchar o meu, suas sobrancelhas e olhos entregavam a verdade, era uma coisa triste que você tinha ao me ver.

Eu me perguntei o que era.

— Está tudo bem? — Eu tocava naquela pele tão lisa sem hesitar toda vez, como se fosse a última vez que eu iria tocá-la toda exata vez que meus dedos encostavam na sua bochecha.

Eu nunca faria isso antes sem ser com você.

— Você pode reservar um tempo pra mim depois do seu turno? — Meu coração congelou com aquela pergunta, ela nunca foi feita dessa forma.

Era com um sorriso as vezes me atiçando ou um de alegria por algo bobo que queria me mostrar… Outras vezes você apenas sussurrava no meu ouvido que queria ir ao meu apartamento.



Tive medo de descobrir.

Então no beco eu agarrei seu corpo e tomei teus lábios como uma tentativa para fazer você desistir do que quer que fosse falar. Explorei sua cintura e pelas suas coxas onde eu sabia que você mais gostava de ser acariciada mas você me parou.

— Eu sinto muito Ulquiorra… Eu te usei — Aqueles olhos estavam sofrendo mais do que os meus quando tudo foi dito — Sinto muito… Você não merecia isso — Orihime, você sempre foi uma chorona.

Naquele momento não foi diferente.

— Dormi com você e menti pra você, me desculpa, Ulquiorra… — Me segurei em você, segurei minhas mãos em seus cotovelos tentando entender tudo aquilo, era mentira, você era péssima mentindo, tudo aquilo tinha que ser mentira.

— O que… —.

— Você é incrível por favor nunca pense diferente disso… Mas… Eu amo outra pessoa — Eu senti a dor que você teve ao proferir a última parte — Eu… Eu quero acabar tudo — Foi assim que você completou.

Eu saí de lá sem dizer mais nenhuma palavra.

A última palavra que eu te disse foi “O que” agora que penso nisso, dói, dói muito.

A rejeição teria doído muito menos do que sua morte.

Minhas últimas palavras não foram juras de amor ou algo gentil como você me ensinou.

A última coisa que eu fiz foi te ignorar e ignorar todo aquele problema.

Se eu tivesse insistido mais um pouco… Só por mais um minuto.

 

— --------------- —

 

Foi aquele desgraçado, foi ele, tinha de ser ele, não apontava para mais ninguém além dele.

Ichigo não fazia ideia de onde ele morava, não correu até a cafeteria onde ele trabalhava também.

Estava se planejando, em passos lentos iria fazer o que devia ter feito desde o início com o miserável que a matou, não iria cometer erros idiotas novamente, não mais uma vez, pelo menos daquela vez.

 

Havia se passado dois dias. O ruivo ainda estava silencioso em casa, suas irmãs descobriram a trágica notícia pelo jornal no dia seguinte, Yuzu despencou na hora ao saber que Orihime foi a vítima, Karin não conseguiu ficar mais na sala e seguiu o mesmo comportamento do irmão em se trancar no quarto.

O grupo de amigos não se contataram nesses dois dias, foram obrigados a saírem de suas casas pela polícia.

 

— Você conhecia a vítima? —.

— Éramos amigos — Era isso que os cinco responderam quando perguntados.

— Eu… Sim — No caso de Ichigo ele relutava. Não eram bem amigos, podiam ter sido mais que isso mas não foram, entretanto continuavam sendo mais do que amigos.

— Qual foi a última vez que a viu? —.

— … — Covarde. Ainda era um covarde, um cachorro que não sabia se comunicar.

— Senhor Kurosaki? —.

— … No intervalo — Sua voz falhou e não encarou o policial, criando uma suspeita voltada para ele naquele momento.

— Intervalo de que? —.

— No intervalo da escola na sexta! Que outro intervalo seria?? —.

— Se acalme — Ele engoliu seco.

 

Quando foi liberado do interrogatório se sentiu o pior dos suspeitos, viu os amigos o esperando ao lado de fora e a vergonha se juntou ao resto dos sentimentos.

— A quanto tempo ein — Renji quem falou, ele era o menos acabado de todos — Como foi? —.

— Acho que perguntaram o mesmo pra todo mundo… —.

— É, não são muito criativos com as perguntas —.

— Como se eles estivessem se importando — Tatsuki não sentia vergonha em segurar as lágrimas, elas não paravam de seguir por nenhum segundo deixando seus olhos completamente vermelhos.

— Porque diz isso? — Rukia não tinha realmente interesse na resposta ou no assunto.

— Porque!? Tá na cara! A Orihime é só uma órfã que ninguém vai dar falta de verdade… — Engoliu em seco e respirou fundo para continuar com a frase — Eles tão mais preocupados se isso pode ser um possível serial killer e a Orihime foi a abertura dele —.

— Isso não faz sentido! — Pigarreou a mais baixa.

— Claro que faz! —.

— Não foi um serial killer, ele só tinha interesse na Orihime — Ichigo chamou a atenção deles — O arrombado arrancou o coração dela — Ouviu aquele silêncio invadindo seus ouvidos, um silêncio de horror vindo dos cinco.

— O coração… — Tatsuki levava suas mãos ao seu peito — Então…Pode ter sido? —.

O ruivo apenas assentiu e viu o amigo latino indo em direção ao prédio que acabara de sair.

— Vai pra onde Chad? —.

— … Informar o suspeito à polícia — Apontou como se fosse óbvio.

— Eles não vão poder fazer bosta nenhuma além de enrolar — Disse com a voz irritada como se mandasse o grandão retornar até ele.

— Você tá ficando desesperado Ichigo — Ishida observou — Não crie cenários ou tome decisões precipitadas —.

— Nem falei o que eu vou fazer ainda —.

— Cifer disse que não a encontrou depois de sexta… — Uryu deu alguns passos em sua direção mas o amigo gritou.

— VOCÊ ACHA QUE ELE IA SE ENTREGAR? CARALHO URYU COMO VOCÊ PODE SER TÃO BURRO? —.

— VOCÊ QUE TÁ FICANDO DESCONTROLADO PROCURANDO LOGO O SUSPEITO SÓ PRA TENTAR TER ALGUMA VINGANÇA DE VOCÊ NÃO SABE O QUE — Colou o rosto com o de Ichigo ambos rangendo os dentes com quatro espectadores sem energia alguma para contê-los.

— EU NÃO SEI? PORRA LÓGICO QUE EU QUERO VINGANÇA, EU SEI PORQUE EU QUERO VINGANÇA! MATARAM A ORIHIME! —.

— E ELA NÃO VAI VOLTAR MESMO SE VOCÊ FOR ATRÁS! —.

Ichigo piscou incrédulo em silêncio antes de voltar a gritar.

— VOCÊ ACHA QUE EU NÃO SEI? É PRA FAZER O QUE? ESPERAR E ESPERAR PRA TORCER PRA POLÍCIA ACHAR O CULPADO E ENTÃO O QUE? —.

— Ele é condenado à morte —.

— Uma morte rápida e indolor, onde isso vai ser justo?? —.

— E o que planeja fazer? Ter uma morte indolor no lugar dele se matar o cara? — Rukia perguntou em tom irônico, mas esperou uma reação de Ichigo.

Essa reação não veio.

— ESPERA, ICHIGO -- —.

O rabugento apenas se virou e seguiu em frente, Kuchiki tentou ir atrás dele mas foi impedida.

“Deixe, ele só precisa de espaço” Foi isso que Abarai disse.

 

Era mentira, não era apenas descansar, ele era capaz de fazer aquilo, se o segurassem por mais um mês ele continuaria com a mesma vontade, em um ano ou dez seu desejo iria permanecer.

Sentia que era a única coisa a qual poderia fazer.

 

— --------------- —

 

Eu não queria ter me livrado de seu corpo. Mas eu sabia que era algo que eu tinha que fazer.

Eu estive lá para você, eu olhei para você EU AMEI VOCÊ e você não tinha olhos para mim. Aquilo tudo foi justiça, foi o único momento de alegria em toda minha vida, apenas uma vez na vida eu poderia ter seu coração.

Se eu perguntasse para você agora, você iria me culpar? Iria chorar?

Seus olhos teriam a mesma expressão que tiveram quando você caiu?

Agora Ichigo quer vingança, depois de tudo ele não percebe quem é o real culpado de tudo isso.

Você foi capaz de amar um idiota que não te deu valor o suficiente nem para enxergar quem roubou seu coração.

Ele não foi capaz de te rejeitar de forma decente ou de levá-la pra casa.

Fui eu quem te acompanhei até lá.

Se lembra Hime? Te acompanhando com seu braço enganchado no meu e rindo como sempre…

Não importa como estejam as coisas, a necessidade de dar seu corpo para ser velado fez eu me contorcer de tristeza, eu sinto tanto sua falta, quero tanto olhar para seu corpo de novo.

 

— ----------------------- —

 

— Orihime? O que aconteceu? — A figura da ruiva estava sentada um pouco longe do local onde morava, era um banco de uma praça abandonada, uma velha praça que ela adorava desde o fundamental.

Ele estranhou sua presença lá em um horário tão tarde.

— Ah oi! Tudo bem? Porque você tá passando aqui à essa hora? É perigoso! — O repreendeu como se não fosse mais perigoso ela estar lá do que ele.

Não pode evitar de abrir os lábios com um sorriso vendo o sorriso triste dela.

— Eu que deveria dizer isso, o que aconteceu Orihime? — O rapaz pôs as mãos em ambos os bolsos aproximando seu rosto do dela despreocupadamente.

Eles tinham intimidade o suficiente para fazer isso mesmo que o resto do grupo não percebesse, Orihime riu culpada pela observação dele.

— Ah nada demais… — Era algo ruim para a deixar tão para baixo — … Me confessei para o Ichigo — Admitiu envergonhada, desviou o olhar para o parque mórbido e suspirou.

— … O que ele disse? — Não poderia fingir um tom triste ou doce, estava seco só de pensar em Kurosaki e Orihime juntos.

— … Queria um tempo para pensar — Abraçou o próprio peito para conter a vergonha — Ele vai me rejeitar —.

Talvez, seria bom se o caso fosse esse.

Mas aquele desgraçado não se deu nem a vergonha de acompanhá-la de volta.

— Eu sinto muito, Inoue -- — Iria continuar, mas ela o interrompeu.

— Inoue? Nos conhecemos há anos! Me chamou de Orihime agora à pouco continue me chamando assim — Sorriu de verdade naquele momento.

Não conteve o suspiro, era tão fácil para ela sorrir e aquilo era tão bom.

— Eu te levo até em casa — Proclamou estendendo o seu braço para que ela agarrasse sem dar a ela abertura para recusar.

Despreocupada, ela aceitou o braço com um sorriso estampando o rosto como se não estivesse a ponto de chorar segundos atrás, escorou a cabeça no ombro do amigo e partindo em direção ao seu velho apartamento, aproveitando para falar pelos cotovelos como gostava de fazer.

E ele adorava ouvir.

 

— Sado e eu estamos alimentando um cachorrinho à algumas ruas daqui, você deveria ir comigo algum dia! Ele é tão fofo, você tem que ver! Se bem que você parece uma pessoa mais de gatos se for pra ser sincera… —.

— Acho que você está certa — Ele era alérgico a ambos, mas ela sabia lê-lo bem, bichanos tinham mais a ver com sua personalidade do que com cachorros.

— Mas um animal fofo é um animal fofo e ele tá ficando tão gordinho nesses últimos tempos! —.

— Deveria tirar uma foto dele para me mostrar — Ouviu Orihime reclamar da ideia — O que? Não gosta de celulares ainda? —.

— Sabe como eles são difíceis para mim, não nasci para ajustar iluminação ou baixar aplicativos nele! — Arrancou uma risada do jovem.

— Deveria aprender, é importante — Parou em frente a ela e ajeitou seu cabelo jogado para frente de forma bagunçada, assim abrindo caminho para ver melhor seu rosto — E eu quero falar com você todo dia… —.

— Ah… Se for por esse motivo talvez eu tente mais! — O talvez naquela frase era inútil, se era para agradar um amigo ela daria um jeito.

— … Não se abale por causa daquele idiota do Ichigo, ele não te merece, Rukia e ele são farinha do mesmo saco, dividindo o mesmo neurônio — Voltou a andar dessa vez ficando na frente dela a conduzindo pela palma macia de sua mão.

— Vocês tem que parar de implicar um com o outro! Não escondem de ninguém que são melhores amigos — Deu alguns tapinhas em suas costas de brincadeira mas um mais forte no final que o fez escapar um grito de espanto — E não fale mal da Rukia! —.

— … Não deveria odiá-la? — Desviou os olhos da figura ruiva sentindo as bochechas corarem.

— Como assim? — A doçura em sua voz o fazia enlouquecer.

Amaldiçoava Ichigo a cada segundo, aquele desgraçado era o ser mais sortudo daquele universo com uma garota como Orihime atrás dele.

— Teoricamente vocês são rivais — Ouviu mais uma risada dela, era só ver aqueles olhos que sabia que ela havia achado graça da observação.

— Eu e ela gostamos do mesmo cara… — Começava sua lógica estendendo a mão dando o sinais de dois e largando a mão dele para usar a outra fazendo o número um — Dois são maior do que um então se eu e ela gostamos do mesmo cara podemos derrotar ele e -- —.

— Espera o que? — Encarou ela e riu, só Orihime para pensar algo assim — Bem, chegamos… —.

— Ah? Mas já? — Encarou o pequeno prédio acabado ao qual morava — Uryu, quer entrar para beber alguma coisa? —.

Estava tarde, o moreno de óculos sabia disso.

Mas era uma oportunidade tão perfeita…

Ele não recusou aquilo. Se deixou ser puxado pela mão que ela tinha soltado anteriormente até a porta e a viu abrir enquanto seus olhos brilhavam.

Ficar ambos sozinho, era uma ideia tão… Maravilhosa. Mordia os lábios, poderia acontecer alguma coisa? Ele poderia fazer alguma coisa acontecer?

 

— Fique à vontade! Prefere café ou chá? — Já tinha ido lá antes, mas sempre acompanhado de outra pessoa além dela, estava nervoso por ser apenas ele dessa vez.

— O que você preferir — Sorriu se sentando na mesa baixa no centro da pequena sala, um dos únicos três cômodos separados de lá, já que a cozinha ficava junto da sala e da porta de entrada enquanto o banheiro e o quarto eram divididos por paredes extremamente inúteis.

Bebericavam os chás voltando a balbuciar conversas aleatórias até finalmente voltarem ao assunto que ela parecia tão pouco querer comentar.

— Eu tô com ciúmes… Rukia tem dois homens tão apaixonados por ela e… Ela consegue retribuir os sentimentos de ambos, pelo menos é o que parece — Riu de forma triste encarando sua xícara — As vezes… Acho que quase sempre, eu queria ser que nem ela —.

Ficou em silêncio com tal pedido, como ela poderia? Ela já era perfeita do seu jeito, cada detalhe dela ofuscava a morena em todos os sentidos na visão de Uryu.

— Não precisa se comparar a ela… Você… Você já é perfeita — Arregalou os olhos ao soltar seus pensamentos, sua surpresa foi tampada pela felicidade ao ver as bochechas da ruiva corarem de forma clara.

— Obrigada… — Suspirou mais uma vez — Eu não sei o que fazer, acho que o Ichigo capturou meu coração sabe? — Riu enquanto Ishida piscava esperando o desenvolvimento — Igual filmes ou livros de romance, acho que “roubar o coração” iria mais para histórias antigas, onde tinha amor à primeira vista… É, acho que é quase isso —.

Era péssimo ver aquele olhar triste se forçando a sorrir, sentia seu peito apertar a cada segundo que se passava.

— Ele não te merece… —.

— O que? Ah bem, acho que amor não é sobre merecer ou não… — Soltou a xícara na mesa e então juntou seus joelhos ao seu tórax envolvendo os braços ao redor das pernas se encolhendo e encarando o chão — Ele simplesmente acontece, o meu… Foi um amor unilateral, só isso — Deu de ombros.

— Acho que temos formas diferentes de ver o amor, claro, o coração consegue ser um idiota em se apaixonar por alguém que não irá retribuir — Deu uma pausa ao perceber, Uryu torceu para Orihime não ter pensado que a estava chamando de idiota — Mas, o coração tem que se preparar para mudar. Seguir em frente quando percebe o erro que cometeu — Orihime riu mais uma vez, dessa vez tentando realmente conter a risada.

— Uryu, quem dera! — Ela o encarou de forma gentil — Mas você e eu sabemos que não é verdade —.

— … É, você está certa — Bebeu o resto de seu chá de olhos fechados desta vez — Como… Se sente? Seu coração —.

— Ah… Tristeza. Sou jovem, todos diriam isso se eu contasse que fui rejeitada mas… Parece que nunca mais vou amar de novo — Era uma reação normal.

O moreno sabia disso, era o esperado, ela iria ficar assim com qualquer outro,,, Ele tentava acreditar nisso. Ela iria superar e ele estaria lá para ajudar.

— Quer ajuda para lavar a louça? —.



Era uma desculpa para ficar perto dela, não tinha ajudado a sujar parte daquela louça mas gostava do conforto em continuar uma conversa com ela, até mesmo do silêncio do ar que ela emitia enquanto estavam juntos.

— Você vai tentar para medicina, né Uryu? — Era mais um assunto aleatório sobre a escola e o futuro — Já sabe qual a faculdade? —.

— Provavelmente uma fora daqui com melhores oportunidades — Karakura não era o tipo de cidade preparada para uma grande faculdade a qual Uryu era capaz de entrar, era claro que teria de viajar para longe se despedindo de seus amigos.

— Então deve ir pra bem longe! Vai ligar né? —.

— Para você? Claro que sim — A olhou enquanto secava um prato, Orihime sacudiu a cabeça em negação.

— Para todo mundo! Sado, Renji, Rukia, Ichigo… Seu pai! — Enfatizou a última figura e Uryu pigarreou — Uryu… —.

— Meu pai não vai sentir falta de algumas ligações —.

— Vocês são a única família um do outro — Bem, se a ruiva aceitasse ele aumentaria a árvore genealógica sem qualquer hesitação — Eu acho que é importante vocês se resolverem, mesmo que não virem amigos, acho que ia ser bom se for pra ir embora da cidade que vá sem arrependimentos! —.

— É muito doce da sua parte se importar… — Mas ele pensava que ela deveria cuidar mais dela, não de má forma, ela tinha alguns problemas a mais do que ele no momento.

Dava pena.

Uryu se pegou olhando para o nada e então voltando a focar sua visão. O pensamento de pena o pegou de uma forma tão diferente.

— Família é importante! —.

— … Um dia pretende formar uma? — Aquilo pegou Orihime de surpresa.

— Depois eu que faço perguntas estranhas! — Riu arrumando a postura — Seria legal… Acho que eu iria amar na verdade — Suspirou — Mas… Não sei, sabe eu queria constituir uma família com quem eu gostasse e… Eu não quero enganar ninguém — Uma dor envolveu seu peito, ela se sentia horrível, o pior monstro que pisou na face da terra.

Sua cara entregou aquilo, mesmo Uryu não sabendo exatamente o motivo, o sentimento aumentou, vê-la assim era tão…

Desesperador.

Ela não conseguiria esquecer uma paixão de ensino médio, era sentimental demais para isso então aquilo a impediria de viver sua vida.

Era aquilo que Uryu pensava naquele instante enquanto inconscientemente afastou uma das mechas ruivas do rosto da mulher permitindo vê-la com mais clareza.

— Uryu? — Se sentia hipnotizado quando aquela boca chamou seu nome.

Pobre Orihime, nunca poderia escapar das dores de sua vida. Apenas criá-las.

Sem ter tempo de reagir ela sentiu os lábios do então amigo devorando os seus como se sua vida dependesse daquilo, seus pés se descuidaram e deu alguns passos intencionais para trás enquanto ele jogava seu peso nela, em fração de segundos eles estavam no chão, Uryu com as costas curvadas não se permitindo soltá-la enquanto sua colega apenas conseguia envolver os braços em suas costas e retribuindo o beijo em suspiros sem entender realmente o que estava acontecendo.

Se entregava muito fácil as pessoas.

Está tudo bem ele havia se decidido, ele iria ajudá-la com seu trabalho ela iria se esquecer daquele maldito que quebraria seu coração na segunda.

Seu coração iria pertencer a dele com um pouco de esforço. O chamem de louco, ele havia desistido de se esconder em apenas um momento de fraqueza.

Se soltando suas mãos ásperas antes na cintura da ruiva desceram rapidamente para apertar sua coxa.

Isso sim a fez voltar para a realidade.

— Espera, Uryu! — Ofegou alto o empurrando batendo na geladeira atrás dela, aquela cozinha já apertada acabará ficando mais sufocante ainda.

Se encararam no fundo dos olhos arfando, ambos tentando entender o que tinham acabado de fazer.

— Esqueça o Kurosaki… — O arrependimento não existiu em sua voz naquele momento em que ele acariciava aqueles lábios tão frágeis que ficaram avermelhados com tanta facilidade.

— Uryu… — Negou com a cabeça ainda tentando compreendê-lo, o amigo sério e que escondia a gentileza fazendo aquilo, com aquele rosto, aquele rosto.

Aquela expressão fazia a espinha de Orihime congelar.

— Sinto muito… — Foi isso que conseguiu dizer ao empurrá-lo e se levantar, já de pé ainda um pouco zonza com a situação ela não o deixaria lá sem falar mais nada — Uryu, sinto muito… É melhor você ir embora — Não tinha coragem em encará-lo.

Tudo que passava na mente dela era que o mesmo erro não poderia ser repetido. O erro que Uryu não iria descobrir por ela.

Enquanto isso, a mente dele se enchia de pena. Aquela vida, a vida que ela tinha, ela não tinha mais volta. Seus olhos a encaravam em choque, sua expressão assustada, triste, uma mistura de todas as péssimas emoções que ela era capaz de ter.

Ele queria livrar ela de tudo aquilo.

Se levantou e ajeitou seus óculos de cabeça baixa. Aquilo não iria desanimá-lo, claro, mas sentia que sua expressão estava bizarra, necessitando de alguns segundos para se recompor.

— Orihime… Eu sinto muito — Levantou a expressão tentando fazê-la a mais triste possível e foi contribuída com um olhar acabado.

A cada centímetro que tocava em seu próprio corpo, cada vez que respirava, quando olhava seu reflexo em qualquer item que o refletisse na casa. Estava se sentindo suja, imunda, uma puta.

— Não precisa… Eu que tenho que pedir desculpas… Me desculpa se eu te passei a impressão errada — Pegou suas mãos gentilmente e o conduziu até a porta de saída logo ao lado, o apartamento era realmente compacto. Delicadamente apertou as mãos do moreno, naquele momento tinha medo de perder um amigo, mais um amigo, tão precioso.

Ele se soltou de suas mãos e Orihime já esperava que ele saísse sem olhar para seu rosto, invés disso sentiu os toques gelados daquelas mãos voltando ao seu rosto acariciando suas bochechas como se estivessem prestes a quebrar.

 

O corpo dela era tão quente comparado ao dele. Aquele toque ele quis transmitir segurança, ele não a deixaria, não iria a abandonar, diferente de seus pais, parentes, irmão e do “imprestável do Ichigo” não iria deixá-la para sofrer mais do que já sofreu com toda aquela solidão.

— … Obrigada, Uryu — Ela sorriu e isso o deu certeza — Nós… Nos veremos na segunda —.

Ele abria a porta enquanto ela se afastava, se sentindo abarrotada de pensamentos ela se vira com a vergonha do que tinha acontecido subindo.

Não tinha mais visão sobre ele, confiava nele para ir embora e fechar a porta enquanto ela tentava procurar qualquer outra coisa para fazer, talvez finalmente tirar aquele uniforme do colégio com o qual ficou o dia todo… 

Uryu a encarou tão vulnerável, como um servo em torno de uma floresta queimada. Mesmo de costas ela continuava exuberante, em respiração tensa tentando deixá-la o mais baixo possível ele bateu a porta fingindo sua saída, Orihime era avoada demais para perceber que sua presença ainda continuava lá, nem teria tempo de perceber. Ao lado dele, com um adorno enfeitando a prateleira pertencente à foto de seu falecido irmão, se viu como se fosse obra do destino.

Não suportaria ver aqueles belos olhos sofrendo… Ou só queria um jeito mais fácil de pegá-la, apagando a luz da sala e pegando o enfeite pesado o suficiente.

O suficiente para fazê-la cair com um golpe enquanto ela se virava assustada com o apagão repentino.

Uryu não entendia, não sentiu desespero ou dor, sentiu uma paz ao sentir a cabeça dela sendo acertada com aquilo, o baque foi alto e o som dela caindo no chão junto de seu grito fez seu corpo arrepiar.

Não poderia fazer nada por ela nessa vida, ela havia se prendido às emoções, então faria a única coisa capaz que ele pensou.

Iria livrar seu coração fazendo ele parar de bater.

 

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Foi um pedido vindo da sua alma. Você não sabia, mas eu sabia, foi no momento em que vi seus olhos, seu sorriso, me agradecendo, você pediu por aquilo, por um livramento.

Mesmo gritando, mesmo implorando, me perguntando, eu sabia Hime, sabia que você precisava disso. Não daria alegria a qualquer outra pessoa de fazer isso, de te livrar dessa vida miserável.

Nos livrar dessas vidas miseráveis. O momento em que seu sangue finalmente escorreu em minhas mãos, o momento em que você parou de chorar e apenas morreu, a excitação que eu senti quando finalmente vi que estava liberta desse mundo tão cruel.

Lambuzei minha boca com meus dedos manchados de carmim, te vesti com um de suas roupas favoritas, coloquei você em uma mala, você é tão pequena, tão adorável, foi tão fácil te enfiar dentro dela, tão fácil te levar para minha casa. O caminho já estava pronto, o destino pedia para que eu te levasse para lá.

Infelizmente o destino me guiou para entregar seu sangue no rio, soltar seu corpo para que seu funeral acontecesse, para que Kurosaki e os outros parassem de procurar… Senti vontade de chorar ao saber que seu corpo não era mais meu.

Mas agora, você está livre.

 

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Era raro alguém sair na rua depois do corpo encontrado no rio. As investigações continuavam e o corpo era mantido no necrotério para necroscopia e não seria liberado tão cedo, aquilo era triste, mesmo sem família os amigos que Orihime fez pelo caminho foram impedidos de realizarem seu funeral até lá. Se recusavam a fazer qualquer coisa sem o corpo.

Na noite onde uma lua cheia iluminava o céu um velho gordo visitava a delegacia de polícia. Esse com um sorriso amável e abobalhado entrou se curvando para os policiais.

— Com licença, senhores, eu tenho uma grande dúvida — Chacoalhava a mão em forma pensativa enquanto ia até a mesa onde os policiais estavam conversando no momento. 

— Veio relatar algum crime? — O policial não parecia com cara de muitos amigos quando viu o senhor que apenas ria.

— Não não, eu tenho uma dúvida sobre o caso de Inoue Orihime -- — Foi interrompido com a palma da mão do policial se estendendo na frente de seu rosto.

— Sinto muito senhor, mas não podemos dar quaisquer informações sobre o caso, agora se veio aqui apenas para passear se reti -- — Dessa vez foi a vez de Hachi fazer o policial se calar com antecedência ao agarrar seu pulso o apertando dolorosamente — O QUE -- —.

— Escute senhor, eu tenho uma dúvida muito séria, vamos relembrar que Inoue Orihime não foi mais vista depois da noite de sexta e na segunda-feira um simples senhor como eu foi abordado por um de seus amigos que estava com dúvida se eu a tinha visto de sexta para segunda mas qual sentido faz ele perguntar sobre o paradeiro dela na noite de sexta sendo que foi o miserável que a acompanhou até em casa nessa mesma noite? —.

Os policiais presentes arregalaram os olhos.

Hachi considerava aquela jovem da família, cuidava quando ela ia embora tarde da noite, o que era muito comum, então agora que ela estava morta seu coração havia afundado.

E não deixaria essa informação passar despercebida.

 

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Na loja de conveniência naquela mesma hora a porta automática notificou um cliente, dois minutos depois apitou novamente para dar espaço a mais uma pessoa.

 

Ulquiorra tinha vindo para discutir o fim do contrato de seus colegas de apartamento, com planos fixos de se mudar após a tragédia, ele estava apressado em deixar a cidade o mais rápido que conseguisse.

E Ichigo, achando milagrosamente ele durante uma caminhada noturna, estava apressado em descontar sua raiva no qual apelidava de “maldito”.

Se aquilo fosse uma fantasia seus olhos estariam vermelhos, poderia ser associado ao Alien de caçador correndo atrás de sua presa, quase o alcançando, estendendo o braço deixando a mão poucos centímetros longe do cabelo preto desarrumado que o ex-garçom possuía.

Mas algo o impediu, melhor: uma bengala.

— ICHIGO! Meu garoto, quanto tempo eu não te vejo, como tem estado? — Urahara Kisuke. O ser mais aleatório e estranho que o ruivo uma vez já conheceu.

Ele era um lojista, Ichigo não sabia muito bem do que, mas rumores de que seus negócios eram apenas um disfarce pareciam corretos na maioria das vezes.

Eles se conheceram ainda na infância do mais novo, seu pai era amigo do loiro e isso o levou a ver quase como um tio, um que sumia sempre e fazia coisas secretas em seu porão, mas ainda cumpria muito bem o papel de falso parente. Surgindo na melhor hora para servir de apoio ao seu sobrinho emprestado.

— Urahara… —.

Arregalou os olhos ao se lembrar de seu alvo, tirou os olhos do tio e voltou-os até Ulquiorra, ou pelo menos o local onde ele estava. Sua espinha esfriou de ódio, ele tinha saído, tinha percebido sua presença e fugido.

“Na próxima ele não escapa” foi isso que prometeu antes de sua atenção ser tomada novamente.

— Sabe eu fiquei sabendo sobre o que aconteceu… Eu sinto muito Ichigo, ela era… — Tirou o chapéu e suspirou — Uma pessoa maravilhosa, deve estar acabado — Deu tapinhas de consolação em seu ombro mas Ichigo apenas encarou com aquele olhar morto remanescente.

Já tinha ouvido aquilo,  seu pai e irmãs, teoricamente apenas o mais velho conseguiu falar aquilo, suas irmãs mais novas ficaram acabadas sem conseguir dizer as palavras de consolação.

— Obrigado… — Tentou se desviar para seguir seu caminho mas o loiro impediu novamente com sua bengala.

— Mas isso não significa que dê motivos para você enlouquecer — Ichigo o amaldiçoou naquela hora, olhando bem fundo nos olhos que o encaravam, o que mais ele poderia fazer? — Um passo de cada vez, pense no que ela iria querer… —.

— Não acha que eu já ouvi algo parecido? — Seus olhos afundaram e suas olheiras saltaram, agarrou o pulso do mais velho e rangeu os dentes, farto de suporem o que Orihime iria querer — “ela não vai voltar” “ela não iria querer isso” “ela ia querer que você vivesse” tô ouvindo essa merda desde que acharam ela, eu não ligo pro que ela quer, eu… — Travou.

E Urahara suspirou como se ganhasse a discussão.

— O que aconteceu? — Ele perguntou aquilo já sabendo a resposta — Vamos, o que aconteceu para você querer se saciar com uma vingança tão novelesca? —.

— … — Soltou o pulso dele e tremeu, não conseguia mais encará-lo, ficou olhando para os lados e o velho entendeu guiando-o para fora do estabelecimento.

 

Agora, longe de uma multidão, em um canto escondido, o arfar do ruivo era evidente.

— Você… Não está querendo fazer isso por ela, então, o que está fazendo? — Bateu a bengala no chão de costas para o mais novo.

— … — A garganta estava seca, lambeu os lábios rachados e encarou o nada — Quero me vingar —.

Um silêncio se estabeleceu para que o Kurosaki continuasse.

— Foi minha culpa, foi tudo por minha culpa… — Novamente as lágrimas desceram, já estava um pouco acostumado em chorar com tanta facilidade.

Aquilo travou a reação do lojista, para muitos era a primeira vez que viam Ichigo chorar, ainda mais em público.

— Não diga isso, não tem como você ser o culpado disso meu jovem — Deu algumas batidinhas em seu ombro mas o outro apenas negou com a cabeça.

— Foi tudo minha culpa, eu deixei ela, deixei ela sozinha naquele dia… —.

— … Espera, que dia? — O loiro piscou rapidamente com medo da resposta.

— Sexta à tarde, logo antes dela desaparecer, eu… Eu deixei ela lá, como um covarde… —.

— Então você a viu sexta de tarde — Urahara murmurou para si mesmo — Você acha que se estivesse com ela? -- —.

— Ela estaria viva, se eu não tivesse deixado ela sozinha ela ia tá aqui — Ajeitou a postura enquanto controlava a respiração acelerada, a culpa o esfaqueava — Então… Isso é tudo que eu posso fazer pra que eu possa descansar —.

A resposta do mais velho foi uma risada travada.

— Você é jovem e ingênuo —.

 

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Era doloroso a forma que os dias passavam cada vez mais rápido.

Em um minuto o sol surgia e no minuto seguinte ele já estava se pondo, a distorção de tempo tinha surgido nos olhos da morena baixinha, sentia a mente vazia por grande parte do dia.

Voltou ao raciocínio ao ouvir passos se aproximando dela lentamente, já fazia ideia de quem era.

— Será que… Ela tá descansando? — Perguntou a ele enquanto sentia o assento ao seu lado afundando.

— Espero que esteja — Renji respondeu calmamente enquanto alcançava um copo para a amiga.

— Porque alguém faria isso? —.

— Por covardia —.

— Simples assim? — Olhou para ele — Alguém a achou na rua e então decidiu que iria a matar? —.

— Não, nunca disse que quem a matou não tinha um motivo mais específico… Só tô falando que não importa o motivo, tudo pode se resumir a covardia —.

Ela ficou em silêncio o olhando, ele parecia distraído, não tanto quanto Rukia segundos atrás, mas ainda parecia perdido.

— Você tá certo… Viu as notícias novas? —.

— Não devia ficar vendo o jornal no seu estado — Isso foi um não.

— Parece que não jogaram ela no rio assim que morreu ou coisa assim, falaram que o corpo foi colocado lá dias depois… Então significa que a Orihime foi morta no fim de semana —.

Renji respondeu com silêncio.

— Ela morreu há tanto tempo… E a gente só percebeu dias depois — As lágrimas voltavam a surgir pouco a pouco, o jovem lentamente a envolveu nos braços continuando com o silêncio, permitindo que Rukia tirasse tudo para fora.

 

Eles ficaram assim por um tempo, até a lua surgir no céu, sendo interrompidos quando o celular tocou.

Ficaram naquela posição ouvindo o som de mensagens chegando, nenhum deles queria ver, mas Renji foi o primeiro a se afastar e pegar o celular de Kuchiki para ver o que era.

Piscou algumas vezes incrédulo lendo e relendo a mensagem fazendo a morena se apavorar.

— O que é Renji? Desembucha! — Se aproximou dele agarrando o aparelho de suas mãos e ficou muda — Mas o que… Por que eles —.

 

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Anunciamos que o velório de Inoue Orihime será organizado na escola de ensino médio de Karaku às 15:45 nesta quarta feira, os portões da escola estarão abertos para o público.

 

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Era muito estranho.

Hime isso tudo é surpreendente, sabia que você era amada, mas não ao ponto da escola sediar uma homenagem para ti.

Meu sangue está esquentando, eu sei, eu sei que eles vão me descobrir ou que já me descobriram, mas ainda não sabem quem eu era. Eu ouvi eles comentando no corredor que leva ao necrotério.

 

— Não é do seu feitio fuxicar — Eu me virei para encará-lo.

— Pai —.

— É bem raro você me visitar no meu trabalho Uryu — Odeio o jeito que ele me olha, como se eu fosse um inseto querendo ser esmagado.

— Não vim ver você, estou usando os privilégios de ter um pai que trabalha aqui — Eu quero ver você de novo, sinto sua falta, quero ver seu corpo de novo.

— E arriscando meu emprego com isso? — Ele andou em direção a porta do refrigerador onde você estava e o abriu — Não acredito que tenha coragem de encará-la —.

Aaaah… Era tão bom ver seu rosto de novo. Me aproximei o bastante para poder reparar em cada parte do seu rosto, continuava tão lindo.

— É a última vez que eu vou vê-la — Sentir sua mão agora tão fria causava arrepios na minha espinha, era tão animador.

— Foi uma morte bem trágica pelo que eu vi, eu chutaria que foi por um motivo pessoal —.

— Também acho que seja… Se não… Não teriam arrancado o coração —.

— Talvez fosse um stalker ou um cara rejeitado —.

— Teoria interessante —.

— … Não esqueça de limpar seu quarto quando voltar para casa —.

— Certo… Voltarei tarde para casa quarta-feira —.

— É, eu sei —.

 

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Era uma competição de cara mais fechada, Ichigo ou Tatsuki, mas ninguém reparava muito nisso.

Quarta-feira chegou e o ginásio estava com um número considerável de alunos, uma mesa foi montada no palco com a foto de Orihime no centro, Ichigo adorava o rosto dela mas ver ele lá era como uma assombração.

— Quem diria, você não matou ninguém — E Uryu estava lá para cutucar.

— O miserável fugiu — Bateu os dentes.

— Então realmente tentou matar alguém… —.

— Porque tão fazendo isso? Não tem cadeiras, não é para prestar homenagens… É só pra gente ficar de pé aqui olhando para a foto dela? — Arisawa interrompeu as provocações deles com a pergunta. Era realmente estranho, algo tão desarrumado, como se a escola estivesse fingindo se importar.

Ela estava realmente apenas fingindo se importar. Mas aquilo não importava agora.

Afinal os olhos de Ichigo voltaram a arder em ódio quando a figura conhecida passou por eles.

Era muita cara de pau ele estar lá.

— Ichigo? — Alguém o chamou, mas ele não ouviu, correu em direção a ele e o derrubou no chão.

O estrondo dele caindo e a cena da mão de Ichigo fechada em um punho fez o ginásio inteiro ficar em silêncio.

— O QUE TÁ FAZENDO AQUI? —.

— Você sempre cumprimenta os outros desse jeito? — Se levantou devagar, mas no meio do caminho foi impedido novamente com o peso do ruivo caindo em cima dele.

Antes que pudesse continuar com o show ele foi pego pelos braços por Chad e Renji.

— ME SOLTA! – Gritou em protesto e Abarai apertou ainda mais o braço do amigo.

— Não aqui no meio seu idiota! — Ele apontou fazendo com que o ruivo finalmente olhasse ao redor — Não no meio de um velório… —.

As pessoas o encaravam com surpresa e algumas poucas com desprezo, a cada nova pessoa que encontrava no meio da multidão sentia seu corpo tremer, eram tantas, há alguns segundos atrás não era esse tanto, eram pessoas com rostos deformados e apenas olhos que ele criava em sua mente, apenas uma imaginação.

A sua imaginação fez ele ver o cadáver no meio daquela pouca multidão. Não exatamente o cadáver mas era ela… Ele estava realmente enlouquecendo.

Em um piscar de olhos aquele olhar assustado saiu de sua visão, a silhueta inteira sumiu e ele voltou a si engolindo seco.

— O que você tá fazendo aqui? — Se virou para Ulquiorra o encarando.

— Porque eu não deveria estar aqui? — O tom dele era seco, sem emoção alguma, mas os olhos entregavam o tom cínico de sua pergunta irritando mais ainda o jovem à flor da pele.

— Filho da puta… —.

— Isso não é uma resposta, não sou bom em ler mentes ainda e pelo que me lembre… Faz mais sentido eu estar aqui do que você — Estava tentando cutucar bem na ferida e conseguindo, os amigos de Ichigo tiveram que segurar mais forte quando sentiram ele tentar se soltar novamente.

— CHEGA ICHIGO! ISSO É A PORRA DE UM MEMORIAL LEMBRA? — Renji gritou numa tentativa de fazê-lo ouvir.

— NO MEMORIAL DA PESSOA QUE ESSE DESGRAÇADO MATOU! — Ulquiorra perdeu o brilho dos olhos quando Ichigo terminou de falar.

— O que? —.

— VOCÊ MATOU ELA! — Assumiu como se fosse uma verdade absoluta e não conseguiu ver o rosto de Ulquiorra se contorcendo em horror e nojo.

— Para com isso idiota! Tá inventando coisas — Renji deveria tentar argumentar mais alto porque no volume usado o ruivo nem pode ouvir, ou não quis, dá no mesmo, ele não pensaria muito nisso quando Ulquiorra finalmente revidasse contra ele com um soco bem dado no centro do rosto.

Renji e Uryu soltaram o amigo para não caírem para trás junto dele, o ruivo deslizou um pouco antes de se apoiar com o braço e usar a mão livre para apertar o nariz sangrando.

— Repita — Desafiou.

— Você matou ela — Repetiu arrastando as palavras tendo certeza de que ele tinha entendido, sem desviar os olhos dos dele um segundo.

O moreno foi para cima novamente mas não conseguiu fazer tanto estrago como no primeiro soco, Ichigo agarrou seu pulso e o puxou para desestabilizá-lo e o acertou novamente.

Naquele ponto Ishida e Renji, acompanhados do resto do grupo, só conseguiram suspirar de vergonha e frustração.

— VOCÊ É SÓ UMA CRIANÇA — Ulquiorra gritou com sua expressão totalmente alternada finalmente pondo a raiva para fora, após falar aquilo foi acertado novamente.

— Isso tá sendo frustrante… — Uryu resmungou se afastando de lá silenciosamente.

— Mórbido, isso sim… — Rukia implementou.

— Se fosse um funeral eles iam tá brigando em cima do corpo — Sado, Rukia e Tatsuki olharam espantados para Renji — … Muito pesado? —.

Muito — Falaram em uníssono e ele apenas abaixou a cabeça como desculpa. 

 

Enquanto isso… Bem enquanto isso, isso era uma bagunça, uma ruína completa, a homenagem de uma aluna assassinada feito aleatoriamente durante a semana, uma briga de um estudante da escola e um universitário, amigos assistindo essa briga, o assassino ali no meio…

Ele estava ali, bem no meio, andando calmamente… Como se nunca tivesse feito nada, carregando dentro de sua bolsa escolar o presente para o cadáver que ele mesmo matou, claro ninguém mais conhecia esse fato, mas alguém conhecia o fato de ser ele o assassino.

— LEVANTA! TÁ APANHANDO PRA UMA CRIANÇA PORQUE EIN? — O sorriso de vitória em seu rosto era horroroso, se sentia estranhamente satisfeito em ver o homem pálido já com o rosto quase todo manchado de sangue.

Deveriam pará-lo, mas era cansativo.

E aquele show também era a distração perfeita.

Podia ir até a mesa onde a foto dela estava exposta e retirar seu pertence da bolsa, ele delicadamente pegou a caixa com as duas mãos e a encostou em seu rosto, talvez cheirando ou talvez apenas sentindo a presença dela nela, podia até ser… Uma forma de ferir seu espírito no pós morte.

“eu te possuo”.

Podia ser aquilo também.

— Sinto tanta sua falta… — Sussurrou para a caixa a segurando firme.

— Todos sentirão — Sibilou quase encostando a cabeça na de Uryu — Olá, “Ulquiorra” — Hachi sorriu quando Uryu se afastou sem demonstrar muitas emoções.

— Você sabe de alguma coisa? —.

— Que coisa? — O sorriso fingido de seu rosto entregava tudo.

Uryu riu com aquilo, o sorriso desejava pelo desespero dele?

— É uma operação? Vocês organizaram isso tudo só para me pegarem? —.

— Não, seria horrível, usar a imagem dessa mocinha pra isso… — Os olhos do velho rapidamente mudaram para a foto, a dor passou por eles mas logo recuperou a postura e voltou a encarar o moreno — E também seria muito fácil ir para sua casa te prender, porque você não está tentando se esconder —.

— Não? — Uryu sorriu de satisfação — É verdade, não tenho motivos para me esconder, sabe nos dias de hoje é muito difícil cometer um “crime perfeito” mas sabe o que é fácil? —.

— Eu não quero saber, quero saber porque não está tentando fugir —.

— É muito fácil amar, se apaixonar, isso é muito fácil de acontecer mas ao mesmo tempo é muito difícil —.

— Está se divertindo com tudo isso, é isso que está fazendo —.

— Para um velho seu cérebro parece estar em perfeito funcionamento, isso é ótimo —.

— Se divertiu a matando? —.

Uryu ficou em silêncio, infelizmente não um de tristeza, mas de euforia ao ter aquelas memórias de volta em sua mente.

— Ela olhava só pra mim… — Balbuciou em um sorriso.

— Está se divertindo com a demora da polícia em te prender? —.

Uryu estendeu a caixa na direção de Hachi a exibindo como um tesouro.

— Estou me divertindo tendo ela só pra mim — Os olhos do velho se arregalaram ao perceber o que ele queria dizer — Ela pertence só a mim —.

Hachi ficou em silêncio começando a transpirar.

— O que… — Estendeu as mãos querendo alcançar a caixa mas Uryu a colocou de volta colada em seu peito.

— Só para mim… O coração dela é só meu —.

E assim se virou para descer do palco.

O pobre velho, dito como louco, mesmo estando em sua fase mais lúcida, tinha sua cara coberta por uma sombra de desespero e tristeza.

“Não podemos prendê-lo só com uma testemunha visual dele andando pelo bairro, ele tem um álibi para a hora em que ela morreu”.

Pobre garota.

Hachi fechou o punho e controlou as lágrimas, respirou fundo e olhou para a foto novamente.

Pedia perdão, perdão à Orihime.

Porque iria ter que fazer o coração dela se espalhar no chão.

Em um silencioso ginásio que se acomodou após os dois homens a flor da pele se acalmarem (ou ficarem tontos de tanto se baterem) ele deu os passos mais rápidos que conseguia, o que não era muito mas o suficiente para ir até o moreno que andava calmamente de costas, quando o espaço se tornou curto o suficiente o idoso se projetou mais para frente e agarrou firme o ombro do jovem para empurrá-lo no chão causando um estrondo chamando a atenção de todos.

— Tudo bem ai? — Uma voz feminina perguntou mas nem Uryu ou Hachi se importaram, a caixa tinha saído das mãos de Ishida mas ainda não estava nas mãos do velho ou aberta para os demais verem sua verdade.

Com a respiração dificultando o caminhar, Hachi foi em direção ao conteúdo mas o moreno foi rápido em se levantar e pegá-la de volta.

— Está tudo bem senhor? — Ajeitou os óculos enquanto o encarava — Parece estar com dificuldades para respirar —.

— Eu… Não tenho mais a energia de antes… Meu jovem me deixe ver a caixa —.

— Não posso, ela é minha — Abraçou-a com delicadeza.

— A caixa? — Tatsuki se aproximava dos dois com as mãos nos bolsos.

— Eu quero a caixa! — Tentou dizer em voz mais firme mas sua voz tremeu por conta do cansaço e desespero.

— Senhor, acho que você está passando mal — Colocou o objeto atrás das costas e apoiou a mão livre no ombro de Hachi.

— ME DÊ LOGO A CAIXA SEU -- — Tossiu alto sem conseguir completar a frase e cambaleou para trás.

— SENHOR! — Uryu gritou em preocupação pegando sua mão — POR FAVOR ALGUÉM CHAME UMA AMBULÂNCIA —.

— Você… — Grunhiu de nojo antes de tossir mais uma vez.

A multidão começava a se voltar para o velho passando mal, Uryu prestava falso socorro quando alguém lhe estendeu um copo de água para alcançar para o velho.

Ele deixou a caixa no chão.

Não era o que Hachi pretendia, mas ele tinha se saído muito bem.

— Beba um pouco… — Alcançou o copo para o velho sem preocupações algumas.

— Tá tudo bem ai? — Ichigo se aproximou com a cara toda acabada da cena.

— Ele está passando um pouco mal — Uryu explicou.

— Ah — Ichigo falou apenas aquilo enquanto não tinha mais reação, coçando a nuca — A gente tinha que procurar algum lugar pra ele sentar… Sem ser o palco —.

— Seria bom, vou dar uma olhada no –- — Congelou. A caixa sumiu.

Pela felicidade de Hachi a caixa não estava mais nas mãos dele. Pela infelicidade de Uryu, ela foi pega, justo por Tatsuki que a pegou discretamente.

E agora ela estava aberta.

E a morena estava em choque, a derrubou no chão após processar aquilo.

Juntou as mãos no rosto e os olhos chocados começaram a aparecer quando pouco a pouco percebiam.

Ichigo demorou a ver, alguns segundos mas ainda demorou, quando seus olhos curiosos foram em busca do motivo do horror o mundo dele se destruiu. Ele estava lá o tempo todo, o motivo de sua morte estava lá. De quem ele menos desconfiava. Estava lá.

Para esfregar na cara dele o quanto ele era burro.



— ----------------------- —



Eu não quero morrer.

Eu não quero morrer agora, por favor, eu não quero morrer agora.

Uryu.

Minha boca puxou o ar, eu não estava conseguindo pensar direito, estava tudo borrado, vermelho, me senti em um filme de terror.

Então eu seria esse tipo de personagem em um filme de terror? O personagem que morre primeiro? Seria engraçado. Esperado também.

— Eu sinto muito… — Foi isso que eu consegui entender.

Uryu? Uryu, não faz sentido, não fazia sentido, ele- Nunca seria ele, nunca seria ninguém, não faz sentido porque-

O que aconteceu? 

— Ury… — Estava tão difícil respirar. Não conseguia mover minha cabeça ou meu corpo, só conseguia ver pelos cantos dos meus olhos a silhueta dele.

Ele estava um pouco longe, na cozinha, mas logo voltou a ficar perto.

Foi ele quem fez isso?

Não… não.

— Uryu… O que… —.

— Shh, está tudo bem, você vai ficar bem — Ele ficou em cima de mim, não parecia que era para prestar socorro.

As mãos dele envolveram meu pescoço.

E então eu parei de respirar e meu coração disparou.

— Não, por favor… —.

Eu não quero morrer eu não quero morrer eu não quero morrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrereunãoqueromorrer.

Por favor.

Eu quero viver, quero continuar trabalhando, quero ir pra faculdade, quero ir pro parque, visitar o Kon, tomar sorvete com a Tatsuki, conversar com a Rukia…

Até mesmo ser rejeitada pelo Ichigo.

Por favor, por favor, por favor por favor por favor.

Uryu.