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Kevin encarava a garrafa de vodka em suas mãos como se fosse a resposta para todas as suas perguntas, mas nem ele mesmo sabia o que queria ou devia perguntar. A brisa fresca da noite aliviava um pouco da sensação entorpecente que o álcool deixou em seu corpo; mesmo assim, seus sentidos continuavam bagunçados enquanto uma quantidade insalubre de pensamentos passavam voando por sua cabeça. Não deveria estar ali, sequer deveria ter saído de casa. Tudo deu errado no momento em que saiu escondido com Andrew e Neil. Não ousou imaginar a reação dos pais quando percebessem que seu comportado e dedicado filho tinha lhes dado um bolo para sair com os dois amigos que eles já haviam afastado e criticado um milhão de vezes. Mas pior do que estar fora de casa sem o padrasto ou a mãe saberem era estar bebendo.
Talvez sua mãe lhe perdoasse por engana-la. Seu padrasto poderia demorar um pouco mais, mas ele ainda achava que conseguiria seu perdão. Ele era um homem bem sério, que havia assumido o papel de cuidar de Kevin quando a mãe se separou de seu pai biológico. Os dois se dão bem, mas, mesmo assim, Kevin mantém contato regular com o pai. Poderia ser perdoado se eles pensassem que o único delito que cometera naquela noite fora sair às escondidas. Beber era totalmente fora de questão. Cresceu em um lar extremamente religioso, onde comportamentos pecaminosos eram barbarizados e totalmente não incentivados. Na verdade, Kevin era tão amedrontado em relação ao pecado que o simples ato de pensar sobre isso causava ansiedade e pânico. Por anos, fora o filho mais comportado que um pai ou uma mãe poderia pedir. Seguia todas as exigências deles a risca, ia à igreja com uma frequência absurda, participou de diversas atividades de cunho cristão e até mesmo fez parte do coral. Mas toda essa devoção fez com que se isolasse, principalmente durante o fundamental, evitando fazer contato e criar laços com os outros para não infligir as regras dos pais controladores. Isso antes de conhecer Andrew.
Andrew e Kevin se conheceram no primeiro ano do colegial em um grupo jovem, pois Andrew começou a frequentar a mesma igreja que Kevin frequentava. Desde o primeiro encontro, ele soubera que Andrew não acreditava realmente na religião que seguia. Ou melhor, que era obrigado a seguir. De forma meio inusitada, acabaram construindo uma amizade consideravelmente forte que perdurou ao longo de três anos. Andrew ignorava — e ignora — totalmente os dogmas da igreja. Usa piercings, tem duas ou três tatuagens, bebe e comete todo tipo de promiscuidade existente. Vez ou outra, o pensamento de que ele só faz isso para irritar sua mãe, a qual o força a frequentar a igreja e seguir o cristianismo, vem a mente de Kevin. Mesmo sendo totalmente opostos, Kevin e Andrew tornaram-se próximos a ponto de um começar a fazer parte da vida do outro de forma ativa, e foi assim que Kevin conheceu Neil.
Estudavam em escolas diferentes, então Kevin não tinha muita noção do círculo social de Andrew. A única pessoa que conhecia era seu irmão gêmeo, Aaron, com quem se dava bem. Um dia, Andrew mencionou que apresentaria alguém para Kevin no próximo encontro que tivessem. O "alguém" era o namorado 100% problemático que Andrew havia arrumado. Seu rosto exala tudo o que os pais mais detestam. Ele é a cara do pecado. Seu cabelo ruivo e cacheado está sempre alternando entre estar longo ou curto e seus olhos azuis profundos exalam sua determinação em fazer o que quer, sem se preocupar com absolutamente nada. Neil é reservado, mas não tímido. Não tem qualquer medo ou preocupação em expressar suas opiniões ácidas, muito menos em ser sarcástico e fazer comentários afiados em certas ocasiões. Se deram bem logo de cara, e os três viraram um trio quase inseparável, mas Kevin estava começando a se arrepender disso.
Só estava nessa situação deplorável porque havia aceitado o convite de Andrew de irem a festa de despedida da escola dele. Andrew dissera que arrumaria uma forma de enfiar Kevin lá de penetra, e Neil ficou responsável por arrumar roupas "usáveis" para a ocasião, já que os dois achavam que Kevin não tinha roupas boas o suficiente. Depois de muita insistência, ele acabou aceitando, mesmo que relutante. A festa começaria pela noite, às 22:00, mas os três chegaram mais ou menos 21:30 para poderem ajudar com os preparativos. Agora, eram mais de 23:00 horas e Kevin começava a questionar todas as suas decisões até o momento.
— Pensando em qual vai ser o castigo cruel que Deus vai aplicar em você quando morrer? — Neil se aproximou, sentando-se ao lado de Kevin no meio fio, em frente a casa onde a festa acontecia.
— Por aí. — Deu de ombros.
— Agora não adianta chorar pelo leite derramado. — Neil tomou a vodka do aperto frouxo de Kevin, abriu e deu um longo gole antes de continuar. — Você já fez a merda, Kevin. Vai lá e aproveita ela.
Neil continuou ali como um apoio silencioso por mais alguns minutos. Kevin pensava nas palavras ditas, interpretando-as. De alguma forma, ele estava certo. Os pais já iriam lhe odiar de qualquer forma quando descobrissem o que ele estava fazendo esta noite, então, se metesse um pouco mais o pé na jaca, mudaria o que? Mas ao mesmo tempo, o que os céus pensariam dele se insistisse no pecado que estava cometendo, e pior, sabendo que estava cometendo? Ignorou. Levantou-se de uma vez, e a última coisa que viu antes de voltar para dentro da festa foi o sorrisinho quase imperceptível de Neil. Claro que não estava certo de suas decisões, mas até esse momento de sua vida não tinha certeza de nada. O sentimento era familiar e nada incômodo a essa altura.
Se fosse para ser castigado, deveria pelo menos aproveitar.
O interior da casa estava um caos. Música alta e conversas animadas inundavam o ambiente, causando certa vertigem em Kevin, intensificada pela alta quantidade de vodka em seu corpo. Pessoas se chocavam umas contra as outras nos corredores mais apertados, mesmo que a casa fosse relativamente grande. Na cozinha, uma quantidade insalubre de bebidas cobria toda a bancada, além de alguns lanches e caixas de pizza. Kevin ignorou tudo, pegou um copo plástico e encheu de vodka até o talo antes de sair e procurar um lugar onde pelo menos pudesse se sentar. As salas de estar e de jantar estavam lotadas. Mesas e cadeiras haviam sido afastadas para que mais pessoas pudessem caminhar por ali e se sentar no chão. Alguns grupos jogavam cartas, outros, no jardim traseiro da casa, dançavam ou simplesmente pegavam um ar, enquanto alguns corajosos subiram até os quartos para se aventurar.
Kevin não estava muito interessado em interagir, mas, ao mesmo tempo, o que mais poderia fazer além disso? O problema é que não sabia por onde começar. Passara a vida inteira evitando os outros; tentar se reconectar a realidade seria muito difícil a essa altura. O lugar mais calmo que encontrou foi o porão e, mesmo assim, ainda estava consideravelmente cheio. Mas pelo menos havia um espaço no sofá para que ele pudesse se acomodar e ver como os outros conversavam. Quando se sentou, o copo já estava na metade, e ele tomou todo o resto de uma vez. Uma péssima decisão, porque sua visão ficou totalmente turva e uma tontura diferente da que havia sentido ao longo da noite o dominou. Perdeu a noção de si e de onde estava por um momento. Fechou os olhos com força, tentando recobrar os sentidos. Quando finalmente sentiu que era seguro abri-los novamente, ergueu a cabeça de forma lenta e olhou ao redor.
Um rapaz havia se sentado com ele. Um bem bonito, por sinal. Seu cabelo escuro e ondulado parecia recém cortado, e caía ao redor de seu rosto em uma franja que combinava perfeitamente com seu maxilar bem desenhado. Estava escuro demais para que Kevin conseguisse ver, mas seus olhos eram tão claros que pareciam quase cinzas. Mas o que mais chamou atenção foi o nariz do rapaz e seu ossinho elevado. Kevin teve vontade de toca-lo bem na parte em que o osso era proeminente, mas se segurou. Não conhecia ninguém ali, então não fazia a menor ideia de quem era. Ele mantinha seu olhar fixo em alguém no meio da multidão, mas voltou-se para Kevin com curiosidade quando percebeu que estava sendo encarado. Tentou desviar e fingir que não estava olhando, mas o outro deve ter notado sua confusão mental, porque riu baixinho antes de perguntar:
— Primeira vez bebendo? — Sua voz era bem diferente da que Kevin imaginava. Pela expressão retorcida e séria que fazia, esperava algo mais agressivo. Mas, quando ele falou, a suavidade e o forte sotaque em seu tom foi quase reconfortante. Kevin demorou para entender que a pergunta se dirigia a ele.
— Sim, não estou muito acostumado, então acabei tomando rápido demais. — Não era bem o tipo de assunto do qual queria falar, mas era melhor do que nada.
— Tem 17 anos e é a primeira vez que bebe? Parece que encontrei um anjo em meio ao inferno. — Sem motivo aparente, o coração de Kevin errou umas batidas, e ele deu uma risada sem graça para disfarçar. Ele pareceu entrar na onda, porque riu também, mais da ingenuidade de Kevin do que da situação em si. — Qual seu nome, puritano?
— É Kevin. E o seu?
— Jean Moreau. Se não for incômodo — Jean estava prestes a completar sua frase quando uma pessoa apressada correu em sua direção, balançando-o pelos ombros.
— Moreau, a gente preparou mais uma dose pra você, vem! — E puxou Jean para longe, que saiu praguejando uma quantidade horrível de xingamentos.
Kevin ficou olhando Jean se afastar rapidamente como uma criança que teve seu doce roubado. Continuou encarando, mesmo depois de perde-lo de vista, e ficou muito mais tempo olhando do que planejava. Minutos; horas, talvez. Provavelmente, aquela havia sido sua primeira e única interação da noite, e por algum motivo seu coração batia tão forte que ele mal conseguia se manter de olhos abertos. Relacionou a taquicardia com a quantidade absurda de álcool que havia bebido, considerando que era a primeira vez que se alcoolizava. Mas é lógico que não seria isso que o faria parar.
— Kevin. — Andrew estalava os dedos na frente do rosto de Kevin, tirando-o de seu transe. — Me dá o copo. Já chega.
— Eu ainda consigo beber.
— Que bom pra você. Me dá o copo.
— Andrew.
— Se você passar mal e seus pais descobrirem que quem trouxe o precioso filho deles pra encher a cara fui eu, nós dois ficamos na merda. Me dá logo esse copo. — Relutante, ele estendeu o copo já vazio para Andrew, que o amassou e jogou no chão mesmo, sem muita preocupação.
— Cadê o Neil? — Andrew pareceu parar para pensar por um momento. Segundos depois, desistiu e deu de ombros.
— Deve estar vendo algum dos amigos dele entrar em coma alcoólico. Parece que ele terminou ou algo assim. — Respondeu, não muito interessado no assunto. — Jonh? Jean? Não tenho certeza do nome do cara.
— Jean Moreau? — Kevin perguntou tão rápido que se enrolou nas próprias palavras. A expressão neutra de Andrew não mudou, mas ele ergueu uma sobrancelha lentamente.
— Deve ser isso. — Kevin se retraiu de vergonha, mas, se Andrew percebeu, preferiu ignorar. — Enfim, tenta não ser drogado nem morrer. E para de beber. Eu juro que se eu te ver com vodka na mão de novo eu enfio no tudo na sua bunda.
— Não vou beber mais. — Era uma mentira tão descarada que Kevin sentiu uma leve pontada de culpa. — O Jean... Você acha que o Neil pode me apresentar ele?
Andrew estava no processo de se virar para sair dali, mas parou quando ouviu a pergunta de Kevin. O olhou com o mesmo rosto impassível de sempre, mas seus olhos exibiam uma curiosidade nova. Se ia tecer algum comentário, desistiu.
— Pergunta pra ele.
E se afastou, deixando Kevin sozinho novamente no meio da multidão. A festa seguia frenética, corpos dançantes sibilando uns entre os outros, música alta e de qualidade duvidosa estourada, de forma que, mesmo no porão, era possível ouvi-la, copos plásticos largados pelo chão e uma quantidade assustadora de gente vomitando pelos cantos. Kevin só esperou Andrew se afastar um pouco mais para cambalear até a pequena mesa recheada com bebidas que levaram para o porão para não precisarem ficar subindo quando quisessem se servir de mais. Andrew disse que brigaria com ele caso bebesse mais vodka, mas não mencionou nada sobre whisky. Kevin se serviu de uma quantidade modesta e voltou para seu lugar no sofá.
Bebia lentamente enquanto observava algumas cenas se desenrolarem a sua frente e assim a festa foi se seguindo. Não sabia que precisava tanto estar em um ambiente caótico, barulhento, quente e apertado como aquele até o momento. A sensação de desconexão da realidade que o álcool oferecia era reconfortante e viciante, e o barulho incessante de conversas animadas impedia Kevin de pensar no que quer que fosse. Pela primeira vez em sua vida, sentia-se calmo, mesmo que de forma meio melancólica e envolta em caos.
Ficou o que pareceram horas sentado sozinho naquele sofá, e ao longo do tempo perdeu as contas de quantos copos de whisky havia tomado. Só parou porque a ânsia de vômito que ele segurava desde o começo do evento começou a domina-lo, e precisou se afastar da multidão para voltar aos eixos. A casa contava com uma quantidade absurda de banheiros. O porão, que era para ser um cômodo relativamente menor, tinha pelo menos três banheiros pequenos espalhados entre suas extremidades. Kevin escolheu o mais afastado da multidão para passar um tempo até acalmar o estômago. Estava surpreso que ainda conseguia se manter de pé, mas percebeu o quanto o álcool estava afetando seu juízo quando, ao invés de bater na porta para conferir se havia alguém lá dentro, ele simplesmente a abriu com uma agressividade exarcebada.
Por ser extremamente pequeno, a porta não se abriu por completo. Bateu no corpo mole de alguém vomitando tudo o que havia bebido no vaso. Kevin só não esperava que esse alguém fosse o objeto de sua aflição desde que se trombaram por acidente na festa.
— Jean. — Chamou, o tom de voz em uma mistura de surpresa, curiosidade e talvez um pouco de preocupação
Jean até tentou responder, mas uma onda violenta de bile o calou. Kevin rapidamente entrou de forma definitiva no banheiro, fechando a porta para garantir mais privacidade. Agachou-se ao lado de Jean na intenção de ajuda-lo, mas ele ergueu uma mão entre eles, pedindo por espaço. Kevin obedeceu e manteve-se onde estava, servindo de apoio silencioso.
Passaram quase cinco minutos com Jean apenas vomitando, e a cada jato seu corpo parecia cada vez mais fraco, prestes a perder a consciência. Kevin ficou quieto ao seu lado, olhando por ele, sem intervir. Quando Jean finalmente parou, fechou a tampa do vaso e deu descarga numa lentidão impressionante, deixando claro o quão cansado e sem força seu corpo estava. Ele tentou se levantar duas vezes antes de desistir por completo e sentar-se com as costas apoiadas no vaso, suspirando.
— Kevin. — Sua voz estava fraca e rouca, quase um sussurro. Kevin não entenderia se não estivessem tão próximos. — Não queria que nosso segundo encontro fosse comigo botando tudo pra fora.
— Nem parece que o inexperiente em beber entre nós sou eu. — Jean deixou uma risada fraca escapar. Moveu seu corpo mole até que estivesse de frente para Kevin, que perdeu o rumo quando teve seu rosto segurado pela mão suada de Jean.
— Você é espertinho. — Se aproximou tanto que Kevin pôde sentir o calor de sua respiração próxima a sua bochecha. — Talvez não seja tão ingênuo quanto pensei.
— Por que você bebeu tanto assim? — Mudou de assunto, porque não sabia se conseguiria se manter calmo se continuassem naquela linha de raciocínio.
— Não foi porque eu quis. Digo, mais ou menos. — Gradualmente ele se afastou, mas não deixou de manter a mão no queixo de Kevin. — Meu ex terminou comigo e meus amigos me incentivaram a beber pra aliviar. Fui na deles. Quando percebi, já estava aqui, vomitando.
O rosto de Jean estava impassível, mas seus olhos pareciam anuviados, como se estivesse prestes a chorar. Ficaram em silêncio por um tempo, Kevin alternando entre encarar o azul claríssimo dos olhos alheios e o ossinho tão marcante em seu nariz, enquanto Jean olhava para Kevin como se ele fosse uma incógnita a ser resolvida, um enigma interessantíssimo que ele queria decifrar. Minutos se passaram, e ambos perderam a noção do tempo. De forma repentina, Jean ergueu sua mão até seus dedos encontrarem a área logo abaixo dos olhos de Kevin.
— Você tem olhos bonitos. — Acariciou a região com cuidado. — Você não é da nossa escola. Por que está aqui?
Não sabia se conseguia voltar a falar depois de ser elogiado daquele jeito. Jean estava mexendo com todos os seus sentidos, e Kevin queria associar isso ao quão bêbado estava. Mas sabia que não era bem assim. O suor na ponta de seus dedos intensificou o calor em seu rosto, que o fazia querer perder o controle. Queria e não queria se entregar à confusão que Jean estava causando em seu ser. Queria e não queria sentir mais daquele calor desconhecido. Queria. Não queria? Certamente, queria.
Mas podia? Podia mesmo desejar um homem?
— Um amigo me convidou. — Manter a voz calma foi quase impossível.
— Pra você beber pela primeira vez?
— Algo assim.
— E por que nunca tinha bebido antes? — Pela primeira vez na vida, Kevin hesitou em falar sobre sua religião. Nunca teve problemas em afirmar que era cristão, mas, agora, com Jean o encarando, não conseguia dizer de forma fluída.
— Eu sou cristão. Supostamente, eu não deveria beber.
Jean ergueu uma sobrancelha, mas sua expressão confusa logo se transformou em um sorriso convencido. Retirou os dedos de perto do olho de Kevin, voltando a segurar seu queixo, mas, dessa vez, o aperto era quase três vezes mais forte.
— Então eu estava certo em dizer que você é um puritano. — Seu sorriso cresceu, e ele puxava Kevin cada vez mais para perto. Não só seu rosto, como seu corpo. Se atraíam como um imã atraí metal. Quanto mais próximos ficavam, mais Kevin sentia sua sanidade se esvaindo. — O que é uma pena, porque eu quero muito pecar. E olha só quem está na minha frente neste exato momento.
— Jean — Sua voz estava trêmula, quase um sussurro, uma súplica. Ele só não sabia se implorava para que Jean o usasse e pecasse com ele o quanto quisesse ou se era para que ele não o testasse mais. — Jean.
— Estou bem aqui. — Sua voz suave era tudo o que Kevin escutava, além de seus batimentos desgovernados. — Me toque.
Jean guiou as mãos de Kevin até seu corpo, parando uma delas em seu peito, subindo a outra até seu pescoço. Kevin tocava sua pele extremamente suada de como se fosse se desmanchar sob o peso de seus dedos, mas com uma necessidade enorme, ao mesmo tempo. Era tão bom que não conseguiu ser cauteloso por muito tempo. O calor de Jean era algo que Kevin jamais sentira, porque, na verdade, nunca se permitiu sentir o calor de ninguém. Afundou os dedos no pescoço alheio, com tanta força que teve certeza de que deixaria marcas, mas Jean não pareceu se importar nem um pouco. Suas mãos faziam um trabalho árduo no cabelo de Kevin, forçando para diversas direções diferentes.
O cheiro de álcool que os dois exalavam, a essa altura, não incomodava nem um pouco. Kevin se agarrava a Jean como se sua vida dependesse disso e, quando sentiu o calor dos lábios alheios contra os seus, a última gota de discernimento e preocupação sumiu de vez. Achou que a boca de Jean estaria com o gosto horrível de vômito remanescente, mas, quando sentiu, parecia que ele sequer tinha bebido. Tudo o que conseguiu distinguir em meio aquele mix de sensações era a maciez de sua pele. O gosto era o de menos no momento; era muito melhor se concentrar nas mãos firmes dele agarrando e puxando seu cabelo, forçando para mais perto. Se beijavam tão rápido que Kevin não tinha espaço para pensar no que estava fazendo. Não queria pensar.
De alguma forma, Kevin conseguiu se aproximar ainda mais de Jean e, em dado momento, ele conseguia sentir praticamente todo o torso do rapaz. Seu corpo estava inteiramente suado, mas isso não incomodava em nada. A mão espalmada sobre o peito de Jean saiu dali para que pudessem ficar ainda mais perto, e Kevin procurava a barra da camisa de sua como um afogado procura terra firme. Estava quase encontrando quando o baque da porta batendo em suas costas o fez sair de seu estado de transe.
Kevin se inclinou para trás rapidamente, com uma expressão entre o medo e a decepção por terem sido interrompidos. Jean encarou o recém chegado com um olhar de tédio, mas seu rosto neutro logo se transformou em um leve sorriso.
— Não cansa de acabar com minha diversão, hein, Josten. — Neil estava parado, encostado no batente da porta com uma expressão calma demais para quem estava bebendo desde as nove da noite.
— Foi mal, não pensei que você estaria quase engolindo o amigo do meu namorado no chão do banheiro. — Deu de ombros. Kevin se levantou tão rápido que ficou tonto; precisou se apoiar no vaso para se manter de pé. — E você — Apontou para Kevin. — sei que não está acostumado com a ideia de liberdade, mas não é muito inteligente da sua parte pegar um aleatório morto de bêbado no banheiro da casa de uma pessoa que você não conhece.
— Desde quando você virou defensor da moral? — Jean perguntou, todo sarcástico.
— Eu a defendo quando envolve esse cara aí.
Kevin estava perdido no meio dos dois, meio sem saber o que fazer. Jean levantou lentamente, e precisou se apoiar no vaso e na pia para conseguir se manter de pé. Lavou a boca bem rapidamente e passou por Kevin e Neil para sair, mas não sem antes virar-se.
— Então a gente se vê por aí, Kevin.
E o deixou os dois para trás, Neil, impassível, mas mexendo a cabeça lentamente; e Kevin, boquiaberto, sentindo-se, de alguma forma, abandonado. Sua expressão desolada devia estar muito óbvia, porque Neil o encarou de forma significativa, mas sem tecer nenhum comentário. Kevin passou por ele para sair do banheiro, mas Neil o segurou antes que pudesse se afastar muito.
— Nós vamos embora daqui a pouco porque o Andrew não quer que o Aaron reclame dele chegando muito tarde. Bebe mais um pouco, vai. Não vou dedurar.
Kevin estreitou os olhos, entendendo aquilo como um consolo discreto por ter sido parcialmente deixado de lado por Jean. Concordou lentamente e se afastou para encher mais um copo de whisky. Não foi uma boa ideia. Assim que sentiu a ardência da bebida descer pela garganta, a tontura foi tanta que cambaleou e quase caiu para trás, esbarrando em um outro corpo bambo. Andrew queria ir embora às 2:00, o que significava que tinham, mais ou menos, mais 30 minutos de festa que foram gastos por Kevin em tentar manter toda aquela quantidade absurda de álcool dentro do corpo, sem vomitar as próprias tripas.
Neil foi busca-lo no porão novamente quando o tempo estipulado por Andrew acabou, e os três subiram para o andar principal. Andrew e Neil demoraram alguns minutos no interior da casa, conversando com os colegas da escola. Kevin esperou na entrada e, mesmo com as bebidas bagunçando seus sentidos, sabia, tinha toda consciência do mundo, que cometera os maiores pecados possíveis naquela noite. A cabeça doía só de pensar, então ele se forçou a esquecer de tudo isso e focar em conseguir chegar em casa sem desmaiar ou entrar em coma alcoólico.
Entre os três, Neil, de alguma forma, conseguiu ser o menos alcoolizado, então tomou a direção do carro. Deixou Kevin em casa e Andrew o ajudou a entrar escondido sem levantar suspeitas.
— Vê se toma um banho e tenta não morrer dentro do box. — Disse ele antes de partir com Neil.
Kevin seguiu o conselho e tomou um longo banho. Não sabia como os pais não haviam acordado com o barulho incessante do chuveiro, mas Kevin não vira nem sinal deles, o que significava que sua fuga havia sido bem sucedida. Eles achavam que o comportado filho e enteado deles estivera em casa durante toda a noite, dormindo tranquilamente. Cambaleante, ele não se deu o trabalho de vestir roupas elaboradas. Limitou-se a colocar uma calça de moletom e deitou.
Não conseguia pensar direito, mas sabia que, no dia seguinte, o gigante que enfrentaria seria maior do que qualquer outra coisa que já enfrentara.
