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Onsra

Summary:

Onsra (Boro, Índia)

"Amar pela última vez, com a dolorosa consciência de que pode não durar."

Quando tudo parece estar perdido, ainda pode existir esperança?

Notes:

A história foi escrita e ambientada antes do episódio 4 ir ao ar então contem várias divergências do cânon, eu até pensei em apagar e escrever tudo novamente mas até que gostei do que tinha escrito, eu demorei pra terminar a história após entrar e sair de várias crises depressivas mas acho que consegui chegar a um resultado até que agradável.

Faz um tempo que eu não escrevo absolutamente nada então a pontuação pode estar completamente errada e meio desconexa, isso combinado ao fato de que eu terminei de escrever essa história bêbada de sono.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

A leve brisa noturna acariciava sua pele, o que deveria ser motivo de conforto o levava a ter sentimentos conflitantes. Observar a paisagem ao seu redor era causa de angústia, tudo aquilo era apenas um lembrete da confusão na qual ele havia pulado de cabeça. Uma presença se fez conhecida interrompendo a sua espiral de pensamentos. Aguiar nem precisou olhar para trás pra identificar quem era a pessoa,surpreendentemente esse foi o gatilho necessário para que tudo se rompesse em caos. 

"SOMOS DESCARTÁVEIS, PORRA! SOMOS COMPLETAMENTE DESCARTÁVEIS"

A raiva o consumiu por inteiro, trazendo consigo uma onda de caos e devastação avassaladora, as finas barreiras construídas que abraçavam a falsa sensação de controle e calmaria ruíram. Por tão pouco tempo ele havia conseguido manter aquela fachada, e agora ela não era nada além de poeira e escombros. 

"Aguiar..." Uma mão foi estendida em sua direção mas parou no ar antes de atingir o objetivo, hesitando, como se não tivesse a certeza de que seria bem vinda no momento. 

"Não, Labirinto. Agora não." A mão foi abaixada novamente. 

"Você sabia disso né? Que não podíamos confiar neles. A ordem sempre falhou com pessoas como nós, eu sei que você sente isso também.

... 

"FALA ALGUMA COISA, CARALHO!" Raiva. As chamas ardiam intensamente como se alimentadas com líquido inflamável, Aguiar se sentia perto da combustão.

... 

"Você vai continuar sendo um covarde?." Desespero. Tão rápido quanto foi aceso o fogo era apagado por uma corrente de ar frio paralisante que penetrava seus ossos e endurecia sua carne. Era como estar se afogando, seus braços e pernas se debatendo tentando alcançar a superfície enquanto sentia seu ar se esvair e seu corpo afundar rapidamente com o esforço inútil de se impulsionar para cima. A onda de vertigem que o percorreu quase o fez desabar, ele lutou pra se manter firme mas o chão parecia não existir sobre seus pés. Antes que atingisse as nuvens flutuantes abaixo de si, braços firmes o mantiveram parado, lentamente levando dois corpos ao chão.

O silêncio que se seguiu pareceu mais confortável do que deveria ser, Aguiar ainda se recuperava da rápida torrente de emoções e Labirinto estava relutante em quebrar qualquer falsa sensação de normalidade que eles haviam construído.

"Galera? Tá tudo bem aí?" Uma voz abafada foi ouvida.

Tudo continuou no absoluto silêncio.

Com a falta de respostas, um corpo saiu da direção das escadas e a última pessoa que qualquer um dos dois gostariam de lidar naquele momento surgiu das sombras. Henri se apoiou numa estrutura precária de madeira não muito longe de onde eles se encontravam, ele sorriu abertamente parecendo divertido

"Os pombinhos estão com problemas no paraíso?" Seu sorriso se alargou ainda mais que o possível.

Tudo o que Aguiar desejava era acabar com aquele rosto com suas próprias mãos, mas antes que ele pudesse ter seus planos concretizados um braço envolveu seu torso e o prendeu no lugar. Ele havia se esquecido da situação em que se encontrava praticamente quase no colo de outro homem, era surpreendente que ser visto daquela maneira numa posição considerada tão íntima não o causava nenhum tipo de repulsa, ou vergonha. 

"Aguiar, para." 

Ele se virou para observar a pessoa que a poucos minutos não havia proferido nenhuma palavra quando confrontado, o olhar dirigido a ele fez com que o que ainda restava de adrenalina e luta pulsando em suas veias fosse completamente drenada. Seu corpo agora era uma marionete cujo as cordas haviam sido cortadas. 

"Não vale a pena." Foi dito como um sussurro ao vento. 

Observando a cena com um sorriso de ponta a ponta estava a causa do problema. Henri estava animado, finalmente havia conseguido um pouco de diversão naquele lugar e considerando o quão fácil era irritar o homem, ele poderia conseguir ainda mais. 

"Foi mal, não sabia que estava me metendo na DR do casal." 

O tom cínico do homem reacendeu uma minúscula fagulha das chamas de raiva que haviam sido recém apagadas. Aguiar poderia facilmente se libertar dos braços que ainda o seguravam firmemente no local e seguir com seu plano de acabar com a raça daquele indivíduo descarado, mas a sensação de conforto e aterramento que o abraço lhe proporcionava era maior do que qualquer perturbação pelas palavras do outro homem. 

"Henri." O aperto ao seu redor se tornou ainda mais firme, a possessividade do ato ficava cada vez mais evidente.

"Sou uma pessoa muito paciente, mas até mesmo eu tenho meus limites e você está cruzando muito perto dessa fronteira pra ficar confortável."As palavras foram ditas num tom firme e decisivo. Aguiar ficou surpreso com a quantidade de emoções que poderiam ser identificadas na voz do homem, seu autocontrole que vinha se deteriorando cada vez mais ao longo do dia parecia estar perto de ruir por completo. 

“Não tá mais aqui quem falou.” Henri ergueu os braços como sinal de rendição em mais um claro ato de zombaria, agora com um pequeno fundo de arrependimento verdadeiro. Ele se afastou lentamente em direção as escadas ainda com as mãos erguidas ao lado do corpo.

"Talvez vocês queiram baixar o tom, as paredes são finas e todo mundo pode ouvir." Por fim ele desapareceu escada abaixo com um resmungo emburrado. “As pessoas dessa casa são alérgicas a diversão, se continuar assim não precisa nem me proteger mais já que eu vou morrer de tédio.” 

A frustração evidente de Henri por não ter conseguido o que queria causou uma leve sensação de bem estar em Aguiar, mas a realidade da situação logo voltou para o assombrar, ele precisava conversar com alguém ou seria completamente engolido por suas próprias emoções.

"Fico pensando se antes de tudo disso eu possuía algum lugar no mundo.” Ele não obteve uma resposta verbal mas sentiu Labirinto assentir com a cabeça como se o encorajasse a continuar.

“Duvido muito que sim, porque eu posso ter perdido a memória mas não a consciência, só pessoas altruístas abandonariam tudo em prol de uma causa nobre e eu me sinto tudo menos altruísta.” Os pensamentos que eram martelados em sua cabeça desde o início de toda a confusão agora fluíam livremente para fora. 

"Provavelmente fomos as opções mais fáceis Aguiar, pessoas que não tinham nada a perder, mas talvez tínhamos alguma coisa a ganhar com esse acordo, sei lá, sem as nossas lembranças é difícil entender porque aceitaríamos tudo isso.” O homem parecia contemplativo e um pouco amargo, como se doesse fisicamente nele não ter as respostas para aquela situação. Aguiar se sentia completamente perdido.

"É egoísmo querer viver Labirinto?" A pergunta escondia uma súplica desesperada, um apelo por validação que pra ele naquele momento era tão necessária quanto a água. Ele morria de sede em mais de uma forma.

“Se é egoísmo então somos todos completamente egoístas, não existe uma única pessoa entre os seis que não faria de tudo pra continuar vivendo por mais um dia.” As palavras lhe trouxeram o conforto necessário que ele precisava naquele momento.

“Exceto nosso novo membro talvez, aquele lunático provavelmente se mataria só pelo prazer de saber que todos no grupo se tornariam desertores.” Labirinto concordou completamente com o outro homem, de todos os sacrifícios eles tinham que lidar logo com o amante do caos.

Eles ficaram mais uma vez em silêncio cada um tentando lidar com suas novas percepções. Aguiar foi o primeiro a quebrar.

“Nós fazemos parte do sacrifício, fomos deixados a nossa própria sorte e usados em um jogo distorcido de interesses. A coroa pertence ao rei e não a meros soldados, a vida e a morte não importam em uma guerra.” Eles provavelmente nem eram guerreiros de alto escalão, que marchavam na direção do campo de batalha em suas armaduras gloriosas preparados para dar seu sangue em favor do rei, mas sim os prisioneiros mandados para o campo como castigo de seus pecados. O pensamento não era nada surpreendente considerando como eles acabaram naquela situação.

Labirinto assentiu com a cabeça parecendo em conflito com as palavras do outro homem mas também mantendo suas próprias considerações, ele encarou Aguiar até que pareceu chegar a uma conclusão. 

"Esse receptáculo parece estar nos afetando mais do que o esperado. Desde que chegamos aqui é como se uma chave tivesse virado, o portal deve ter servido como uma espécie de espelho refletindo o que não conseguimos enxergar, pelo menos é o que se encaixa mais logicamente pra mim mas também há outras possibilidades.” Possibilidades que ele preferia nem começar a cogitar.

“Isso me faz pensar se eu sou tão diferente do dono desse corpo.” Ele ergueu os olhos e tudo que conseguiu encontrar foi um olhar de confusão direcionado a si, como se a outra pessoa tentasse decifrar completamente um significado oculto em suas palavras. Aguiar sorriu amargamente.

Eu também matei pessoas, o machado que carrego pode estar manchado com o sangue de inocentes e ainda assim eu o empunho com tanta glória, como se ele me pertencesse, como se eu fosse digno.” Ele voltou a encarar as próprias mãos, tendo medo do que encontraria nos olhos do outro homem se o olhasse mais a fundo.

"A verdadeira questão é se estamos vendo um reflexo limpo e claro em um espelho, ou a imagem distorcida que reflete em um lago. A pessoa que nós encara de volta pode não ser a mesma."

Uma mão deslizou lentamente pelo seu braço até repousar em cima da sua, a acariciando de maneira leve como se lhe oferecesse conforto.

"Eu não tenho certeza de mais nada Aguiar, eu nunca tive, a gente só finge que sabe de alguma coisa para que as pessoas acreditem nisso enquanto nós mesmos não temos essa fé. Se der certo nos tornamos heróis, mas se der errado...." Ele respirou fundo, a resposta que estava na ponta de sua língua era uma verdade dolorosa de expor. 

"Infelizmente sempre houve a possibilidade do fracasso.” Não era o esperado, nem o que eles gostariam que acontecesse, mas era algo a se considerar.

"Não pode dar errado, não temos essa escolha, são muitas vidas em jogo....a nossa vida está em jogo Labirinto." As palavras foram perdendo a força lentamente, o desespero se esvaindo e tomando seu lugar estava a aceitação silenciosa do que poderia ser uma luta já perdida, o entendimento de que a situação fugia do controle e que o xeque-mate poderia estar mais próximo do que o esperado. Eles não poderiam permitir que fosse o fim.

Pura adrenalina percorreu o corpo de Aguiar trazendo renovação e esperança. Ele não desistiria tão facilmente, se existia uma chance de vitória mesmo que fosse minúscula e quase insignificante, ele se apegaria a isso. Aguiar ergueu os olhos pra encarar completamente o homem que o segurava, ele precisava que o outro gravasse suas palavras na alma.

"A gente vai parar essa porra e vamos sair daqui juntos, custe o que custar. Essa é minha última promessa." Foi dito como um decreto final.

Antes mesmo de esperar qualquer reação vinda de Labirinto, num impulso completamente bêbado de sentimentos Aguiar ergueu a cabeça e colou sua boca na do outro homem. 

Labirinto abriu completamente os olhos em surpresa ao ato mas logo se recuperou do choque retribuindo o beijo com avidez, ele apoiou um das mãos no topo da coluna do homem e levou a outra lentamente até o seu pescoço sentindo os arrepios do corpo em suas mãos pelo caminho, ao chegar em seu destino final ele agarrou um punhado de seus cabelos e puxou firmemente, um aviso pra diminuir a velocidade do beijo, Aguiar gemeu entre os lábios.

"Interessante, ele poderia guardar aquela informação para mais tarde"

Aguiar pareceu entender a indireta e seu ritmo se tornou mais calmo e obediente, esperando a resposta da outra parte e não como o ritmo frenético de antes. Lábios se entrelaçaram como uma promessa divina ele sentiu que ali poderia alcançar o nirvana.

Algo havia mudado no ar os dois se aproximaram ainda mais como se tentassem se moldar em uma única alma. No fim o uso de palavras foi desnecessário, o corpo falava por si, a proximidade e o toque não deixava espaço para dúvidas. Existisse ou não para onde voltar, o lar deles era em qualquer lugar onde pudessem estar juntos.

 

Notes:

História também publicada no wattpad