Work Text:
Era como morrer afogado em um deserto.
Mais uma noite, mais uma tortura servil em suas costas curvadas ao seu mestre. Não tão metaforicamente, visto que Kalim havia tido uma tarde exaustiva de negócios, de idas e vindas pelos corredores extensos de seu palácio dourado, e agora Jamil devia curvar-se em cima do corpo bronzeado enquanto suas mãos desenhavam padrões meticulosos na pele banhada de óleo. De fato, os músculos estavam tensos, mas nada que fosse tão ruim quanto kalim fazia parecer.
Mesmo adulto, ele ainda continuava sendo um menino mimado de berço dourado.
Nada mais. Nada menos.
As costas nuas à luz das velas aromáticas refletia a tez iluminação do quarto, e detinha toda a concentração de jamil. Nada daquilo era novidade para ele: eram anos de devoção ao outrora garoto tolo, que agora era só um homem tolo. Nenhuma grande mudança. Nem mesmo jamil havia mudado tanto, e ele tinha certeza disso quando sentia seus dedos arderem toda vez que tocava kalim, e então tinha que se repreender duramente porque aquele calor era tão perigoso quanto parecia.
O sol ainda queimava a areia do deserto, tudo continuava o mesmo e era quase impossível viver dentro de sua cabeça. Anos de silêncio para um homem condenado era uma ótima sentença de morte, mas o sol ainda brilhava.
Um zumbido satisfeito de Kalim foi o suficiente para que Jamil acordasse de seu devaneio, e se afastasse do outro, dando por suficiente a massagem do dia. Retirou os joelhos da cama desnecessariamente grande para um só, mas o quarto nunca podia permanecer silencioso.
– Mas já? Estava tão bom, Jamil! – Agora os olhos vermelhos o encaravam com manha, e seus olhos reviraram no automático.
– Não posso ficar a noite inteira grudado nas suas costas, Kalim. Tenho mais o que fazer.
– O que importa mais do que garantir a saúde do seu mestre? – Assoprou com um sorriso esperto e um movimento rápido para sentar.
– Pelo visto você já está ótimo. – Respondeu seco e limpou as mãos numa toalha – E você nem estava sentindo tanta dor assim, você só quer que eu faça massagem em você toda noite antes de dormir. Isso é patético.
– Ei! Minhas costas realmente doeram hoje e agora eu estou novinho em folha graças a você, Jamil! – Continuou sorrindo apesar da resposta atravessada – É por você ser tão bom que eu sempre quero mais! Eu me sinto tão relaxado quando você me toca…
As orelhas de Jamil queimam com a frase facilmente mal-interpretada se fosse ouvida por qualquer servo que passasse por perto naquele momento. As paredes tinham ouvidos nada agradáveis naquele lugar, e eram ouvidos que fácil se desdobrariam em fofocas até o ouvido de quem poderia acabar com a sua vida em uma palavra. Mas, mais uma vez, Kalim nunca entendia o peso de suas palavras ou de nada ao seu redor que não fosse a si próprio. Ou talvez nem isso.
– Você já parou para se ouvir? – Apertou a ponte do nariz e bufou – Que seja, já está tarde e você tem que dormir para a festa de amanhã. O seu pai deve pedir para que eu o acorde cedo para começar a se preparar.
Kalim assentiu algumas vezes, subitamente sério. Jamil estranhou a reação e sua língua coçou para perguntar o que havia de errado, ou provocá-lo maldosamente sobre a sua velha mania de fugir das responsabilidades e lembrá-lo que ele não era mais um pirralho; mas, descartando tudo, apenas seguiu para a porta de madeira de detalhes dourados. Um último olhar foi lançado por cima do ombro antes que ele saísse do quarto e o ar mais uma vez se tornasse puro para si.
Kalim era a corda no seu pescoço, mas já estava lá a tanto tempo que era um adorno.
Jamil não conseguia se desfazer.
As manhãs árabes eram tão quentes como qualquer um poderia imaginar e, em dias de festa, enchiam Jamil de embriaguez. Desde o horário que estava acordado – após poucas e péssimas três horas de sono – ostentava a sua estimada veste negra-escarlate de feiticeiro, mesmo que não fosse nada mais do que um servo vitalício ali, e o calor que fazia sob aqueles tecidos pesados estava deixando sua mente enlouquecida como em um feitiço.
Definitivamente isso não estava relacionado a ser ele quem estava organizando a Festa de Pretendentes para Kalim.
E Kalim, por sua vez, também não parecia tão animado, embora fosse um grande festeiro. O calor parecia estar afetando também o outro, que trajava suas vestes brancas e extravagantes, e estava sentado num sofá vermelho com óbvio e incomum tédio. Ele nem mesmo reagia às comidas que passava diante dele com um cheiro delicioso. Não, ele apenas recusava com um gesto contido.
Jamil queria poder passar por cima dessa observação como se fosse uma descartável, mas, perspicaz como era, ele bem sabia que um Kalim desanimado faria todo seu esforço de um dia sem dormir ir por água abaixo. Mas o que deve ter deixado ele assim? Não era de agora, e sim da noite anterior, após Jamil mencionar a festa. Obviamente ele já havia entendido que era relacionado a isso, porém o que nisso tudo estava o incomodando?
Não era uma surpresa que ele teria que se casar em algum momento, e como Kalim não se envolveu com nenhuma garota até seus atuais vinte e dois anos, seu pai arrumaria uma, tão simplesmente quanto só um rico poderia fazer. Ao ver de Jamil isso era tão obsoleto e fútil quanto achar que filho resolve problemas conjugais, mas de nada importava a sua opinião; ele apenas devia seu serviço.
Portanto, caminhou até Kalim com sua melhor expressão naquele dia tão desgastante.
– Kalim? Preciso de você um minuto.
Kalim o olhou assim que ouviu seu nome, e sorriu de forma que fez o coração de Jamil achar que parar estava tudo bem. Não me olhe desse jeito, era o que a mente do servo implorava. Ele não se importaria de ajoelhar pela segunda vez na sua vida a Kalim se ele fosse parar de olhá-lo como se ele fosse…
… como se ele fosse alguém.
– Claro, Jamil! Estou fazendo nada mesmo.
O homem pulou do sofá e ressaltou a mínima diferença de altura entre ambos. Kalim havia crescido por volta de uns cinco centímetros dos seus dezessete aos vinte e um, enquanto Jamil havia permanecido o mesmo. Agora os dois podiam se olhar nos olhos sem esforços, de igual para igual, o que era cômico, pois não havia qualquer equidade entre eles.
Jamil os conduziu até o corredor vazio mais próximo, e pediu para que Kalim sentasse no baixo muro. Ele permaneceu de pé, com um olhar exigente sobre o rosto alheio.
– Qual é o seu problema com a festa?
Kalim arregalou os olhos antes, e depois o chão parecia ser a resposta para tudo. Não dava para ouvir nada além das vozes dos servos que organizavam a festa, mas até isso parecia um pouco abafado para Jamil. Por que Kalim só não cuspia o que pensava? Não é como se ele corresse risco de morrer por dizer o que quisesse; afinal, era apenas Jamil que ouviria e ele no máximo brigaria com ele. Nada mais poderia ser feito sobre isso.
– Eu não quero uma festa. – Kalim sussurrou e olhou para Jamil. – Eu amo festas, demais, mas quando elas são feitas pra se divertir e não para me arrumar uma esposa! Eu… eu não quero uma esposa nesse momento.
– Não é você quem decide, Kalim, é o seu pai e você só deve obedecer. – Cruzou os braços e suspirou – É tradição ter uma parceira definida desde jovem, mas como você nunca namorou nem nada, o seu pai está tendo que fazer essa papagaiada toda.
– Mas por que tem que ser agora? E por que eu tenho que casar? Eu não quero passar a minha vida com alguém que eu não amo!
– Será que você pode parar de falar como se não soubesse há anos que daria nisso?! – O estresse do feiticeiro começou a ser visível – As regras são assim, Kalim, não tem o que fazer. Comporte-se como um homem hoje e não como um garoto, e olhe para a mulher que pareça ser a que vai te conquistar.
– Mulher alguma vai me conquistar um dia, Jamil. – Kalim disse num tom sério o bastante para arrepiar a espinha do outro – Ainda mais em um casamento arranjado. Eu só queria viver a minha vida aproveitando o máximo que eu posso com meus irmãos, com você…
– Não me inclua nos seus planos, nós não somos amigos. – O estômago de Jamil doeu ao repetir as mesmas palavras que havia dito naquele maldito incidente, e percebeu tarde demais a indelicadeza – Não… não faça isso.
A expressão de Kalim era translúcida, sincera como sempre, e agora não mostrava nada mais do que a mágoa que ele sentia. Não era só mágoa, era dor, era a realidade; parecia que finalmente o lençol na frente da janela havia caído e ele estava encarando através de vidros quebrados como tudo era. E o mundo era devastador para quem não podia viver, era humilhante para quem não podia falar. Esse era o mundo de Jamil.
Será que Kalim conseguia notar agora?
– Jamil, você sabe que eu… – Kalim tentou tocar o braço de Jamil, mas desistiu no meio – Eu nunca te vi como meu servo. Você é o meu… – A voz insistente sumiu – …
– Servo desde que eu nasci até morrer.
Completou friamente, encarando Kalim com a mesma dureza que o olhavam. Não era asno para não reconhecer que estava descontando toda sua raiva em Kalim mais uma vez sobre algo que ele não tinha diretamente culpa, mas ele mais uma vez ignorar o contexto que os dois de fato viviam para incluí-lo em planos de vida que ele nunca poderia estar presente era irritante. Era excruciante. Era fácil para ele planejar tudo isso e deduzir que eram amigos porque Kalim era privilegiado.
Não era ele quem estava acorrentado à uma vida e sentimentos desprezíveis como Jamil.
– Voltarei a fazer o que estava fazendo. – Anunciou, dando as costas para Kalim, mas parando no meio do caminho – Faça o que eu disse e quem sabe assim você pode se divertir até nessa festa. Você é bom nisso.
Em fingir que problemas não existem.
Jamil fez o trajeto até a sala principal, mas desviou para o banheiro conforme a súbita tremedeira nas suas mãos aumentavam. Assim que fechou a porta, seu corpo desmoronou no chão e as lágrimas patéticas escorreram pelo seu rosto. Há quantos anos eu não choro?, se perguntou, deixando seu pranto rolar em silêncio. Parecia que ele havia tido a vista de um oásis e, realmente, nada mais era do que uma ilusão na areia.
Como ele queria poder se enganar… Kalim e suas ideias só doíam porque Jamil o queria. Ele queria sentir-se uma lâmpada perdida no deserto à espera de seu dono; queria o direito de se sentir assim. Kalim era a sua maior vontade e inveja, seu maior amor e ódio.
Ele o queria, queria ele… e isso ia matá-lo.
As noites já eram frias, em disparidade com os dias. No entanto, a festa era feita dentro do Palácio, logo, estava agradável o suficiente para as mulheres convidadas vestirem suas melhores roupas, as que melhor acentuavam as suas qualidades. O salão estava colorido, tanto como de costume e tanto pelas cores de tecidos caros e finos que as mulheres usavam como forma de exibir o quanto de poder tinha para assim agradar a família Al-Asim. A mais atraente e com mais tributos ganharia.
Era assim que o mundo girava.
Não poder sair do lado de Kalim durante toda a festa era uma tortura costumeira; afinal, como seu servo pessoal e defensor, Jamil deveria estar atento a qualquer ameaça para com a vida de seu mestre, e isso incluía olhar rigidamente para cada pessoa no recinto e até mesmo provar bebidas e comidas antes dele, caso fossem envenenadas. Não eram as partes mais desagradáveis, se fosse para classificar algo. Jamil diria que a pior parte era a que ele estava passando no momento:
Uma garota estava flertando com Kalim sem escrúpulos, oferecida, claramente tendo puro e cristalino desejo em suas posses e nada mais do que isso. Ela mal o conhecia, errou o seu primeiro nome, inclusive, e já falava aos ventos sobre como ele era adorável e um homem perfeito como nenhum? Essa garota dissimulada não sabia como Kalim era um folgado, mimado e insuportável, mal sabia colocar a própria comida no prato.
Nenhuma mulher aturaria um mês com ele, e isso fez Jamil rir com deboche, mas discreto.
– Soube que vocês tem um jardim lindo nos fundos, é verdade? – A voz afinada fazia os ouvidos de Jamil doer de tão forçada.
– Ah, sim, nós temos! É muito bonito. – Kalim sorriu um pouco, parecendo desconfiado.
– Eu adoraria ver, sabe… poderíamos ir.
Jamil arqueou a sobrancelha e olhou para a face de Kalim, que se contorcia em uma bela careta. Estava para nascer alguém mais genuíno do que ele, e na ocasião, isso era um grande defeito dele. Jamil pensou em tomar a frente da situação, mas não podia dizer nada como um servo. Ele apenas poderia observar e intervir apenas se fosse uma coação.
– Estou proibido de sair daqui por hoje! Jamil me mata se eu tentar escapulir! – Kalim respondeu animado, e deixou a menina com uma interrogação na cabeça.
– Quem é Jamil?
– Ele!
Kalim apontou para o homem ao seu lado, que já sentia uma veia pulsando na testa. O que ele tinha a ver com isso? Respirou fundo e olhou com a mesma face azeda de sempre para o herdeiro Al-Asim, que apenas sorria.
– Quando eu disse que ligo pra isso?
– Você liga! Ou não estaria com essa cara de quem chupou limão!
– Essa é a minha cara, Kalim! – Esbravejou e colocou a mão na testa – Se comporte!
– Senhorita, não ligue para o temperamento do meu… – Kalim engole seco por um breve momento, mas seu sorriso prevalece – Bem, eu vou me retirar um pouco para acertar um assunto. Nos vemos mais tarde!
Kalim pega Jamil pelo pulso e o arrasta através dos convidados com maestria.
– Que forma educada de dispensar a sua pretendente. – Jamil se desprende dele ao chegar num canto mais reservado, sem mulheres – Nesse ritmo você não vai ter nada hoje além de uma bronca do seu pai. Não se sentiu atraído por nenhuma delas?
– Eu preciso responder? – Kalim agora é o que revira os olhos e responde torto.
– Kalim, eu sei que não se pode forçar uma pessoa a se atrair, mas-
– Jamil, eu gosto de homens! – Kalim disse um tanto alto demais, e para sua sorte, a música estava tão alta quanto as conversas alheias, então ninguém estava ouvindo-os.
Ou vendo-os, pois a cara de Jamil renderia uma semana de risada no Palácio.
Seus olhos naturalmente esticados e afiados estavam como bolas de cristais e seu queixo caído. Não era exagero dizer que ele estava em choque com a confissão, mas não por falta de desconfiança; Jamil já esperava que Kalim tivesse certo interesse por homens, afinal, estudaram juntos em uma escola majoritariamente homoafetiva, só não estava esperando que ele fosse confessar de forma tão simplista e em um momento tão ruim.
Ambos ficaram em silêncio, até o próprio Kalim cortá-lo com uma risada.
– Não me olhe assim, você não achava que eu era hétero, né? – Sua risada só aumentava e Jamil não sabia se ficava com vergonha ou raiva de sua reação.
– Eu não achava. – Conseguiu falar, e pela quinta vez na noite, esfregou a testa – Eu já sabia que você gostava de homens também, você não é bom escondendo seus segredos e muito menos os seus amiguinhos, sabe.
– Não era bem um segredo. – Pontuou com um sorrisinho – Por mais que eu nunca tenha ficado com nenhum colega nosso.
– Não vamos discutir isso agora, sério.
Jamil não conseguia mais pensar em nada; uma satisfação cega e egoísta devorava os seus neurônios e cuspia com escárnio. Era hilário da sua parte sentir-se satisfeito, como se isso lhe desse qualquer chance. Ainda assim, ele sentia. Nessas horas que Jamil via o quão ser humano ainda era apesar da cela na qual estava preso. E Kalim sempre era aquele que o mostrava o quanto ele ainda podia sentir, fosse bem ou mal, ele era como uma luz que o guiava para algum lugar.
Era como o sol refletindo na areia.
– Jamil, você poderia relaxar um pouco. Não precisa ficar tão tenso hoje, isso aqui não é nada demais no fim. – Kalim agora tinha só um pequeno sorriso triste como feição – Eu não vou cortejar nenhuma moça. Sinto muito por todo o trabalho que você teve com isso.
Essa era uma das poucas vezes que Kalim havia tido tato sobre o esforço de Jamil nos eventos do Palácio, ou de forma geral, em qualquer coisa que Jamil devia fazer por ele. Não obstante, ele ainda assim continuava isento da verdadeira tensão do servo, que não era todo seu trabalho; antes fosse, aliás, seria menos dolorido para seus músculos e o seu coração que se arrastava em cada batida ansiosa pelo resultado dessa Festa. Ele não queria ver Kalim esposando uma mulher, ou qualquer pessoa que fosse; era lancinante.
E ele não podia fazer nada sobre isso.
– Não se preocupe comigo, estúpido. – Disse um tanto rouco, mas limpou a garganta – O problema vai ser seu, não meu. O seu pai não vai ficar satisfeito com os gastos à toa.
Kalim nada mais lhe dá do que um gesto de desinteresse com os ombros. Ricos não se importavam com o tanto de dinheiro que era gasto, de toda forma, sempre tinha mais de onde veio. O mais alto abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido por uma voz que não esperava ouvir naquele dia e que trazia um arrepio extremamente desgostoso.
– Está se escondendo das mulheres, Kalim?
– Leona!
O herdeiro Al-Asim correu na direção do outro e o abraçou com força, com sua corriqueira amabilidade e evidente saudades do amigo de infância e colégio. Leona deu dois tapas em suas costas e tentou se separar, mas o outro continuou pendurado em seu pescoço falando coisas que Jamil não conseguia ouvir por algum motivo. Seu sangue parecia estar borbulhando e quase evaporando através de sua pele só de ver o Príncipe da Savana em todo seu esplendor adulto e quase erótico com as poucas e chiques roupas.
Nada alcançava seus ouvidos além das vozes sussurradas em sua cabeça como hipnose, e que o mandavam tirar Kalim de perto do outro o mais rápido possível e levar para longe.
–... o Jamil não aprovou nenhuma das moças que me cortejaram, então nos afastamos um pouco para debater sobre. – Jamil teve sua atenção finalmente chamada ao ouvir seu nome ser citado na conversa alheia.
– E não é como se você mesmo fosse gostar de alguma delas, né. – Leona sorriu com sua costumeira zombaria – E acho que o seu pai já notou que você joga no outro time.
– Como assim? – Jamil pergunta em uma só voz com Kalim, se metendo no diálogo – O Kalim nunca comentou sobre isso por aqui, a não ser que tenha vazado da escola.
– Logo você sendo idiota, Viper? Está escrito na cara do Kalim o que ele gosta. – Leona trocou o peso de um pé pro outro – Desde pequeno ele recusava as meninas e só ficava com nós dois, e cresceu no seu pé, tinha que ter alguma coisa errada com o herdeiro.
– Mas isso é normal, vocês são meus amigos! Como você sabe que meu pai notou? – Kalim interrogou o Príncipe com evidente choque, se aproximando mais de Jamil como se ele fosse protegê-lo da resposta por vir.
Como se Jamil pudesse fazer algo.
– Seu pai acha uma grande ideia uma união entre nós dois. – Leona sorri malicioso e os dois ouvintes congelam evidentemente – Ele sempre achou, por isso me manteve perto.
Então a intuição de Jamil não estava errada em momento algum. Por partes, era sim a sua intuição que apontou por uma vida inteira a estranheza dos laços entre a Savana e a família Al-Asim, e por outro lado… era o seu puro ciúmes, que também estava certo. Não era genuína a união entre ambos os herdeiros desde o começo: o pai de Kalim sempre teve Leona Kingscholar como uma segunda opção caso seu filho não gostasse de mulheres. Ele não ganharia herdeiros, mas ainda assim ganharia muito dinheiro e influência com isso.
Jamil sentia-se tão enjoado como quem havia engolido algo estragado e ácido.
– Eu… não sabia. – Kalim respondeu com evidente desapontamento – Isso não é justo comigo nem com você! O que tem na cabeça dele? Não vou me casar com quem não amo!
– Dinheiro, Kalim. Isso é o que se passa na cabeça do seu pai e da sua família desde o começo. – O servo respondeu seco, sem olhar para seu mestre, mantendo os olhos no terceiro homem dali, que sorria afiado – Foi uma jogada esperta, mas já esperada.
– Seu servo entende como é, Kalim. Você deveria prestar mais atenção em como ele age, muitas coisas farão sentido. – Leona tinha um ‘quê’ de provocação na voz.
Aquele ferino sempre conseguia ver o que Jamil lutava para esconder, e tal sempre o enchia de uma irritação e medo incontrolável.
– Não se refira a Jamil assim de novo.
Tanto Jamil quanto Leona desviaram o olhar para o menor, que estava sério e muito infeliz com a situação que se desenrolava diante dos seus olhos. Por um segundo, Jamil queria poder ouvir seus pensamentos para ver além do que ele já mostrava pelos seus olhos vermelhos: irritação, seriedade, tristeza; o que mais Kalim poderia estar sentindo? Como a sua cabeça planejava se livrar de tudo isso?
Ou ele se deixaria tornar escravo do destino imposto a ele e experimentaria do veneno que derretia as papilas da família Viper?
– Que seja, isso não muda nada. – O Príncipe desdenhou e gesticulou para Kalim – Mas acho melhor nós termos uma conversa a sós sobre algumas coisas, Kalim. Podemos ir dançar enquanto isso, é melhor do que ficar aqui escondido com o Viper. Não sei se vai cair muito bem, se é que me entende.
Kalim fica um pouco corado e concorda com o amigo, que tinha um certo lampejo de seriedade em sua solicitação.
– Jamil, se eu precisar de você, eu te chamo, tudo bem? – Kalim virou para ele e sorriu de canto – Queria muito poder dançar com você também, mas quem sabe numa próxima.
Numa próxima vida, talvez, Jamil queria dar como resposta, mas só assentiu enquanto olhava irritado para um Leona risonho. Era fácil estar na posição dele, assistindo Jamil rodar e rodar em volta de si próprio em busca de uma fuga assim como um grande felino.
Kalim e Leona foram para a pista de dança, e uma dança lenta se desenrolou entre os dois. Leona conduzia Kalim com a maestria de um Príncipe, mesmo sendo um preguiçoso nato e verdadeiro vagabundo. Ele sussurrava algo no ouvido de Kalim, que só concordava e dizia poucas palavras com as bochechas infladas. Parecia uma criança indignada com algo que não poderia ter. Jamil apertou os dedos em punhos e por fim bufou, decidindo que não veria mais nada daquilo.
Sentia-se exausto. Andar na areia quente era desgastante e queimava os seus pés; ele aos poucos perderia a habilidade de andar. O sol nunca fora tão violento, cegando-o. Ele não podia seguir o sol, ele deveria se recolher. Mas não tinha oásis naquele deserto infinito.
Ele morreria desejando algo inalcançável.
Estava vagando em seus pensamentos tolos e mórbidos quando sentiu uma mão quente na sua. Olhou espantado para os olhos carmesins que tanto iluminavam suas noites acordado, e deixou escapar um suspiro. Ele sentia sua guarda abaixando sem mandatos.
– Já parou de dançar? – Perguntou em retórica, procurando por Leona pelos cantos.
– Sim, Leona só queria conversar um pouco comigo. – Kalim sorriu sem graça – Ele disse que já ia embora porque estava com sono. Isso me lembrou das reuniões do colégio que ele só levantava e ia embora bocejando.
– E o que ele queria falar? – Ignorou para a sua própria sanidade o carinho nas palavras saudosas de Kalim.
– Nada demais! – O herdeiro abanou as mãos e sorriu mais abertamente – Era sobre tudo isso do meu pai e alianças, você sabe. Leona disse que “não fode com esses planos”. Acho que ele já está apaixonado por alguém, mas mesmo se não estivesse, a gente nunca teria alguma coisa além de amizade. Acho que eu vejo ele como uma espécie de irmão.
– Como se isso fosse contar alguma coisa para o seu pai. – Jamil era realista e imediato, gostava de debater sobre tudo assim que acontecia e não empurrar para depois – Se for para te unir com alguém, ele vai, não importa se você gosta ou não, Kalim.
– Por que você é tão pessimista, Jamil?
– Eu sou realista, Kalim.
– Não, você não é! Eu vou conversar com o meu pai e tentar resolver isso com um acordo que agrade os dois! – Kalim teimou e fez a sua birra de uma vida inteira – Você fala como se quisesse me ver logo infeliz em um casamento! Eu não consigo te entender!
O servo não soube por um segundo distinguir se queria muito socar a cara de seu mestre por tanta estupidez ou arrastá-lo para uma sala vazia e fodê-lo até ele entender que tudo o que ele dizia era justamente oposto do que ele queria. Jamil passou anos desejando a infelicidade de Kalim e até sua morte, porém não era mais o caso; talvez nunca tenha sido de fato e sua imaturidade não o permitia ver que o herdeiro, apesar de mimado e alheio, não tinha culpa direta no tipo de relação que ambos tinham. O sistema social era cruel e Jamil teve o azar de ser o desfavorecido.
E ele ainda assim não deseja ser rico ou morar naquele Palácio. Ele só queria ser livre.
– Quando eu disse que queria te ver infeliz em um casamento? Kalim, queira você ou não, eu só sigo ordens. – Jamil respondeu um tanto seco – Tudo pra você sempre parece ser fácil, ou é fácil. Você que não enxerga que os nossos pontos de vista são diferentes e sempre vão ser, eu só quero que você veja que nem sempre as coisas são simples. É esse o meu dever como seu servo pessoal.
– Foda-se o seu dever como servo, Jamil! Eu não poderia ligar menos agora! – Kalim disse e segurou Jamil pelo colarinho, aproximando seus corpos – Eu quero saber o que você acha sobre tudo isso, você, Jamil Viper, não o meu servo. Você nunca foi isso pra mim! E eu já sei o que você vai dizer que mesmo assim você ainda é isso, eu sei, eu não sou tão burro, mas eu nunca te vi de forma tão ruim e maldita assim, Jamil. Você entende?
Entretanto, Jamil ainda o olhava com choque. Suas mãos seguravam a de Kalim por reflexo, pois estava pronto para brigar ou tirá-lo de perto, e no fim não fez um nem outro. Apenas parou com as palavras de Kalim e a ousadia dele em proferir tudo aquilo sem pensar em como Jamil receberia, ou como seria se um convidado qualquer ouvisse. Um mestre e um servo jamais deveriam se aproximar tanto quanto eles dois já foram permitidos estar perto, e Jamil não queria ter o gosto do que seria ter mais ainda de Kalim.
Ele não sabe o que faria se tivesse só um pouco mais do homem à sua frente.
– Eu odeio quando falam de pretendente para você. – Jamil sussurra, e Kalim o ouviu muito bem – Eu odeio ter que concordar com tudo, eu odeio fingir que estou bem com isso.
Kalim sorriu abertamente, descendo o olhar para a própria mão e a brecha de pele que o seu puxão deixava exposto.
– Obrigado por ser sincero. – Kalim responde no mesmo tom e solta Jamil, dando dois passos para trás – Eu estou cansado, vou só beber alguma coisa e me retirar.
– Já?
– Não tenho o que fazer aqui.
Enquanto um suspirava em derrota, o outro pegava uma bebida aleatória que um homem passou o oferecendo com cortesia. Seus lábios tocaram na borda da taça quando ele e Jamil lembraram ao mesmo tempo da regra dada a ambos: Jamil sempre seria o primeiro a beber ou comer qualquer coisa dada a Kalim. Um sorrisinho cúmplice cresceu nos lábios de Kalim quando seus olhos acharam o de Jamil ao lembrar do que deveria ser feito, antes de estender o copo de vidro longo.
– Não gosto dessa regra, eu tenho medo de um dia colocarem algo letal e te envenenar. – Ele disse, mas não tentou fazer diferente, pois até ele sabia que quem pagaria pelo ato de desobedecer era Jamil.
– Meu organismo é pronto pra isso. – Jamil bebericou a bebida e demorou um pouco para saboreá-la. – Tem alguma coisa aqui.
– O quê?! Você está bem?! – Kalim logo pulou na sua frente, segurando seu rosto como se ele fosse se transformar em um sapo – Jamil! Me responda! O que tem aí?
– Eu não sei, seu idiota! A gente tem que achar o homem que te deu isso, ele queria te fazer mal, não a mim! – Jamil bateu nas mãos dele e desviou de seu corpo.
Ele estava mergulhando entre os convidados quando sua pressão desmoronou e ele parou rápido o suficiente para desmaiar nos braços de alguém que gritava o seu nome com certo desespero clemente.
Ninguém nunca tinha se importado assim com ele.
Os tecidos finos sob sua cabeça não eram os de sua cama, tampouco de qualquer veste que ele possuía. E o cheiro que emanava da quentura que o embalava era familiar, mas nada que era dele. O cheiro de tâmara com notas de baunilha só poderia ser de uma pessoa em sua vida, e a constatação de tudo e o ganho de consciência por último o fez abrir os olhos com certa lentidão.
Aquele não era o seu quarto.
Mãos macias faziam carinho na sua cabeça, e esta estava repousando nas coxas de Kalim, que estava sentado na cama com as pernas esticadas no colchão. Jamil aos poucos entendeu a posição na qual estava deitado, e sentiu uma vergonha enorme ao notar que estava abraçado nas pernas do outro homem como se fosse um travesseiro.
– Acordou? – A voz de Kalim era receosa, mas foi atropelada por um suspiro quando Jamil levantou o corpo – Você continua tendo espasmo quando acorda, isso é fofo.
Jamil o olha com acidez.
– Por que você repara nessas coisas inúteis?
– A gente dormia abraçado quando éramos mais novos e eu acordava junto com você por causa disso. – Kalim riu enquanto Jamil se sentava na cama – Eu me lembrei agora que você tremeu e estava certo, você ainda tem espasmo quando acorda. Você não muda…
– Que papo idiota. – Jamil nota que seus fios estão semi-soltos, e logo os enrola no rabo de cavalo de sempre – Aparentemente era só um sonífero na bebida, mas ainda tenho que achar quem fez isso e saber o que ele queria.
– Depois nos preocupamos com isso, Jamil, você mal acordou. – O dono do quarto se aproximou dele e tocou o rosto rígido – Você pode dormir mais, eu já resolvi tudo sobre a festa e pedi para tomar conta de você.
– O quê?!
Jamil quase cuspiu com essa besteira. Em que mundo Kalim tomaria conta dele? Ele não sabia nem tomar conta de si! Ademais, era risível de tão absurdo a posição que Kalim estava se sujeitando; um mestre cuidar de um servo não era necessário, o próprio Jamil podia fazer isso sozinho. Como ele desmaiou e provavelmente viram que era só isso, colocá-lo em seu quarto seria o bastante. Não era como se fosse a primeira vez.
– Você falou exatamente isso pro seu pai?
– Falei e ele deixou. Qual é o problema? – Os olhos de Kalim o dariam pena de tão bobos que pareciam ser, caso não estivesse irritado.
– Não tinha necessidade disso, Kalim! Você não sabe nem tomar conta de você, estúpido!
– Eu sei sim, tá bom? E eu cuidei de você o tempo todo que você dormiu, até tirei aquelas roupas pesadas que você estava usando! O seu corpo estava queimando de calor, e o seu quarto não tem ar-condicionado, eu te trouxe para o meu! Eu não te deixaria largado lá! – Exclamou afobado, mas ainda com a mão na bochecha de Jamil – Por que você não baixa um pouco a sua guarda ao menos uma vez?
– É incrível como falar com você é o mesmo que falar com as paredes. – Jamil balançou a cabeça e desviou do toque – Você é ótimo em bagunçar tudo que eu arrumo.
– Ou talvez você não esteja sendo direto e sincero o suficiente comigo. – Kalim rebateu e segurou Jamil pelo pulso, o impedindo de se mover para longe – Você sabe que eu não sou bom entendendo entrelinhas, Jamil, e você vive se escondendo nelas…
– Porra, o que você quer ouvir de mim, seu grande idiota? Eu não posso falar tudo o que eu penso igual um burro feito você! – Jamil finalmente explodiu, arrancando o pulso da mão alheia – Você quer que eu fale o quão perigoso é você ficar perto assim de mim? No quanto isso pode dar no que falar? Ou que eu nunca vou estar à sua altura e isso me deixa mal pra caralho porque eu queria… eu…
– Você é meu amigo e todo mundo sabe, não tem o que ser dito por ninguém, Jamil.
Pegando todo seu autocontrole de anos e o jogando fora, Jamil derrubou o corpo de Kalim na cama e o segurou pelo pescoço, sem tanta força, mas usando o bastante para imobilizar o seu corpo inteiro. Os olhos vermelhos se arregalaram e a respiração ficou presa, porém nada mais foi feito. Kalim ficou parado olhando para um Jamil furioso e que poderia ser uma ameaça para ele facilmente. Mas ele parecia nem mesmo cogitar isso.
Mesmo depois de tudo, até onde ia essa cega confiança que Kalim depositava nele?
– Eu não sou seu amigo. – Disse entredentes e apertou mais os dedos no pescoço – Eu não quero ser o seu amigo. Eu te…
– Você me odeia. – Kalim conclui a frase com voz monótona e um olhar fixo em Jamil – Eu acho que já entendi isso há anos, mas eu não sinto o mesmo por você. Eu achei que tinha chances de isso ter mudado, na verdade… Talvez você tenha razão, eu sou idiota demais para alguém da minha idade. Eu tenho tudo na mão e você pensa por mim o tempo todo, deve ser realmente exaustivo viver assim…
E era malditamente exaustivo, mas não era isso que Jamil queria dizer. Não era isso.
– E você não faz nada pra você, mal vê o seu pai e sua irmã, eu realmente odiaria o meu mestre se estivesse no seu lugar. Eu sempre te entendi, Jamil, mas fui infantil em pensar que amizade e te entender eram o suficiente.
Não era.
– Eu queria te dar mais do que isso. – Kalim levanta a mão e acaricia o pulso já frouxo de Jamil, que apenas o soltou – Eu queria te ver vestido em jóias brilhantes e as roupas mais deslumbrantes do Palácio. Eu queria poder te levar à todos os lugares e dizer que você é o meu-
Jamil interrompeu sua declaração com um beijo, que prontamente foi retribuído. Os dois pares de lábios deslizavam um sobre o outro, com fome de devorar um ao outro e se fundir em um para que nunca mais sentissem falta do que nunca sequer experimentaram. Não até agora, e era mais gostoso do que outra qualquer coisa que já sentiram. Jamil gemeu ao sentir uma mão de Kalim na sua cintura e a outra em seu cabelo, puxando-o com certa exigência, pedindo mais para ele.
E ele já estava ali entregando que tinha de si para Kalim. O sol finalmente queimava a sua pele, estava encostando nele, e Jamil estava desesperadamente procurando por água para sobreviver ao inevitável. O homem abaixo de si chupou sua língua e explorou sua boca, e ele apenas permitiu. Jamil estava derretido, não restava mais nada dele para se defender.
Ele finalmente havia virado areia sob o sol.
No entanto, ele ainda respirava.
Os dois se separaram ofegantes, e Jamil nem mesmo sabia que tipo de cara fazia agora, só sabia que Kalim parecia estar muito feliz.
– … esposo. – Completou o que dizia antes, e Jamil sentiu o rosto pegar fogo.
O que ele estava fazendo ali?!
Perturbado, Jamil pulou do colo que estava sentado sem nem notar, e correu na direção da porta do quarto. Ele ouviu seu nome ser chamado, ouviu Kalim provavelmente cair da cama enquanto se levantava, porém nada o impediu de fugir dele, para fora do quarto, para bem longe dali.
Jamil andou apressado até seu quarto e girou a chave na fechadura. Sua respiração estava sem qualquer controle. Ele havia perdido todo o controle. Tocou os lábios com os dedos e depois as bochechas, que estavam febris. Jamil não deveria ter beijado Kalim, ele não deveria ter ultrapassado aquela linha! Diabos, ele sequer deveria conversar com ele coisas além do necessário! Ele era um servo perfeito até entrarem para aquela escola; depois de lá tudo foi desmoronando até virar pó aos poucos, e agora ele estava envolto das suas consequências. O que faria daqui pra frente?
E Kalim, aquele asno! Esposo? Ele havia de vez perdido o juízo que não tinha ao se declarar de forma tão despreocupada! E se Jamil não o retribuísse? Kalim ficaria na pior situação de sua vida de tão constrangedora!
Ou ele deixou Kalim tão seguro a ponto de sentir que ficaria tudo bem se declarar. Ou Jamil não era tão bom escondendo assim o que sentia e Kalim havia notado há tempos.
Não, isso era impossível.
Jamil jogou as roupas que vestia para o lado e caminhou até o banheiro, se enfiando debaixo da água gelada no automático. Fazia tanto aquilo quando precisava pensar que o seu corpo sequer reagia à água gelada, só que dessa vez o problema era ciclópico. E Jamil não fazia ideia de como agir amanhã, e depois, e depois… além de que ele tinha uma ereção insistente entre suas pernas que não queria ir embora nem com a água gelada.
Bateu a testa nos ladrilhos e grunhiu.
Ele viu quando aquela noite se tornou manhã e os pássaros bicaram a sua janela, anunciando que outro dia estava começando.
———
O abraço quente da manhã não parecia mais ser um incômodo, como se não houvesse o que sentir mais. Talvez o sol já tivesse tido sua proximidade máxima alcançada e Jamil estava mortificado demais para continuar reagindo a algo que nunca desapareceria.
Assim que o dia começou, Jamil fez as suas obrigações relacionadas a Kalim sem que ele estivesse acordado: organizou papéis que ele precisaria, lavou suas roupas e estendeu, e pediu encarecidamente para que outra serva guardasse em seu armário, tudo para que não corresse o risco de esbarrar com Kalim. Ele bem sabia que estava adiando o inevitável, porém não estava com sanidade mental ainda para conversar com ele sobre tudo o que aconteceu. Jamil não sabia ainda o que faria e essa seria uma conversa muito complicada de se articular sem surtar.
Kalim era denso, sem noção, lento… não entendia nenhuma meia palavra, tudo deveria ser desenhado e pintado para que a sua cabeça infantil entendesse o máximo possível e Jamil não tinha paciência alguma para isso.
Fez também o almoço e deixou-o pronto para quando seu mestre levantasse, e assim ele se recolheu no quarto para resolver o que poderia ser resolvido sozinho, isolado.
Passou-se horas a fio sem ninguém ir atrás dele, acatando ao seu pedido de não irem perturbá-lo por nada, pois estaria ocupado com assuntos importantes. Era uma meia mentira, pois estava sim ocupado com um assunto importante. Jamil passou a tarde inteira pensando como enfrentaria Kalim e o convenceria de que qualquer ideia que ele estivesse tendo era totalmente inexecutável.
Sua cabeça estava doendo e seu estômago derretendo em sua própria natureza ácida quando, do nada, alguém bateu na porta.
– Quem é?
– Jamil, eu preciso da sua ajuda agora! – Ele sentiu um arrepio de susto ao ouvir a voz de Kalim – Lá no meu quarto! Tem alguma coisa errada e eu não consigo resolver sozinho!
Kalim choramingou no final, usando o seu usual dengo de quando queria alguma coisa. Jamil refletiu um pouco sobre a possibilidade de ser uma armadilha, no entanto, só bufou e levantou da cadeira; ele não podia dizer “não, se vira”, porque a possibilidade de ser algo sério ainda existia e poderia sobrar para ele.
Abriu a porta e viu o outro homem com uma expressão derrotada. Assim que viu seu servo, Kalim puxou-o pela mão e guiou pelos corredores, sem sequer dá-lo tempo para resistir ou pensar muito sobre.
– Mas o que aconteceu, Kalim? Explica!
– Você vai ver. – Respondeu virando um pouco o rosto, e o olhar que ele exibiu já era o suficiente para Jamil entender tudo:
Kalim estava aprontando com ele.
A porta do quarto foi aberta e fechada em um segundo, e Jamil estava processando o que ocorreu e o que diria em defesa de qualquer coisa quando só ouviu o clique da fechadura, e então viu a chave ser escondida no bolso de Kalim. Normalmente, ele sentiria raiva e já estaria gritando com Kalim por fazer esse tipo de brincadeira, porém depois do dia anterior, era óbvio que não era divertido; Jamil sentiu outra emoção inimiga de anos, uma que às vezes vinha com a repulsa, mas sempre deixava seu corpo fraco. Seu baixo ventre estava quente e seu peito também.
É sério que ele havia ficado excitado?
– O que você pretende fazer? – Jamil cruzou os braços, encarando-o.
– Jamil! Você fez questão de encher o meu dia inteiro e fugir de mim! – Kalim cobriu os olhos com as mãos e choramingou – Eu te procurei em todo canto do Palácio e disseram que você estava resolvendo algo importante e eu até esperei, mas… eu não consigo mais!
O outro continuou em silêncio, na defensiva, e só observou o herdeiro andar até as portas altas do quarto que davam para a varanda. Já estava anoitecendo, então um vento suave e levemente frio assoprava o quarto de forma agradável. Kalim continuou andando até a beira da varanda, e olhou para trás, para Jamil.
– Vem aqui, Jamil.
Seguindo quase cegamente sua voz, Jamil foi e parou ao seu lado, sem entender. Ele queria conversar do lado de fora? Isso o deixava mais apreensivo ainda! Isso não poderia se tornar mais romântico do que estava sendo, ou ele não conseguiria falar o que precisava.
– Kalim, olha- o que diabos o seu tapete está fazendo aqui?! – Pulou ao avistar finalmente o tapete repousando magicamente no ar – Se for o que eu estou pensando, eu vou embora!
– Jamil. – Kalim chamou, calmo, e subiu no tapete com a destreza que Jamil não tinha.
Ele não subiria naquilo! Além de não saber como voar direito, ele sabia muito bem aonde Kalim queria levá-lo, o que ele queria fazer. E ele não poderia fugir dele no céu, só restaria encarar Kalim até ele querer descer dali.
– Jamil.
Uma mão estava estendida na frente de seu rosto, e ele vagou o olhar dela até o rosto do outro, que sorria abertamente, roubando o brilho de todas as estrelas unidas. O coração de Jamil disparou em uma corrida sem vencedores, que só cansava e derretia o seu corpo em uma poça sem esperanças alguma.
– Você confia em mim?
Ele não tinha outra resposta a dar.
Kalim sempre conseguia o que queria dele.
Suas mãos se uniram e Jamil subiu no tapete com certa insegurança, mas Kalim segurou sua cintura e o colocou sentado entre suas pernas, o que o levou a abraçá-lo por trás. De fato isso deixava Jamil um pouco mais seguro sobre o passeio, entretanto a intimidade era tanta que o fazia sentir que explodiria.
– Kalim, você sabe que não tem volta. – Foi tudo o que disse, e sentiu um sorriso aumentar em sua orelha.
– Eu nunca fui de voltar atrás, Jamil.
Ele controlou o tapete mágico para além dos ventos, cortando o céu de tons arroxeados e estrelas piscantes. Jamil torcia para que não fosse possível Kalim sentir seu coração pelas costas, mas ao se concentrar, notou que o de Kalim não estava diferente. Ele também parecia descompassado e nervoso com o que estava acontecendo.
Então, finalmente, a ficha de Jamil caiu e seu rosto queimou contra a friagem da noite.
Seus sentimentos nunca foram unilaterais.
Kalim também gostava dele esse tempo todo.
– Vir aqui em cima sempre me ajudou a ver as coisas melhor. – Kalim mudou de posição assim que parou o tapete num ponto alto do céu, de onde podiam ver a lua por inteiro – É muito bom poder ver tudo de cima, parece que é mais simples. Gosto de pensar assim.
– É notável. – Jamil murmurou e ganhou um riso como resposta – Qual é a graça?
– Você nunca perde a oportunidade de jogar na minha cara como sou idiota. – Kalim dizia isso sorrindo, e Jamil arqueou a sobrancelha, ajeitando sua própria postura até ficar de frente para ele e olhá-lo melhor – Isso nunca me incomodou, na verdade sempre gostei da sua sinceridade. Eu sempre posso ser eu mesmo com você, Jamil. Muito obrigado.
– Não fiz nada demais. Não tem como logo eu te proibir de ser quem você é. – Revirou os olhos como se tudo aquilo fosse óbvio. Kalim tinha umas conversas realmente tontas.
– Eu sei, por isso eu quero que você seja você mesmo comigo também. – Então esse era o seu ponto. – Eu sei que é difícil com toda a nossa posição social, mas não tem mais ninguém entre nós agora.
Jamil olhou para o céu e depois para a lua gigante atrás de Kalim. Será que um dia ele seria livre para ser alguém? Não conseguia ter expectativas nisso, por mais que quisesse, ele foi ensinado a ser um homem realista.
– Vai além disso, Kalim. Não são só pessoas, é uma vida inteira sem escolhas, sem ter direitos como a maioria das pessoas. Tudo o que eu tenho é deveres. – Divagou com pesar e certa humilhação ao se abrir – Não é como o seu mundo e isso me machuca muito. Eu não posso te dar nada nem ser nada seu além de um servo pelo resto da vida.
– Eu discordo.
– Você realmente não me ouve. – Jamil se encolheu e escondeu o rosto entre as mãos.
– Eu ouvi tudo, amor. – De súbito, descobriu o rosto e olhou assustado para Kalim – Eu sabia que você me olharia assim. – O maldito herdeiro riu e segurou o rosto do outro – Eu acho que nós dois deveríamos construir um mundo ideal só pra nós e viver, Jamil. Eu não quero passar a minha vida sabendo que eu poderia ter tentado te tirar de tudo isso e dar oportunidade de viver comigo uma vida melhor. Você não sabe do que eu seria capaz só pra ser feliz de verdade ao seu lado.
– Não existe mobilidade social, Kalim. – Não queria destruir as esperanças do garoto de olhos brilhantes, mas não podia sonhar.
– Eu quero tentar de tudo, se for necessário nós fugimos para bem longe! – Continuou a divagar – Jamil, por favor, só uma vez, me diz o que você quer de verdade e eu faço.
Seria possível mesmo tudo isso? Algo intenso brilhava no fundo do deserto escaldante, era algo quase milagroso, e Jamil podia ver por dentre a tempestade de areia o oásis. Ali tinha tudo que ele precisava para viver, lá ele finalmente poderia ter o que era vital para qualquer ser humano e ele precisava mais do que tudo naquele momento. A água na magia nada mais representava do que o amor. E isso era tudo que Jamil precisava durante toda a sua vida e nunca teve por estar preso num deserto seco e solitário, numa sentença.
– Eu quero você.
Mas ele não queria se arrepender mais.
Kalim sorriu e puxou-o para um beijo cheio de carinho e cuidado, muito diferente do que haviam feito ontem. Suas línguas mais uma vez se encontraram, devagar, e Jamil ousou acariciar os braços de Kalim e este tocou suas coxas sem cerimônias, apertando-as e depois se prendendo ao seu quadril estreito.
– Você é tão lindo, porra… – Kalim separou seus lábios e Jamil voltou apenas para morder o inferior alheio, puxando, dada a sua vergonha com o elogio – Eu quero te beijar assim há tantos anos, eu quero chorar!
– Se você chorar eu te jogo daqui de cima! – Jamil responde como sempre, mas havia algo diferente em sua resposta.
Ele estava sorrindo lindamente para Kalim, com um tom de quem achou engraçado. Se antes Kalim não estava corado, agora ele estava quase da cor de seus próprios olhos ao ver Jamil dirigindo um sorriso para ele.
– Você vai me deixar maluco. – Kalim deitou a testa no ombro do outro – Eu sei que você vai me matar, mas você me lembra muito a princesa Jasmine do Aladdin. Você lembra de quando lia as histórias pra mim?
– Lembro, e não gostei da comparação. Eu não tenho nada a ver com ela. – Puxou Kalim pelo queixo para olhar em seu rosto – O que eu tenho a ver com uma princesa, Kalim?
– Vocês não tinham liberdade. – Explicou com simplicidade e Jamil piscou várias vezes – O Aladdin chega na vida dela e muda tudo. Eu quero te tirar desse mundo frio e solitário.
Ainda estava aterrorizado com o tanto de coisas que ouvia, mas decidiu atravessar a porta da gaiola que havia sido destrancada. Jamil não queria mais se esconder ali e ficar calado; estava cravado na sua pele quais podiam ser as suas consequências, porém não queria mais levar uma vida infeliz sem ter o que queria depois de experimentar. Não tinha mais volta a partir de agora.
– Eu aceito. – Estendeu uma mão e Kalim a pegou e beijou os dedos – Se você fracassar eu vou te perturbar até nos seus sonhos.
– Nunca vou decepcionar quem eu mais amo, Jamil, isso é uma promessa de dedinho. – Ele enrolou os dedos menores dos dedos com Jamil e riu da careta de tédio do outro.
– Não somos mais crianças, seu idiota!
– Como você quiser.
Mais uma vez foi beijado, e o selar de lábios foi como selar uma promessa de uma vida nova. Jamil sentiu seu corpo relaxar e de repente uma esperança começou a surgir no oásis em que estava agora.
Kalim havia o tirado do deserto.
Uma semana havia se passado desde que Kalim e Jamil entraram em uma relação sem um rótulo definido. Nada havia mudado na verdade, além de beijos trocados no quarto ou em qualquer canto vazio do Palácio nas horas que ninguém mais circulava. O fato de continuarem interagindo da mesma forma era motivo da diversão de Kalim, que volta e meia dizia que eles já tinham algo e não sabiam, e Jamil apenas meneava a cabeça, suspirando.
Apesar de estar tudo caminhando bem, Jamil não podia deixar a sua guarda baixar; ele sempre sentia sua alma estremecer quando o cabeça da família Al-Asim o procurava para falar de Kalim ou qualquer outro assunto, ou até mesmo quando as servas olhavam-no por muito tempo. E se alguém tivesse visto algo entre eles? A expectativa do ruim era sempre iminente e talvez nunca fosse passar.
No entanto, o ainda servo desfrutava do amor que estava recebendo desde os toques até os olhares carinhosos de Kalim para com ele. Da forma que podia, que conseguia.
Essa era uma manhã que ele precisava ficar à total disposição de Kalim, o que era até algo corriqueiro, porém era uma reunião séria de negócios alfandegários. Como futuro dono de tudo que seu pai liderava, ele agora também participava das conversações e dava ideias, o que ele, para a indiferença de Jamil, achava um tédio no início, mas aprendeu a conduzir muito bem com o passar dos anos.
Tão bem que deixava Jamil meio mexido.
Kalim falava de forma séria e responsável com os outros homens sentado à mesa; a sua postura era relaxada, em contraste, sua mão apoiando seu queixo, já que seu cotovelo repousava na mesa, e ele falava com domínio sobre as taxas, preços, e tudo que era de suma importância. Jamil estava em pé ao seu lado, acompanhando o que ele dizia, sério.
Ao menos ele tentava acompanhar, já que a sua mente parecia achar mais interessante focar apenas em Kalim e o quão gostoso ele era quando agia de forma criteriosa. Era raro de ver acontecendo, então causava efeitos um tanto constrangedores no corpo de Jamil.
Ele se repreendia mentalmente sempre que notava que estava divagando sobre a forma que Kalim molhava os lábios antes de pontuar algo, ou como seu tom de voz ficava mais rouco quando sério e arrepiava seu corpo. Entretanto, não adiantava se martirizar, a sua mente sempre voltava ao mesmo ponto. Ele estava excitado e temia que sua ereção ficasse notável a qualquer momento.
Quando ele tinha virado um indisciplinado?
De toda forma, parte da sua atenção ainda estava voltada ao ambiente, e ele notou que um dos comerciantes convidados estava tentando enrolar Kalim com alguns dados que não batiam com outros, e Jamil não demorou a se abaixar até o ouvido de Kalim, pondo uma mão como concha para esconder o que dizia e a outra em suas costas.
Após sussurrar, se afastou com os olhos fixos em Kalim, que olhou-o por um tempo e só assentiu, parecendo pensar em algo. Jamil era um exímio observador, e viu que sua nuca estava arrepiada depois de ter falado com ele e deduziu que ele era sensível naquele ponto.
Ou talvez ele não fosse o único que estava com um tesão absurdo desde que se uniram.
Mas Jamil nem tão cedo tomaria iniciativa para algo a mais, pois sexo nunca havia sido de seu interesse e, apesar de ter ouvido muito sobre isso na época de seu Clube de Basquete – seus colegas eram verdadeiros boca suja, principalmente Floyd Leech –, nunca teve interesse em pesquisar. O que ele sabia era apenas vindo da educação sexual que aprendeu justamente para ensinar Kalim.
Um pouco irônico, ele diria.
A reunião findou-se após longos vinte minutos e os homens se retiraram da sala, seguindo seus caminhos. Jamil ficou por último para recolher os papéis largados na mesa, mas foi surpreendido por um abraço por trás.
– Kalim! Aqui não!
– Eles já foram embora e eu fechei a porta, ninguém vai entrar. – Ele beijou a nuca à sua frente e apertou a cintura fechada entre seus braços – Quase não consegui prestar atenção na reunião com você do meu lado.
– Eu te mataria se você se distraísse por algo tão idiota assim. – Jamil virou de frente para ele, olhando em seus olhos – Eu tenho que terminar de arrumar tudo aqui, depois nós nos falamos. Vou fazer seu jantar quando acabar.
– Passa no meu quarto quando acabar, eu preciso de uma massagem… – Pediu com a habitual cara de cachorro caído da mudança, e Jamil revirou os olhos.
– Larga de ser mimado, você só ficou sentado o dia inteiro!
– Por favor, Jamil! E eu quero passar um tempo com você também! – Insistiu mais.
Era impossível negar algo para ele.
– Vá tomar banho enquanto faço tudo que eu tenho que fazer, depois do jantar eu vou.
Kalim desfez o abraço para agarrá-lo agora pelos ombros, empolgado, e deixar um beijo longo nos seus lábios. Assim que separou-os, ele correu para fora da sala como uma criança que acabou de ganhar um brinquedo.
Jamil riu sozinho e voltou a fazer o que fazia antes, tentando enterrar em algum lugar da sua cabeça a ansiedade que crescia em sua barriga sobre a perspectiva de ficar sozinho com Kalim no quarto e tocá-lo mais uma vez.
––
Já era noite quando Jamil bateu na porta de Kalim, que atendeu rapidamente, como quem esperava ansioso por isso. E pelo sorriso com o qual foi recebido, ele estava mesmo muito entusiasmado com a presença de Jamil.
A porta foi fechada à trinco, o que fez Jamil tremer um pouco. Seu coração quis escapar pela sua garganta quando Kalim foi direto até a cama e retirou a camisa sem cerimônias.
– Eu quero massagem nos ombros! Acho que fiquei muito tenso. – Ele balançou-os como se fosse provar o seu argumento.
Jamil tinha suas dúvidas quanto a isso, pois era óbvio para si que ele só queria atenção, mas não retrucou. Pegou o óleo corporal de amêndoas da gaveta onde sempre deixava e se aproximou do outro.
– Deita ou vira de costas para mim.
– Sobe no meu colo, fica mais confortável.
– O quê?! Onde isso é mais confortável?
– Eu posso ficar te olhando e você vai ficar perto, e você pesa menos do que eu, não tem nenhum problema. – Kalim puxou-o pela cintura até seus joelhos baterem na madeira da cama – Sobe em cima de mim.
Jamil sentiu sua face queimar e quis negar mais uma vez, mas não havia ninguém além deles ali — e seria mentira dizer que ele não queria ficar no colo de Kalim.
Dobrou cada joelho ao lado de cada coxa abaixo de si, e sentou-se nas ditas. Sentiu sua respiração e a de Kalim cruzarem, e antes de perder o foco, tentou fazer o que deveria ser feito, mas Kalim foi mais rápido.
Antes que protestasse, sua boca já havia sido pega pela outra e ele foi puxado para um beijo faminto, que retribuiu sem pensar. Kalim segurou sua cintura com força e Jamil puxou seu cabelo como resposta, abrindo a boca para que fosse tomado dele tudo que o outro queria. Não tinha mais o que ser guardado.
A língua de Kalim era ousada; ele tocava tudo no interior de sua boca, e enrolava a sua até seus lábios e chupava, o que gerava estalos molhados no quarto silencioso. Nada tinha som ali além de seus beijos e respirações.
– Eu quero transar com você. – Kalim disse contra seus lábios e Jamil gemeu tanto de excitação quanto de surpresa – Você é tão bonito, Jamil, eu preciso de você.
O elogio somente o fez ficar ainda mais sem graça e excitado. O seu pau pressionado entre ambas as barrigas já deveria ser óbvio para Kalim à essa altura, mas ao se remexer um pouco no colo, ele sentiu que não era o único que estava dessa forma.
– Você me chamou aqui pra isso… – Jamil murmurou, arranhando o pescoço do outro – Há quanto tempo planeja isso?
– Desde que você me beijou nessa cama. – Kalim relembrou o dia que ele perdeu todo seu controle – Eu tive que me tocar quando você saiu! Você estava tão lindo em cima de mim, eu fiquei pensando em você, tipo…
Kalim se enrolou nas palavras, tendo então a decência de se sentir um pouco tímido.
– Vai ficar envergonhado agora?
– Eu queria que você sentasse pra mim. – Disse um pouco baixo, mas Jamil ouviu muito bem e quase pulou do colo com a visão.
Kalim queria que ele fosse o passivo e isso nunca sequer lhe ocorreu, mas não era como se tivesse algo contra. Parecia bom, e se sentir desejado seja como fosse era incrível.
– Se você conseguir gemer baixo, acho que eu posso te dar isso. – Jamil sorriu de lado.
Com o consentimento, Kalim virou-os na cama e pôs Jamil esparramado abaixo de si. Voltou a beijá-lo mais intensamente, suas mãos tomando coragem de explorar a barriga do outro por debaixo da camisa fina. Os músculos de Jamil se contraíram e seu pau pulsou com a intimidade, ao tempo que a sua respiração engatava sob sua pele. Aos poucos a sua camisa era estendida até estar acumulada acima do peito, e de repente ele notou que Kalim sequer estava beijando-o.
Os olhos vermelhos estavam em seu torso magro, explorando assim como os dedos, e pararam em seus mamilos rígidos.
– Eu sou sensível aqui, você também é? – Kalim esfregou entre os dedos, com um rosto fascinado e curioso.
– É normal ser sensível aí… – Desviou os olhos e gemeu ao sentir os dedos serem substituídos pela boca, que chupava devagar e esfregava a língua na pontinha – Kalim…
– Você chama o meu nome de um jeito tão bom, eu quero ouvir mais… – Interrompeu o que fazia só para falar e voltou.
Jamil agarrou os ombros os quais deveria estar massageando e apertou, descendo as mãos pelos braços. O corpo de Kalim estava quente como seu, totalmente febril. Um beijo de boca aberta subiu para o seu pescoço, e Jamil gemeu vergonhosamente ao ter um ponto abaixo da orelha chupado. Ele não fazia ideia dos lugares onde era sensível em sua defesa, e Kalim parecia estar amando descobrí-los, dado o seu sorriso.
Depois, sua camisa foi retirada de vez e ambos voltaram a se beijar com os corpos colados, e assim podiam sentir toda a extensão um do outro. Suas ereções estavam pressionadas e Jamil experimentou rebolar o quadril, o que gerou um gemido manhoso de Kalim, que imitou seu movimento. Notando o quão bom era, repetiram, e então o beijo intenso ficou entrecortado por gemidos enquanto se esfregavam um no outro.
– Jamil… você é tão bom pra mim… – Kalim colocou os cotovelos ao lado de sua cabeça e movimentou-se como se já estivesse dentro dele – Eu quero te tocar mais, eu preciso…
– Eu… também quero. – Disse com a voz embargada, em tom quase suplicante.
Kalim olhou-o um pouco e deu dois selinhos em seus lábios, descendo em seu corpo até alcançar suas calças. Ele desceu-as com certa dificuldade, visivelmente nervoso, mas relaxou e gemeu de satisfação ao ver o pau de Jamil repousar em sua barriga, já um pouco melado de pré-gozo. Parecia que ele estava vendo o prato mais delicioso do mundo na sua frente, por isso não deveria ser surpresa quando ele só o colocou na boca.
Mas Jamil ainda gritou.
Teve que colocar a mão na boca para impedir os gemidos de ecoarem no quarto e chamar a atenção de qualquer um que passasse lá fora e estava sendo quase impossível. A língua acariciando sua glande fazia seu corpo entrar em um êxtase que nunca sentiu, e quando Kalim afundou-o em sua boca, seus olhos se apertaram até quase enxergar manchas.
A cabeça de Kalim subiu e desceu na sua extensão, um pouco desajeitado, mas quase o devorando de tanta vontade. Seus gemidos enquanto chupava fizeram Jamil tremer e levar a mão até seus cabelos brancos. Ele estava excitado como nunca antes; nenhuma punheta se comparava a isso e ele já se sentia tão pateticamente perto do orgasmo.
– K-Kalim… porra, Kalim! – Puxou a cabeça entre suas pernas e os lábios saíram de seu pau com um som molhado – Eu não quero gozar agora, vou ficar muito sensível.
Kalim assentiu prontamente e se afastou dele para fuçar a gaveta, tirando de lá um pacote de lubrificante. Jamil se perguntou por um segundo quando ele havia conseguido aquilo porque não lembrava de já ter visto, mas esqueceu suas perguntas quando suas pernas foram totalmente abertas e agora ele estava exposto da cabeça aos pés.
No meio de suas pernas, ajoelhado, Kalim o olhava com um tesão quase palpável e um sorriso bobo, apaixonado, nos lábios.
– Você é o homem mais lindo que eu já vi. – Ele disse com devoção, e passou os dedos da garganta até a virilha de Jamil, então descendo para sua bunda – Eu tive tanto medo de você me odiar mesmo e um dia se casar e ter uma família. Eu quero que você seja só meu e de mais ninguém, Jamil.
– Eu sempre fui só seu, idiota. – Cobriu os olhos com o braço – Não demora muito.
E ele de fato não demorou. Um dedo foi colocado por inteiro dentro dele e um chato incômodo o fez morder os lábios, apesar de não ser uma dor ainda. Kalim movimentou o dedo algumas vezes, beijando sua coxa nua durante o processo, e murmurando vários elogios que deixavam Jamil mais tímido.
Não era comum para ele ser elogiado, então seu corpo reagia à tudo mais intensamente ainda e Kalim parecia ter notado isso já.
A dor veio quando o segundo dedo entrou e Jamil chutou as costas de Kalim no processo, que resmungou alto. Era estranho demais, invasivo e constrangedor, ainda que no fundo fosse um pouco prazeroso. Os dois dedos juntos faziam movimentos de tesoura e se curvavam dentro de si, procurando por alguma coisa. Jamil sabia bem o que Kalim estava tentando fazer, porém se perguntou como ele sabia sobre tudo isso.
Uma pontada leve de ciúmes o atingiu.
– Kalim, como você aprendeu isso?
– Hã? – Kalim agora estava sob o olhar incriminador – Do que você está falando?
– Você já fez isso com alguém?
– Hã?! Jamil, eu sou virgem! – Ele pareceu exasperado – Os meninos do clube falavam muito sobre essas coisas então eu pesquisei porque parecia útil e… eu faço em mim.
– Ah… – Sentiu certo constrangimento e só assentiu. – Se é assim, não tem pro- porra!
– Achei! – Kalim riu e raspou os dedos mais uma vez no mesmo lugar.
Jamil quase pulou da cama com a maré de prazer que balançou seu corpo. Seus gemidos eram chorosos, mas soavam como uma música sensual e baixa, pois ele ainda tinha um fio de racionalidade e consciência. Seu corpo balançava conforme as investidas dos dedos de Kalim, que havia saído de entre suas pernas e agora estava ao seu lado, mas ainda colocando os dedos.
– Acho que eu gozaria só te vendo assim. – Ele beijou a bochecha quente – Nunca senti tanto tesão assim, amor, eu quero tanto foder você e ver o quão lindo você vai ficar…
– Então para de enrolar e faz logo! – Jamil respondeu com desespero.
Kalim riu e tirou os dedos de dentro dele, abaixando as calças e ficando nu. Seu corpo não era um mistério para Jamil que já havia o visto nu mais de mil vezes, só que agora era diferente: aquele corpo era todo seu e ele podia tocar como ele quisesse.
Levantou-se para ficar de joelhos na cama e beijou Kalim com fome, chupando sua língua e mordiscando o lábio inferior, ao tempo que acariciava devagar o seu pau, apenas como uma pequena provocação e finalmente sentir como era. Ele estava todo molhado e isso o fez dar um sorrisinho orgulhoso. Kalim passava os dedos por seus cabelos entre o beijo, e quando Jamil sentiu, estava com os fios totalmente libertos nas costas.
– Amo te ver de cabelo solto. – Foi a sua explicação e Jamil sorriu de forma terna.
– Deita e aproveita a vista, amor. – Provocou com o apelido carinhoso e imediatamente foi obedecido.
Jamil subiu em cima dele e guiou o pau até sua bunda, e sentou de uma vez, pois sabia que doaria da mesma forma. Tentou esconder a expressão de dor ao ser alargado, e apoiou as mãos no peitoral de Kalim.
8o8
– Toma mais cuidado, amor. – Kalim acariciou sua coxa, atencioso – Vai no seu tempo.
– Está tudo bem.
Ele já havia sentido dores piores e essa ainda era prazerosa. Rebolou o quadril de forma experimental e gemeu baixinho ao sentir uma centelha de prazer, tirando daí então a coragem para subir e descer, tirando Kalim de dentro dele e enfiando de novo, e de novo, até estabelecer um ritmo agradável. Kalim já gemia manhoso, com a mão agora em sua nuca e cintura, estimulando-o a continuar.
E assim ele o fez. Conforme se acostumou, seu rebolar ficava mais solto e sua bunda caía e voltava para cima com mais facilidade, até que se tornou automático. Seus gemidos se misturaram aos de Kalim, só que mais baixos, e o barulho de pele contra pele suada se misturava às vozes e completava todo o erotismo que se formava no quarto. Jamil aos poucos perdia a razão, e ela de fato se foi quando o ângulo se acertou e sua próstata foi acertada.
– Aí, Kalim! – Indicou e o outro puxou-o para um beijo desleixado, mexendo também o seu quadril para cima – É muito bom…
– Sim… você é muito bom, Jamil, eu te amo tanto, meu futuro esposo. – Kalim estava mais do que ciente de quais palavras mexiam com Jamil, porque ele soluçou em cima dele – Tão bonito, tão gostoso…
Seu orgasmo estava perto demais e as palavras sussurradas entre gemidos só o empurravam mais em direção ao abismo. Seu pau babava na barriga de Kalim, que já estava todo melado, e depois de meter mais um pouco e a voz de Jamil tremer e chorar chamando o nome de quem amava, ele sentiu seu corpo tensional e relaxar enquanto seu baixo ventre ardia como nunca.
Seu corpo ficou mole, porém ele ainda era manipulado por Kalim, que gozou um pouco depois e encheu todo o seu interior. O líquido quente dentro era uma sensação deliciosa e ele tinha medo de ficar viciado naquilo.
Jogou a cabeça no peito de Kalim e retirou-o de dentro, causando um gemidinho nos dois.
Ficaram, por fim, em silêncio. Só as respirações ofegantes em busca de ar podiam ser ouvidas agora, e Jamil se jogou na cama com evidente exaustão.
– Dorme aqui comigo. – Kalim pediu de olhos fechados, e Jamil também estava, mas abriu de imediato com o pedido inconsequente.
– Claro, para ser pego por alguma serva de manhã e isso dar em morte! – Ironizou Jamil, mas não era uma mentira.
– A porta está trancada e qualquer coisa você veio para cá cedo. Jamil, eu quero te assumir e nós precisamos começar isso de algum lugar. – Kalim abriu os olhos e virou o corpo para o outro – Que seja por rumores ou o que for, eu vou lidar com meu pai assim que eu ver que é a hora certa.
Jamil suspirou, contrariado, mas sabia que argumentar com Kalim era inútil.
– Logo cedo vou estar saindo.
Isso foi como dar a notícia da vida de Kalim, já que ele pulou em cima de si e o agarrou como se o mundo fosse acabar amanhã. E mesmo se fosse acabar, Jamil nunca admitiria que gostava desses abraços melosos.
Mesmo se morresse afogado num oásis.
