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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-05-27
Updated:
2026-06-03
Words:
11,215
Chapters:
2/?
Comments:
6
Kudos:
12
Bookmarks:
4
Hits:
81

once a bird, now a half fish

Summary:

O céu silenciou para o pássaro vermelho
Suas asas, outrora feitas para o alto
foram quebradas pelo riso do palhaço
que o lançou à escuridão do poço
Mas o fundo do abismo não era o fim
Sob o manto do lua
o sangue deu lugar à escama
e a dor purificou-se em nova vida
machucado, mas não vencido, ele nadou
Curou a carne nas águas da noite
e emergiu das profundezas
o novo filho da luar.

 

ou o pássaro vermelho que virou peixe

 

[oi gente essa a minha primeira fic publicada, então desculpa os erros de ortagrafia desde já(。・ω・。)]

Notes:

olá pessoal, essa minha primeira fanfic nesse site e devo admitir que estou meio nervosa ◑﹏◐ , eu realmente espero que gostem dessa minha historia (. ❛ ᴗ ❛.)
um obrigado especial a minha amiga Anne, muito abrigada
desculpa qualquer erros de escrita
bem vamos lá
atualizaçãos as quartas
------------------
avisos de contêudo: tortura, violencia extrema/gore, modificações de corpo não consensuais, afogamento

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: fall of red

Chapter Text

O som dos passos ecoava pelas paredes úmidas do beco, rápido e desesperado.

 Um vulto encapuzado de vermelho e preto colidiu contra uma lata de lixo galvanizado, que capotou no asfalto sujo, espalhando detritos e fazendo um estrondo violento que quebrou o silêncio incomum da noite — um silêncio como se a cidade inteira prendesse a respiração, como se Gotham soubesse o que estava prestes a acontecer e preferisse fechar os olhos.

O vigilante não olhou para trás. Sua respiração era um chiado doloroso nos pulmões.

 A cada passo, o braço esquerdo — ferido e encharcado de sangue — latejava como se estivesse em chamas. 

A perfuração de bala no ombro não parava de sangrar, e a cada batida do coração, um jorro quente escorria por dentro do traje, colando o tecido tático à pele rasgada.

Ele pressionou o comunicador no ouvido com os dedos trêmulos.

— Oráculo? — sua voz saiu num sussurro sufocado. — Alguém na escuta? Por favor...

Nada. Apenas o chiado estático e frio da frequência morta.

— Droga! — praguejou, acelerando o passo, as botas derrapando no lodo da ruela.

Como pôde ser tão tolo? Tão ingênuo? Ele havia subestimado o abismo.

 Havia subestimado a loucura pura e cirúrgica daquele palhaço. 

Desesperado, ele tateou o pescoço e esmagou o botão de SOS do traje, torcendo para que o sinal cruzasse a noite de Gotham.

 Nada. Nem um bipe de confirmação.

 A frequência estava morta.

 E ele sabia o que isso significava, o palhaço estava brincando com a comida antes de devorá-la.

POU.

O estalo do disparo rasgou o ar. 

O projétil atingiu friamente o seu calcanhar em cheio, estilhaçando o osso como vidro. 

O vigilante desabou, o rosto batendo contra o chão imundo, o queixo raspando no asfalto áspero. 

A dor foi um clarão branco atrás dos olhos.

Antes que a dor o dominasse por completo, uma risada macabra, estridente e terrivelmente familiar ecoou pelas paredes do beco, ricocheteando em sua mente. 

A escuridão ameaçou tragá-lo por um segundo, mas ele foi arrancado dela da pior forma possível.

Um golpe violento atingiu suas costelas. O impacto parecia o de um bastão, mas rasgava como uma lâmina. 

Era pesado, implacável. Um taco de beisebol cravejado de pregos enferrujados.

— Um! — a voz doentia cantarolou, cada sílaba melódica como um prego no caixão.

Outro golpe desceu, desta vez quebrando as suas costas.

 O som foi seco, úmido — vértebras estalando como galhos secos.

 O vigilante arqueou o corpo no chão, o oxigênio sumindo, a boca se abrindo num grito silencioso.

 Sua consciência oscilava violentamente entre o apagão e a agonia pura. Tudo ardia. O terceiro golpe veio de cima, direto contra o seu crânio.

 Foi como se uma maré de ferro batesse contra a sua cabeça, partindo o capacete e o mundo ao meio.

O Coringa ria. 

Não uma risada simples — era um concerto de histeria, um espetáculo de lunático de circo.

 Ele dançava em volta do corpo caído, cada passo um rebolado grotesco, o taco arrastando no chão como uma extensão de sua alegria doentia.

— Quem diria, hein, passarinho? — o palhaço se abaixou, o rosto pintado de branco a centímetros da cabeça rachada. — O melhor aluno do  morcego... todo arrebentado. Mas não se preocupe! Eu vou te ensinar uma lição que você nunca vai esquecer — ah, pera, você nunca mais vai esquecer nada!

O taco subiu e desceu de novo. 

E de novo.

 E de novo.

— Dois! — ele continuou a contar, cada número uma explosão de dor. — Três! Quatro! Quem conta um conto... aumenta um ponto! HAHAHAHA!

O vigilante já nem gritava mais.

 Seus lábios se moviam sem som, formando palavras que ninguém ouviria — talvez um pedido de desculpas. Talvez o nome de alguém. 

O sangue escorria de seu crânio fraturado, formando uma poça escura que refletia a lua pálida lá no alto.

Ele ainda estava vivo.

 De alguma forma maldita, seu corpo se recusava a apagar, forçando-o a sentir cada centímetro daquela desfiguração. 

O palhaço ria. 

Ria 

Ria

Ria e golpeava, num ritmo frenético, transformando carne, ossos e o traje tático em uma massa disforme. 

O que restava do seu couro cabeludo foi rasgado, O crânio exposto misturava-se ao sangue e a pedaços de massa encefálica no chão. 

Um dos seus olhos saltara da órbita, pendurado por um fino cordão de nervo, balançando a cada batida do taco.

Seu rosto completamente deformado e Irreconhecível.

As pernas estavam destruídas, expondo o branco dos ossos fraturados, as canelas reduzidas a lascas.

Ele mal parecia um humano naquela aparência.

O Coringa parou por um instante, ofegante, mas não de cansaço — de êxtase.

 Lambeu os lábios pintados de vermelho, observando a própria obra como um artista diante de uma tela.

— Sabe qual é a parte mais engraçada, Red Robin? — ele cuspiu o codinome como veneno. — Não tem ninguém vindo te salvar. Você está sozinho. Sempre esteve.

Ele girou o taco entre os dedos e desferiu mais um golpe — dessa vez nas mãos.

 Os dedos de Tim estalaram como pipocas, os metacarpos triturados, os anéis de proteção do traje se cravando na carne mutilada.

Mas Tim era teimoso. Nem a morte parecia querer aquela teimosia.

Uma mão enluvada e áspera agarrou o resto de seus cabelos com força total, arrastando o corpo destroçado pelo chão de paralelepípedos. 

Cada pedra irregular arrancava mais pele, mais tecido, mais dignidade. 

O vigilante foi içado até a borda de um bueiro aberto.

 O cheiro forte de produtos químicos industriais, lixo em decomposição e esgoto invadiu suas narinas — mas isso já era quase um alívio perto do fedor da própria carne apodrecendo.

O Coringa o segurou pela nuca, forçando seu único olho remanescente a encarar o buraco escuro.

— Olha só, um passeio pelo esgoto de Gotham! — ele cantarolou, como se oferecesse um brinquedo a uma criança. — Dizem que a vista é um horror... mas o que é uma vista quando você já perdeu a cara, hein?

A última coisa que seus sentidos agonizantes registraram foi a silhueta colorida e insana debruçada sobre ele, a luz trêmula de um poste quebrado recortando o chapéu, o colete roxo, aquela gravata florida que parecia rir junto com o dono.

— Tchau, tchau, passarinho! Durma com os peixes agora! Hahahahahaha! — O Coringa deu um beijo no ar e empurrou o corpo no vazio.

Ele despencou nas águas escuras, ácidas e gélidas, sendo imediatamente tragado pela correntezas subterrânea.

A química corrosiva queimava os ferimentos abertos como ácido — e talvez fosse ácido, porque Gotham não reciclava seu esgoto, apenas o deixava apodrecer. 

Seus pulmões queimavam implorando por ar, mas os membros destruídos não obedeciam; não havia forças para lutar contra o afogamento. 

Os produtos químicos do esgoto entravam em contato com a carne viva, um processo que sem o baço — arrancado há dois anos — seria morte instantânea. E ainda assim seu coração batia. Teimoso. Estúpido. Tolo. Humano demais.

Ali dentro, na escuridão líquida e fedorenta, a sua mente brilhante — aquela que um dia resolvera os maiores crimes que nem o Batman conseguiu desvendar, que fez Ra's al Ghul chamá-lo de Detetive, que resgatou Bruce quando todos desistiram e acharam que ele estava morto — mal conseguia formular um raciocínio simples. 

Fragmentos.

Lembranças.

 O rosto sorridente de Dick.

 A voz  de Bruce o elogiando por resolver um caso dificil. 

O gosto de um café quente no Relógio, ao lado de Stephanie e Cassandra.

Uma noite de jogos com os seus amigos.

um encontro com o Kon

Tudo se dissolvia na dor.

Só existia a dor.

Dor e mais dor.

E o gosto de ferro e esgoto. 

E o frio. 

Um frio que não vinha da água, mas de dentro — o frio de saber que ninguém viria.

 Que ele havia caído sozinho, e ali, no labirinto de canos e ratos e veneno líquido, morreria sozinho.

Seu último pensamento coerente, antes de ser levado pela escuridão total, foi uma súplica simples, silenciosa, quase um fio de voz dentro da própria mente

Que isso tudo acabe logo...

E Gotham, como sempre, não respondeu.

O garoto inconsciente era arrastado pelas correntes violentas do esgoto da zona industrial.

 Seu corpo, indefeso como uma boneca de pano presa em uma máquina de lavar, era girado brutalmente para todos os lados, colidindo contra canos enferrujados e resíduos químicos altamente tóxicos. 

A cada impacto contra uma parede de concreto ou uma junta de metal saliente, mais sangue se misturava à água negra — sangue que já não era mais apenas dele, mas da própria cidade, que parecia devorá-lo vivo. 

Sua capa vermelha e preta, antes símbolo de coragem, agora enrolava-se em seu rosto como uma mortalha úmida, sufocando os poucos reflexos que restavam.

O percurso foi longo e implacável.

Os canos subterrâneos formavam um labirinto sem saída, um estômago de pedra que digeria lentamente suas vítimas. 

Ratos enormes, de olhos vermelhos e dentes amarelados, desviavam-se do corpo que passava — alguns o mordiam por instinto, arrancando pequenos pedaços de carne já mortiça, outros apenas observavam, como platéia de um velório aquático macabro. 

Nas raras partes rasas, onde o nível da água baixava o suficiente para expor uma margem de lama tóxica, o puro instinto de sobrevivência o fazia roubar lances curtos de ar.

Seu pescoço virava por si só, a boca se abria num reflexo primitivo, permitindo-lhe respirar por um triz antes que a corrente o arrastasse novamente para as profundezas.

Cada gole de ar era um pequeno milagre — e uma nova condenação, porque o ar ali cheirava a enxofre, a decomposição, a morte.

Eventualmente, o fluxo o empurrou por um duto mal posicionado diretamente para o sistema de cavernas subterrâneas.

A transição foi brusca

de um túnel de concreto claustrofóbico para um vazio imenso e escuro.

O garoto caiu por alguns metros antes de atingir a superfície de um lago subterrâneo, o impacto amortecido apenas pela água — mas a água ali era diferente. 

 

Mais fria. 

 

Mais densa. 

 

Quase como se estivesse

 

 viva

 

Seu corpo flutuava quase morto, mantido vivo apenas por uma teimosia silenciosa e uma sorte inexplicável. 

Ou talvez não fosse sorte.

Talvez fosse algo mais antigo, algo que Gotham guardava em suas entranhas há séculos, esperando por um corpo jovem e um espírito uníco para despertar.

Na escuridão profunda, ele derivou por ruínas esquecidas

 templos de entidades antigas — altares dedicados a Bárbaros, a deuses que os primeiros habitantes da região adoravam antes mesmo de Gotham ter nome — e linhas de metrô desativadas, trens fantasmas que ainda ecoavam seus apitos em ondas inaudíveis, verdadeiros fantasmas do passado da cidade. 

Estalactites gigantescas pendiam do teto como dentes de uma mandíbula fossilizada, e no chão, pegadas que não eram humanas marcavam a lama há milênios.

 O som da água gotejava em ritmo irregular, como uma orquestra desafinada regida por um maestro louco.

A água continuou a levá-lo até uma gruta isolada, um santuário natural que nenhum mapa jamais registrou. 

A entrada era pequena, quase invisível, escondida atrás de uma cortina de musgo bioluminescente que emitia um fraco brilho verde azulado.

 A corrente o forçou a passar por uma abertura estreita na rocha — tão estreita que suas costelas quebradas rangeram, e sua pelve raspou nas paredes de calcário, arrancando mais carne. Mas ele passou. 

Como se o próprio túnel tivesse se curvado para recebê-lo.

Segundos depois, o eco de uma explosão distante fez o teto colapsar. 

Toneladas de pedra, terra e ferro retorcido desabaram atrás dele, bloqueando a passagem com um estrondo que reverberou pelas cavernas por quase um minuto inteiro. 

O garoto, ainda inconsciente, foi empurrado para a frente pela onda de choque, seu corpo deslizando sobre a areia fina e prateada do fundo da gruta.

Não havia mais retorno.

A porta se fechara. 

O mundo lá fora — Bruce, Alfred, Kon, seus irmãos, os seus amigos, tudo o que ele um dia conheceu — tornara-se uma lembrança distante, talvez uma mentira.

Ali, naquela catedral subterrânea esculpida pela água e pelo tempo, o corpo exaurido do jovem soltou seu último suspiro. 

Duas bolhas solitárias subiram à superfície do poço, rompendo a tensão da água com um som quase inaudível — ploc

Uma delas estourou rapidamente. 

A outra flutuou por alguns segundos, hesitante, antes também desaparecer. 

A vida o deixou.

E a água ao redor começou a tingir-se de vermelho carmesim, não o vermelho-vivo do sangue arterial, mas um tom profundo, vinho, quase roxo — o vermelho de algo que se vai para sempre.

Aparentemente, aquele era o seu fim trágico.

O fim de Tim Drake. 

O fim do Robin que salvou o batman dele mesmo.

O fim do  Red Robin. 

O fim do garoto que encontrou Bruce Wayne quando ninguém mais acreditava.

O fim de uma história que começou num beco sem saída — e terminava em outro.

No entanto, o destino tinha outros planos.

No alto, muito acima da crosta de concreto e aço, rasgando o eterno teto de fumaça e poluição de Gotham, o céu acinzentado se abriu por uma fração de segundo. 

As nuvens, sempre espessas e escuras, afastaram-se como uma cortina de teatro — e atrás delas, a Lua Maior apareceu. 

Não a lua comum, pálida e distante, mas um fenômeno raro e místico que dura apenas alguns instantes e que só aparece a cada milênio. 

A Lua Maior brilhou em toda a sua plenitude, três vezes maior que o normal, sua superfície crivada de crateras parecendo um rosto sábio e antigo.

Um único feixe dessa luz lunar — fria, prateada, quase sólida — desceu pela fenda da caverna, perfurando a escuridão como uma lança divina.

Tocou o poço exatamente no centro.

A água cristalina — surpreendentemente pura, como se aquele local fosse um filtro natural de toda a toxidade da cidade — começou a pulsar.

Primeiro lentamente, depois num ritmo acelerado, como um coração que desperta. 

Um brilho irradiou-se do ponto de impacto, ondas concêntricas de luz que percorreram toda a superfície do lago subterrâneo, iluminando as estalactites, os altares esquecidos, as inscrições rupestres que ninguém lia há mil anos. 

E então, tão rápido quanto começou, a fenda se fechou, as nuvens se fecharam, e a escuridão retornou.

O jovem parecia apenas dormir. 

Seu rosto — ou o que restava dele — estava sereno agora, os traços relaxados, o olho remanescente semiaberto mas vazio. 

Alheio à metamorfose que seu corpo começava a sofrer.

 A água, antes tingida de vermelho, agora brilhava em tons de prata e azul-claro, envolvendo cada ferida, cada fratura, cada centímetro de carne dilacerada. 

O líquido não queimava mais — acariciava. 

Não corroía — reconstruía.

Aquela água, agora tingida de prata, acolheu e embalou o cadáver sujo e ensanguentado. 

Era um abraço magnético e materno

o poço transformou-se em um ninho, e o líquido sagrado o envolvia como uma mãe pássaro chocando um novo ovo, protegendo um novo filhote.

 Ondas suaves subiam e desciam, ritmadas como uma respiração. 

Cada pulsação prateada penetrava pelos poros, pelos ossos quebrados, pelas vísceras perfuradas, fazendo algo antigo e adormecido despertar dentro dele.

Sob o brilho místico da água prateada, o corpo do garoto começou a mudar.

Primeiro, os ossos. Os estilhaços nas pernas, nas costelas, nas mãos trituradas, nas vértebras quebradas — todos começaram a se mover, lentamente, como se uma mão invisível os recolocasse no lugar.

 Estalos secos ecoavam dentro da água, cada um acompanhado por um clarão prateado.

 As fraturas se soldavam com um tecido ósseo mais denso, mais resistente, quase mágico.

 A coluna se endireitava.

 O calcanhar destruído pelo tiro reconstituía-se, osso por osso.

Depois, a carne.

 Os rasgos profundos nos braços, no peito, no rosto — fecharam-se como se o tempo tivesse andado para trás.

 A pele se regenerava, mas não igual ao que era: novas camadas surgiam, mais pálidas, quase translúcidas, com veias que brilhavam em prata sob a superfície

 O couro cabeludo, arrancado, voltou a crescer em tufos escuros, mais longos, mais sedosos.

O olho que havia saltado da órbita — aquele olho que vira o Coringa rir enquanto o matava —  e perdido, foi regenerado uma força gentil, a conexão nervosa refeita com precisão cirúrgica.

Quando a pálpebra se fechou sobre ele, um brilho prateado escapou pelas frestas, como se dentro daquele globo ocular agora existisse uma pequena lua.

E então, algo mais profundo.

 

Algo que não era físico.

 

Uma raiz de luz prateada desceu pela coluna vertebral e se aninhou no peito, bem onde o coração batia — ou deveria bater. 

 

O líquido ao redor começou a girar lentamente, formando um pequeno redemoinho em torno do corpo do garoto, e no centro desse redemoinho, a água subiu em espirais luminosas, envolvendo cada dedo, cada fio de cabelo, cada cílio.

 

O jovem não acordou. 

 

Mas seu peito começou a subir e descer. 

 

Lento.

 

Ritmado.

 

Vivo.

 

A transformação levou horas. 

Ou dias. 

Ou segundos.

Não havia tempo ali, naquela gruta esquecida pelo mundo. 

Apenas a água prateada, o corpo flutuante, e o silêncio absoluto — quebrado apenas pelo gotejar incessante das estalactites, como um metrônomo cósmico medindo o renascimento.

Quando terminou, o garoto não era mais o mesmo. 

Sob a água agora calma e transparente, seu corpo inteiro brilhava com uma fraca luminescência prateada, como se traços da lua habitassem cada célula. As cicatrizes ainda estavam lá — mas eram diferentes. 

Cada marca do espancamento se transformara em um arabesco prateado, desenhos intricados que percorriam sua pele como constelações tatuadas.

 

Ele ainda dormia.

 

Ou talvez, pela primeira vez em muito tempo, ele estivesse realmente descansando.

 

Nas profundezas de Gotham, em uma caverna que nenhum mapa registrava, o novo ovo chocava silenciosamente.

 

Depois de alguns momentos — ou talvez horas, pois o tempo naquela gruta se movia como melaço — o garoto acordou submerso.

 

A transição do nada para a consciência não foi suave. Foi um choque elétrico, um clarão vermelho atrás das pálpebras, um grito que não saiu porque a água invadiu sua boca no mesmo instante.

 

Antes mesmo que sua consciência despertasse por completo, o desespero o atingiu como um soco no peito

 

ele estava embaixo d'água.

 

O pânico não foi um pensamento — foi um músculo.

 

Foi o reflexo mais primitivo, aterrorizante e absoluto

 

precisa de ar

                           precisa de ar,

precisa de ar,

                              PRECISA DE AR AGORA.

 

Em um movimento frenético de sobrevivência, tentou se debater, braços e pernas girando em todas as direções, mas algo estava errado. 

 

Seu corpo não respondia como deveria. 

Em vez de impulsioná-lo para cima, seus membros inferiores se mexiam como um único bloco pesado, desequilibrando-o, fazendo-o girar em círculos desajeitados.

 Ele afundou mais alguns metros antes de conseguir se orientar, a água batendo em seu rosto, o cabelo flutuando como algas escuras ao redor de sua cabeça.

Ele olhou para baixo — e o restante de ar que guardava nos pulmões escapou em uma nuvem de bolhas que subiram em disparada, levando consigo um grito silencioso.

 

Suas pernas haviam sumido.

 

Não estavam amarradas.

 

Não estavam dormentes. 

 

Não estavam paralisadas. 

 

Sumido.

 

Como se alguém tivesse apagado parte de sua existência.

 

No lugar delas, uma cauda imponente se estendia por quase um metro e meio, coberta por escamas que brilhavam com um padrão vibrante e hipnótico

vermelho-carmesim na parte superior, listras negras irregulares cortando o vermelho como feridas abertas, e um tom amarelo-dourado nas bordas, formando arabescos que lembravam corais.

A barbatana caudal em formato de losango, macias como veludo, tremulavam com a correnteza, eram escarlate, translúcida nas pontas, com raios delicados que se abriam como um leque quando ele mexia o corpo.

Ao girá-la inconscientemente, notou uma estrutura parecida com uma vela triangular na parte traseira da cauda — uma segunda barbatana, mais rígida mas flexivel, que se eriçava quando ele sentia medo. 

 

Ele ficou paralisado por um longo segundo. 

 

A mente de Tim Drake, treinada para processar o impossível em frações de segundo, simplesmente travou.

Era como se um vírus tivesse corrompido todos os arquivos de referência. 

Sereia não estava em nenhum manual do Batman. 

Tritão não aparecia em nenhum dos protocolos de contingência que ele mesmo ajudara a escrever.

Com os olhos fixos naquela anatomia impossível, ele ergueu a mão trêmula e cravou as unhas no próprio braço.

 

A dor aguda veio imediatamente — afiada, real, inegável. 

Um pequeno fio de sangue subiu na água e se dissolveu como fumaça vermelha.

Não era um sonho.

E não era um pesadelo.

Era algo pior e mais estranho

era real.

Olhando para a própria mão, notou detalhes que o pânico inicial havia escondido. 

 

Membranas translúcidas conectavam seus dedos, finas como papel de seda, mas resistentes — ele conseguiu esticá-las sem rasgar.

Suas unhas estavam longas, afiadas, e levemente curvas, mais parecidas com garras do que com unhas humanas.

A pele de seu antebraço, onde a luva do uniforme havia rasgado, exibia um tom sutilmente azulado, como se ele tivesse passado tempo demais no frio — exceto que a água ao redor era amena, quase morna.

Em pânico crescente — mas um pânico controlado, porque ele era um ex Robin, e Robins não desabam — passou a língua pelos dentes.

 

Sentiu-os pontiagudos. 

Não caninos alongados como de um vampiro, mas uma fileira completa de dentes triangulares, serrilhados nas bordas, perfeitos para rasgar carne.

A língua também era diferente: mais comprida, mais flexível, e tinha uma textura áspera como a de um gato.

Seus dedos subiram para a lateral da cabeça, tocando as orelhas. 

 

Elas haviam se transformado em pequenas abas membranosas, achatadas contra o crânio, que imitavam barbatanas arredondadas.

Quando ele se concentrou, conseguiu movê-las independentemente — uma girava para a frente, a outra para trás, captando sons que antes eram inaudíveis

o correr da água em canos distantes, o eco de passos lá no alto da superfície, o bater de asas de morcegos em cavernas vizinhas.

Por fim, tateou o pescoço.

 

Três fissuras verticais se abriam e fechavam ali, em um ritmo lento e constante.

Guelras. 

Ele enfiou um dedo dentro de uma delas — uma sensação bizarra, como cutucar a própria garganta pelo lado de fora — e sentiu o tecido úmido e macio, as lamelas se contraindo ao redor de sua ponta do dedo como se estivessem beijando-o.

 

Seu cérebro entrou em curto-circuito.

 

Só então ele se deu conta do detalhe mais absurdo de todos, o detalhe que tornava tudo isso não apenas estranho, mas impossível

 

ele estava respirando perfeitamente aquele tempo inteiro. 

Não havia queimação nos pulmões. 

Não havia desespero por ar. 

Cada "inspiração" era na verdade uma passagem de água pelas guelras, que extraíam oxigênio com eficiência mecânica, como se ele tivesse nascido fazendo aquilo.

Ele havia virado uma sereia.

Ou um tritão.

Ou um homem-peixe. 

Ou o que quer que os cientistas chamassem de Homo aquaticus — se é que existiam cientistas que estudavam esse tipo de coisa, o que ele duvidava muito.

Exatamente como nos contos de fadas que sua mãe contava nas raras vezes em que estava em casa .

A memória o atingiu com uma força inesperada

 

Janet Drake, sentada na borda da cama dele, os cabelos pretos caindo sobre os ombros, lendo A Pequena Sereia em voz alta. 

Não a versão da Disney, mas a original, a de Hans Christian Andersen, onde a sereia sentia como se cada passo em suas pernas humanas fosse andar sobre facas.

Ele tinha sete anos. 

Sua mãe havia rido quando ele perguntou se sereias existiam de verdade. "Claro que não, Timothy", ela disse, fechando o livro. "São apenas histórias para crianças."

Aquela era uma memória especial.

 

Aos sete anos, naquela mesma noite, ele tinha tentado virar uma criatura mística seguindo um tutorial barato de internet — um ritual ridículo que envolvia banho de sal grosso, pedras azuis e uma xícara de chá de camomila — terminando a noite chorando debaixo do chuveiro quando nada aconteceu.

Jack Drake o encontrou todo molhado e achou que ele estava doente

Agora, quase dez anos depois, sua mente destruída pelo choque trabalhava em hora extra, os neurônios disparando como metralhadoras:

 

O que aconteceu? Foi o Coringa? Foi algum experimento químico ? Por que estou assim? Será que fui alvo de testes enquanto estava inconsciente? Será que aquela água prateada fez isso? Mas isso não faz sentido... Água não transforma pessoas em sereias. A menos que... não, nem vou terminar esse pensamento. magica não. Eu sou uma sereia agora. Como, como, COMO?!

Ele fechou os olhos com força.

 

 Inspirou — ou melhor, branqueou — profundamente, sentindo a água fria passar pelas guelras. 

Calma. Método. O B sempre diz: pânico é o inimigo. Primeiro, avalie a situação. Depois, formule um plano. Depois, entre em pânico se ainda fizer sentido.

Abriu os olhos.

Forçando-se a sair daquela espiral de pensamentos — uma espiral que poderia consumi-lo se ele permitisse — ele se contorceu, impulsionando-se até a superfície.

 

 O movimento da cauda ainda era estranho, desajeitado, exigindo uma coordenação muscular que ele não possuía. 

Parecia uma criança aprendendo a nadar pela primeira vez

 os braços remavam em círculos exagerados, o tronco girava demais para um lado, a cauda batia na água como um peixe fora d'água. 

Dentro d'água.

 A ironia era dolorosa.

Ao romper a barreira da água, soltou um longo suspiro misturado com uma tosse seca — um hábito antigo, porque seus pulmões não haviam sido usados nos últimos minutos. 

 

A garganta ardeu levemente, como se estivesse aprendendo a respirar ar pela primeira vez.

 As guelras em seu pescoço se fecharam automaticamente, as fendas selando-se com um pequeno estalido úmido.

Olhou ao redor, tentando processar o ambiente com os olhos que agora captavam nuances que antes eram invisíveis — a poeira no ar, as pequenas mudanças na agua, o brilho fraco de organismos bioluminescentes nas paredes.

 

Ele estava em um poço de água surpreendentemente limpa — o que era um milagre considerando que Gotham tinha o esgoto mais tóxico do hemisfério norte.

 

 Agora que a adrenalina baixava, os detalhes do lugar se revelavam com uma clareza quase sobrenatural.

 Olhando para o fundo, algas bioluminescentes emitiam um brilho suave, um azul-esverdeado que pulsava lentamente, como se as próprias plantas estivessem respirando

. Serviam como a única fonte de luz na escuridão daquela gruta, junto com musgos que cobriam o teto em formato de abóbada, formando constelações vegetais que se refletiam na superfície da água como um segundo céu.

Abaixo dele, peixes nadavam preguiçosamente.

 

 Não os peixes comuns de rio — estes eram estranhos, antigos, com escamas prateadas e olhos brancos e opacos, como se nunca tivessem visto a luz do sol. Alguns tinham barbilhões longos como bigodes de gato.

 

Outros eram quase transparentes, suas espinhas dorsais visíveis como esqueletos vivos.

 

Sua boca salivou instantaneamente.

 

Não foi um pensamento consciente.

 

Não foi uma decisão.

 Foi um instinto puro e avassalador, como um interruptor sendo ligado no fundo de seu cérebro reptiliano. 

A fome desabou sobre ele como uma onda, tão súbita e violenta que suas mãos começaram a tremer. 

Os peixes lá embaixo, tão lentos, tão desavisados, tão suculentos...

Antes que sua mente lógica pudesse intervir, um impulso puramente selvagem o dominou.

Ele imaginou — não, sentiu — o que seria agarrar um deles.

As escamas escorregadias contra suas palmas, o corpo gordo se contorcendo, a cabeça sendo arrancada com uma mordida limpa, o sangue — sangue vermelho, quente — flutuando pela água prateada em nuvens doces, as escamas brilhantes sendo arrancadas com as unhas para serem guardadas, usadas como brincos, como colares, como troféus.

 

Ele balançou a cabeça vigorosamente, tão rápido que a água bateu em seu rosto e entrou em suas narinas. 

 

Não. Não, não, não. Isso não é você. Isso é a... a coisa sereia. Você não come peixe cru. Você não come peixe ponto. Você come pizza. Você come hambúrguer. Você é um ser humano civilizado, pelo amor de Deus.

Mas não pôde negar que os peixes pareciam tragicamente apetitosos. 

 

Seus olhos continuaram seguindo um espécime particularmente gordo que passou nadando a poucos metros de distância, e ele teve que virar o rosto à força para não começar a salivar de novo.

Como um poço tão pequeno podia ser tão fundo? perguntou-se, mais para distrair a mente do que por curiosidade genuína. 

 

Ele estimou uns doze metros de profundidade, talvez quinze, o que era geologicamente improvável para uma formação natural naquela região.

 Mas Gotham inteira era geologicamente improvável.

Mais calmo — ou pelo menos fingindo estar mais calmo — ele começou a catalogar as novas informações, ativando seu modo detetive como quem veste uma armadura. 

 

O pânico ainda estava lá, pulsando nos cantos de sua consciência, mas agora estava trancado em uma gaveta trancada mental, esperando para ser processado depois, possivelmente nunca.

 

Primeiro, sobreviva. Depois, tenha uma crise existencial. É o que o B sempre diz.

Ele tentou falar, mas nenhuma palavra saiu; apenas bolhas escaparam de seus lábios

 

Ok, anotar isso, certo, novo ambiente ,Como o B sempre diz: pensar e planejar antes de agir. Certo. Vamos por partes.

 

Ele levantou a cauda acima da superfície, observando as escamas brilharem sob a luz bioluminescente.

 

— Nota mental número um: aparentemente sou uma sereia? Um tritão? Sereianio? Homo aquaticus drakensis? — fez uma pausa na sua linha de raciocínio, franzindo os lábios. — Sendo honesto, isso é maneiro. Muito maneiro. Tipo, objetivamente maneiro. Devo falar com o Constantine mais tarde para descobrir se isso é magia ou mutação ou o quê. 

 

Ele mergulhou novamente e subiu em um movimento contínuo, testando a amplitude da cauda.

 

— Nota mental número dois: aparentemente tenho impulsos predatórios. Fortes impulsos predatórios. Impulsos predatórios que envolvem arrancar cabeças de peixes com os dentes e usar suas escamas como bijuterias. — Ele piscou, processando o próprio pensamento. — Isso é... preocupante. Vou colocar na lista de "coisas para discutir com o Dinah na próxima sessão de terapia". Se eu voltar para a superfície. Quando eu voltar. Se.

 

Analisando as bordas do poço com seus novos olhos adaptados à escuridão, avistou uma pequena parte rochosa elevada, um afloramento de calcário que formava uma plataforma natural a cerca de meio metro acima do nível da água. 

 

Parecia lisa o suficiente para sentar, áspera o suficiente para não escorregar.

 

Contorcendo-se de forma desajeitada, lutando contra a própria cauda que teimava em girar na direção oposta, ele começou a manobra rumo à borda. 

 

Foi, para ser gentil, um desastre. 

A cauda, que na água era ágil e poderosa, fora dela era um fardo de quinze quilos de músculo e escama que se recusava a cooperar. 

Ele se agarrou a uma saliência na rocha, puxou o torso para cima, sentou na borda — e escorregou de volta na água com um respingo estrondoso.

A segunda tentativa foi melhor. 

 

Ele usou os braços para se impulsionar, apoiou os cotovelos na rocha, e se arrastou como uma foca desajeitada até ficar com metade do corpo para fora.

 A cauda ainda pendia na água, pesada e molhada, mas ele conseguiu se equilibrar.

A terceira tentativa — porque sim, houve uma terceira — finalmente o colocou totalmente sentado na plataforma, a cauda estendida à sua frente como uma cobra escarlate brilhando sob a luz do musgo.

 

Ele nunca admitiria a ninguém, nem sob tortura, o quanto demorou e o número de vezes que escorregou antes de conseguir se sentar ali. 

 

Se o Superman aparecesse naquele momento e perguntasse quantas tentativas foram necessárias, Tim mentiria. Diria caso pudesse "três".

 Foram sete. 

Sete tentativas patéticas, cada uma mais constrangedora que a anterior, incluindo uma em que ele caiu de cabeça para dentro da água e engoliu tanto líquido que teve que subir tossindo por quase um minuto.

Fora da água, suas mãos pareciam quase normais.

 Quase. 

Exceto pela palidez azulada que agora tingia sua pele permanentemente — como se ele estivesse com frio, mas não sentia frio.

 Exceto pelas membranas entre os dedos, que se retraíam parcialmente quando expostas ao ar, virando finas linhas de pele esticada.

 Exceto pelas unhas, que permaneciam longas e afiadas, clicando contra a rocha quando ele movia os dedos.

Ele aproveitou para examinar a cauda com mais luz, agora que estava fora da água e podia vê-la sem a distorção do líquido.

 

 Sendo franco, era linda.

 As escamas não eram apenas vermelhas — eram um degradê que começava num vermelho-escuro quase negro na altura da cintura, passava por um carmim intenso no meio, e terminava num laranja-queimado na barbatana caudal.

 As listras negras não eram uniformes

 algumas eram grossas como polegadas, outras finas como fios de cabelo, formando um padrão que lembrava os arabescos de uma bandeira pirata. 

E o amarelo-dourado nas bordas brilhava quando ele movia a cauda, como se pequenas pepitas de ouro estivessem incrustadas nas escamas.

Suspirando, o garoto pegou uma pedra solta que estava na plataforma — um fragmento de quartzito pontiagudo — e começou a afiá-la contra a parede da gruta. 

 

O movimento era mecânico, quase meditativo. 

 

Rasp, 

rasp, 

rasp. 

A cada fricção, lascas minúsculas de rocha caíam em seus pés humanos-que-não-eram-humanos.

Quando a ponta ficou firme o suficiente para riscar pedra, ele se virou para a parede lisa atrás de si. E começou a rabiscar.

 

Era um hábito antigo.

 

 Um método de sobrevivência que ele desenvolvera muito antes de se tornar Robin, quando ainda era apenas um garoto solitário que se escondia nos telhados de Gotham com uma câmera e um caderno. 

Ele usou desenhos simples — linhas e círculos que representavam a forma do poço, setas indicando correntes, triângulos marcando possíveis saídas — e um alfabeto simples codificado que ele mesmo havia criado na infância.

 Uma linguagem feita para quando estivesse perdido, longe de casa, sem ninguém para pedir ajuda.

Era um código ridiculamente simples, na verdade. 

 

Uma cifra de substituição onde cada letra era trocada pela letra três posições à frente no alfabeto, mas com as vogais invertidas e os números substituídos por símbolos astrológicos. 

Ele a desenvolvera quando tinha oito anos, entediado em uma festa de gala dos pais, desenhando em um guardanapo enquanto os adultos falavam sobre ações e dividendos.

O código nunca havia sido útil. Até agora.

 

Formato do poço: cilíndrico irregular, ~15m de profundidade, ~8m de diâmetro. Paredes de calcário, musgo bioluminescente no teto, algas no fundo.

Corrente subterrânea detectável a ~12m de profundidade, direção nordeste. Possível passagem submersa? Investiguei depois.

Ele acrescentou alguns rabiscos sobre seus novos atributos físicos — cauda, guelras, dentes serrilhados, impulsos canibalescos (moderados) — e uma lista de prioridades:

1. Encontrar saída.

2. Testar limites da transformação (tempo fora da água? alcance de visão subaquática? força?).

3. Não comer se pensar. REPITO: NÃO COMER SEM PENSAR

4. Descobrir o que diabos o Coringa fez comigo.

 

Cerca de trinta minutos se passaram — ou talvez quarenta, ele perdeu a noção do tempo. 

 

Entre setas, linhas e círculos que formavam um mapa torto do poço, Tim sentiu sua cauda secar.

A princípio foi apenas uma sensação de ressecamento, como pele depois de um banho quente. Mas rapidamente evoluiu para algo mais estranho

 

um formigamento intenso, como formigas caminhando sob suas escamas, acompanhado por um calor interno que começava na base da coluna e se espalhava para baixo.

Uma fumaça fina começou a subir de sua pele — não fumaça de fogo, mas um vapor prateado, etéreo, como gelo seco evaporando.

 

 O formigamento se intensificou, tornando-se levemente desconfortável, mas não doloroso. 

Era como quando um membro adormecido desperta

aquele choque de agulhas e eletricidade que faz você querer sacudir a perna, mesmo sabendo que não adianta.

Quando olhou novamente, suas pernas humanas haviam retornado.

 

Não houve transição gradual. 

 

Não houve metamorfose lenta, escamas virando pele, barbatana se dividindo em dedos.

 Foi um piscar

num instante ele tinha uma cauda escarlate; no instante seguinte, duas pernas pálidas e familiares estendidas à sua frente, vestindo o que restava de seu uniforme destruído.

Os restos do traje do Red Robin estavam em frangalhos — a capa preto reduzida a tiras, o colete rasgado de cima a baixo, as calças transformadas em shorts irregulares que mal cobriam suas coxas.

 Mas estavam ali.

 E, por algum milagre, o cinto de utilidades ainda estava preso à sua cintura, embora amassado e riscado.

Ele vasculhou os bolsos rapidamente, dedos trêmulos tateando cada compartimento.

 

O bastão bō e o reserva: sumido. 

Os Batarangs de reserva: sumidos.

 O kit de primeiros socorros: sumido

. O comunicador: destruído, o plástico derretido, os fios expostos.

 O sinalizador de fumaça: sumido.

 A granada de flash: sumida.

 A carteira com a identidade civil falsa: incrivelmente, ainda ali, encharcada e com a tinta borrada, mas intacta.

Nota mental número três: a transformação não transfere objetos inorgânicos. Ou transfere seletivamente. Ou destruiu tudo. Ou... não sei. Preciso de mais dados.

 

Instigado pelo mistério — e porque seu cérebro de detetive não conseguia deixar uma pergunta sem resposta — ele resolveu testar uma hipótese. 

 

Inclinou-se para a borda da plataforma, mergulhou a mão enluvada na água do poço e colheu algumas gotas na palma. 

Elas brilhavam levemente, ainda tingidas de prata pelo fenômeno lunar.

Pingou-as na própria perna.

 

O formigamento voltou instantaneamente, mais rápido e mais intenso do que antes.

 

 A fumaça prateada subiu em espirais, e em dez segundos — ele contou, porque era assim que funcionava — a cauda vermelha e preta estava de volta, estendendo-se pesada e escamosa sobre a rocha.

 As roupas sumiram novamente, deixando seu torso nu, as membranas entre os dedos reaparecendo, as guelras no pescoço se abrindo com um suspiro úmido.

Entendido, anotou mentalmente. Contato com água = forma aquática. Secagem = forma humana. Roupas são armazenadas ou projetadas durante a transformação. Mecanismo desconhecido, provavelmente mágico ou extradimensional. Adicionar à lista de perguntas para o Constantine.

 

Ele pulou de volta no poço — um movimento que agora era mais confiante, a cauda batendo na água com um estalo satisfatório. 

 

Submergiu até o fundo e subiu novamente em um arco gracioso, testando os músculos.

 Descobriu que suas roupas desapareciam completamente na forma aquática, deixando apenas o cinto de utilidades — que de alguma forma permanecia grudado à sua cintura, como se a magia entendesse que aquilo era importante. 

Mas o cinto também mudava: as fivelas de metal se tornavam um material escamoso e flexível, as cápsulas de utilidades se fundiam às escamas da cauda, como se fizessem parte de seu corpo.

Interessante. O cinto foi absorvido, mas as ferramentas individuais foram destruídas ou ejetadas. Provavelmente porque o cinto é um equipamento unificado, enquanto os Batarangs são objetos soltos. A transformação afeta o que está em contato direto com a pele? Ou o que é considerado parte do 'eu' do usuário? Perguntas para outro dia.

 

Tim passou o tempo seguinte praticando o nado, testando os movimentos até pegar o jeito.

 

 Descobriu que conseguia nadar mais rápido do que qualquer humano, talvez tão rápido quanto um barco pequeno.

 Descobriu que conseguia ver perfeitamente na escuridão total, seus olhos agora capazes de captar até mesmo o fraco brilho emitido por seu próprio corpo. 

Descobriu que conseguia prender a respiração — ou melhor, trocar oxigênio através das guelras — por tempo indeterminado

 

 não sentiu falta de ar nem depois de quarenta minutos submerso.

Graças ao seu hiperfoco característico — aquela capacidade de se perder completamente em um problema até esquecer de comer, dormir, ou parar para pensar em como tudo aquilo era aterrorizante — aquela investigação biológica se tornou quase divertida.

 

 Ele nadava de um lado para o outro, medindo distâncias, testando ângulos, catalogando cada nova descoberta como se estivesse preenchendo uma ficha de campo. 

Velocidade máxima: aproximadamente 30 nós. Profundidade máxima testada: 15 metros (não havia mais fundo). Visão noturna: excelente. Ecolocalização: possível, mas limitada.

Porém, a realidade logo se impôs, como um balde de água fria — trocadilho não intencional, mas apropriado.

 

Ele estava preso ali dentro.

 

Não havia saída visível.

 

 As paredes do poço eram lisas demais para escalar sem equipamento. 

O teto ficava a pelo menos vinte metros acima, e mesmo que conseguisse subir, estava bloqueado por toneladas de rocha que haviam desabado na explosão.

 A corrente subterrânea que o trouxera até ali estava bloqueada pelo colapso — ele nadou até a passagem e confirmou

 um muralha sólida de pedra e terra, sem nenhuma fissura grande o suficiente para passar um braço, quanto mais um corpo.

Tim não entrou em pânico.

 

Essa foi uma decisão consciente. Mesmo que uma parte dele — uma parte barulhenta, infantil e assustada — quisesse muito fazer isso.

 

 Quisesse gritar, se debater, chorar, bater a cauda na água até se cansar. 

Mas ele era ex Robin. 

Robins não entram em pânico. 

Robins pensam. Planejam. E, quando tudo mais falha, esperam.

Em vez disso, continuou a nadar e a mapear a estrutura do poço.

 

 Encontrou três possíveis saídas, todas bloqueadas, mas uma delas parecia instável — talvez pudesse ser escavada com tempo e ferramentas.

 Anotou a localização na parede com seu código.

 Depois, encontrou uma pequena bolsa de ar presa em uma fenda perto do teto, onde o nível da água não alcançava. 

Caberia uma pessoa.

 Talvez servisse como abrigo temporário.

Eventualmente, o cansaço extremo cobrou o seu preço.

 

Não era apenas cansaço físico — embora os músculos de suas costas e cauda estivessem doloridos de tanto nadar.

 

Era um cansaço mais profundo, mais antigo.

 O cansaço de quem foi espancado até a morte e voltou. 

O cansaço de quem passou horas sendo arrastado por esgotos tóxicos.

 O cansaço de quem acordou em um corpo que não reconhecia, em um lugar que não sabia como sair, em uma vida que tinha virado de cabeça para baixo.

Com os olhos pesados, as pálpebras caindo como cortinas de chumbo, o jovem herói afundou calmamente. Não lutou contra a descida.

 

 Deixou a água o envolver, o brilho suave das algas o guiando para o fundo.

Decidiu dormir ali mesmo. No fundo do poço.

 

A água era quente — ou talvez ele estivesse apenas acostumado ao frio agora.

 

 O musgo bioluminescente formava um colchão macio de luz azulada no leito rochoso.

 Os peixes se afastaram respeitosamente, formando um círculo ao redor de seu corpo flutuante, como pequenos guardas noturnos. 

Sua cauda se enrolou frouxamente ao redor de seu torso, um reflexo de aquecimento que ele nem sabia que possuía, e as guelras em seu pescoço continuaram seu trabalho silencioso, extraindo oxigênio da água em um ritmo constante e calmante.

Ele não sonhou. 

 

Ou talvez tenha sonhado, e apenas não se lembrava. 

Mas, se tivesse que adivinhar, diria que sonhou com a superfície. 

Com o céu cinza familar. 

Com a sua familia.

Com a esperança de, um dia, voltar para casa.

 

Chapter 2: cave fish

Summary:

Tim sai. Tim muda. Tim se perde. Tim descobre que não está sozinho. Tim é caçado. Tim é encontrado. Tim aprofunda seu entendimento sobre sua nova natureza.Não necessariamente nessa ordem.

Notes:

ok eu ACREDITO FIELMENTE na maldição do AO3 agora 😭😭😭

hoje de manhã comentei sobre a maldição com a minha amiga
autora: bla bla bla, eu realmente espero não pegar a maldição, bla bla bla

também a autora fica doente com febre e dor de cabeça e não consegue escrever esse capítulo mais cedo e também fez ele ser curto:......
......
.......
MALDIÇÃO!!!!!!! (゚Д゚*)

bem, espero que gostem desse capítulo (。・ω・。)

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

O tempo.

 

Oh, O Tempo.

 

O tempo havia se tornado uma variável um tanto quanto abstrata ali embaixo.

 

Dias?

 

Semanas?

 

Tim já não sabia dizer.

 

Naquela profundidade sob o solo de Gotham, as horas pareciam se dilatar e encolher como a própria maré do poço — uma maré que ignorava a lua, regida apenas pelo capricho de alguma veia subterrânea e esquecida da cidade.

 

A única medida que lhe restava era o próprio corpo

 

a frequência do sono,

 

a velocidade com que as unhas cresciam,

 

a maneira como a pele parecia se adaptar, lenta e irrevogavelmente, à pressão e ao frio a seu novo eu.

 

Mesmo olhando para cima, em direção à pequena fenda no teto de pedra, a referência era nula.

 

O céu de Gotham, que sempre fora de um cinza industrial, ali parecia ter sido engolido por um breu absoluto, como se aquela fenda desse para um canto esquecido e sem estrelas da cidade.

Às vezes, Tim jurava ver algo se movendo naquela escuridão lá de cima — um reflexo, talvez, ou apenas um espasmo de sua retina cansada.

Perder-se na contagem dos dias foi inevitável.

A fome, no entanto, não respeitava a falta de relógios.

No que ele presumia ser o segundo ou terceiro dia, o estômago protestou com força — um vazio que não era apenas desconforto, mas uma rasura crua, como se algo dentro dele estivesse começando a se canibalizar.

 

Tim sabia que, com o cérebro privado de energia, sua mente começaria a falhar — e falhar ali, sozinho, naquela bolsa de pedra e água, significava a morte novamente.

 

Ele precisava caçar.

 

Seus olhos se fixaram no cardume que brilhava sob a água prateada.

 

Os peixes com escamas minúsculas refletindo uma luz que não existia.

 

Escolheu o peixe mais gordo, o que nadava com uma lentidão arrogante, alheio ao fato de que não era mais o topo da cadeia alimentar ali.

 

Com um movimento instintivo e rápido de sua nova cauda, ele impulsionou o corpo para a frente, cortando o líquido de forma surpreendentemente hidrodinâmica.

 

A água lambeu suas guelras, e por um instante ele quase esqueceu o esforço.

 

Quase.

 

Suas mãos — agora armadas com unhas longas e afiadas como garras — fecharam-se sobre a presa.

 

O peixe debateu-se violentamente, uma massa de músculos escorregadios lutando pela vida, mas o aperto de Tim era implacável.

 

Havia algo de profundamente satisfatório naquela resistência — a vibração do pânico animal percorrendo sua palma, o calor do sangue começando a escorrer entre seus dedos. Com um golpe rápido e preciso de suas garras no pescoço do animal, a luta cessou.

 

O silêncio voltou, agora mais denso.

 

Arrastando-se para fora da água até a plataforma de pedra onde se abrigava, Tim conteve o impulso de morder a carne imediatamente.

Ele testou o sangue e a carne do peixe, esperando alguns minutos agonizantes para garantir que nenhuma toxina ou veneno reagiria com seu novo organismo.

Passou a língua no dorso da mão, onde uma gota vermelha insistia em brilhar.

Nenhum ardor.

Nenhum formigamento.

Quando julgou seguro, pegou a lasca de pedra afiada, lavou-a na água prateada do poço e começou a filetar o peixe, improvisando uma espécie de sashimi.

 

O primeiro pedaço foi uma revelação.

 

Não havia como negar

 

Estava delicioso.

 

Na verdade, foi o peixe mais saboroso que ele já havia provado na vida — a carne rica e gordurosa derretendo em sua boca em camadas sucessivas de umami, salinidade e algo doce que ele não conseguia nomear.

 

Ele comeu devagar no primeiro filé, quase com reverência.

 

No segundo, a reverência deu lugar à urgência.

 

Antes que se desse conta, o banquete havia acabado.

 

Tim se pegou lambendo os próprios dedos, saboreando os últimos vestígios do sangue vermelho e quente do animal.

 

A unha do polegar roçou seu lábio inferior, e ele sentiu uma pontada de culpa ao notar que não sentia nenhuma repulsa.

 

É só comida, pensou, mas a sua afirmação soou estranha.

 

Teria soado mais convincente se seu reflexo na água não tivesse pupilas verticais e escamas agora.

 

Sua atenção voltou-se para o poço. Ao mergulhar de volta, notou o restante do cardume se dispersando freneticamente, escondendo-se nas sombras das rochas subaquáticas.

 

Criaturas medrosas, pensou, sentindo uma pontada de desdém que não parecia totalmente humana.

 

Não era raiva — era algo mais antigo novo, mais silencioso.

 

Era o reconhecimento de que, ali embaixo, não havia testemunhas.

 

Ninguém para dizer não faça isso ou isso não é você.

 

Com mais facilidade dessa vez, capturou mais dois peixes suculentos e os devorou da mesma maneira.

 

Mastigou a cartilagem.

 

Chupou a espinha.

 

No fim, jogou os restos de volta à água e observou, com uma curiosidade clínica e mórbida, como os peixes menores devoravam os ossos do próprio irmão de cardume.

 

De estômago cheio, o foco mudou.

 

Ele percebeu que, embora soubesse nadar, sua coordenação com a nova cauda ainda era desajeitada e ruidosa.

 

Cada virada soava como um chicote subaquático — um convite para que qualquer presa em potencial fugisse antes mesmo que ele começasse a perseguição.

 

Tim não queria ter que travar uma perseguição exaustiva toda vez que sentisse fome.

 

Não ali.

 

Não quando cada caloria gasta precisava ser reposta.

 

Ele precisava ser mais silencioso.

 

Precisava ser um predador perfeito.

 

Não por vaidade — por pura, fria e matemática eficiência.

 

Ali mesmo, na escuridão daquele poço esquecido, ele decidiu que era hora de domar sua nova anatomia e aprimorar suas habilidades na água, dominando por completo a sua "versão cauda" ou melhor "sereia"

 

Enquanto a água fria fechava sobre sua cabeça mais uma vez, Tim pensou em Gotham.

 

Pensou em Bruce.

 

Pensou em Dick.

 

Pensou em Kon.

 

Pensou em Alfred.

 

Pensou em Cassandra.

 

Pensou em todas as pessoas que amava e admirava.

 

Pensou no que diriam se vissem o Red Robin tecnicamente morto aprender a caçar com dentes de tubarão.

 

Eles ficariam orgulhosos? Perguntou-se.

 

Ou teriam medo repulsa de mim?

 

A resposta, ele sabia, dependia de quanto dele ainda restava.

 

Mas o tempo não para.

 

Nunca para.

 

E quando Tim mal percebeu, ele começou a mudar.

 

Mais e mais.

 

No início, foi sutil — um pensamento que não era exatamente dele, uma reação que precedia qualquer análise.

 

Depois, tornou-se mais frequente

 

a vontade de cutucar um crustáceo apenas para vê-lo se encolher,

 

o prazer genuíno em perseguir um cardume só pelo exercício,

 

a risada que escapou quando ele tentou imitar o som de bolhas estourando com a boca.

 

Rir sozinho, na escuridão de um poço esquecido por Deus e por Gotham.

 

Rir de verdade em muito tempo.

 

Sua mente começou a se adaptar — pelo menos na forma sereia — a seu novo corpo.

 

Ele pensou em como descrever aquilo para si mesmo, 

 

É como ter sete anos de novo.

 

Mas não qualquer sete anos.

 

Era uma versão mais divertida do que ele jamais foi naquela idade — curiosa, impulsiva, simples.

 

Uma mente que reagia antes de calcular, que sentia antes de pensar.

 

E, francamente, era quase relaxante.

 

Ele não sabe se isso é um mecanismo de enfrentamento ou não.

 

Talvez seja apenas a biologia fazendo seu trabalho

 

um corpo novo exige uma mente compatível.

 

Talvez seja apenas a solidão extrema, corroendo as camadas mais rígidas que ele construiu ao longo dos anos.

 

Ou talvez — e essa possibilidade ele guarda para as 3h da manhã, quando não consegue dormir — talvez essa criança sempre tenha estado lá, esperando, e o poço apenas a deixou sair.

 

Toda vez que ele se seca e volta a ser o Tim normal novamente, parece que ele está colocando sua criança interior para dormir.

 

E a criança interior — no caso, a sua agora nova outra metade — não gosta disso.

 

Ele sente o desapontamento como uma fisgada no peito quando as pernas voltam a aparecer, quando a cauda se dissolve em carne humana e os pensamentos ficam mais pesados, mais lentos, mais... adultos.

 

É estranho,

 

ele pensa certa noite, encostado na parede de pedra, olhando para as próprias pernas como se fossem um erro talvez fossem.

 

Eu nunca quis ser criança. Nem quando eu era criança.

 

Os dias e as noites começaram a se misturar rapidamente.

 

Sem sol, sem lua, sem relógio — o que diferenciava uma manhã de uma madrugada?

 

Nada, exceto seus próprios ciclos de sono e vigília.

 

E antes que ele mesmo percebesse, tinha estabelecido uma rotina.

 

Até que bem definida, para os seus padrões.

 

A rotina de dele no poço consistia em:

 

Acordar — geralmente com o estômago vazio ecoando pelas paredes de pedra ou com a garganta fechada por um sonho que ele mal consegue lembrar

 

Pegar comida — mergulhar, perseguir, capturar.

 

Depois, encostado na plataforma fria, filetar o peixe com uma lasca de pedra afiada.

 

Comer devagar, quase cerimoniosamente, quando é o Tim humano que está no controle.

 

Ou devorar com as mãos e os dentes, rápido e sujo, quando a sereia já acordou e a fome não pede licença.

 

Treinar — nadar em círculos até a exaustão, fazer viradas bruscas que chicoteiam a água, perseguir cardumes sem matá-los, apenas para testar velocidade e silêncio.

 

Cada movimento um reparo em uma máquina que ele ainda não entende por completo.

 

Meditar — a técnica que Bruce lhe ensinou nos primeiros meses como Robin.

 

Só que aqui, no fundo do poço, o propósito é outro

 

manter os dois "eus" alinhados. Respirar fundo (com pulmões ou com guelras, tanto faz) e lembrar quem ele é — ou quem ele está se tornando.

 

Para não se perder completamente em nenhum dos dois.

 

Procurar saídas — percorrer as paredes do poço com as pontas dos dedos, tatear cada fenda, cada rachadura, cada promessa falsa de luz.

 

Esperar, sempre esperar, encontrar algo que não estava lá no dia anterior.

 

Testar hipóteses— A correnteza muda com a estação lá em cima? Há algum padrão na frequência dos ecos quando o sol nasce? Se eu deixar um pedaço de roupa aqui, ele some pela manhã? O detetive nunca realmente dorme, nem mesmo na água ou embaixo dela. 

 

Atualizar o mapa do poço — usar a pedra na parede macia para riscar um sistema de marcas que só ele entende.

 

Cada traço uma descoberta.

 

Cada risco uma certeza. 

 

Uma esperança.

 

Comer de novo — porque o corpo sereia gasta energia como se não houvesse amanhã, e porque a fome nunca vem nos horários certos.

 

Ela chega como uma maré — às vezes fraca, às vezes avassaladora.

 

Treinar mais um pouco — porque não há nada melhor para fazer.

 

Porque o silêncio é mais alto quando ele para.

 

Porque a alternativa é pensar demais, e pensar demais, ali embaixo, é um luxo que ele não pode pagar.

 

Dormir — ou tentar.

 

Encostar a cabeça na pedra mais macia que encontrou, enrolar a cauda em torno do próprio corpo, caso ainda não tenha secado, como um cobertor improvisado, sentir a camisa social colando na pele.

 

Fechar os olhos e esperar que os sonhos não venham.

 

Ou que venham, pelo menos os bons.

 

Quanto mais seu corpo se adaptava — e, por consequência, sua mente também —, mais ele parecia controlar sua nova cauda.

 

Ainda parecia um iniciante em natação, sim.

 

Mas isso eram detalhes.

 

Ele já não batia a cauda nas paredes.

 

Já não afundava de lado.

 

Já conseguia fazer curvas fechadas sem perder velocidade, já conseguia parar subitamente no meio da água — um movimento que exigia coordenação fina entre abdômen, lombar e os novos músculos da cintura pélvica.

 

Ainda era desajeitado comparado a um peixe de verdade, mas comparado a si mesmo de três acha dias atrás? Era um atleta.

 

Hoje, Tim acorda.

 

Ele se espreguiça — braços para cima, costas estalando, ombros girando em um círculo lento.

 

Sua roupa consiste em uma camisa social claramente grande demais para ele (devia ser do Bruce, de algum estoque de emergência que ele enfiou no cinto utilitário meses atrás) e uma cueca boxer preta.

 

Só.

 

O uniforme de Red Robin que ele teve que se livrar estava encostado em um canto da parede mais longe.

 

Seu aparente "passeio" pelos esgotos — o espancamento, o desmaio morte, a chegada no poço — fez com que as peças fossem extremamente perigosas de se vestir, com contaminantes que... bem.

Acho que essa linha de raciocínio não deve ser continuada.

 

Além disso, o uniforme está em trapos por causa do que o Coringa fez.

 

Felizmente, em seu cinto utilitário — que milagrosamente sobreviveu à viagem — ainda havia algumas roupas reservas.

 

Nada glamoroso.

 

Meias, uma camisa extra, um par de cuecas.

 

É o suficiente.

 

Não é como se ele tivesse alguém para impressionar ali embaixo.

 

Voltando.

 

Ele se espreguiça mais uma vez, senta-se na borda da plataforma de pedra e mergulha os pés na água.

 

O formigamento familiar começa imediatamente — aquela sensação elétrica, quase dolorosa mas não exatamente, que percorre suas veias e ossos.

 

A água parece puxar a cauda para fora dele, como se ela estivesse sempre lá, esperando, dobrada dentro da sua forma humana como um origami prestes a se abrir.

 

A cauda aparece — escamas que brilham mesmo na escuridão, músculos longos e poderosos, uma nadadeira caudal que se abre como um leque quando ele se prepara para mergulhar.

 

Ele pula na água.

 

O impacto é sempre uma pequena morte e um renascimento.

 

Por um segundo, nada.

 

Depois, os sentidos explodem — a temperatura da água, a pressão, os sabores dissolvidos, as vibrações de cada pequeno movimento ao redor.

 

Ele nada para dar uma acordada, movendo o corpo na água que agora é sua nova segunda natureza.

 

Cada braçada sincronizada com um golpe de cauda.

 

Cada virada acompanhada por um ajuste instintivo da nadadeira.

 

Depois de comer alguns peixes — dois, três, todos gordos e brilhantes — ele decide explorar o poço um pouco mais.

 

No início, ele achou que fosse só um cilindro incrivelmente fundo.

 

Mas não.

 

Havia algumas fendas nas paredes, aberturas estreitas que levavam a pequenas câmaras laterais.

 

Mesmo sem saída, essas câmaras tinham coisas

 

pequenos crustáceos cavernícolas que se mexiam devagar, cegos e brancos, adaptados à escuridão total.

 

Ele adorava cutucá-los.

 

Não para machucar — apenas para vê-los se encolher, para sentir a textura de suas carapaças sob as pontas dos dedos.

 

Era uma diversão tola.

 

Infantil.

 

Humana, de certa forma.

 

Era ridículo.

 

Ele sabia que era ridículo.

 

Aqui estava ele — Tim Drake, ex-Robin, o terceiro filho aluno do Batman — cutucando isópodes albinos com o dedo mindinho enquanto fazia blublublu debaixo d'água.

 

Mas a mente sereia achava aquilo fascinante e muito divertido. 

 

Eles têm muitas patinhas, ela observava, maravilhada com aquele coisa boba.

 

Olha como eles se enrolam quando eu encosto!

 

Hoje, porém, ele encontra uma fenda nova.

 

Ela fica em uma fenda que ele já conhece — uma rachadura na parede leste, perto do fundo. Mas há algo diferente agora

 

uma abertura que ele não tinha notado antes, talvez coberta por sedimento que a correnteza fraca do poço removeu durante a noite.

 

O tamanho é de aproximadamente dois braços de largura, e é meio difícil de passar.

 

A rocha é áspera e irregular, arranhando seus braços enquanto ele se espreme para dentro.

 

Respira, ele pensa Você não precisa de ar. Não aqui. Não agora.

 

E é verdade.

 

Na forma sereia, seus pulmões são apenas um resquício.

 

A maior parte do oxigênio vem das guelras nas laterais do pescoço .

 

Depois de passar pelo túnel estreito — um exercício de paciência e flexibilidade que testa cada músculo do seu corpo — ele se dá de cara com mais crustáceos.

 

Eles estão usando ele como carona, antes grudados nas paredes do túnel, nos pequenos recessos onde a correnteza deposita nutrientes.

 

Pequenos preguiçosos.

 

Ele cutuca um de passagem, apenas por hábito, e o bicho se encolhe com um movimento cômico.

 

Ele se rasteja mais um pouco — a cauda serpenteando atrás dele como uma cobra lenta — e então, de repente, ele cai.

 

Cai? Não exatamente.

 

Derrapa para dentro de uma espécie de poço dois.

 

Só que menor.

 

E com pouca iluminação — não luz, exatamente, mas uma fosforescência fraca, vinda de algum fungo ou bactéria nas paredes.

 

O suficiente para ver silhuetas.

 

O suficiente para ver a correnteza.

 

Ele sente.

 

Correnteza.

 

Ali.

 

Tim congela.

 

A correnteza significa movimento. Movimento significa um fluxo de água. Um fluxo de água significa entrada e saída. Entrada e saída significam — significam —

 

— uma saída.

 

Seu coração acelera.

 

O Tim humano, o detetive, o Robin que nunca desiste — esse Tim desperta dentro dele com um soco de adrenalina.

 

Mas ao mesmo tempo, a criança sereia também se anima, por razões completamente diferentes.

 

Novo lugar.

 

Novo cheiro.

 

Nova textura.

 

Nova coisa para explorar.

 

E por um momento raro e precioso, os dois lados de Tim Drake concordam em algo

 

Vamos seguir a correnteza.

Ao seguir a correnteza, Tim descobriu que escapar de um poço não era como nos filmes.

Não havia um túnel limpo e iluminado que levava diretamente à liberdade. Havia, em vez disso, um desafio físico e psicológico que testava cada limite do seu novo corpo — e de suas duas mentes.

Primeiro, ele teve que se espremer entre paredes de pedra tão próximas que suas escamas arranharam e chiaram contra a rocha.

Ele sentiu cada atrito como uma queimadura fria, os braços estendidos à frente, a cauda serpenteando atrás em movimentos curtos e desesperados.

A criança sereia, dentro dele, achou aquilo divertido — um jogo de esconde-esconde com a própria sobrevivência.

O Tim humano, por outro lado, calculava a margem de erro

 se a pedra ceder, se eu ficar preso, se a correnteza mudar de direção...

Depois veio um túnel que subia.

 

E depois descia.

 

E subia de novo.

A água ora acelerava, empurrando-o como uma mão gigante, ora se tornava tão lenta que ele precisava remar com as mãos para não parar completamente.

Em um trecho, o teto de rocha ficou tão baixo que ele teve que nadar de bruços, a cauda arrastando no chão, as guelras raspando na pedra. Em outro, o túnel se abriu em uma pequena câmara onde a água formava um redemoinho lento — e ele ficou rodando ali por quase um minuto, tonto e desorientado, até conseguir se impulsionar para fora.

Foi cansativo.

Mas pelo menos a criança estava se divertindo.

Ela ria das bolhas.

Cutucava as estalactites com os dedos só para vê-las balançar.

Apontava para pequenos crustáceos albinos e fazia sons de olha isso, olha isso! mesmo sabendo que não havia ninguém para ver.

Depois de sair desse trecho, ele parou em mais uma série de bifurcações.

E ficou fazendo cosplay de perseguição de Scooby-Doo.

Esquerda.

Direita.

Esquerda de novo.

Um túnel que levava a uma câmara sem saída cheia de pedras pontiagudas.

Outro que se dividia em três, todos idênticos, todos escuros, todos prometendo a mesma coisa:

mais nada.

A correnteza, que antes era uma guia confiável, agora se espalhava em várias direções, enfraquecida, indecisa.

Ele tentou seguir o fluxo mais forte, depois o mais frio, depois o que cheirava a algo diferente.

Nada funcionava.

O tempo perdeu o sentido novamente.

Quando finalmente saiu do último túnel — exausto, os braços tremendo, a cauda dolorida de tanto se contorcer — Tim se viu em uma caverna enorme.

Perdido.

Isso que dá seguir uma correnteza sem um plano.

Ele deu um tapa na própria testa.

O som ecoou, fraco, engolido pela imensidão ao redor.

A caverna era tão grande que sua respiração — ou o que quer que substituísse a respiração ali — não voltava.

Não havia parede para refletir o som.

Apenas um vazio escuro que se estendia para cima, para os lados, para baixo.

Para onde vou?

Ele não podia desistir agora.

Continuou a nadar.

E nadou.

E nadou mais.

Aos poucos, a água ficou mais fria.

Depois, mais parada.

Depois, escura.

Não a escuridão relativa do poço original, onde pelo menos havia um brilho vindo de cima, uma fenda, uma lembrança de superfície.

Aqui, a escuridão era absoluta.

Ele levantou a mão na frente do rosto e não viu nada.

Passou os dedos diante dos olhos e teve que confiar no tato para saber que eles ainda estavam lá.

Um calafrio subiu pela sua espinha.

Não, ele pensou. É só escuridão. Você já lidou com pior.

Mas a criança, dentro dele, se encolheu.

Tim se moveu mais um pouco — uma braçada, duas, três — e então algo passou rápido demais no canto do seu campo de visão.

O quê?

Ele se virou bruscamente, a cauda chicoteando a água num movimento defensivo.

 

Apenas escuridão o aguardava.

 

Nada.

 

Ele esperou.

 

O coração batendo forte, as guelras pulsando.

 

Nenhum som.

 

Nenhum movimento.

 

Apenas a água fria e pesada ao redor do seu corpo.

 

imaginação, pensou o Tim humano. Estresse. Talvez seja a privação sensorial.

 

Tem algo ali, disse a criança em sua mente.

 

Um novo calafrio.

 

Dessa vez mais intenso, mais profundo — um arrepio que começou na base da sua cauda e subiu até o topo da cabeça.

 

Ele continuou a nadar.

 

Devagar.

 

Em silêncio.

 

As mãos cortando a água com o mínimo de ruído possível.

 

Os olhos tentando enxergar o que não podia ser enxergado.

 

E então ele sentiu.

 

Não viu.

 

Não ouviu.

 

Sentiu.

 

Algo o observava.

Não era a sensação vaga de estar sendo vigiado que qualquer um tem em um beco escuro.

Era um pressentimento ativo, direcionado, consciente.

Como se um par de olhos — ou vários — estivesse fixo na sua nuca, na sua coluna, nos pontos fracos do seu corpo.

 

Continue nadando, ele ordenou a si mesmo. Continue nadando e não olhe para trás.

 

Mais um vulto passou.

 

Dessa vez, mais perto.

 

Tim viu — ou quase viu — uma forma escura movendo-se na periferia da sua visão.

 

Longa.

 

Ágil.

 

Rápida demais.

 

Seu coração disparou.

 

Ele nadou mais rápido.

 

A criança, dentro dele, começou a gemer — um som baixo, agudo, de medo.

 

Não o medo racional que o Tim humano conhecia bem, o medo que calculava riscos e planejava rotas de fuga.

 

Era um medo primordial.

 

O medo que existia desde o início da humanidade, muito antes de Gotham, muito antes de Bruce, muito antes de qualquer palavra.

 

O medo do escuro.

 

Não do escuro em si.

 

Mas do que poderia estar dentro dele.

 

O medo de não estar sozinho nele.

 

O movimento retornou.

 

Agora ele tinha certeza — não era imaginação.

 

Não era a correnteza.

 

Algo se movia ao seu redor.

 

Algo grande.

 

Algo múltiplo.

Tim começou a se mover cada vez mais rápido.

A cauda batendo com força, os braços cortando a água em braçadas desesperadas.

Ele não sabia para onde estava indo — não via nada, não sentia nada além do pânico — mas precisava sair daquele lugar.

O vulto passou novamente.

Dessa vez, veio acompanhado de um som.

Uma risada isso lhe dava memorias desagradáveis.

Não uma risada humana.

Não algo que ele já tivesse ouvido antes.

Era uma mistura estranha — algo entre o clique agudo de um golfinho e o riso puro, despreocupado, de uma criança.

A risada veio da esquerda.

Rápida.

Aguda.

Errada.

Tim girou na água, ofegante, e viu — por um segundo, apenas um segundo — dois pontos de luz vermelha onde não deveria haver luz alguma.

Olhos.

Olhos vermelhos.

Olhando para ele.*

A risada se repetiu, agora atrás dele.

E então outra risada se juntou — mais grave, mais gutural, vindo de cima.

E outra, mais aguda, vindo de baixo.

Ele estava sendo circulado.

Como tubarões.

Como predadores que estudam a presa antes do ataque.

Os olhos vermelhos ainda estavam ali, parados, assistindo.

E então outros surgiram — dois pontos amarelos, maiores, mais antigos, observando de uma distância que não era nem perto nem longe demais.

Os olhos amarelos não piscavam. Não se moviam. Apenas existiam, pesados como uma sentença.

O coração de Tim acelerou tanto que ele sentiu as guelras pulsarem em desespero.

As risadas aumentaram — não mais isoladas, mas um coro desconexo, infantil e cruel, girando ao seu redor como um carrossel de pesadelo.

 

Nade.

 

Nade.

 

NADE.

 

Ele nadou.

 

Não pensou em direção.

Não pensou em saída.

Não pensou em estratégia ou em hipóteses.

Apenas nade, o comando mais primitivo de todos, o que vem antes de qualquer treinamento de Robin, qualquer lição de Bruce, qualquer juramento.

 

A risada parou.

 

De repente.

 

Silêncio.

 

Silêncio absoluto.

 

Nem o som da própria natação.

 

Nem o bater do seu coração.

 

Apenas a escuridão e a água e o vazio.

 

isso é pior, a criança sussurrou dentro dele.

O silêncio é pior.

 

Ele continuou a nadar.

 

Mais rápido.

 

Mais desesperado.

 

Os braços queimando, a cauda doendo, a mente em frangalhos.

 

isso realmente o dava memorias

 

E então — sem aviso, sem eco, sem nada que o preparasse — ele bateu de cara em uma parede de pedra maciça.

 

O impacto foi seco, brutal. Sua testa estalou contra a rocha, os dentes batendo, a visão explodindo em estrelas brancas que não faziam sentido naquela escuridão total.

 

A água ao redor tremeu com o choque.

 

Ele recuou, tonto, o sangue escorrendo quente entre os olhos — ou talvez fosse água, talvez fosse só a tontura, ele não sabia mais — e então começou a afundar.

 

Não, não, não, ele pensou, ou tentou pensar, mas as palavras se embaralharam como cartas de baralho jogadas ao vento.

 

A última coisa que Tim Drake ouviu, antes que a escuridão finalmente o engolisse por completo, não foi o silêncio.

 

Foram vozes.

 

Três vozes.

 

A primeira era aguda, curiosa, quase cantante — como algo pequeno e inquieto que acabara de encontrar um brinquedo novo.

 

— "Mhhh, tasufi!"

 

A segunda era mais grave, com uma aspereza que lembrava rocha sendo arrastada contra rocha. Havia impaciência ali, mas também algo estranhamente protetor.

 

— "Ushm mhl pulfmhl!!"

 

A terceira era a mais profunda.

 

Antiga.

 

Calma.

 

Uma voz que parecia vir de muito longe e muito perto ao mesmo tempo, como um eco que precedia a própria fonte.

 

— "aelymama tasufi! Ushm somh."

 

A primeira voz respondeu com um chiado animado, como bolhas subindo rápido demais.

 

— "Tasufi qipuimo, tasufi mhbmhguo mmhlil."

 

Que língua era aquela?

 

Tim tentou forçar os olhos a abrir, tentou mover os braços, tentou qualquer coisa.

 

Mas seu corpo não respondia.

 

Apenas afundava.

 

Apenas desaparecia.

 

E por que — por que aquela língua lhe parecia familiar?...

 

Ele não terminou o pensamento.

 

O escuro veio.

 

E depois, nada.

 

Notes:

desculpe pelo capitulo curto

criança:*cutuca um crustáceo* hihi isso se mexer legal ✪ ω ✪

Tim: tch*disfarça um sorrisinho*

Tim sai: finalmente uma luz no fim do túnel

 

também o Tim é perseguido logo depois: eu não tenho pazzzzzzzzzzz!!!!!!!

 

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🌟✨Curiosidade Aquatica✨🌟
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Sobre os Crustáceos cavernícolas:

Bichinhos brancos, cegos e curvados em formato de C que vivem no fundo do poço.
São lentos, não servem de comida(criança. gosto estranho ; tim. é como comer papel com pedrinhas com um pouco de sal, não recomendo) e sua única defesa é serem pequenos demais pra valer o esforço.
Quando cutucados, fazem "mbleh" e se encolhem.
Tim -ou melhor a criança- adora cutucá-los.
Eles desaprovam, mas toleram.
Status: Preguiçosos eternos.
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Notes:

obrigado por ler

tim: oxi oxi, não era eu morrer?
mini tim: eu queria tanto ser magico
tim atualmente: nãooooooo, magia nãooo