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Capítulo 1: O Chamado da Morte
O céu sobre Hogwarts estava doente.
Harry observava as nuvens cinzentas se arrastarem preguiçosas por trás das vidraças da torre oeste, suas formas disformes lembrando carne putrefata. Junho deveria trazer o início do verão, mas a Inglaterra parecia ter esquecido o significado da palavra. A luz que atravessava os vitrais do castelo era fraca, amarelada, como se o sol estivesse morrendo há semanas e ninguém tivesse coragem de avisar.
Mais um ano, pensou Harry, apoiando a testa contra o vidro frio. Mais um ano nesse maldito lugar.
Não que ele não fosse grato. Deus sabia que Hogwarts tinha sido mais um lar do que a Rua dos Alfeneiros jamais fora. Mas havia uma diferença entre lar e campo de batalha, e Harry já não sabia mais dizer onde uma coisa terminava e a outra começava.
Primeiro ano: um professor possuído por Voldemort tentando roubar a Pedra Filosofal. Harry quase morreu queimado pelo próprio toque.
Segundo ano: um basilisco milenar, uma câmara secreta, e ele mesmo cravando uma espada no crânio de um diário que continha um pedaço da alma de um psicopata. Harry quase morreu envenenado.
Terceiro ano: dementadores, lobisomens, e a verdade sobre seu padrinho. Menos morte dessa vez, apenas o trauma de descobrir que os adultos em quem confiava eram perfeitamente capazes de deixar um homem inocente apodrecer em Azkaban.
Quarto ano: a porra do Torneio Tribruxo. Cedric. O cemitério. A ressurreição de Voldemort usando seu próprio sangue.
Quinto ano: possessão. Visões. O Departamento de Mistérios. Sirius caindo através daquele véu como se fosse feito de fumaça.
E agora?
Agora Harry tinha dezesseis anos, olheiras tão fundas quanto poços, e uma ansiedade que não vinha apenas dos eventos dos anos anteriores.
Era diferente.
Havia algo em seu peito, na base do esterno, que começara a latejar há três dias. Não era dor — não exatamente. Era mais como se algo estivesse despertando depois de um sono muito longo. Uma consciência adormecida esfregando os olhos. Uma fera no fundo de uma caverna, farejando o ar.
Sensação de que finalmente vão encontrá-lo.
Harry franziu a testa, afastando-se da janela. Onde aquilo tinha vindo? Não era um pensamento. Era mais visceral que isso. Um instinto. Uma verdade que seu corpo sabia antes mesmo de sua mente conseguir formar as palavras.
Você faz parte de algo maior.
Dumbledore o chamara na noite anterior.
Harry esperava a conversa de sempre: o velho explicando coisas pela metade, sorrindo por trás da barba prateada, confiando em Harry para salvar o mundo enquanto se recusava a dar a ele todas as ferramentas necessárias. Harry estava preparado para isso. Estava preparado para ouvir sobre Voldemort, sobre horcruxes, sobre o peso que precisava carregar.
O que ele não estava preparado era para o que Dumbledore realmente disse.
"Eu pedi ajuda a um clã, Harry. Eles têm ligações com a Academia de Magia Sombria do Mediterrâneo. Concordo que não são... convencionais. Mas os tempos não são mais para convenções."
"Que tipo de ajuda?" Harry lembrava de ter perguntado, sua voz saindo mais áspera do que pretendia.
"O tipo que pode vencer guerras."
Dumbledore não explicou mais. Nunca explicava. Apenas disse que os membros do clã chegariam na manhã seguinte, que seriam apresentados como alunos de intercâmbio para o resto da escola, e que Harry deveria comparecer a uma reunião da Ordem da Fênix naquela noite — uma reunião especial, reservada, onde todos os conheceriam.
E desde aquela conversa, a coisa dentro do peito de Harry — a coisa que esperava — não parava de se mexer.
A reunião aconteceu no escritório de Dumbledore, como todas as reuniões importantes.
Harry chegou cedo, intencionalmente. Queria observar. Queria entender antes de ser forçado a interagir. Ron e Hermione vieram com ele, mas enquanto Ron se dirigiu imediatamente para a mesa de doces que Fawkes guardava com ciúmes e Hermione começou a folhear um livro na estante mais próxima, Harry ficou à janela.
Observando o céu doente. Observando o castigo da noite.
A Ordem da Fênix chegou aos poucos. Alastor Moody primeiro, sua perna de madeira batendo contra as pedras em um ritmo que lembrava batidas de tambor fúnebre. Nymphadora Tonks em seguida, os cabelos hoje de um rosa desbotado que combinava com o cansaço em seus olhos. Remus Lupin veio com ela, mais magro do que na última vez que Harry o vira, e havia algo errado em sua postura, uma curvatura que não era apenas fadiga.
Ele está morrendo, pensou Harry, e não soube de onde o pensamento veio. Ele não aceita o que é, e está morrendo por causa disso.
Sirius estaria vivo se tivesse aceitado o que era?
Harry afastou o pensamento antes que pudesse se aprofundar.
Kingsley Shacklebolt chegou com passos largos, sua presença imponente preenchendo o escritório como uma maré negra. Minerva McGonagall veio logo atrás, seus lábios tão comprimidos que pareciam uma cicatriz. O professor Slughorn —veio ofegante, cheirando a brandy e nostalgia.
E então a porta se abriu novamente, e todos os pensamentos de Harry cessaram.
Eles eram sete.
Eram jovens — tão jovens quanto Harry, talvez mais novos, talvez mais velhos, era difícil dizer. Havia algo neles que distorcia a percepção, como se o tempo não se aplicasse da mesma forma. Como se cada um deles tivesse vivido décadas em dias, ou dias em décadas.
O primeiro a entrar era claramente o líder. Harry não sabia como sabia, mas sabia. Draconis, seu cérebro forneceu um momento depois. Draconis Black Malfoy. Último do clã Dracon Black. Guardião do limiar.
Era bonito. Harry odiava que essa fosse sua primeira observação, mas era impossível ignorar. Cabelos platinados quase brancos caindo em ondas perfeitas sobre ombros largos. Olhos que mudavam de cor dependendo da luz — cinza, prata, por vezes um violeta tão escuro que beirava o preto. A pele pálida como lua cheia, contrastando com o preto do uniforme que usava com uma elegância que beirava o insulto para todos os outros no escritório.
Quando falou, sua voz era baixa, aveludada, carregada de um sotaque que Harry não conseguia identificar — algo entre o árabe e o turco, palavras que rolavam na língua como se estivessem acariciando o ar antes de soltá-lo.
"— e o senhor nos garantiu que não haveria teste de varinhas", Draconis estava dizendo a Dumbledore, e Harry percebeu que havia perdido o começo da conversa. "Nossa magia não é... regulamentada. Pelo menos não pelos padrões do seu Ministério."
"Claro, claro", Dumbledore acenou com a mão, seus olhos azuis cintilando atrás das meias-luas. "Apenas uma formalidade. Vocês são nossos convidados, não nossos prisioneiros."
Atrás de Draconis, os outros seis se espalharam pelo escritório com uma familiaridade que beirava a arrogância. Não era que eles não respeitassem o espaço — era que o espaço parecia se curvar para acomodá-los, como se soubesse seu lugar.
Harry os observou um por um, seu coração batendo mais rápido do que deveria.
A garota de cabelos bordô — não ruivos, não vermelhos, mas bordô escuro como vinho tinto, cacheados que explodiam ao redor de seu rosto como chamas aprisionadas. Miraí Nyx Le Fay, Harry soube. Sacerdotisa de Nyx. Ela tinha olhos castanhos tão escuros que pareciam buracos negros, e quando cruzou o olhar com Harry por um segundo, ele sentiu como se estivesse caindo.
O garoto alto, magro, com cabelos loiros tão claros que eram quase brancos e olhos cor de mel que não piscavam com frequência suficiente. Lucien Saelanor. Meio-feérico. Havia algo predatório em seu sorriso, algo que lembrava Harry das histórias que a professora Binns contava sobre o Tribo Antigo — fadas que não eram criaturas bondosas e brilhantes, mas caçadoras que brincavam com suas presas antes de devorá-las.
O garoto negro — retinto, como descreveria mais tarde, pele tão escura que parecia absorver a luz ao invés de refleti-la. Olhos dourados que brilhavam no escuro do escritório como brasas. Nathanael Sombriwm. Quando ele se moveu, as sombras ao redor dele se moveram também, como cães fiéis.
E os dois últimos... esses eram diferentes. Mais contidos. Mais perigosos. Harry reconheceu o tipo — soldados. Não treinados em escolas como Hogwarts ou Durmstrang, mas forjados em campos de batalha reais, em guerras que não tinham regras nem tréguas. Levi Ackerman, cabelo negro curto, olhos cor de aço que não perdiam nada. Eren Yeagar, ombros largos, mandíbula quadrada, algo furioso queimando atrás de seus olhos verdes como se estivesse constantemente se contendo para não explodir.
Magia de combate, Harry soube. Precisos como lâminas. Letais como só os caçadores de Nyx são.
"Hermione", sussurrou Ron, puxando a manga dela. "O que você acha que eles estão fazendo aqui?"
"Intercâmbio", respondeu Hermione, mas sua voz vacilou. Até ela sabia que aquilo não era verdade.
Harry não disse nada. Não conseguia. Porque enquanto os outros reagiam — Moody apertando os olhos com desconfiança, Tonks deixando seus cabelos mudarem instintivamente para um marrom camuflado, Lupin se encolhendo como se sentisse o cheiro de algo perigoso — Harry sentia apenas uma coisa.
Antecipação.
Ela crescia dentro dele como uma flor venenosa, pétalas se abrindo contra suas costelas. Suas mãos tremiam. Sua cicatriz doía, sim, mas não como doía perto de Voldemort. Essa era diferente. Essa era uma dor de lembrança. Como se seu corpo estivesse recordando algo que sua mente havia esquecido.
Draconis desviou o olhar de Dumbledore e, por um momento, seus olhos encontraram os de Harry.
O mundo parou.
Não metaforicamente. Literalmente. O tique-taque dos instrumentos de prata na mesa de Dumbledore cessou. Fawkes interrompeu seu arrulhar. Até a chama na lareira pareceu congelar, como se o tempo tivesse erguido as mãos em rendição.
Você, os olhos de Draconis disseram. Finalmente.
Harry não conseguia respirar. Não conseguia piscar. Havia algo naquele olhar que reconhecia algo nele que nem ele mesmo sabia que existia. Um chamado. Uma promessa. Faz tempo, aqueles olhos pareciam dizer. Faz muito, muito tempo.
E então o momento passou. O tempo retomou seu curso. A chama estalou. Fawkes cantarolou baixo. E Draconis desviou o olhar como se nada tivesse acontecido, como se Harry Potter não fosse nada além de mais uma pessoa em um escritório lotado.
Mas Harry sabia.
Sabia com cada fibra do seu ser que aquilo era mentira.
A primeira parte da reunião foi um borrão.
Harry ouviu Dumbledore explicar a situação — a guerra, os comensais, a necessidade de aliados incomuns. Ouviu Moody protestar sobre "estrangeiros não verificados" e Minerva concordar com relutância. Ouviu Slughorn fazer perguntas sobre as conexões mediterrâneas do clã, perguntas que foram respondidas com monossílabos e sorrisos que não chegavam aos olhos.
Os sete da Rosa Negra não falaram muito. Observavam. Analisavam. Seus olhos se moviam pelo escritório com a precisão de quem estava catalogando cada ponto fraco, cada possível ameaça, cada saída de emergência.
Harry se pegou observando Draconis.
O garoto — ou seria o homem? havia algo nele que transcendia a juventude — estava sentado em uma das poltronas de Dumbledore com uma elegância fluida, uma perna cruzada sobre a outra, as mãos repousando frouxas sobre o braço do assento. Sua gravata era preta, presa por um alfinete de prata em forma de serpente, e Harry percebeu que seus olhos vagavam para o objeto com frequência
Mas mais do que isso, Harry percebeu que Draconis olhava para ele.
Não abertamente. Não o suficiente para que outros notassem. Mas havia uma constância naqueles olhos cinza-prateados que dizia: Você é o centro desta sala. Você é o centro de tudo. Eu só estou esperando o momento certo.
Então o momento certo chegou.
A reunião havia se arrastado por quase uma hora quando Dumbledore finalmente chegou ao ponto — ou ao que ele considerava o ponto.
"— e é por isso que acreditamos que sua presença em Hogwarts será benéfica não apenas para nossas defesas, mas também para o moral dos alunos. Saber que temos aliados tão... capazes... certamente trará conforto."
"Conforto", repetiu Draconis, e a palavra soou estrangeira em sua boca, como se ele estivesse experimentando um sabor desconhecido. "Sim. Conforto é exatamente o que seus alunos precisam."
Seu tom era educado. Sua expressão, neutra. Mas havia uma corrente de sarcasmo tão gelada sob suas palavras que até Dumbledore pareceu senti-la, porque suas têmporas se contraíram apenas um pouco.
E então Draconis se inclinou para frente, e algo mudou.
Sua voz continuou baixa — baixa o suficiente para que todos tivessem que se inclinar para ouvir, baixa o suficiente para que sua aveludada envolvesse cada palavra como seda envolvendo uma lâmina — mas havia agora uma franqueza nela que não estivera ali antes.
"Deixe-me ver se entendi o modo com que vocês estão trabalhando."
O silêncio caiu como um sudário.
Harry viu Moody apertar o cajado. Viu Tonks segurar a respiração. Viu Remus se encolher ainda mais em sua cadeira, como se quisesse desaparecer.
"Temos um lobisomem que não aceita sua natureza e está morrendo por conta disso."
O ar no escritório ficou pesado. Harry ouviu Ron engasgar. Hermione colocou uma mão sobre a boca.
Remus ficou pálido — mais pálido do que Harry jamais o vira, o que era dizer algo. Suas mãos tremiam em seu colo, e seus olhos — cansados, fundos, antigos — encontraram os de Draconis com um terror que Harry nunca pensou ver no rosto do homem que lhe ensinara a enfrentar seus maiores medos.
"Esse mesmo lobisomem", continuou Draconis, impassível, "é o que o senhor manda para tentar convencer os outros lobisomens a não se juntarem a Voldemort."
Dumbledore abriu a boca, mas Draconis já estava se movendo.
"Temos um ladrão e trapaceiro que pode muito bem ser um agente duplo ou não, já que parece que ele só gosta de roubar, julgando pela quantidade de vezes que ele olhou para a presilha da minha gravata."
Os olhos de Mundungus Fletcher, que Harry nem havia notado na penumbra do canto, se arregalaram. Sua mão, que estivera se movendo em direção ao bolso do casaco, congelou no ar.
"Temos um auror paranóico." Moody rosnou, mas Draconis não se deixou intimidar. "Uma dona de casa e funcionários do seu ministério."
Molly Weasley ficou vermelha. Arthur colocou uma mão em seu ombro.
"Ah, e o mais interessante." Draconis agora sorria — um sorriso que não era um sorriso, uma curvatura de lábios que lembrava a lua minguante. "Vocês não matam seus inimigos. Vocês nem sequer capturam para interrogatório."
Ele se levantou.
Não bruscamente. Não agressivamente. Apenas... levantou-se, como se sentar já não fosse mais interessante, e agora a conversa exigisse seu movimento. Seus passos eram silenciosos no tapete do escritório, mas cada um parecia ecoar como um tambor.
"Como vocês querem vencer essa guerra se não conseguem nem mesmo diminuir os números dos comensais?"
"Jovem", Dumbledore começou, sua voz ainda calma, mas algo de aço agora em sua espinha. "Há mais de uma maneira de vencer uma guerra. Os métodos que empregamos—"
"Vocês não empregam método algum", interrompeu Levi Ackerman. O garoto estava encostado na parede mais distante, e Harry não o vira se mover, mas de repente ele estava mais próximo, sua presença tão cortante quanto uma navalha. "Vocês reagem. Se escondem. Esperam que o problema desapareça ou que alguém mais o resolva."
"Me pergunto", continuou Levi, seu olhar varrendo a sala com um desdém tão puro que Harry sentiu vergonha por eles, "como vocês pretendem vencer uma guerra sem sujar as mãos de sangue. Pretendem pregar para os comensais até eles se converterem?"
Ninguém respondeu.
Era a pergunta que todos tinham medo de fazer. A verdade que todos evitavam encarar. Harry viu nos olhos de Remus, de Tonks, até de Moody — eles sabiam. Sabiam que estavam perdendo. Sabiam que não eram páreo para o exército de Voldemort. Sabiam que sua bondade, sua humanidade, sua recusa em cruzar certas linhas os estava matando aos poucos.
Mas ninguém dizia. Ninguém nunca dizia.
Até agora.
Draconis voltou ao centro do escritório, e o silêncio o seguiu como um cão.
"Aqui está o que eu posso oferecer a vocês", disse ele, e sua voz havia mudado. A aveludada ainda estava lá, mas agora havia algo mais — uma autoridade que transcendia a idade, que transcendia a posição. Era a voz de alguém que havia comandado exércitos, que havia visto impérios caírem, que havia enterrado amigos e inimigos em covas rasas e aprendido a não chorar por nenhum deles.
"Invocar alguns dos meus generais para diminuir os números de Voldemort. Enviar meus corvos para monitorar e informar sobre ataques. trazer os meus para vigiar de forma discreta pontos que podem ser atacados e interrogar os prisioneiros."
Ele parou diante da mesa de Dumbledore.
O diretor permanecia sentado, seus dedos entrelaçados sobre o tampo de madeira, seus olhos azuis fixos nos olhos cinza-prateados à sua frente. Não era um confronto — não exatamente. Era mais como se dois mestres de xadrez estivessem estudando o tabuleiro, calculando movimentos que os peões não podiam sequer imaginar.
"O senhor pode ser um ser benevolente, diretor", continuou Draconis, e pela primeira vez algo humano apareceu em sua voz — não calor, não bondade, mas... reconhecimento. Como se ele estivesse vendo Dumbledore não como um adversário ou um aliado, mas como um igual. "Pode acreditar no poder do amor, em segundas chances e em redenção."
Ele inclinou a cabeça ligeiramente.
"Mas nossa bússola moral não é tão boa quanto a sua."
A lareira crepitou. Lá fora, o vento uivava através das torres de Hogwarts. Harry ouviu Dumbledore respirar — uma inspiração lenta, controlada, que continha todo o peso de cem anos de sabedoria e todos os fantasmas das decisões que ele preferia não ter tomado.
"Quando já se viveu incontáveis vidas", disse Draconis, "nem sempre você é o herói. Nem sempre quer ser o herói."
Harry prendeu a respiração.
"Há uma beleza", Draconis continuou, e agora seus olhos encontraram os de Harry — diretamente, abertamente, e o mundo parou de novo, mas dessa vez Harry não se surpreendeu, "em aceitar que você pode ser o monstro. Que há papéis que só podem ser preenchidos por aqueles dispostos a se sujar. Que o bem às vezes exige que você se torne aquilo que mais odeia, para que outros não precisem carregar esse fardo."
Você, aqueles olhos disseram mais uma vez. Você sabe do que estou falando, não sabe? Você carrega esse fardo desde que nasceu.
E Harry sabia.
Sabia da parte de Voldemort dentro dele. Sabia da capacidade de matar que havia descoberto no cemitério, quando suas maldições atravessaram os comensais e ele sentiu prazer nisso. Sabia da escuridão que se escondia sob suas cicatrizes, esperando, esperando, esperando por algo que ele nunca soube nomear.
Até agora.
"Nós já estivemos em muitas guerras", Draconis se voltou novamente para Dumbledore, e o momento se quebrou, mas a fissura permaneceu. "Já provocamos algumas, quando as coisas estão tediosas."
Alguém riu — um som seco, amargo, que Harry demorou a identificar como vindo de Lucien Saelanor, o meio-feérico.
"Mas nunca perdemos nenhuma", concluiu Draconis. "O senhor pediu nossa ajuda, e nós viemos. Agora cabe a vocês decidirem se vão vencer essa guerra com o mínimo de baixas, ou morrer nas mãos dos inimigos porque são bons demais para matar."
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Harry ouviu seu próprio coração batendo em seus ouvidos. Sentiu a coisa dentro de seu peito — a coisa que esperava — se esticar, se esticar, como se finalmente, finalmente, estivesse chegando a hora.
Dumbledore inclinou-se para trás em sua cadeira.
Seus olhos azuis percorreram a sala — Moody, com sua mandíbula travada; Tonks, com seus lábios trêmulos; Remus, com sua face cinzenta; Molly, com suas mãos apertadas em punhos; Arthur, com sua expressão cansada; Kingsley, com seu silêncio pensativo; Slughorn, com sua face rubra e suada; Mundungus, com seus olhos arregalados e mãos vazias.
E depois, Harry. Ron. Hermione.
Quando os olhos de Dumbledore encontraram os seus, Harry viu algo que nunca vira antes no velho diretor.
Incerteza.
Não era medo — Harry não tinha certeza se Dumbledore era capaz de sentir medo. Mas era algo próximo. O reconhecimento de que seus métodos, seus princípios, sua fé na redenção e no amor estavam sendo postos à prova de uma forma que talvez não sobrevivessem.
"Senhor Black Malfoy", Dumbledore disse finalmente, e sua voz estava calma, mas havia algo nela — uma areia, uma aspereza — que não estivera ali antes. "O senhor faz colocações muito... interessantes."
Draconis ergueu uma sobrancelha. Apenas isso. Um arco perfeito sobre um olho que agora brilhava violeta.
"Mas permita-me fazer uma pergunta", continuou Dumbledore, inclinando-se para frente. "O senhor fala de vencer guerras. De diminuir números. De interrogar prisioneiros. Tudo isso são táticas de guerra. Métodos. Mas eu lhe pergunto: qual é o seu objetivo, senhor Black Malfoy? O que o senhor deseja, verdadeiramente, ao final de tudo isso?"
Draconis ficou em silêncio por um momento.
Quando respondeu, sua voz era tão baixa que Harry quase não ouviu.
"O que eu sempre desejei, diretor."
Ele se virou. Seus olhos encontraram os de Harry mais uma vez — e dessa vez, Harry não desviou.
"Trazer para casa aquilo que sempre foi meu."
