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Colisão

Summary:

Filho de James e Lilian Potter, heróis fundamentais na derrota de Voldemort, Harry cresceu sob a sombra de um legado grandioso. No entanto, a relação conturbada com o pai o levou a trilhar um caminho oposto ao que lhe fora imposto — e o destino selou essa ruptura quando o Chapéu Seletor o enviou para a Sonserina.

Determinado a desafiar expectativas, ele só não esperava se apaixonar por Hermione Granger, a mais brilhante aluna da Grifinória. Entre olhares contidos e sentimentos intensos, os dois se permitiram render à paixão… até que um incidente doloroso abalou a relação que começava a nascer entre eles.

Dois anos depois, vivendo o último ano em Hogwarts e sendo obrigados a atuar lado a lado, Harry e Hermione descobrem que as barreiras erguidas pelo tempo e pelas circunstâncias não foram capazes de apagar o desejo inevitável que os une.

Entre orgulho, mágoas e uma atração impossível de conter, eles são arrastados de volta àquilo que tentaram negar. E quando dois corações destinados a se encontrar entram novamente em rota de colisão, não há como sair ileso.

Notes:

Olá, pessoal!
Chegando com mais uma fanfic que promete ser bem especial do nosso shipper amado, Harry e Hermione ✨
Estou escrevendo com ideias muito bacanas e espero, de coração, que vocês me acompanhem novamente nessa nova jornada.

Quero esclarecer apenas alguns pontos importantes antes de começarmos:
Primeiro: nesta história, Voldemort já foi derrotado na Primeira Guerra Bruxa, e os pais de Harry estão vivos. O início, portanto, será um pouco mais leve no mundo bruxo… pelo menos por enquanto 🤭
Segundo: pontos de vista, explicações e justificativas de algumas situações serão desenvolvidos ao longo dos capítulos, então peço paciência. Tudo está sob controle ❤️

Agora é só aproveitar. Boa leitura!

Chapter 1: O Desafio

Chapter Text

1995

Quinto Ano

O salão comunal da Sonserina estava mergulhado em uma penumbra confortável, iluminado quase exclusivamente pelo crepitar constante da lareira. As chamas lançavam sombras alongadas pelas paredes de pedra verde-escura, enquanto o ar era tomado pelo cheiro marcante de firewhisky — contrabandeada com frequência considerável até aquele espaço.

Antes tomado por risadas abafadas e murmúrios conspiratórios, o ambiente agora se encontrava mais contido. Permanecia ali apenas um grupo de alunos cuja presença, por si só, impunha exclusividade.

Foi então que Draco Malfoy se levantou abruptamente de uma das poltronas de couro, num movimento tão brusco que quase perdeu o equilíbrio.

— Ah, calem a boca, seus idiotas! — vociferou, erguendo a voz com autoridade teatral. — Quero atenção total agora, porque vou tratar de assuntos importantes.

A ordem foi recebida com gargalhadas e uivos divertidos, acompanhados pelo tilintar de copos.

— Estamos reunidos hoje — continuou Draco, ignorando completamente os comentários — para oficializar um momento crucial da nossa prezada Sonserina. Nosso honrado Cassian Blackthorne se formou e já não está mais entre nós, o que tornou necessário a alta cúpula se reunisse para escolher um nome… ou melhor, o nome que o substituirá.

Ele girou lentamente o corpo, direcionando o olhar para uma das poltronas próximas à lareira.

— Alguém que conquistou nosso respeito logo nos primeiros meses — prosseguiu —, alguém com uma aptidão irritante para liderar estratégias e resolver conflitos… embora, claro, adore criá-los também.

As risadas foram imediatas.

— E alguém que, até se formar, será responsável por manter a Sonserina imponente internamente e, é óbvio, superior diante das escórias das demais casas.

Draco ergueu o copo de whisky.

— Um brinde ao nosso mais novo Primus Sonserinae: Harry Potter.

O anúncio veio acompanhado por palmas entusiasmadas e até alguns feitiços inofensivos, que bagunçaram ainda mais o cabelo de Harry, arrancando gargalhadas gerais.

— Eu nem sei como me sentir diante desse discurso — disse Harry, fingindo surpresa enquanto tentava se esquivar da algazarra. — Quero dizer… Draco usando tantas palavras decentes sobre mim só pode ser efeito da bebida.

— Ora, deixe de drama, Potter — retrucou Draco com desdém. — Você sabe que eu detono todos vocês, mas reconheço competência quando vejo uma. Pelo menos de vez em quando. Então aproveite o momento.

— Só não entendo por que você não será o sucessor do título, Draco — comentou Blaise Zabini. — Quer dizer, é algo próprio da nossa casa, e como o sobrenome Malfoy sempre teve tanto respeito entre nós...

O comentário exaustivo de Zabini foi interrompido por risadas, provocadas pela revirada de olhos exagerada de Harry, que dizia claramente lá se vai o puxa-saco.

— Ah, qual é! — retrucou Zabini, cruzando os braços. — Estou só comentando.

— Você é surdo ou o quê? — Draco fez uma careta. — O dono do título vai ter responsabilidades. Eu tenho cara de que quero alguma?

O sorriso dele tornou-se perigosamente malicioso.

— Pelo contrário. Quero tocar o terror. Harry que limpe minha sujeira.

— Agora, para o que realmente importa — retomou Draco. — Como manda a tradição, para selar oficialmente a nomeação, nosso amigo Potter precisará cumprir um desafio… um tanto peculiar.

O sorriso se alargou.

— Então vamos lá. Ideias?

— Já sei! — Daphne Greengrass se apressou. — E se ele sabotasse o estoque de ingredientes da Lufa-Lufa? Talvez trocar algumas ervas por algo que cause furúnculos grotescos por semanas?

— Patético, Daphne — Draco cortou sem hesitar. — Isso não seria desafio nenhum para o Harry. Próximo.

Ela bufou, frustrada.

— Ele podia detonar com o equipamento de Quadribol da Corvinal — sugeriu Zabini. — Um encantamento nos aros, vassouras desreguladas… aqueles otários estão querendo nos dar trabalho demais.

— Não daria certo — ponderou Theodore Nott, erguendo o olhar do livro que folheava. — Fizemos apostas no próximo jogo contra eles. Sem jogo, sem galeões.

— Vocês estão muito bonzinhos — comentou Harry, fingindo analisar as próprias unhas. — Desse jeito vai parecer que o título de Primus Sonserinae não tem tanto valor assim.

— Se for pra aprontar contra alguma casa — interveio Pansy Parkinson, com um sorriso venenoso — que seja a Grifinória. Aqueles estúpidos convencidos.

— Exato! — Draco concordou de imediato, lançando uma piscadela sedutora para ela, que devolveu o gesto com um sorriso provocativo. — E como vocês foram incompetentes em dar uma ideia decente, eu mesmo vou decretar a missão.

Ele se inclinou para frente.

— Você provará que merece o título se… fizer com que Hermione Granger consiga uma bela detenção.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Rostos impressionados, sobrancelhas erguidas, sorrisos maliciosos surgindo lentamente.

Qualquer vestígio de humor desapareceu do rosto de Harry. A tensão caiu sobre ele como um peso físico, esmagador, como se o ar tivesse subitamente triplicado de peso. Ele se remexeu na poltrona, o maxilar rígido.

— É... pelo visto encontramos algo capaz de fazer o Potter tremer — comentou Nott, fechando o livro com uma risadinha.

— Sério que precisa envolver uma garota nisso? — resmungou Daphne, desgostosa.

— Se for pra atingir a Granger, vai valer cada segundo — disse Pansy, satisfeita. — Aquela idiota me entregou na aula de Herbologia quando tentei usar folhas de Tentácula Venenosa fora do protocolo. Só porque a planta quase liberou esporos tóxicos na estufa inteira.

Draco passou o braço pelo ombro dela, num gesto claramente possessivo.

— E é exatamente por isso que tive essa ideia. Ninguém mexe com a minha garota.

Então voltou-se novamente para Harry.

— Estamos decididos. Faça Granger ganhar uma detenção… e o título será oficialmente seu.

Os comentários animados ao redor não foram suficientes para abafar o zumbido insistente nos ouvidos de Harry. Um mal-estar profundo o dominou, e tudo o que conseguiu foi assentir, forçando um meio sorriso seco.

-XX-

— Mas que merda, Harry! Quer me matar do coração? — protestou Draco, irritado, enquanto era puxado pelo braço até um trecho mais escuro e afastado do corredor dos dormitórios masculinos da Sonserina.

O ambiente já repousava em silêncio havia mais de uma hora. Todos os alunos haviam subido, com exceção de Draco e Pansy, que permaneceram no salão comunal por mais um tempo, saboreando um clima satisfatório — especialmente ela, que havia ficado em êxtase com a perspectiva de ver Hermione Granger em apuros.

— Ficou esse tempo todo me esperando? — resmungou Draco — Eu avisei que ia ficar por lá. A Parkinson estava… particularmente animada com a perspectiva de ferrar a Granger, e eu não ia desperdiçar isso. — disse com um sorriso deleitoso nos lábios.

— É justamente sobre isso que eu quero falar — disse Harry, a voz baixa, mas firme. — Ficou maluco? Inventar um desafio estúpido desses envolvendo logo a Hermione?

Encostando-se à parede, Draco cruzou os braços.

— E qual é o problema? Todo mundo adorou a ideia. Eu expliquei o motivo: vingança. Pela Pansy, claro… e por todas as vezes que aquela garota prejudicou a nossa galera. A perfeitinha que não pode ver nada fora do lugar...

— Tem certeza de que é só por isso? — Harry o interrompeu, cortante.

Draco abriu um sorriso seco.

— Que outro motivo teria?

Harry não respondeu. Apenas o encarou, o olhar sugestivo o suficiente para deixar claro o que ele estava insinuando.

O efeito foi imediato. O sorriso do loiro perdeu força. Ele engoliu em seco, o semblante se fechando numa expressão visível de incômodo.

— Não — o loiro disse, ríspido. — Não tem outro motivo nenhum. E, sinceramente, estou achando que você está dando importância demais a isso.

Draco inclinou a cabeça, avaliando Harry com um meio sorriso debochado.

— O que foi? Decidiu agradar o seu papai agora? Virar amiguinho do pessoal da Grifinória? Ah, ele vai ficar tão orgulhoso...

Harry bufou desgostoso, desviando o olhar por um instante. Passou a mão pelos cabelos, claramente irritado com a provocação. Quando voltou a encarar o amigo, seu olhar estava mais duro.

— Isso não tem nada a ver. A questão aqui é que eu não tenho intenção alguma de prejudicar a garota…

Draco soltou uma risada desacreditada.

— Por Merlin, Harry… desde quando passou a ser tão puritano? Te conheci bem mais ousado.

Ele deu um passo à frente, o tom agora leve e divertido, evidentemente disposto a dissipar aquele clima tenso que havia se formado entre ambos.

— É só uma detenção. Já levamos inúmeras e sobrevivemos. Isso não vai arrancar um pedaço dela… ou vai, do jeito que ela é... argh, enfim. — o loiro deu de ombros. — Faça o que tem que fazer. É o desafio. Nem que pra isso você tenha que passar um tempo com ela. Sei lá… se aproximar.

Ele continuo a falar com um tom que denunciava descaso e desinteresse, mas Harry já não estava dando tanta atenção aos resmungos do amigo. As palavras recém ditas estavam ecoando dentro dele com uma força dominadora.

Se aproximar dela.

Foi como se algo se rompesse.

Não foi brusco, nem barulhento — foi sutil, como o estalo de uma fissura antiga que finalmente cedia. A sugestão, absurda e vinda justamente de Draco, soou menos como um desafio e mais como uma autorização tácita. Uma brecha perigosa em muros que ele próprio erguera, onde ignorava impulsos, desviava olhares e sufocava pensamentos que insistiam em surgir sempre que Hermione Granger estava por perto.

Agora, porém, havia um motivo. Uma justificativa conveniente – ou inconveniente, considerando as circunstâncias – para atravessar a linha sem precisar admitir nada a si mesmo.

O incômodo que o dominava instantes antes se dissipou, substituído por uma chama contida. A simples ideia de estar perto dela — observá-la sem a proteção da distância, provocar uma reação, testar limites — fez algo inquieto se expandir em seu peito.

Harry apertou os lábios, sentindo o coração acelerar. Aquele cenário era tentador demais para ser ignorado.

-XX-

O dia seguinte avançou sem grandes acontecimentos até depois do almoço, quando Harry se viu acomodado em uma das salas mais antigas do castelo, durante a aula de Runas Antigas. O professor Babbling discorria com entusiasmo sobre a complexidade das inscrições rúnicas nórdicas, caminhando lentamente entre as fileiras enquanto explicava a diferença sutil entre símbolos de proteção e invocação.

O único som que Harry conseguia realmente registrar, além das palavras do professor, era o arranhar incessante da pena de Theodore Nott ao seu lado, escrevendo de forma metódica e copiosa, como se estivesse em uma corrida contra o próprio pensamento.

Ainda assim, nada disso conseguia competir com o que capturava, de fato, sua atenção.

Apenas duas fileiras à frente, levemente à esquerda, Hermione Granger estava sentada. Ela acompanhava cada explicação com concentração intensa. Os olhos semicerrados denunciavam uma vigilância afiada, como se estivesse sempre pronta para aproveitar qualquer brecha e intervir com uma pergunta ou observação precisa.

Os cachos espessos caíam livres ao redor do rosto, e qualquer corrente de ar mais suave fazia alguns fios se moverem, indisciplinados. Era uma das versões dela que mais o desarmava. Assim como a trança lateral que costumava fazer, especialmente em aulas práticas… ou o coque desajeitado que deixava à mostra o arco delicado de sua nuca clara — uma extensão de pele que parecia indecentemente macia mesmo à distância.

Era um caos velado. Um caos que Harry aprendera, a duras penas, a administrar.

Com o tempo, desenvolvera uma espécie de cálculo silencioso: quantos segundos podia observá-la sem parecer um completo lunático, sem chamar atenção alheia — sobretudo das outras garotas que, não raramente, faziam o mesmo com ele durante as aulas.

Naquela, porém, havia uma liberdade maior. Runas Antigas era uma matéria optativa e, do seu círculo habitual, apenas Nott dividia a sala com ele. Isso lhe permitia vagar o olhar com menos cautela, ainda que nunca sem vigilância interna.

Imerso naquele frenesi — estar no mesmo espaço que ela, captar cada movimento, cada gesto involuntário — Harry quase não percebeu quando o professor anunciou o fim da aula. O arrastar de cadeiras e o burburinho crescente o arrancaram do torpor.

— Treino de Quadribol agora, não é? — a voz de Nott soou ao seu lado, já colocava a mochila nos ombros. — Vamos?

Harry desviou o olhar apenas por um instante, antes de voltar a atenção para Hermione. Ela guardava os materiais com rapidez, como se estivesse com pressa de sair, enquanto uma colega loira ao seu lado dizia algo em tom animado.

— Vai na frente — respondeu Harry, sem tirar os olhos dela.

Theo deu de ombros e saiu.

Harry começou a guardar suas coisas às pressas. Num movimento ágil, caminhou em direção à porta — em direção a ela, fazendo Hermione estancar subitamente ao se deparar com a figura de Harry parado à sua frente, bloqueando o caminho.

Ele poderia jurar que as bochechas dela se tingiram de um leve rubor quase imediato. O peito dela pareceu travar, como se tivesse esquecido de respirar.

— Oi… Hermione… — ele murmurou, a voz saindo em um fio baixo demais para o próprio gosto.

Ela abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra veio.

Harry não soube dizer quantos segundos permaneceram assim — suspensos, imóveis — até que um movimento brusco da colega dela quebrou o instante. Ao desviar o olhar, reconheceu se tratar de Lavender Brown, que observava a cena com um sorriso curioso demais para ser inocente, claramente atenta a próxima reação.

Ele tornou a fitá-la e, num gesto desordenado, limitou-se a um breve aceno de cabeça antes de se virar e se afastar a passos rápidos. Hermione permaneceu para trás, imóvel, os livros firmemente pressionados contra o peito.

-XX-

Harry não conseguia se lembrar da última vez em que fizera um treino de Quadribol tão desastroso.

Errava manobras simples, sofreu três quedas constrangedoras e, como se não bastasse, ainda conseguiu a proeza de se chocar com outros jogadores no ar. A falta de concentração era gritante. Na segunda chamada de atenção — principalmente de Draco, que chegou a ameaçá-lo com um feitiço de imobilização na arquibancada caso quase cometesse outro homicídio aéreo —, Harry simplesmente desistiu.

Alegou não estar se sentindo bem e a desculpa pareceu convencer, já que ele não costumava ser desatento durante os treinos.

Mas cada erro, cada queda, cada distração tinham uma origem óbvia demais.

Sua mente insistia em retornar ao mesmo instante: a forma covarde como praticamente fugira de Hermione depois de um oi ridiculamente tímido. Tanto tempo — anos, na verdade — calculando distâncias, avaliando momentos, impondo limites… para, quando finalmente tomara uma atitude, agir como um garoto inseguro e desajeitado.

O rosto dele esquentava só de lembrar.

Não era por acaso que, durante o jantar no Grande Salão, Harry se sentara de costas para a mesa da Grifinória. Não sabia o quanto seu rosto — ou o próprio corpo — o denunciaria caso seus olhares se cruzassem novamente. Algo que, naquele ambiente, acontecia com uma frequência considerável.

Ao menos, sentia-se aliviado por ninguém mencionar o maldito desafio criado por Draco. Ele não estava com cabeça para esquivas, nem para inventar desculpas que soassem convincentes.

Em meio àquele turbilhão, Harry ainda estava disposto a concluir o que iniciara naquele dia. Não podia romper aquela barreira invisível apenas para recuar logo em seguida, como um covarde sem noção.

Foi logo após o jantar que a tentativa de concertar aquilo veio em sua mente.

A alternativa mais óbvia — e também a mais provável — era a biblioteca. Hermione estar lá era quase uma constante, algo que ele observara ao longo dos anos. Nas poucas noites em que ia até a biblioteca depois do jantar para fazer algum dever ou pesquisa, quase sempre a encontrava. Geralmente sozinha, sentada na última mesa, ao lado de uma grande janela.

Mais de uma vez, Harry se permitira ficar escondido atrás de uma estante, observando-a em silêncio. Via-a devorar linhas de livros com os olhos, escrever com uma precisão impressionante, ou simplesmente parar por alguns segundos, encarando a janela antes de retornar à leitura.

Cenas que lhe aceleravam o coração… e, paradoxalmente, o acalmavam.

E naquela noite não era diferente. Hermione estava lá. Na mesma mesa. E ele, encostado na mesma estante.

A diferença era que, desta vez, Harry não ficaria apenas observando. Desta vez, ele iria se aproximar.

E tudo o que fazia era repetir mentalmente uma única prece silenciosa — para que Morgana o ajudasse e que tudo aquilo que ensaiara tantas vezes em sua mente finalmente funcionasse.

Enquanto caminhava, notou o quanto era curioso — e perigosamente inebriante — que o arrepio em sua nuca parecia acompanhar, centímetro a centímetro, o lento movimento da cabeça de Hermione. Os olhos dela se desprenderam do livro na mesma proporção em que Harry se aproximava, até que, inevitavelmente, seus olhares se encontraram.

Ele já estava perto o bastante.

Harry inspirou fundo, buscando ancorar os próprios pensamentos antes que se perdessem de vez na profundidade daqueles olhos castanhos, atentos demais, lúcidos demais para o estado em que ele se encontrava.

— Eu… atrapalho? — perguntou, controlando o tom da voz com esforço.

— N-não. Claro que não — respondeu Hermione, piscando algumas vezes, como se precisasse confirmar que aquela cena não era fruto de imaginação.

Os ombros de Harry relaxaram levemente ao captar o brilho no olhar dela — surpresa, sim, mas também algo mais tênue, uma curiosidade contida. O semblante parecia lutar para sustentar neutralidade, lembrando-o da expressão que ela tivera na primeira vez que conversaram.

Da primeira… e última.

Ele apoiou a mão em uma cadeira vazia ao lado.

— Primeiro, eu queria me desculpar por mais cedo… — começou, pigarreando em seguida. — Eu ia falar com você, mas achei que poderia estar... incomodando. Você e sua amiga pareciam apressadas.

— Não, você não estava incomodando em nada — respondeu ela prontamente, remexendo-se discretamente na cadeira, o tom tentando soar firme, ainda que traísse certa hesitação.

Merlin… aquilo era encantador.

— Eu que lamento por não ter respondido na hora — continuou Hermione, um leve sorriso surgindo. — Acho que fiquei… surpresa. Surpresa demais.

Harry respondeu com um meio sorriso, sentindo uma satisfação silenciosa crescer em seu peito.

— Então… como posso ajudar? — perguntou ela, ajeitando a postura, como se tivesse se tornado subitamente consciente demais de si mesma.

Ela estava evidentemente receptiva. E Harry precisou reunir cada fragmento de autocontrole para não parecer novamente um garoto perdido diante dela.

— É sobre o trabalho de Runas Antigas — disse. — Fiquei com algumas dúvidas na elaboração da parte prática. E como eu sei que você costuma ajudar outros alunos com dúvidas acadêmicas… pensei em pedir sua ajuda.

A justificativa parecia impecável. Ainda assim, uma fisgada de receio o atravessou quando o semblante dela suavemente se alterou — quase imperceptível, mas o suficiente para que ele percebesse. O brilho atento em seus olhos vacilou por um instante antes de ela levar uma mecha de cabelo atrás da orelha e desviar o olhar para o livro à sua frente, o cenho levemente franzido, denunciando uma expectativa silenciosa que não fora atendida.

— O seu amigo da Sonserina, Nott se não me engano, também faz a disciplina — comentou, a voz agora claramente soando mais fria. — Sei que ele tem notas altas. Por que não pede ajuda a ele?

Harry sentiu os músculos dos ombros se tensionarem novamente com aquela secura repentina. Onde ele havia errado?

— Theo é brilhante em Runas, não nego — respondeu com falsa tranquilidade. — Mas é um péssimo professor. Não tem muita… didática.

Ele se apressou antes que o silêncio se tornasse pesado demais.

— Olha, eu não quero te incomodar. É só que… — hesitou um momento, escolhendo as palavras com cuidado. — Eu só pensei em você para me ajudar. Mas, se eu estiver pedindo demais... entenderei.

Após alguns segundos, Hermione assentiu lentamente, inspirando fundo, como se estivesse tomando uma decisão muda. Seu olhar então voltou a encontrar o dele.

— Tenho disponibilidade amanhã — disse, por fim. — Nesse mesmo horário, aliás. Aqui. Pode ser?

— Perfeito — respondeu Harry, sem tentar esconder o sorriso que surgiu dessa vez.

— Não se atrase — advertiu ela, voltando o olhar ao livro.

Ainda assim, segundos depois, tornou a erguê-lo, rápido demais para parecer ensaiado, e lhe ofereceu um pequeno sorriso.

Foi o suficiente. A gravidade pareceu dobrar sob seus pés, porque tudo o que Harry queria era permanecer ali, suspenso naquela sensação recém-descoberta — em vez de se virar e sair.

Chapter 2: Se Você Quiser

Notes:

Boa leitura 🥰

Chapter Text

As pálpebras de Hermione pareciam pesar toneladas. Inchadas e ardidas, denunciavam sem pudor que ela havia dormido extremamente mal naquela noite. O cansaço físico, no entanto, era irrelevante diante do turbilhão que se instalara em sua mente desde o fim da aula de Runas Antigas. Todo o esforço para se manter sã ao longo do dia parecia ter desmoronado no instante em que fechara os olhos, permitindo que os pensamentos viessem em ondas caóticas.

Não era nada que envolvesse seus estudos, tampouco a extensa lista de afazeres meticulosamente organizada em sua agenda. O motivo tinha nome e um par de olhos verdes: Harry Potter.

O contato que tivera com ele mais cedo ainda parecia surreal. Foi como se todos aqueles anos em que a troca entre eles se resumia a olhares — às vezes rápidos demais, às vezes demorados a ponto de se tornarem constrangedores, forçando ambos a interromper o momento — tivessem, enfim, se materializado naquele único dia. Anos em que, muitas vezes, era apenas Hermione observando-o à distância, em circunstâncias tão frequentes que, se alguém soubesse, certamente a consideraria obcecada.

Ela sabia que se dilaceraria mentalmente assim que a cabeça tocasse o travesseiro. E foi exatamente o que aconteceu.

A lembrança dele a cumprimentando surgia sem piedade, acompanhada da vergonha quase física por ter se comportado como uma menininha insegura e tola. Ela tentou responder. Merlin, como tentou. Queria dizer olá. Ou oi. Ou até algo completamente ridículo como Por Morgana, você está falando mesmo comigo? Talvez perguntasse qual era a pegadinha. Ou confessasse — ainda que apenas em pensamento — que um de seus mais ocultos anseios parecia, enfim, ter se tornado realidade.

Mas não disse nada. Foi como se suas cordas vocais simplesmente se recusassem a funcionar. Nenhum som. Nenhuma reação minimamente digna. Apenas o silêncio e, provavelmente, uma expressão esquisita estampada no rosto.

A vontade era enfiar a cabeça num buraco só de imaginar como devia ter parecido. Quando ele se afastou rapidamente, o impulso quase desesperado foi correr atrás dele, puxá-lo de volta, dizer qualquer coisa. Mas a presença de Lavender ao seu lado a manteve com os pés firmes no chão.

O restante do dia passou como um borrão. Hermione passou horas idealizando o que Harry poderia ter querido. Não chegava a nenhuma conclusão concreta, nada que fizesse o mínimo de sentido. E o fato de não ter conseguido sequer analisar seu rosto durante o jantar — já que ele permanecera de costas para a mesa da Grifinória, algo nada comum — apenas reforçou a ideia de que sua reação mais cedo só poderia ter causado a pior impressão possível.

Então ele apareceu novamente. Na biblioteca.

Ali, Hermione reuniu todas as forças que possuía para se manter normal.

Mas seu corpo insistia em reagir à presença dele: ao olhar intenso, à respiração levemente entrecortada, às pequenas hesitações entre uma palavra e outra. Cada gesto parecia carregar uma tensão invisível.

Por um breve momento, ela chegou a acreditar que estava lidando bem com a situação. Até descobrir o motivo de ele estar ali.

Ajuda no trabalho de Runas, ele dissera.

E então, como se fosse puxada violentamente para o passado, seu raciocínio e seu semblante por pouco não a traíram. A reação ameaçou ser a mesma de dois anos atrás.

Era uma lembrança que ela jamais conseguira apagar da memória. Não porque tivesse sido um momento que a levara ao êxtase — mas porque fora, ao mesmo tempo, aquele que a deixara completamente sem chão.

Flashback — Terceiro Ano

As mãos de Hermione estavam tão suadas que ela precisou segurar o pedaço de papel com mais força para impedir que escapasse de seus dedos. Ele já estava amassado de tanto ser aberto e dobrado novamente, como se, a cada vez, ela precisasse se certificar de que o que estava escrito ali era real — de que não havia entendido errado.

Ela permanecia cuidadosamente escondida no pequeno espaço entre o corredor lateral e o vestiário masculino da arena de Quadribol. O treino da Sonserina havia terminado havia poucos minutos, e o som distante de vozes e risadas ecoava pelo local. Hermione esperava paciente, embora o coração batesse rápido.

Um sorriso nervoso — quase infantil — insistia em surgir em seus lábios com a percepção do quanto se sentia encorajada e carregada de ousadia.

Então ele apareceu.

Saiu do vestiário acompanhado de dois colegas de time. Os três avançaram pelo corredor e interromperam o passo quase ao mesmo tempo ao se depararem com Hermione parada no meio da passagem. Ela, no entanto, não se deu ao trabalho de lançar sequer um olhar aos outros dois.

— Posso falar com você? — perguntou, a voz tomada de expectativa.

Harry respirou fundo, visivelmente surpreso. Lançou um olhar rápido para os amigos – que seguiram caminho – antes de voltar a encará-la.

— S… sim.

Hermione notou, com um misto de diversão e encantamento, o quanto ele parecia desconcertado. Nervoso de um jeito quase adorável. Em outras circunstâncias, teria pensado que ele estava desconfortável, mas naquele momento estava convicta que bastariam alguns instantes para que tudo se tornasse mais natural entre eles.

Ela se aproximou um pouco mais.

— Eu… sei que deveria seguir a orientação do bilhete — começou, sentindo o coração bater ainda mais forte —, mas fiquei tão… tão impressionada que não resisti em vir te ver logo.

Estendeu a mão em direção a ele, oferecendo o papel já amassado.

— A resposta é sim — disse, soltando um suspiro contido enquanto lhe lançava um sorriso radiante. — Tem todas as chances.

O silêncio que se seguiu mudou de textura em segundos. De aceitável, tornou-se pesado. Hermione percebeu a respiração dele se tornar irregular enquanto Harry alternava o olhar entre o bilhete, os olhos dela e um ponto indefinido ao fundo — que ela logo reconheceu serem seus amigos, observando à distância.

Ele passou as mãos pelos cabelos, o desconforto agora evidente. Hesitante, pegou o bilhete da mão dela.

— Hermione… eu… sinto muito… — começou, a voz baixa — é que… não era a mim que isso se referia.

— Como assim? — ela perguntou, ainda sorrindo, incrédula. — Harry, eu vi você colocando o bilhete dentro da minha bolsa, na biblioteca.

Ele abaixou a cabeça. E naquele instante, algo dentro dela começou a ceder. Como se o chão deixasse de ser firme sob seus pés.

— Foi a pedido… de um amigo — confessou.

Harry voltou a encará-la então, com uma intensidade estranha. Um olhar que dizia muito e, ao mesmo tempo, nada explicava.

O impacto veio como um soco no estômago. Um soluço involuntário ameaçou escapar, acompanhado de uma frustração súbita e sufocante. Ela só queria sair dali. Precisava sair dali.

— Um amigo… ah… — murmurou, desviando o olhar, como se procurasse uma rota de fuga antes de encará-lo novamente. — Certo.

Engoliu em seco, segurando o choro com todas as forças.

— Perdão pela confusão.

Virou-se para ir embora quando sentiu a mão dele segurar seu braço.

— Espera… eu… — murmurou Harry, num tom trêmulo.

Mas Hermione não estava receptiva a qualquer tipo de consolo.

— Está tudo bem — disse com certa rispidez, livrando-se do toque. — Com licença.

Fim do flashback.

— Alô? Terra chamando Hermione Granger!

A voz de Parvati Patil ecoou em seus ouvidos, fazendo-a perceber que estava debruçada sobre a penteadeira do dormitório, com as mãos cobrindo o rosto. Ainda sentia o gosto amargo que subiu por sua garganta assim que a recordação que a invadira momentos antes voltou com força total.

Hermione respirou fundo, então ergueu o rosto e voltou a atenção para a amiga.

— Desculpa, Parvati… você estava dizendo alguma coisa?

— Há mais ou menos quinze minutos — respondeu ela, cruzando os braços, divertida e preocupada ao mesmo tempo. — O que aconteceu? Você parecia ter sido atingida por um Muffliato. Estava completamente alheia.

— Ah, mas isso aí é “efeito Potter” — comentou Lavender, com um sorriso malicioso, enquanto terminava de calçar os sapatos.

Hermione lançou o seu melhor olhar reprovador à loira.

— Como assim? — Parvati perguntou, surpresa, alternando o olhar entre as duas.

— Harry deu um oi pra ela na aula de Runas e foi o suficiente para deixar a nossa prodígio completamente perdida — explicou Lavender, claramente satisfeita com a própria provocação.

— Lav, você só pode estar brincando! Já disse pra você esquecer isso! — Hermione repreendeu, pela segunda vez.

Ela já havia feito o mesmo na noite anterior, quando Lavender comentara, toda animada, o episódio para Ginny Weasley. A ruiva ficara por longos minutos exageradamente empolgada, importunando Hermione com perguntas e mais perguntas sobre como fora receber um cumprimento de “um dos garotos mais bonitos e irresistíveis da escola” — palavras exatas de Ginny. Embora fosse um ano mais nova, Hermione havia criado um vínculo crescente com ela desde o terceiro ano, depois de ajudá-la em algumas disciplinas.

— E o que ele queria com você? — Parvati perguntou, aproximando-se, a curiosidade estampada no rosto.

Hermione terminou rapidamente de trançar o cabelo antes de se levantar de forma brusca.

— Nada — respondeu, evasiva. — Por favor, parem com essa infantilidade e não me aborreçam. Vamos, ou iremos nos atrasar.

Ela deixou o dormitório depressa, ignorando as risadinhas abafadas das amigas.

Definitivamente, estava fora de cogitação contar como a noite anterior havia terminado. Já bastava lidar com o próprio terremoto interno; não precisava ainda absorver os comentários exagerados e nada sutis delas.

Hermione estava decidida a deixar o autocontrole falar mais alto. Não permitiria que o fato de que ela e Harry teriam mais um momento juntos naquele dia a dominasse. Não podia — e não iria — deixar sua mente criar idealizações tolas. Não novamente.

Ela conseguiria. Ela era madura o suficiente para isso.

Talvez repetir isso mentalmente várias vezes acabe me convencendo.

-XX-

— Hum… e como está o avanço do desafio do Primus Sonserinae? — perguntou Zabini, entre um gole e outro de suco de abóbora. — Alguma novidade?

A reação de Harry foi imediata. Ele desferiu um chute forte na perna do amigo sob a mesa do Grande Salão.

Merda! — Zabini reclamou, quase engasgando. — Tá ficando maluco?

— Fala baixo — murmurou Harry, firme, mas controlado, lançando um olhar rápido ao redor para se certificar de que ninguém nas mesas próximas havia ouvido. — Pensei que tivesse ficado claro que esse assunto não seria comentado em público.

Seu olhar desviou-se para Draco, silenciosamente exigindo uma confirmação. Draco revirou os olhos, claramente contrariado.

— Merlin, Harry… se você já tá nervoso assim só com o desafio, imagina com as suas futuras responsabilidades — provocou, com um sorriso debochado. Em seguida, voltou-se para Zabini. — Deixa ele em paz, seu idiota. Quanto menos gente souber do teor do desafio, mais fácil fica pra ele cumprir.

Zabini resmungou algo incompreensível antes de voltar a atenção para a comida, ainda visivelmente irritado com as repreensões.

Draco, então, inclinou-se na direção de Harry e falou baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse:

— Mas falando nisso… já sabe o que pretende fazer?

A expectativa em sua voz era evidente.

— Ainda estou pensando — respondeu, evitando encará-lo.

Ele sentiu um alívio imediato quando Pansy chamou Draco, desviando sua atenção e impedindo-o de insistir. Era apenas uma questão de tempo até que o loiro — e os demais — entendessem que ele não faria nada que prejudicasse Hermione. Nem mesmo se isso significasse abrir mão daquele título.

Desde o início, Harry lidava com o esforço constante de ser reconhecido entre os colegas por quem era, e não como um reflexo de seu pai. O sobrenome Potter carregava, desde o fim da guerra, um peso inegável — um destaque que qualquer bruxo reconhecia como grandioso.

Nos primeiros dias, fora difícil dissociar-se dele. Principalmente quando sua ida para a Sonserina, e não para a Grifinória — a casa de seus pais —, se tornara motivo de murmúrios e olhares curiosos. No entanto, quando Draco Malfoy acolhera seu empenho em honrar a Sonserina e colocá-la como prioridade, tudo se tornou mais simples. Misturar-se àquela casa rival da que seu pai tanto se orgulhara passou a ser, curiosamente, natural.

Foram poucas as vezes em que Harry confrontara diretamente os amigos. Em geral, apenas quando algo feria profundamente um de seus princípios — e, ainda assim, sempre soubera fazê-lo sem criar rupturas desnecessárias.

Agora, porém, sabia que recusar aquele desafio seria muito mais complicado. Sua mente trabalhava sem descanso só de antecipar o confronto que o aguardava.

Mas bastou Hermione adentrar o salão para que tudo ao redor perdesse relevância. E quando os olhos dele encontraram os dela, uma chama firme acendeu-se em seu peito. Ao percebê-lo, Hermione diminuiu levemente o passo — um gesto quase imperceptível, mas suficiente para que Harry entendesse que ela também queria prolongar aquele instante.

Em resposta, ele lhe ofereceu um meio sorriso. A pele de Harry se arrepiou quando ela o retribuiu.

E, naquele segundo silencioso, a perspectiva do encontro mais tarde passou a se impor, dominante, dentro dele — tomando forma e exigindo espaço.

-XX-

Hermione terminou seus afazeres pessoais às pressas após o jantar. Ignorou conversas triviais, esquivou-se quase correndo de alguém que tentou interceptá-la para tratar de um assunto qualquer e manteve-se focada em um único objetivo: chegar à biblioteca o mais rápido possível.

Ainda faltavam duas horas para o toque de recolher e, se Harry realmente aparecesse no horário combinado, ela pretendia aproveitar cada minuto. Ajudá-lo de forma eficiente, concluir o trabalho de Runas naquela mesma noite e, assim, evitar prolongamentos desnecessários.

Durante o dia, chegara à conclusão de que postergar encontros não seria uma boa ideia. Se alguns poucos minutos de contato já haviam sido suficientes para deixá-la tão afetada, quem diria horas inteiras ao lado dele?

Isso ficou ainda mais óbvio após a lembrança do mal-entendido de dois anos atrás ter, mais cedo, retornado com nitidez incômoda: quando, tolamente, deduzira que Harry fora o autor de um bilhete que insinuava interesse nela. O tombo emocional ainda ecoava em algum lugar sensível de seu peito. Por isso, era mais prudente, mais seguro para sentimentos que ela já reconhecia como perigosamente evidentes, não permitir que novas expectativas encontrassem espaço para se instalar.

Contudo, toda essa postura se dissolveu no instante em que o viu.

Harry estava sentado em sua costumeira mesa de estudos, cercado por livros e pergaminhos organizados de maneira cuidadosa. A postura atenta denunciava que ele a aguardava. Quando a avistou, ergueu o olhar imediatamente e soltou um suspiro discreto — quase imperceptível — como se um peso silencioso tivesse sido retirado de seus ombros.

E, de fato, fora.

Por alguns instantes, ele temera que ela não aparecesse. Apesar dos olhares trocados e do sorriso contido no Grande Salão mais cedo, o restante do dia fora marcado por tentativas frustradas de contato. Nas aulas compartilhadas, por mais que tentasse capturar seu olhar ou criar uma oportunidade para confirmar o encontro, Hermione parecia sempre um passo à frente, esquiva demais. A tensão que isso lhe causara era alarmante — assim como a constatação do quanto estava ansioso por aquele momento.

— Cheguei muito cedo?

Hermione forçou as pernas a continuarem em movimento até puxar a cadeira e sentar-se na frente dele.

— Considerando que chegou com meia hora de antecedência… sim — respondeu, alternando o olhar entre ele e os livros que já começava a espalhar sobre a mesa. — Então, está pronto? Trouxe todo o material?

— Sim... Trouxe tudo — disse Harry, percebendo a empolgação inicial dar lugar a uma estranheza leve diante do jeito apressado dela.

— Então vamos começar.

O tempo passou rápido e, ao mesmo tempo, arrastado, como se estivesse preso naquela dualidade silenciosa que envolvia os dois.

Hermione explicava com uma fluidez natural, como se tivesse criado a disciplina. Fez Harry copiar traduções detalhadas, comparar símbolos rúnicos semelhantes, identificar variações históricas entre alfabetos antigos e reconstruir trechos inteiros de inscrições mágicas com base em contexto e estrutura. Ela se inclinava sobre a mesa para apontar detalhes, corrigia sua escrita com paciência e sempre se certificava de que ele realmente estava compreendendo.

Aquilo o fazia sorrir internamente — lembrava vagamente sua mãe quando o ensinava na infância, mas, diferente daquela época, agora não sentia tédio algum em absorver cada palavra.

Ainda assim, era impossível ignorar os detalhes que o distraíam. A maneira como a respiração de Hermione se tornava mais intensa quando falava de algo que claramente a fascinava. O modo como endireitava os ombros ao acrescentar uma informação que o professor sequer mencionara em sala. Ou como, de maneira encantadoramente distraída, mordiscava o lábio inferior sempre que fazia uma breve pausa para pensar.

Era nesse ponto que ele se perdia. E precisava, com esforço, puxar a atenção de volta para as palavras dela.

Terei tempo para lembrar desses detalhes depois, dizia a si mesmo. Para admitir que havia mais motivos do que imaginava para Hermione Granger ocupar seus pensamentos.

Quando deram por si, o último pergaminho estava concluído.

— Eu nem acredito que terminamos — Harry comentou, soltando o ar devagar. — Um trabalho com essa complexidade normalmente levaria dias.

— Só quando a pessoa ainda não domina bem a matéria — respondeu ela, com um sorriso de dever cumprido. — Quando se está em dia, tudo flui melhor.

Harry fechou o último livro e a encarou, aguardando pacientemente que o olhar dela encontrasse o seu. Quando isso aconteceu, ele falou, com sinceridade desarmante:

— As pessoas não estavam exagerando quando dizem que você é a mais inteligente do nosso ano. E, honestamente, deve ser a da escola toda.

Hermione sentiu o rosto esquentar. O elogio vinha acompanhado de um olhar de admiração genuína — algo que ela conhecia bem, mas que, vindo dele, tinha um peso completamente diferente.

— Não é para tanto — respondeu, tímida. — Sou apenas esforçada. Além disso, ajudar os outros acaba me ajudando também. Revisar melhora meu desempenho.

— É comum alunos de outras casas pedirem sua ajuda?

— Nem com tanta frequência assim. Mas… da Sonserina, é a primeira vez — disse, com uma crítica velada no tom.

Harry pigarreou, sem graça.

— É… o pessoal da minha casa é um pouco reservado…

— Antissociais, você quer dizer — ela retrucou com veemência, antes de se repreender mentalmente pela sinceridade exagerada ao notar a reação dele. — Quer dizer… mais fechados. Gostam de se manter em grupos… exclusivos.

Harry soltou uma risada baixa.

— Pode manter a primeira definição. Sonserinos não fazem muito esforço para mudar essa fama. Mas nem todos são assim. Também há pessoas leais, sinceras… amigáveis. Basta conhecer elas melhor.

— Mas, para isso, precisam tentar se misturar — retrucou ela, arqueando a sobrancelha de forma divertida, quase desafiadora.

— Bom… — ele respondeu, inclinando-se levemente em sua direção — você já tem alguém tentando.

O silêncio que se seguiu foi denso, envolvente. Nenhum dos dois pareceu apressado em quebrá-lo. Havia algo confortável e perigosamente agradável naquele instante suspenso, como se o ar estivesse carregado de possibilidades não ditas.

— Melhor irmos — disse Hermione por fim, recolhendo a mochila e se levantando, as mãos levemente suadas.

Harry fez o mesmo.

— Obrigado pela ajuda. De verdade.

Ela assentiu, e Harry seguiu alguns passos à frente pelo corredor silencioso da biblioteca, enquanto Hermione o acompanhava logo atrás.

Foi quando, quase simultaneamente, ambos desaceleraram. Harry se virou no exato instante em que Hermione apressou o passo para alcançá-lo.

Se você…

As vozes se sobrepuseram.

Eles travaram, surpresos, quando perceberam o quão próximos haviam ficado — perto o suficiente para que Hermione sentisse o calor dele e Harry notasse o leve perfume dos cabelos dela.

— Pode falar primeiro — disse, com um meio sorriso, levando a mão aos cabelos num gesto automático e um tanto desajeitado, como se precisasse se lembrar de como se movia.

Hermione engoliu em seco, piscando algumas vezes para manter o controle.

— Eu só ia dizer que… se você quiser, podemos nos reunir outra vez. Para estudar, claro. Outras matérias que temos em comum.

O sorriso dele se abriu lentamente.

— Eu ia sugerir algo parecido. Se você não se importasse… e se quisesse, poderíamos fazer alguns deveres juntos. Acho que consigo melhorar meu desempenho assim… estudando… com você.

A ênfase na última palavra fez as pernas dela fraquejarem.

— Então nos vemos amanhã — disse Hermione, um sorriso involuntário surgindo em seus lábios.

Mas o “amanhã” deixou de ser apenas uma intenção vaga e transformou-se em quase todas as noites ao longo de duas semanas.

Depois do quarto encontro, já não era mais necessário confirmar se se veriam no dia seguinte — isso simplesmente se tornara óbvio. Quando, por exceção, não podiam se encontrar — o que aconteceu apenas por causa de um dos jogos de quadribol de Harry e de um compromisso de Hermione na comemoração de aniversário de uma amiga no salão comunal —, avisavam um ao outro com antecedência, sempre acompanhando a ausência da certeza tranquila de que, na noite seguinte, estariam novamente juntos.

Hermione percebeu que Harry não era tão desorganizado com os estudos quanto parecera quando pedira sua ajuda. Era verdade que ela se mantinha à frente na maioria das disciplinas, mas, nas matérias mais práticas — como Defesa Contra as Artes das Trevas e Feitiços —, ele demonstrava um domínio que beirava o instintivo. Havia ali uma naturalidade evidente, uma afinidade que o fazia se destacar sem esforço aparente.

E, embora Hermione jamais ficasse para trás — sustentada pelo empenho meticuloso que dedicava a tudo —, não pôde deixar de reconhecer o quanto o potencial dele a impressionava. Observá-lo explicar, à sua maneira, como executava determinado feitiço ou compreendia uma estratégia prática tornara-se… fácil demais de apreciar. Harry se animava nesses momentos, os olhos mais vivos, a postura mais solta, como se estivesse oferecendo algo precioso. Não à Sonserina, não aos professores — mas a ela. E o olhar atento de Hermione, a aprovação silenciosa que lhe oferecia, pareciam bastar.

Para ela, esses instantes também funcionavam como um descanso. Ensinar exigia concentração, mas lhe permitia baixar a guarda por breves momentos — algo difícil quando a proximidade entre eles se tornava constante. Não era simples ignorar os olhares que se prolongavam além do necessário, o aroma amadeirado do perfume dele, ou o fato de agora se sentarem lado a lado, tão próximos que qualquer movimento mais descuidado fazia seus braços se tocarem, sempre seguidos por uma pausa breve demais para ser casual.

Harry, por sua vez, lidava com aquilo com uma excitação silenciosa. Havia algo reconfortante — e ao mesmo tempo perturbador — em perceber o quão natural aquela proximidade estava se tornando, como se aquele espaço ao lado dela sempre tivesse lhe pertencido.

As conversas surgiam com facilidade nos intervalos. Comentavam sobre o dia, riam de algo trivial, trocavam observações sem importância aparente. Aos poucos, começaram a falar de si mesmos. E, sem perceber, passaram a guardar pequenos detalhes um do outro: o doce preferido, a fruta que não suportavam, uma lembrança marcante da infância, uma aventura adolescente que arrancava risos contidos.

Ficava cada vez mais claro que aqueles encontros já não eram apenas sobre estudo. O tempo dedicado aos pergaminhos diminuía, enquanto o tempo dedicado um ao outro crescia — confortável e pleno.

Talvez o fato de ninguém saber sobre aquilo ajudasse.

Não chegou a ser discutido entre eles, mas parecia existir um acordo tácito: durante o dia, mantinham a distância habitual. Limitavam-se a olhares rápidos, sorrisos discretos, gestos quase imperceptíveis — como se ambos concordassem que aquilo pertencia apenas às noites na biblioteca, pelo menos por enquanto.

Harry sabia exatamente os seus motivos. Quanto a Hermione, porém, só lhe restavam suposições. Inclusive uma incômoda — e um tanto culpada.

E, no fundo, temia que estivesse certo, que algo não resolvido (e mal interpretado) viesse a macular um momento que sentia ser verdadeiramente deles.

-XX-

Os corredores já estavam mergulhados em uma penumbra tranquila, iluminados apenas pelas tochas mágicas que lançavam sombras suaves pelas paredes de pedra. A noite avançara rápido, e o silêncio característico daquele horário só era quebrado pelas risadas abafadas — e nada contidas — de Harry e Hermione, ainda embalados pelo que haviam vivido há poucos minutos.

— Harry, aquilo foi loucura! — disse Hermione, enxugando uma lágrima que escapara do esforço de rir. — A Madame Pince estava a segundos de começar a soltar fumaça pelas orelhas com aquele seu… discurso.

— Ora, eu só estava sendo visionário — defendeu-se, com falsa seriedade. — Expliquei educadamente que uma biblioteca funcionando vinte e quatro horas por dia seria revolucionária para o mundo bruxo. Imagine quantas descobertas poderiam surgir às três da manhã! Quantos feitiços esquecidos seriam recuperados! Quantos… — ele fez um gesto amplo com as mãos — estudantes desesperados por conhecimento seriam salvos.

Hermione abafou uma gargalhada.

— Você basicamente insinuou que o futuro da magia dependia dela deixar você passar do horário de recolher.

— E ela claramente não estava pronta para lidar com tamanha responsabilidade. Mas ela nunca gostou de mim mesmo. — ele deu de ombros, divertido. — Desde o “pequeno acidente” no segundo ano que envolveu algumas Bombas de Estrume Explosivas defeituosas que deixaram a biblioteca fedendo por dias — explicou, com um sorriso travesso. — E nem foi ideia minha. Eu só estava… próximo demais dos verdadeiros culpados.

Os dois riram mais uma vez, o som ecoando baixo pelo corredor vazio, até que chegaram ao ponto em que seus caminhos se separavam, cada um em direção ao próprio salão comunal.

— Então, amanhã no mesmo horário e… — Hermione começou, mas se interrompeu de repente, soltando um muxoxo baixo, como se a lembrança tivesse acabado de lhe ocorrer. — Ah, esqueci completamente. Amanhã é o passeio para Hogsmeade.

Harry inspirou fundo, o comentário dela servindo como o empurrão final para a coragem que ele já vinha reunindo desde cedo.

— É verdade… — concordou, assentindo devagar. — Então… você vai?

— Vou sim.

— Nesse caso, estive pensando… — ele fez uma pausa breve, como se reorganizasse os próprios pensamentos, antes de se aproximar um pouco mais. — A gente podia dar uma volta por lá. Juntos.

Hermione entreabriu a boca, surpresa. O tom casual não escondia totalmente o peso do convite.

Dar uma volta? — ela repetiu, como se testasse as palavras.

— Sim… passear — explicou ele, umedecendo os lábios, ligeiramente nervoso. — Quer dizer… aproveitar um ambiente além da biblioteca. E Hogsmeade parece uma boa oportunidade.

O silêncio que se instalou fez a nuca de Harry formigar. O olhar pensativo de Hermione o deixou subitamente consciente do que estava propondo.

— Olha… — retomou, agora mais firme, endireitando a postura. — Depois de todos esses dias, considero que somos… não sei… amigos. Ou colegas. Ou amigos mesmo. E, se ainda não somos… — ele riu de leve, misturando as palavras — talvez possamos tentar ser, se conversarmos mais...

— Harry, eu entendi — disse Hermione, o cortando gentilmente com um tom suave, claramente aliviada ao notar o quanto ele também parecia desconcertado. Ela levou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Eu acho que… seria legal, sim. Precisamos mesmo de um pouco de descanso depois de tantas revisões.

Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Hermione Granger falando em descanso? Conhecendo você como já conheço, isso soa até estranho.

Ela deu um leve tapinha no braço dele, fingindo indignação.

— Bobo. Por essa ofensa, você vai ter que me compensar passando na Dedos de Mel e...

— Comprar Rãs de Chocolate com Cartas de Feiticeiros Antigos — completou ele prontamente. — Seu doce preferido.

Hermione não conteve o sorriso ao perceber que ele se lembrava daquele comentário aparentemente trivial.

— Pode deixar — ele acrescentou, com um sorriso satisfeito. — Vai ser a primeira coisa que farei.

Foi então que ouviram passos apressados e vozes mais adiante — provavelmente alguns monitores.

— Vamos, antes que levemos outra repreensão — disse Harry.

Antes de se afastar, porém, aproximou-se um pouco mais e tocou de leve o braço dela, num gesto simples que ele havia adotado como despedida. Era o máximo que se permitia, uma linha tênue que traçara para não avançar além do que julgava seguro.

— Até amanhã.

Ele lhe lançou um meio sorriso e se virou para ir embora, mas sentiu Hermione segurar seu braço. Quando voltou o rosto para ela, não teve tempo de reagir: Hermione se inclinou e depositou um beijo breve em sua bochecha.

— Até, Harry.

Ela então se afastou rapidamente, seguindo pelo corredor com passos apressados, como se temesse olhar para trás.

Harry permaneceu imóvel por alguns segundos, os dedos subindo quase sem perceber até a bochecha ainda aquecida pelo toque dela. O coração batia descompassado com aquele contato que, mesmo breve, foi o suficiente para acender nele uma necessidade pulsando de sentir mais. Muito mais.

Chapter 3: À Meia-Luz de Hogsmeade

Notes:

Mais um capítulo pra vocês 🥰

Chapter Text

Flashback — Terceiro Ano

— Isso é alguma piada de mau gosto?

A pergunta escapou de Harry num tom abismado. Seu olhar alternava entre o rosto de Draco e o pequeno pedaço de pergaminho amarrotado em sua mão, como se reler aquelas palavras pudesse fazê-las mudar de sentido.

"Será que um cara da Sonserina que não tira os olhos de você teria alguma chance? Se sim, me encontre às vinte horas, no corredor do quinto andar, atrás da tapeçaria de Barnabás, o Biruta."

— Se fosse piada, eu teria caprichado mais — Draco respondeu, com um meio sorriso insolente. — É só um favor. Relaxa. Qual é o drama?

Harry soltou uma risada curta, sem humor.

— Desde quando você está a fim da Hermione?

Havia um desafio velado em sua voz.

— Ah, sei lá… — Draco deu de ombros, como se a pergunta não merecesse esforço — Diferente de você, não me dou ao trabalho de marcar quando ou como uma garota chama minha atenção. Acontece. O resto é curiosidade… e oportunidade.

O sorriso que surgiu em seus lábios era pura malícia.

Harry deu um passo à frente. A proximidade fez o ar entre eles parecer mais pesado.

— E você resolveu isso quando eu desabafei com você? — questionou, num tom baixo e tenso. — Quando te disse que achava que estava a fim dela? Que eu me sentia vidrado nela havia muito, muito tempo?

Draco cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça.

— Que tipo de amigo você acha que eu sou? Claro que não. — ele fez uma careta, desgostoso. — Além disso, isso foi meses atrás. E, se não me engano, logo depois do seu “desabafo”, você deixou bem claro que isso não atrapalharia sua missão de não se aproximar de ninguém da Grifinória. Disse que ia deixar isso pra lá. E nunca mais tocou no assunto. Esqueceu?

Harry fechou a mão com força ao lado do corpo. Não era a primeira vez que sentia vontade de socar o amigo, mas daquela vez o impulso parecia quase incontrolável.

— Então agora, do nada, você aparece dizendo que está interessado nela? — rebateu. — Você sempre disse o quanto achava a Hermione uma insuportável sabe-tudo. O que mudou?

— Nada — o loiro respondeu, com um encolher de ombros calculado. — Continuo achando a mesma coisa.

Harry o encarou, incrédulo.

— Caramba, Potter — Draco continuou, impassível — eu não vou pedir a garota em casamento. Só quero ficar com ela. Sei lá… talvez eu tenha notado algumas das qualidades que você tanto falava. — Ele soltou um suspiro teatral. — Mas, se você ainda estiver a fim dela… se ainda pensar em tentar algo… ela é toda sua. Eu jamais colocaria nossa amizade em risco por causa disso.

Draco o observava atentamente, os olhos semicerrados, como se medisse cada reação.

Harry engoliu em seco.

“Merda, por que tudo precisava ser tão absurdamente complicado?”

— Não — respondeu, afastando-se um pouco. — Eu não mudei de ideia.

— Perfeito. Problema resolvido. — Draco esboçou um meio sorriso satisfeito.

— Não dá pra pedir pra outra pessoa fazer isso?

Draco o encarou, agora apreensivo.

— Não. Você sabe que, se algum dos nossos amigos descobrir, vão me zoar até o fim do ano. Principalmente por se tratar de uma… — ele hesitou.

Harry cruzou os braços, silenciosamente desafiando-o a concluir.

— Droga, Harry… — Draco passou a mão pelos cabelos, frustrado. — Você mesmo vive dizendo que eu preciso passar por cima das merdas da minha família. Que tenho que ser diferente quando se tratar de pessoas como… ela. Eu estou tentando. Estou disposto a me aproximar dela, e você fica aí me barrando? Fala sério. Me ajuda, vai!

Harry soltou o ar pelo nariz com força.

— Tudo bem — disse, por fim, quase entre dentes, desviando o olhar. — Mas não conte mais comigo pra nada relacionado a esse assunto.

Fim do flashback.

Nem a bela vista dos campos ondulantes nem o céu amplo, visíveis pela janela do Expresso de Hogwarts, foram suficientes para impedir que a cabeça de Harry latejasse com aquela recordação nauseante.

Ele apoiou a testa no vidro por um instante antes de levar a mão à têmpora direita, massageando-a devagar numa tentativa automática de aliviar um incômodo que, sabia, era muito mais mental do que físico. O rosto ardia de um remorso corrosivo, alimentado pela pergunta que insistia em martelar sua mente: como ele pôde ser tão covarde… e ao mesmo tempo tão estúpido?

Claro que o fato de ter apenas treze anos na época não ajudava em nada. Agira como exatamente o que era: um garoto com lerdeza emocional demais para compreender os próprios sentimentos e ainda mais incapaz de lidar com eles.

Ele realmente havia ficado irritado com a tentativa de investida de Draco. Além disso, não acreditara na desculpa absurda de que o interesse por Hermione simplesmente surgira de forma inocente, como se tivesse sido intensificado por alguma magia súbita. Por mais que prezasse aquela amizade, ele — assim como o restante do grupo — conhecia bem o traço provocador do loiro: Draco tinha um talento quase perverso para cutucar os amigos nos pontos exatos que sabia que os tirariam do sério, com uma naturalidade que beirava o mau-caratismo.

Apesar da suspeita, Harry não conseguia afirmar com absoluta certeza que tudo aquilo não passara de mais uma de suas provocações ousadas.

Ele já havia notado os olhares de Draco lançados na direção de Hermione, sempre acompanhados por um semblante de desdém e por comentários ácidos. Acontece que mesmo com sua pouca idade, Harry tinha conhecimento de um fato: amor e ódio dividiam uma fronteira perigosa.

Independente das circunstâncias, Harry se sentira preso num jogo traiçoeiro.

Havia a indignação por Draco demonstrar interesse justamente na garota por quem ele nutria uma atração inexplicável havia tanto tempo, mesmo sabendo o quanto aquilo o desestabilizava. E, ao mesmo tempo, havia a consciência incômoda de que não tinha o direito de cobrar nada. Draco estivera certo ao colocá-lo contra a parede.

Harry fora irredutível. Convicto de que nem mesmo o que sentia por Hermione seria capaz de desviá-lo de seu propósito: não permitir que absolutamente nada o arrastasse para qualquer tipo de envolvimento com alguém da Grifinória. Seu motivo era irrefutável, sólido demais.

Foi por isso que cedeu. Por isso que engoliu, com amargor, toda aquela situação e, numa tentativa patética de legitimar a própria decisão, colocou aquele bilhete na bolsa de Hermione.

O que ele não esperava… era ser descoberto.

Não esperava ser confrontado por ela — com aquela mistura devastadora de ternura e expectativa, com os olhos brilhando de algo que o desarmou por completo. Hermione o deixou desnorteado, perdido em todos os sentidos possíveis.

E quando ela se foi, claramente frustrada — talvez até magoada — depois de ouvir sua negativa apressada e covarde de que o bilhete não era dele, Harry sentiu-se miserável. Um completo idiota.

Ele havia perdido a chance.

A chance da garota que ele tanto desejava estar disposta a dar uma oportunidade aos dois. Talvez até uma confirmação de que ela também sentia algo.

Um sorriso melancólico sempre lhe curvava os lábios quando esse pensamento o alcançava — um gesto que trazia consigo um misto agridoce de deleite e dor. Porque imaginar o que poderiam ter sido era também confrontar tudo o que — e o quanto — ele havia perdido.

Um leve estalo precedeu o impacto gelado contra sua nuca.

Harry sobressaltou-se quando uma pequena esfera translúcida se desfez ao tocá-lo, espalhando um frio cortante que escorreu por sua pele como água encantada. Ele inspirou bruscamente, despertando de vez de seus pensamentos, e virou o rosto na direção dos demais ocupantes da cabine.

— Merlin, Potter… — Draco disse, recostado no banco à frente, com um sorriso debochado, enquanto girava a varinha entre os dedos antes de guardá-la — Você tá com uma cara péssima. Parece até que teve a visão apocalíptica da Trelawney de biquíni… dançando ao luar e dizendo que era um presságio inevitável.

O comentário dele arrancou gargalhadas imediatas dos outros.

Harry revirou os olhos.

— Eu não posso nem ter o direito de sentir uma dor de cabeça? — rebateu, num tom displicente. Não era bem esse o caso, mas aquela desculpa costumava ser suficiente.

— Isso é o que dá ficar estudando toda noite feito um desesperado — Draco provocou, quase cuspindo as palavras. — Não lembro quando foi que você começou a ficar tão… impecável nessa área.

— Deve estar tentando superar o Nott nas notas — Parkinson comentou, acomodada no colo de Draco, enquanto passava os dedos distraidamente pelos cabelos dele.

— Ele tem se empenhado mesmo — Theo interveio. — Acabei flagrando essa semana o quanto ele anda saindo bem tarde da biblioteca.

O olhar que Theo lançou a Harry veio acompanhado de um sorriso sugestivo que o fez prender a respiração.

Seu olhar demorou um pouco mais do que o necessário no amigo — e ali, sem margem para dúvida, ele entendeu. Theo tinha visto mais do que deixava transparecer. Provavelmente o vira com Hermione.

Ele esperou alguns segundos longos demais, antecipando a catástrofe que seria se aquilo viesse à tona ali, naquela cabine. Mas Theo simplesmente voltou a atenção para o jornal que tinha nas mãos, como se não tivesse acabado de dizer nada relevante.

Aquilo fez Harry estranhar — e, ao mesmo tempo, respirar aliviado. Não por receio de um confronto inevitável, mas porque não queria que absolutamente nada maculasse o dia que ele ainda teria com Hermione. Haveria outro momento para acertos e explicações; aquele, porém, ele se recusava a permitir que fosse contaminado.

Argh, chega desse assunto — Draco interrompeu, batendo as mãos uma na outra. — Hoje é dia de aproveitar. Já falei com meu contato no Três Vassouras. Tá tudo certo: mesa reservada e estoque garantido de hidromel envelhecido, firewhisky escocês e até umas doses de licor de Ogden. Vamos beber até esquecer o próprio nome.

— Eu não vou com vocês — Harry disse, ajeitando-se no banco, tentando soar natural. — Tenho outro compromisso.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Vai trocar uma farra dessas por quê? — perguntou, desconfiado. — Espero que pelo menos seja por uma gata…

Um sorriso lento e malicioso se formou quando viu Harry apenas arquear a sobrancelha em resposta.

— Seu canalha… eu sabia! Esses seus sumiços, essas desatenções repentinas… só pode ter uma saia bem curta envolvida.

— Por isso a pobrezinha da Daphne anda cabisbaixa — Pansy acrescentou, venenosa. — Fica só iludindo minha amiga.

— Eu não iludo ninguém — Harry retrucou, ríspido. — Vocês precisam parar com essa forçação.

O trem começou a desacelerar aos poucos, e os comentários atravessados sobre a “vida amorosa” de Harry — cheios de pitacos, suposições e insinuações, sempre conduzidos pelo humor ácido de Draco — foram se perdendo entre risadas e o ranger metálico dos trilhos.

— Aproveite seu casinho — Draco disse, levantando-se. — Vamos indo chamar Zabini e o resto do pessoal na outra cabine.

Ele saiu acompanhado de Pansy, ainda rindo.

Harry lançou um último olhar para Theo, silenciosamente desafiador, como se o instigasse a dizer o que claramente sabia demais.

— Relaxa — Theo respondeu, passando por ele com um meio sorriso enigmático. — Bom encontro.

Harry se permitiu um sorriso contido diante daquele cenário. Havia algo profundamente satisfatório em perceber que alguém já notara a proximidade crescente entre ele e Hermione.

Isso soa muito bem.

-XX-

Hermione batia o pé contra o piso de pedra, o gesto repetitivo denunciando a impaciência que ela tentava disfarçar. Seu olhar corria de um lado a outro da loja, como se buscasse uma rota de fuga — embora soubesse que não havia nenhuma. Desde que haviam descido do trem, fizera de tudo para despistar as amigas, mas fora inútil. Elas simplesmente não desgrudaram.

Nem mesmo quando Hermione dissera que precisava passar na Botica de Poções Slug & Raiz, uma lojinha discreta e afastada da região mais movimentada de Hogsmeade, conseguira se livrar delas. Pelo contrário: haviam feito questão de acompanhá-la.

Elas vão estragar tudo.

— Vocês estão perdendo tempo aqui comigo — disse, por fim, a voz já carregada de impaciência. — Talvez eu ainda demore um pouco.

Para sustentar a encenação, passou a manusear frascos de poções já prontas, fingindo indecisão enquanto lia rótulos que conhecia de cor.

— Eu também preferia estar na parte mais central — Parvati suspirou —, mas a Padma não está exatamente a fim de cruzar com o infeliz do Montgomery.

Ela lançou um olhar preocupado para a irmã gêmea, sentada num canto da loja, o semblante abatido e distante. Aproximou-se então de Hermione e murmurou, baixo o suficiente para que só ela ouvisse:

— Ela ainda está mal por causa do que aquele porco fez com ela. Por isso achei melhor a gente te acompanhar e ficar afastadas do movimento.

Hermione assentiu, vencida. Não tinha coragem de ser mais ríspida diante do estado evidente da amiga.

— Ginny! — Parvati exclamou de repente.

Hermione ergueu o olhar e viu a ruiva surgir de uma área mais reservada da loja. Ginny arregalou levemente os olhos, como se tivesse sido pega em flagrante.

— Oh! Oi, meninas...— disse, passando a mão pelos cabelos num gesto rápido, quase defensivo. — O que vocês vieram fazer nessa loja? — perguntou, ainda tentando parecer casual.

— Costumo comprar poções aqui. É menos conhecida, mas o Edgar Hawthorne é um dos melhores mestres de poções fora de Hogwarts.— Hermione respondeu, em seguida cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas. — E o que você estava fazendo na seção reservada?

Mas antes que Ginny pudesse responder, uma voz masculina soou atrás delas:

Hermione?

O simples som de seu nome foi suficiente para fazê-la prender a respiração. Um arrepio lento percorreu-lhe a espinha, como se seu corpo o tivesse reconhecido antes da mente.

Ela se virou devagar.

Harry estava a poucos passos de distância, parado entre as prateleiras, o casaco aberto e o olhar fixo nela com uma intensidade que parecia deslocar o ar ao redor. Ele já trazia um meio sorriso nos lábios — fácil e confiante — daquele tipo que a desarmava por completo.

— Espero que eu não tenha demorado.

— N-não… — Hermione respondeu, a palavra saindo fraca demais para o que pretendia. — Não demorou.

Seu olhar escapou para as amigas, que se entreolhavam com surpresa e uma euforia mal contida, claramente cientes de que haviam acabado de presenciar algo íntimo demais para ser casual. Hermione fechou os olhos por um instante e respirou fundo antes de falar:

— Harry, acho que você já conhece, ou não... mas essas são Ginny Weasley, Parvati Patil e… — interrompeu-se ao perceber Padma se aproximando, visivelmente mais animada — Padma Patil.

Harry assentiu para cada uma em cumprimento, o que só fez os sorrisos delas se alargarem ainda mais.

— Então, podemos ir? — disse então com uma naturalidade evidente, voltando-se novamente para Hermione.

Ela não conseguiu sequer olhar para trás ao segui-lo em direção à porta. O misto de constrangimento e empolgação — por ele tê-la abordado ali, na frente das amigas, sem qualquer hesitação, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo — falava mais alto, assim como as batidas descompassadas do seu coração, enquanto deixavam a loja.

-XX-

O clima anunciava o fim do outono com uma insistência silenciosa. O céu permanecia pesado, coberto por nuvens densas que pareciam engolir o sol, obrigando as lamparinas das ruas a se acenderem mais cedo do que o habitual. A luz dourada refletia nas vitrines e no paralelepípedo úmido, criando uma atmosfera intimista.

Harry e Hermione seguiam lado a lado, a conversa fluindo com uma naturalidade já habitual. Comentaram sobre as lojinhas — algumas curiosas, outras claramente armadilhas para desavisados —, trocaram impressões sobre aulas, professores e o caos habitual de Hogwarts. Em meio a isso, acabaram flagrando um jovem bruxo saindo apressado de uma viela enquanto tentava, em vão, esconder um buquê encantado que insistia em cantar declarações de amor em voz alta. O rapaz tropeçou, o buquê rolou pelo chão cantando ainda mais alto, e a gargalhada que escapou deles foi inevitável.

Enquanto caminhavam, dividiam doces e guloseimas que Harry comprara na Dedos de Mel antes de encontrá-la — sapos de chocolate que ele prometera na noite anterior, caramelo mágico, e um pacote de balas que Hermione jurou serem excessivamente açucaradas, mesmo enquanto pegava mais uma.

O percurso os levou para uma área ainda mais afastada da vila, um trecho tranquilo que se abria para uma vista ampla de colinas suaves e, mais adiante, parte da cidade iluminada pelas lamparinas recém-acesas. O lugar era agradável, silencioso, ideal para quem buscava um pouco de respiro longe do movimento.

Ainda assim, Hermione não deixou de notar a presença de pessoas em específico. Dois ou três alunos circulavam pela região, lançando olhares demorados em direção a eles — curiosos, atentos demais. Reconhecimento, talvez. Muito provavelmente por causa de Harry.

— Pelo jeito, não fomos os únicos com a ideia de procurar mais privacidade — comentou ele, com leve humor, quando notaram um casal próximo, envolvido num beijo intenso demais para um espaço público.

Hermione corou imediatamente e desviou o olhar, fingindo se concentrar na vista à frente enquanto se acomodavam para sentar. Aproveitando o gancho, respirou fundo.

— Harry… desculpa por aquilo na loja. Eu realmente pretendia estar sozinha, mas minhas amigas acabaram vindo comigo.

— Não tem problema — ele respondeu, depois de um breve silêncio, inspirando fundo. — Quer dizer… isso não é exatamente um problema.

Ela o encarou, curiosa.

— Não precisamos nos encontrar escondidos, não é? — continuou, com um meio sorriso que parecia mais um pensamento dito em voz alta.

Ele já não queria mais aquilo. Aquela sensação persistente de que, sempre que estavam juntos, precisavam agir como se fosse algo proibido, mantido nas sombras — quando nunca deveria ter sido assim. Os motivos que até então o levavam a conduzir tudo dessa forma haviam perdido força diante da dimensão que Hermione passara a ocupar em sua vida. E, por isso, ele estava disposto a encarar a exposição que viesse com isso.

Restava saber se Hermione, diante da proximidade cada vez mais inevitável entre eles, sentia o mesmo. Mas o silêncio que se estendeu por alguns instantes, acompanhado do semblante pensativo dela, fez seus ombros se retesarem levemente, numa tensão que ele tentou disfarçar.

— Olha… se você preferir manter isso só entre a gente, tudo bem também…

— Não, Harry, não é isso — ela interrompeu de imediato. — É só que… — mordeu o lábio inferior, escolhendo as palavras — não passou despercebido por mim que eu nunca te vi ter nenhum tipo de troca com alguém da Grifinória… além de mim.

Ela deu de ombros, quase se justificando:

— Claro, eu não estou com você o tempo todo para garantir isso, mas… estou certa, não estou?

Harry desviou o olhar, encarando a paisagem à frente por alguns segundos antes de responder.

— Está, sim. — Então voltou a fitá-la. — Mas não quero que você pense que é por causa de rixa entre casas ou nada do tipo. É um motivo mais… particular.

Hermione franziu levemente o cenho, surpresa, antes de assentir.

— Tudo bem… não quis ser invasiva. Desculpa.

— Não foi — ele disse, mantendo o olhar firme no dela. — É só que… esse motivo… eu nunca contei pra ninguém. Porque envolve minha família. Envolve... meu pai.

O ar entre eles pareceu se tornar mais denso.

— Mas confio em você pra contar.

Hermione se obrigou a observá-lo com atenção absoluta, contendo a surpresa que aquela afirmação provocara. Havia algo no modo como Harry respirava que deixava claro que não se tratava de uma confidência qualquer. Quando ele mencionara a família, especialmente o pai, ela compreendeu que tocava num ponto sensível, carregado de peso demais para ser dito levianamente.

Harry respirou fundo, como se precisasse reunir coragem para atravessar aquela linha invisível.

— Sabe a forma como todos o veem? — disse, a voz baixa. — Como um herói. Uma das figuras-chave na derrota de Voldemort. Tantas pessoas o endeusaram ao longo dos anos… — soltou o ar lentamente. — Eu sempre fui uma delas.

Hermione manteve o olhar fixo nele, atenta a cada palavra.

— Não pela honra de ser um Potter, nem pelo reconhecimento. Mas porque acreditava que ele era um grande homem. Cada passo que dei na infância, cada decisão consciente, era pra me tornar igual a ele. — um sorriso breve e triste surgiu. — Eu me orgulhava de ter a família perfeita. Eu, ele e minha mãe. Pra mim, não faltava mais nada. Éramos felizes. Pelo menos era o que eu pensava.

O maxilar de Harry se enrijeceu, e Hermione sentiu um arrepio ao ver a sombra que surgiu em seu olhar, uma obscuridade silenciosa que parecia sempre ter estado ali.

— Até que comecei a notar como ele andava irritado. — ele murmurou. — Falava rispidamente comigo, com a minha mãe, sem motivo algum. Em público, mantinha as aparências. Mas em casa…

Ele engoliu em seco.

— Uma noite, acordei com gritos vindos da sala. Fiquei assustado, achei que alguém tivesse invadido a casa, porque nunca os tinha visto brigar daquele jeito. Foi então que soube: eles brigavam por causa de uma tal de Brianna.

Harry ergueu o olhar para Hermione, a revolta ainda viva nos olhos.

— Era a amante dele. — os dedos dele se fecharam lentamente — Ele traiu a minha mãe.

Hermione levou a mão à boca, incrédula.

— Depois disso… eu esperei que ela se divorciasse. Mas não. Ela o perdoou. Ele jurou que havia sido um erro, que nunca mais aconteceria, que tudo voltaria a ser como antes.

Um riso sem humor escapou de seus lábios.

— Mas eu não o perdoei. Nunca.

— Harry… — Hermione disse com cuidado, ao notar a pausa dele. — Quando foi isso?

— Três meses antes de eu entrar em Hogwarts.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Foi então que eu decidi que não ia compactuar com aquela mentira de “família perfeita” — continuou. — Comecei a quebrar todas as expectativas dele. Pedi ao Chapéu Seletor para ir pra Sonserina. Recusei ser… o orgulho da Grifinória. Me afastei de tudo o que envolvia aquela casa. — ele abaixou a cabeça. — A casa da qual meu pai tanto se orgulhava de ter feito parte.

— Harry… — Hermione tocou a mão dele com delicadeza. — Eu entendo por que você fez isso. A raiva ainda era recente. Mas agora… anos depois, seus pais continuam juntos. Por que você ainda mantém essa mágoa?

— Porque o homem de quem eu me orgulhava em chamar de pai hoje, pra mim, não passa de um mentiroso. — Ele fechou os olhos por um instante. — Só de imaginar os jornais, os elogios, as matérias falando da “exemplar família Potter”… sabendo que houve mentiras, que minha mãe sofreu… isso feriu algo dentro de mim, algo que nunca cicatrizou. Desde então, existe uma barreira entre nós. Que eu faço questão de manter.

— Acho que isso só prova o quanto você estava destinado a ser da Grifinória — Hermione disse, com um sorriso contido.

Ele a olhou, confuso.

— Você parece ter um senso de justiça muito forte, Harry. — continuou. — Talvez, pra você, a forma como tudo se resolveu nunca tenha sido suficiente.

Ele soltou um meio sorriso amargo.

— Ou talvez eu seja mesmo ideal para a Sonserina. O orgulho falando mais alto.

Hermione balançou a cabeça.

— Tenho certeza de que não é isso.

O olhar dela era brando, compreensivo de um jeito que ele não se permitia ser consigo mesmo. Aquilo lhe apertou o peito, como um bálsamo inesperado.

— Sabe… — Hermione continuou, a voz mais baixa — eu perdi meu pai quando tinha oito anos. Somos só eu e minha mãe desde então.

Harry passou a mão pelos cabelos, o rosto tomado por um pesar sincero.

— Eu... não sabia. Sinto muito, Hermione. Eu falando dos meus problemas com o meu pai e você…

— Não. — ela o interrompeu de imediato. — Eu jamais te julgaria. Só você sabe o que se passa aí dentro.

Ela tocou o peito dele, e Harry sentiu a dificuldade crescente de manter as mãos longe da pele dela a cada gesto terno que ela demonstrava.

— Mas posso te garantir uma coisa — ela continuou. — Nada é pior do que não ter mais o pai por perto. Então, se um dia você se permitir perdoar ele… como sua mãe fez… se dê essa chance. Tenho certeza de que você se sentiria melhor. E sua mãe também, creio que ela deve sofrer com essa fissura na família.

— Sim… — ele suspirou. — O meu único lamento é saber que ela sente pelas coisas serem do jeito que são.

Então voltou o olhar para Hermione, um pequeno sorriso frágil surgindo.

— Talvez um dia.

Foi então que Harry não se conteve. Levantou uma das mãos e a pousou sobre a de Hermione, que ainda repousava em seu peito, como se aquele contato fosse agora indispensável.

— Eu só me arrependo — murmurou — de ter perdido a oportunidade de viver coisas na Grifinória que eu sei que teriam me feito muito bem… — seus olhos permaneceram presos aos dela. — De ter sido mais próximo de você, por exemplo.

O corpo dele começou a se inclinar lentamente em sua direção, atento a cada mínima reação. E o fato de Hermione não recuar — sequer por um centímetro — apenas o instigou ainda mais.

Ela já não sabia onde focar o olhar: se nos olhos intensos dele, na mão dele sobre a sua — agora consciente de que havia deixado os dedos tempo demais sobre o peito de Harry — ou no movimento lento de seus lábios enquanto ele falava.

Uma risada curta, quase nervosa, escapou-lhe.

— Quem garante que você teria se aproximado? — retrucou, tentando soar leve, embora tivesse certeza de que falhava miseravelmente —. Há muitas outras garotas interessantes na Grifinória.

Harry não respondeu de imediato. Com cuidado, afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, colocando-a atrás da orelha. A respiração dos dois já estava próxima o bastante para se misturar, e o olhar que se mantinha preso entre eles criava uma espécie de torpor agradável, deixando-os levemente perdidos naquele instante.

— Qualquer garota — disse, a voz mais grave — teria que se esforçar muito… ou nascer de novo… pra tentar ser tão única e envolvente quanto você.

Qualquer tentativa de leveza — um sorriso, um comentário — se dissolveu ali. Nenhum dos dois parecia disposto ou capaz de evitar o que se anunciava.

Harry deixou os dedos deslizarem suavemente pela mecha de cabelo, seguindo pelo contorno do rosto dela, numa carícia leve.

— Hermione…

— Me beija, Harry — ela o interrompeu, a voz baixa, completamente rendida àquela proximidade.

Ele hesitou por alguns segundos, como se precisasse emergir de um transe silencioso, antes de unir seus lábios aos dela.

O primeiro toque foi tímido, cuidadoso. Os lábios tremiam levemente, quentes, enquanto ambos pareciam compartilhar não apenas o beijo, mas a mesma respiração. O coração de Hermione disparou tão forte que ela teve certeza de que ele poderia ouvi-lo.

Ela respondeu com a mesma delicadeza, pressionando de leve, permitindo que o beijo existisse apenas na superfície por alguns segundos preciosos — como se ambos ainda estivessem se acostumando à ideia de que aquilo era real.

Então Harry inclinou um pouco mais a cabeça, e o beijo ganhou contorno.

Os lábios dela se abriram num convite silencioso, que ele aceitou sem reservas, a ponta da língua roçando de leve a dela — um contato tão sutil que era quase uma carícia. Hermione soltou um suspiro pequeno contra a boca dele, e foi esse som que pareceu acender algo nos dois.

Os dedos de Harry começaram a traçar a linha da mandíbula dela com precisão lenta, enquanto aprofundava o beijo com uma calma deliberada, quase torturante.

Foi quando o apito encantado ecoou à distância, um chamado mágico avisando aos alunos que era hora de retornarem ao Expresso de Hogwarts.

Hermione se afastou, levantando-se abruptamente, o que fez Harry piscar, surpreso.

— É… melhor ir. Quer dizer... temos que ir... — disse apressada, passando a mão pelos cabelos, claramente tentando se recompor.

Harry umedeceu os lábios antes de se levantar e assentir. Caminhou ao lado dela de volta, concentrando-se para manter as passadas firmes, mesmo com o corpo e a mente completamente rendidos àquele momento.

Um momento que ele não se reprimia em admitir o quanto desejara.

Um momento que ele sabia — com absoluta certeza — que não conseguiria mais atravessar os dias sem querer reviver.

Chapter 4: Declarações

Notes:

Aproveitem ❤️

Chapter Text

O amanhecer se instalava aos poucos, acompanhado por uma brisa fria cortante e por alguns raios de sol tímidos, insistentes em atravessar as volumosas nuvens acinzentadas. O Lago Negro permanecia quase imóvel, refletindo o céu incerto, quando Harry concluía sua quarta volta pela margem mais próxima do castelo.

Ele parou e inclinou-se para a frente, apoiando as mãos nos joelhos, enquanto puxava o ar com mais força, tentando impor uma cadência à respiração irregular. O peito subia e descia com intensidade, e pequenas gotas de suor se formavam em sua testa antes de escorrerem por alguns fios rebeldes de cabelo, pingando no solo úmido sob seus pés.

Mas nem mesmo o esforço físico fora suficiente para silenciar seus pensamentos.

A noite de sono havia sido superficial, fragmentada por lembranças que se impunham sempre que fechava os olhos. Harry os cerrou novamente agora, inspirando fundo — e, como se fosse inevitável, sua mente o traiu.

O sabor adocicado dos lábios de Hermione ainda parecia vivo, insistente. A maneira como o corpo dela respondeu ao contato, como se ambos compartilhassem uma força magnética impossível de conter. O suspiro que escapou dela quando, por um breve instante, o beijo se aprofundou — suave, quase imperceptível, mas intenso o bastante para atravessá-lo por completo.

Aquilo havia superado qualquer expectativa que ele nutrira desde o momento em que percebera, pela primeira vez, o quanto a queria.

E, embora Harry torcesse desde o princípio para que houvesse espaço para levar aquele vínculo a um nível que ultrapassasse os limites existentes até então, ele sabia que o impulso que o fizera avançar não nascera apenas da vontade do momento.

A confissão que fizera a Hermione, ao expor algo que o afetava profundamente, dera-lhe uma coragem inesperada para expor sua ânsia por ela com mais fluidez, sobretudo pela forma como ela reagira. Hermione fora compreensiva e terna, ouvindo-o sem diminuir sua dor, sem repreendê-lo ou tentar suavizar aquilo que o machucava — algo muito diferente do que ele estava acostumado quando se tratava daquele assunto.

Ele dissera a verdade quando afirmara nunca ter exposto àquela situação a ninguém. Os únicos até então que conheciam a extensão da situação conflituosa além de seus próprios pais eram os amigos mais próximos da família: Sirius Black, seu padrinho e Remo Lupin, amigo leal e atual professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

No primeiro ano, em uma das tentativa de se integrar efetivamente à Sonserina, Harry expusera apenas o suficiente — de forma extremamente limitada — que ele e seu pai não mantinham uma boa relação. E apenas a Draco.

Obviamente não podia revelar o verdadeiro motivo. Não sem expor sua mãe, não sem provocar uma confusão de proporções incalculáveis. Ainda que a ideia de arrastar a imagem impecável de James Potter pela lama fosse tentadora demais.

Dissera apenas que a convivência estava longe da imagem cuidadosamente construída pela mídia — permeada por atritos constantes e pensamentos que jamais convergiam. Que seguir um caminho oposto, indo para a Sonserina, fora uma escolha deliberada. E, para seu alívio silencioso, aquilo pareceu bastar.

Draco aceitara aquela justificativa com facilidade quase perturbadora. Mais do que isso — parecera admirá-la. Aquela explicação reforçara a lealdade de Harry à casa da serpente e tornara seu envolvimento com ela fluido, livre de questionamentos desnecessários.

Ainda assim, aquela teia de omissões e verdades pela metade, somada à pressão constante de manter uma postura firme, o sobrecarregava mais do que jamais admitiria.

Talvez fosse por isso que encontrar em Hermione algo tão raro quanto confiança plena tivesse sido… libertador.

Com ela, falar foi fácil. Natural. Ele se permitiu ser suficientemente honesto. E isso se refletiu no beijo.

O êxtase que o atravessou ao ouvir Hermione verbalizar, sem hesitação, o pedido que dissolveu a distância entre eles foi arrebatador. No entanto, os minutos seguintes haviam deixado um receio estranho no ar.

Ela evitou seu olhar quase todo o caminho até o ponto onde os alunos se reuniram para retornar ao trem. A apressada despedida carregava algo que Harry identificou com pesar como sendo uma fuga silenciosa.

Foi como se ela quisesse escapar dele. Ou do que haviam compartilhado a pouco.

E nem mesmo os olhares curiosos ao redor — atentos demais ao fato de que ambos estavam trocando algumas palavras — conseguiram desviá-lo de um pensamento incômodo: Será que ela se arrependeu? Ou simplesmente não gostou? Eu fiz algo de errado?

Tudo no momento dizia que não era o caso. A reação de Hermione fora clara demais para ser confundida: o modo como seu corpo respondera ao toque, os pequenos sons que escaparam de seus lábios quando suas línguas se enroscaram naquele frenesi deliciosamente contido, a forma como ela parecera se perder junto com ele — tudo indicava satisfação. Ainda assim, Harry não conseguia ignorar aquele depois.

Endireitou-se, passando a mão pelos cabelos, e voltou o olhar para o sol que agora se fazia presente, ainda tímido, mas firme o bastante para anunciar um novo dia.

Independentemente das circunstâncias, uma certeza se instalava em seu peito: ele não perderia mais tempo.

Não deixaria mais que nenhum mal entendido impedissem de manter vivo aquilo que começava a construir com Hermione — mesmo que ainda não tivesse nome.

Não se permitiria repetir o erro de dois anos atrás. Não deixaria escapar, outra vez, a chance de finalmente ter para si a garota que dominava cada pensamento, cada batida de seu coração.

Ainda naquele dia — mesmo sem saber que resposta receberia — Harry deixaria claro para Hermione que nem seu desejo de frustrar as expectativas de seu pai, nem a rivalidade entre casas, nem qualquer outra barreira seria forte o bastante para fazê-lo negar o que sentia.

E o que queria.

-XX-

O domingo se arrastou com a lentidão típica que sempre sucedia um sábado de visita a Hogsmeade.

Os corredores de Hogwarts pareciam menos cheios, como se o castelo inteiro ainda estivesse despertando. Os alunos se mantinham dispersos, surgindo em horários desencontrados no Salão Principal — alguns pulavam refeições, outros apareciam apenas para beliscar algo antes de desaparecer novamente. Era o reflexo direto dos excessos do dia anterior. Muitos haviam aproveitado o passeio para se entregar às folias que Hogsmeade permitia: risadas altas, copos cheios demais e decisões questionáveis que, no dia seguinte, cobravam seu preço em forma de ressacas impiedosas.

Harry transitou pelo Salão Principal mais de uma vez, fingindo casualidade enquanto procurava, sem sucesso, por cabelos cacheados ou uma silhueta familiar. A biblioteca, silenciosa como sempre aos domingos, também não lhe ofereceu nenhum sinal de Hermione. Nenhuma mecha castanha inclinada sobre um livro, nenhum murmúrio baixo de concentração.

Após mais uma tentativa frustrada, a paciência de Harry se esgotou. Ele tomou uma decisão antes mesmo de refletir sobre o quão estranha ela poderia parecer: iria até a Torre da Grifinória, disposto a se aproximar o máximo que as regras permitiam. Mais do que respostas, ele precisava afastar a inquietação crescente de ainda não tê-la encontrado — e, se possível, assegurar-se de que ela estava bem.

Mantendo o foco nesse objetivo, retornou ao seu dormitório apenas para trocar de roupa. Mal terminara de ajustar a camisa quando ouviu a porta se abrir atrás de si.

— Ora, ora… se não é exatamente quem eu estava procurando.

Harry virou-se a tempo de ver Draco Malfoy entrar, exibindo um sorriso malicioso que contrastava com a palidez evidente de seu rosto.

Draco deu mais alguns passos, mas logo levou a mão à própria têmpora.

— Dor de cabeça dos infernos…

— Pega leve, Draco — comentou Blaise Zabini, entrando no quarto logo atrás dele e fechando a porta com o pé. — A Pomfrey disse que você precisava repousar. E beber bastante água.

— Pensei que você fosse passar o dia inteiro na enfermaria — disse Harry, arqueando uma sobrancelha enquanto avaliava o estado do loiro. — Ontem eu já estava considerando acender uma vela. A sua situação estava… lamentável.

Draco bufou, a expressão se fechando ao mesmo tempo em que uma onda tardia de náusea parecia atravessá-lo ao recordar a noite anterior.

— Ah, claro, porque isso aqui é completamente inédito pra mim… — resmungou. — Aquela infeliz ainda teve a audácia de me dar um sermão ridículo junto com uma poção anti-ressaca fortíssima, como se eu já não estivesse pagando o suficiente.

— Mas chega de mim — Draco continuou, aproximando-se — Quero saber de você. Me conte tudo. Quer dizer que o nosso futuro Primus Sonserinae já conseguiu fisgar sua presa?

O nó que se formou na garganta de Harry foi imediato.

Ao desviar o olhar, encontrou Zabini encostado em uma das camas, observando-os com atenção excessiva. Estava claro: ele também sabia.

Parece que o breve instante em que ele e Hermione haviam ficado próximos diante dos outros alunos em Hogsmead foi suficiente.

— Como… — Harry começou, mantendo a voz firme. — Como ficaram sabendo?

— Hawthorne jurou que te viu falando com ela na estação — Zabini respondeu. — Mas eu e Draco estávamos bêbados demais pra levar a sério.

— Até a Pansy confirmar — Draco completou. — Disse que a Daphne também viu vocês dois bem próximos.

Os olhares que recaíram sobre Harry eram carregados de expectativa quase voraz, como se aguardassem algo que pudesse ser explorado.

— Então — Draco prosseguiu — me diz qual é o próximo passo pra ela se ferrar agora.

Aquele era o momento de Harry encerrar de vez aquela insanidade — e, para ser honesto, já não via a hora de fazê-lo.

— Nenhum.

A resposta veio seca. Definitiva.

— Porque, como eu já te disse — acrescentou, encarando Draco sem hesitar —, eu não pretendo fazer nada contra a Hermione. Nem agora. Nem nunca.

Se havia algo que aquele grupo dominava, era perceber quando um comentário não carregava o tom divertidamente ácido e provocativo típico da Sonserina — revelando, em vez disso, algo sério.

E o tom de Harry não deixava margem para dúvidas.

O semblante de Draco se enrijeceu. Zabini franziu o cenho, confuso, alternando o olhar entre os dois.

— Do que você está falando…? — começou.

— Blaise, cai fora — Draco interrompeu, sem tirar os olhos de Harry.

— Mas por quê…?

— Tá surdo, imbecil? — Draco rosnou. — Cai fora!

O garoto assentiu rapidamente, visivelmente desconfortável, antes de virar-se e sair apressado do dormitório, fechando a porta atrás de si.

— O que te deixou assim? — Draco provocou, encostando-se na lateral da cama. — Bebeu alguma porcaria duvidosa ou tropeçou em algum artefato amaldiçoado por aí?

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Sua sorte é que Zabini é um idiota completo e eu sei exatamente como manobrar aquela cabeça oca.

Harry respirou fundo, claramente demonstrando irritação ao deboche do amigo.

— Estou tendo paciência — continuou Draco, a voz ganhando um tom mais firme — pra você cumprir esse desafio. Você já conseguiu, de algum jeito, se aproximar da Granger… e logo agora vai voltar com esse papo de “moralzinha afetada”?

Harry soltou o ar pelo nariz, num riso seco.

— Eu não dou a mínima pra esse desafio. E mais ainda pra quem vai ouvir o que eu penso sobre isso — disse, num tom frio. — Não nego que evitei te confrontar esses dias por pura falta de paciência para lidar com o sua censura, mas já chega. Quero deixar bem claro que mantenho exatamente o que te disse desde o momento em que você inventou esse absurdo: eu não vou prejudicar a Hermione.

— Mas que merda, Harry! — Draco se exaltou, passando a mão pelos cabelos. — Estamos falando do Primus Sonserinae! Todos esses anos você foi fiel à casa, ao que ela representa… e agora vai jogar tudo fora por...

Ele parou no meio da frase. Os olhos se arregalaram levemente, como se uma peça finalmente tivesse se encaixado.

— Não vai me dizer que você está tendo uma recaída pela Granger, vai? — perguntou, incrédulo. — Pensei que você já tivesse superado isso.

O desgosto foi imediato no rosto de Harry.

— Superado quando, exatamente? — rebateu. — Quando você tentou ficar com ela no terceiro ano, sabendo muito bem o que eu sentia?

Draco soltou uma risada amarga.

— Por Merlin, Potter. Vai me dizer que bastou se aproximar dela pra voltar a ficar apaixonadinho? É um fracote mesmo.

Harry deu um passo à frente, o olhar duro, desafiador.

— Eu não precisei me aproximar dela pra saber disso — respondeu, cerrando os olhos. — Eu nunca deixei de gostar dela. Se houve algo minimamente útil nessa sua ideia estúpida de transformá-la no alvo do desafio, foi isso: me obrigar a encarar um sentimento que eu nunca enterrei de verdade. Me lembrar de que ele ainda existe. E me fazer reagir.

Harry sustentou o olhar de Draco.

— E eu não vou arriscar perder a chance de finalmente ficar com a garota que eu gosto de verdade. Não dessa vez. E muito menos vou fazer qualquer coisa que a prejudique.

— Ah, seu idiota… — Draco passou as mãos pelo rosto, visivelmente perturbado. — Você vai estragar tudo! Vai abrir mão do título, se indispor com a casa, com seus amigos… tudo por causa de uma...

— Cuidado com o que vai dizer — Harry cortou. — Eu não vou permitir que você a ofenda.

Ele respirou fundo, a raiva agora clara.

— Eu tive que ouvir você desdenhando dela desde o dia em que ficou com o orgulho ferido, quando viu Hermione me abordando dois anos atrás na arena achando que o bilhete tinha sido meu.

— Isso é um absurdo — Draco retrucou, ríspido demais para quem dizia não se importar. — Eu nunca me rebaixaria por causa de alguém feito ela. E aquilo foi um surto rápido da minha parte...

— Você nunca superou aquilo, Draco. Essa é a verdade. — Harry insistiu. — E agora inventou esse desafio como uma tentativa de finalmente conseguir sua vingança.

— Cala a boca, seu imbecil!

— Cala a boca você! — Harry vociferou. — Eu sei exatamente o que você está fazendo. Não posso mudar essa sua personalidade doentia, mas posso frustrar esse plano ridículo.

Sem esperar resposta, Harry se apressou, pegando o casaco e indo em direção à porta.

— Você é patético. — o loiro murmurou com desprezo. — Espero que o seu capricho temporário com a sabe-tudo te satisfaça o suficiente pra compensar as consequências que vem por aí.

Harry abriu a porta, então parou. Virou-se lentamente, o olhar firme.

— Eu não estou atrás de algo passageiro — disse, convicto. — Mas, se for apenas isso que ela estiver disposta a me dar, ainda assim vai ter valido a pena. Porque ela vale a pena.

E saiu, batendo a porta com força.

Draco permaneceu imóvel por alguns segundos, o rosto em brasa, a cabeça latejando mais do que antes. Num acesso de fúria, chutou a lateral da cama com força, deixando escapar um rugido contido de ódio.

-XX-

Hermione soltou um suspiro cansado quando Lavander começou a apresentar sinais reais de melhora. A ressaca que pela manhã parecera brutal agora dava lugar a um abatimento tolerável, embora ainda desconfortável. Chegar até ali foi exaustivo. Ela precisou praticamente obrigar a amiga a engolir pequenas doses de poções restauradoras, segurou seus cabelos enquanto a loira se inclinava sobre a bacia, e insistiu — com uma paciência que só Merlin sabia de onde vinha — para que ela ao menos beliscasse algo sólido.

Era uma função árdua. E uma que Hermione detestava admitir que assumia com frequência.

Sempre que alguma das colegas exagerava a ponto de amanhecer em estado lastimável, era quase automático: sobrava para ela cuidar. Talvez porque nunca tivesse se permitido cruzar aquela linha. Consumia cerveja amanteigada, no máximo — e ainda assim com parcimônia. Houve uma única vez em que bebera um pouco mais do que devia, o suficiente para ficar levemente tonta, mas nada que a tirasse do eixo. Perder o controle era algo que ela simplesmente detestava.

Controle.

Como se pudesse se orgulhar disso naquele momento.

Se havia algo de que Hermione tinha plena consciência era que, desde que Harry se aproximara — desde que aquela ligação entre eles começara a se desenhar de forma tão clara e incontestável —, ela já não detinha tanto domínio sobre si mesma quanto gostava de acreditar.

Seu rosto corava só de lembrar.

Ela pediu que ele a beijasse. Ela pediu.

Merlin... devo ter parecido uma desesperada.

Ela nunca imaginou um dia que se encontraria naquela posição de vulnerabilidade. Nem mesmo por ele. Nem mesmo sabendo, no fundo, o quanto ansiara por aquele instante por tanto, tanto tempo. Mas o clima que os envolvera naquele final de tarde… a quietude carregada, a forma como Harry se mostrara frágil ao confessar dilemas tão íntimos, quase se despindo emocionalmente diante dela, acendeu algo impossível de ignorar.

E ainda teve os gestos: a mão envolvendo a sua, a carícia cuidadosa em seu rosto, a proximidade que deixou seus sentidos confusos – como se o mundo tivesse encolhido até caber naquele espaço entre os dois. Fora ali que tudo se perdera — ou talvez, finalmente, se encontrara.

Pareceu um sonho. Uma daquelas idealizações silenciosas que ela guardara por anos, imaginando como seria dividir um instante assim com ele. E havia sido tão bom quanto ela ousou um dia imaginar. O gosto dos lábios de Harry, a forma firme com que ele conduzia, a leve inclinação de seu corpo, como se pedisse por mais… foi uma amostra perfeita do paraíso.

Mas junto com o aviso de que precisavam retornar à estação, sua consciência se impusera com um peso de uma âncora. Um nervosismo infantil se infiltrara, trazendo consigo uma avalanche de pensamentos: o receio que sentira desde o início sobre aquela aproximação ser perigosa para seus sentimentos; a facilidade assustadora com que se desarmava perto dele; a dúvida incômoda de que talvez tudo aquilo tivesse acontecido porque Harry estava sensível, fragilizado por uma confissão.

E, pior de tudo, a lembrança de dois anos atrás: De ter entendido errado. De ter acreditado que ele sentia algo que, no fim, não sentia.

E se fosse assim outra vez?

E se, mais uma vez, ela estivesse convencida de que havia reciprocidade, enquanto para ele não passava de um momento? Hermione não sabia se suportaria uma frustração daquelas de novo. Não depois de finalmente ter provado aquilo que, por tanto tempo, desejara em silêncio.

Talvez por isso tivesse se afastado tão depressa. Talvez por isso se acomodou em passar quase o dia inteiro reclusa, cuidando de Lavander, como se aquela tarefa fosse um refúgio seguro. Quando no fundo, uma pontada persistente de medo lhe dizia que ainda não estava pronta para encarar Harry — nem a conversa inevitável sobre o que acontecera.

Ela queria apenas permanecer ali. Naquela sensação. Naquele turbilhão satisfatório que ainda pulsava dentro de si.

Porque qualquer risco de ver aquilo se desfazer… era, simplesmente, insuportável.

A porta do dormitório se abriu lentamente.

Sentada na própria cama, Hermione virou o rosto a tempo de ver Parvati entrar. A garota fechou a porta com cuidado antes de avançar alguns passos, o olhar deslizando automaticamente até Lavander, esparramada na cama ao lado, dormindo profundamente.

— Ela melhorou? — perguntou em voz baixa, voltando-se para Hermione.

Hermione assentiu.

— Conseguiu dormir depois de comer um pouco. Mas que se prepare... — acrescentou, estreitando levemente os olhos. — Vou dar um sermão épico quando ela acordar. Da próxima vez, vai direto pra Madame Pomfrey, mesmo que eu tenha que arrastar ela pelos corredores.

Parvati conteve uma risada, claramente divertida com o tom severo — quase maternal — da amiga. Aproximou-se e sentou-se ao lado de Hermione na cama, observando-a com um olhar insistente.

Hermione tentou ignorar. Manteve o olhar fixo em algum ponto indefinido do quarto, fingindo concentração… até não aguentar mais.

— O quê? — perguntou, finalmente. — Por que você está me encarando assim?

Parvati arqueou uma sobrancelha, um sorriso lento e malicioso surgindo.

— Vai me contar agora o que foi aquilo com o Harry Potter ontem na botica?

A bebedeira de Lavander havia monopolizado completamente a atenção de todas desde o trem de volta a Hogwarts, o que lhe dera um alívio momentâneo por não precisar se explicar. Mas, claramente, aquela trégua tinha acabado.

Ela endireitou a postura antes de responder:

— Harry e eu estamos estudando juntos ultimamente. — fez uma breve pausa estratégica. — Então acabamos combinando de dar uma volta por Hogsmeade. Só isso.

Só isso? — repetiu, incrédula, antes de soltar uma risadinha. — Certo… e você não contou pras suas amigas antes, porque...?

— Justamente pra não ter que lidar com as caras de espanto que vocês fizeram na frente dele — Hermione respondeu, soltando um suspiro nervoso.

— Ora, fomos pegas de surpresa! — Parvati rebateu, divertida. — Se soubéssemos antes, teríamos disfarçado melhor como boas amigas equilibradas.

Hermione revirou os olhos, mas não conseguiu conter um sorriso.

— Então… — Parvati inclinou-se um pouco mais. — Vocês estão ficando?

Hermione arregalou os olhos.

— Por que você está deduzindo isso?

— Pela cara de vocês dois — respondeu sem hesitar. — Tinha um clima ali, Hermione. E definitivamente não era só de colegas que estudam juntos.

Hermione mordeu o lábio, antes de deixar escapar um suspiro de rendição.

De todas as amigas, Parvati era a única com quem se sentia minimamente confortável para falar daquele tipo de coisa. Mesmo sendo romântica e curiosa, ela sabia dosar suas reações — e não pressionava tanto.

— Eu ainda não sei no que isso está se transformando — confessou Hermione, em voz baixa. — Mas… gosto de ter ele por perto.

A sugestão implícita na frase foi suficiente.

— Bom… nesse caso, espero mesmo que essa aproximação avance — comentou Parvati, com um sorriso cheio de expectativa. — Seu quase namoro com Viktor Krum no ano passado foi um espetáculo à parte. Com Potter, então… pode ser ainda melhor.

— Por Merlin, eu não quase namorei o Krum — rebateu, erguendo as mãos em rendição dramática. — Tivemos apenas… uma breve interação física pontual. E completamente fora de proporção na memória coletiva. Já expliquei isso pelo menos umas dez vezes.

As duas riram, lembrando-se do caos, dos cochichos e da euforia quase absurda daquele período curto — e completamente surreal.

O riso foi se dissipando aos poucos, até que Hermione percebeu o semblante de Parvati mudar. A amiga franziu levemente o cenho, como se tivesse sido puxada de volta para um pensamento menos leve.

— Algum problema? — Hermione perguntou.

Parvati respirou fundo antes de responder:

— É que… o que aconteceu com a Padma me deixou um pouco receosa com a Sonserina. Não é a primeira vez que um garoto de lá brinca com alguém de outra casa. E o que aquele idiota do Montgomery fez…

Hermione assentiu compreensiva.

Aluno do sexto ano da Sonserina, Elliot Montgomery passara semanas se encontrando às escondidas com Padma, prometendo assumir a relação em breve — até descobrirem que ele também se envolvia com Zoë Duncan, da Lufa-Lufa. O resultado fora cruel: comentários pelos corredores, olhares curiosos e piadinhas de mau gosto vindas de alguns sonserinos, como se tudo tivesse sido apenas diversão.

Hermione virou-se por completo para Parvati.

— Eu entendo sua preocupação. Mas… Harry não me parece esse tipo de pessoa. Não confio facilmente em qualquer um, especialmente em rapazes, mas nele… — ela respirou fundo, a voz mais suave. — Tenho a sensação de que não vou me arrepender.

Parvati segurou a mão dela.

— Fico tranquila ouvindo isso. Confio totalmente no seu julgamento. Até porque se justo você se enganar, então estamos todas perdidas.

Antes que Hermione pudesse responder, a porta se abriu novamente. Eliza Fairbourne e Maggie Whitlock entraram rindo, interrompendo o momento.

Shhh! — Hermione sussurrou imediatamente, apontando para Lavander, que se remexeu com o barulho.

— Ops, foi mal — Maggie cochichou, aproximando-se.

— Porque tanta empolgação? — Parvati perguntou curiosa.

Eliza respondeu em tom conspiratório:

— Está um burburinho enorme lá fora. Harry Potter está há quase uma hora parado na entrada da torre, olhando quem entra e quem sai.

— As meninas estão eufóricas — Maggie completou. — Está óbvio que ele está esperando encontrar alguém.

Hermione e Parvati se entreolharam.

Parvati sorriu de canto e piscou, claramente dizendo vai lá.

Hermione já se levantava, passando a mão pelos cabelos numa tentativa inútil de esconder a surpresa — e a ansiedade.

— Eu… eu vou indo — murmurou. — Fica de olho na Lav.

Antes de sair, permitiu-se lançar à amiga um meio sorriso cúmplice. E então deixou o quarto, com o coração acelerado demais para fingir indiferença.

-XX-

Harry andava de um lado para o outro diante da entrada do salão comunal da Grifinória, o olhar retornando automaticamente ao retrato da Mulher Gorda sempre que alguém entrava ou saía. Ele se dizia que parecia casual, que ninguém notaria sua inquietação — mas os olhares curiosos, especialmente de alguns rapazes da casa, lançados em sua direção como desafios silenciosos, tornavam a farsa difícil de sustentar.

Por um breve momento, Harry cogitou ir embora. Mas seu corpo recusava-se a se mover na direção oposta. A necessidade de falar com Hermione ainda naquele dia falava mais alto que qualquer bom senso.

Foi então que a sensação de recompensa o atingiu em cheio. Hermione surgiu pelo retrato, e os olhos dos dois se encontraram no mesmo instante.

Harry sentiu o peito aliviar como se tivesse prendido a respiração por tempo demais. Ela parecia bem — mais do que isso, parecia inteira. O sorriso suave que lhe lançou enquanto se aproximava dissolveu, de uma vez só, toda a tensão que ele carregava desde que chegara ali.

— Harry… — disse ela, já perto o suficiente para que ele notasse o brilho curioso em seus olhos. — O que você veio fazer aqui?

— Foi minha alternativa desesperada pra confirmar se você ainda estava viva — respondeu, com leve humor. — Quando não te encontrei no Grande Salão… e principalmente na biblioteca, entrei em pânico. Foi puro instinto.

Hermione riu, baixinho.

— Eu estava cuidando de uma amiga que exagerou no Três Vassouras ontem.

Houve um silêncio breve. Os olhares permaneciam presos um no outro, como se houvesse uma infinidade de coisas não ditas entre eles.

— Então… será que podemos conversar um pouco?

O coração de Hermione acelerou. O olhar de Harry parecia ter vontade própria — intenso demais, atento demais. Cada palavra dele soava carregada de intenção.

Ela percebeu alguns alunos observando a cena com interesse exagerado e assentiu, tocando de leve o braço e o guiando até um corredor um pouco mais afastado.

— Assim temos mais privacidade. Não é todo dia que o famoso apanhador da Sonserina aparece por aqui.

O tom dela era brincalhão, mas não escondia a tentativa de aliviar a própria tensão.

Não precisavam ser um Mestre das Artes Ocultas para entenderem que aquela conversa não seria trivial. E a expectativa sobre o que viria a seguir começava a ficar ainda mais evidente.

— Fiquei preocupado — ele começou, a voz mais baixa. — Achei que você estivesse tentando me evitar… depois do que aconteceu ontem.

— Não foi bem isso… — Hermione se apressou em responder, mordendo o lábio inferior. — Eu só fiquei um pouco… impressionada, eu acho.

— Espero não ter ultrapassado nenhum limite que você não quisesse — disse ele, com sinceridade.

— Se me lembro bem… fui eu quem pediu que você ultrapassasse esse limite.

A resposta direta de Hermione fez um arrepio percorrer-lhe a pele, imediato e incontrolável. O olhar de Harry caiu sobre a mão dela como se tivesse sido atraído por um ímã. Em seguida, estendeu a própria mão e entrelaçou seus dedos aos dela, o gesto carregado de intenção contida. Permitindo-se explorar um pouco mais, aproximou-se, reduzindo a distância entre eles consideravelmente.

— Então o que foi? — ele insistiu. — Você pareceu… receosa depois. Como se não tivesse certeza se aquilo devia ter acontecido.

Toda aquela proximidade os estava deixando perigosamente desorientados, como se o mundo ao redor tivesse perdido o eixo. Era um tanto óbvio que se sentissem ainda mais atraídos após o que haviam vivenciado — mas aquilo parecia ter avançado em proporções muito maiores do que ambos haviam ousado antecipar.

Hermione fechou os olhos por um instante, buscando coragem. Não queria deixar nada mal-entendido. Muito menos permitir que Harry pensasse que ela se arrependera.

— Eu só tenho medo, Harry — confessou, abrindo-os novamente. — Sei que nunca falamos sobre isso, mas… quando eu te abordei no terceiro ano, achando que você tinha sido o autor daquele bilhete, eu fiquei muito… muito constrangida.

Ela respirou fundo.

— Eu só não quero confundir as coisas de novo.

— Você não entendeu errado, Hermione — ele disse, sentindo a própria respiração acelerar. — Não fui eu quem mandou aquele bilhete… mas eu queria. Queria que tivesse sido eu.

Ela entreabriu os lábios, surpresa.

— Você… queria?

— Acho que era bem óbvio o quanto eu te observava — ele admitiu, com um meio sorriso contido. Hesitou por um instante, como se pesasse cada palavra antes de deixá-la escapar. — Desde o primeiro ano você chama a minha atenção, Hermione.

— Mas foi antes das férias, no final do segundo que eu entendi de vez… — continuou. — Quando me dei conta do quanto eu sentiria falta daquilo. De te observar. De reparar em cada expressão sua nas aulas que dividíamos. Em cada reação, cada detalhe.

Ele sustentou o olhar dela, sem fugir.

— De você. Foi aí que eu tive certeza do que já sentia.

Hermione soltou um suspiro que escapou sem aviso. De tudo o que poderia esperar dele, aquilo estava além de qualquer previsão possível.

— Eu sei que pode parecer estranho — Harry disse, passando a mão livre pelos cabelos num gesto inquieto. — A gente não tinha proximidade, nem éramos amigos… mas tudo em você sempre mexeu muito comigo. Sempre me fez querer mais de você.

— Eu queria ter me aproximado a muito mais tempo — ele continuou, o olhar preso ao dela. — E eu não sei explicar… mas sempre houve algo que me puxou na sua direção. Como se isso aqui — ele lançou um olhar breve para as mãos entrelaçadas — fosse o certo. Fosse necessário.

O ar ao redor pareceu mudar de densidade. Hermione sentiu o estômago se contrair, a pele formigar, como se cada nervo tivesse sido acordado ao mesmo tempo com aquelas palavras.

— Teria sido tão mais fácil se você tivesse me contado isso naquele dia, na arena — murmurou enfim, a voz mais baixa do que pretendia, os dedos deslizando devagar sobre a mão dele. — Porque eu senti o mesmo. Todo esse tempo.

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Mesmo com essa barreira invisível que existia entre nós… sempre que você me olhava, eu sentia vontade de me perder ali. Em você. — Um sorriso pequeno, vulnerável, surgiu em seus lábios. — Você sempre me pareceu diferente. Envolvente. Como se eu já te conhecesse antes mesmo de realmente te conhecer.

O olhar dela se perdeu nas mãos unidas antes de voltar ao rosto dele.

— E esse tempo ao seu lado só confirmou que eu não estava enganada.

Harry sorriu, visivelmente emocionado. Era como se cada passo desde o momento em que pisara em Hogwarts tivesse o conduzido até aquele instante. Ele levou a mão ao rosto dela, tocando sua bochecha com firmeza contida, como se aquele simples gesto fosse a única forma de se ancorar.

— Eu quero você, Hermione — disse, sem hesitar. — E se você me der uma chance… eu prometo tentar te fazer feliz. Tanto quanto você já me faz, só por existir.

O sorriso dela veio fácil, luminoso. Os corpos estavam próximos demais agora; o espaço entre eles parecia irrelevante.

— Eu já sou sua, Harry. Há muito tempo. E nada me deixa mais feliz do que finalmente dizer isso em voz alta.

Harry segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares traçando a linha de seu maxilar enquanto inclinava a cabeça para unir seus lábios aos dela. Diferente do dia anterior, o beijo não começou terno, mas carregado de tudo o que haviam contido por tempo demais.

Hermione reagiu no mesmo instante, puxando-o com ímpeto para mais perto, colando seus corpos como se qualquer fração de distância fosse uma afronta àquele momento tão exclusivamente deles. O coração dela martelava no peito, e a sensação de tê-lo tão próximo fez suas pernas vacilarem levemente. Seus lábios se abriram sem hesitação, num convite urgente para que aquele contato se aprofundasse.

Harry entendeu no mesmo segundo. Sua respiração se misturou à dela, quente e irregular, antes que sua língua encontrasse a dela em um toque exploratório, envolvendo-a em círculos preguiçosos no início, que rapidamente se transformaram em uma pressão mais firme e deliberada.

Alguns assovios e risadinhas distantes, vindos de poucos jovens que passavam próximos do corredor, os fizeram se afastar por um instante. Ambos permaneciam ofegantes, tomados pela constatação silenciosa de que nenhum dos dois se importaria em ficar sem ar se isso significasse continuar imerso naquele momento, tão profundamente envolvidos um no outro.

— Pelo jeito, isso não tem como ficar só entre nós dois, não é? — disse ela, o rosto corado, mas o sorriso extasiado o bastante para trair o quanto ainda estava tomada pelo que haviam compartilhado.

Harry sorriu, uma ponta de orgulho aquecendo o peito ao vê-la assim, tão entregue.

— Essa parte da minha vida… — disse, um meio sorriso sugestivo despontando — eu vou ter muito orgulho de deixar exposta.

E então ele a puxou de volta, selando os lábios dela num beijo ainda mais profundo e possessivo — agora com a certeza segura do que estavam construindo.

-XX-

Já passava da meia-noite quando o salão comunal da Sonserina mergulhou num silêncio quase absoluto. Apenas o estalar ritmado da lareira rompia a quietude, lançando sombras instáveis pelas paredes de pedra verde-escura.

Draco estava sentado em uma poltrona à frente do fogo, o corpo levemente inclinado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. A expressão era de pura indignação. Um amargor persistente subia por sua garganta toda vez que a discussão com Harry retornava à sua mente — e ela retornava com frequência irritante.

A forma incisiva com que o amigo o enfrentara mais cedo era inaceitável.

Não era a primeira vez que brigavam, claro. Discussões faziam parte da dinâmica entre eles. Mas nunca antes algo tão trivial — e ao mesmo tempo tão corrosivo — havia colocado anos de lealdade em xeque. Harry o enfrentara como nunca. Não como um aliado contrariado, mas como alguém disposto a atravessar uma linha sem olhar para trás.

E tudo por causa dela.

Só de recordar a maneira afrontosa com que Harry insistira que Draco nunca superara o episódio do terceiro ano, o maxilar dele se contraiu. A ideia de que ainda o corroía o fato de Hermione não ter sequer se dado ao trabalho de aparecer no encontro marcado — decepcionada demais ao perceber que o bilhete não fora de Harry — era vergonhosa. Ofensiva. Uma constatação que ele se recusava a admitir até mesmo em pensamento.

Ainda assim, ela permanecia ali. Incômoda. Persistente.

Mais do que nunca, Draco estava decidido a acabar de vez com aquela palhaçada.

Daria um desconto à estupidez momentânea do amigo, atribuindo-a ao encantamento barato que uma qualquer conseguira lançar sobre ele. E, de quebra, faria questão de arrancar de si qualquer resquício de sentimentalismo inconveniente que envolvesse Hermione Granger.

Aquela sangue-ruim.

A porta do salão comunal se abriu com um rangido discreto.

Duas figuras robustas atravessaram o limiar, os passos pesados contrastando com o silêncio quase reverente do lugar.

— A que devemos a honra do seu chamado? — perguntou Vicent Crabbe, com um sorriso enviesado, carregado de ironia.

— É, Malfoy — completou Gregory Goyle, cruzando os braços. — Você só fala com a gente agora nos encontros das nossas famílias… depois de ter nos expulsado do seu grupinho seleto.

Draco se levantou com calma estudada, virando-se para encará-los com desdém puro.

— Já chega, seus inúteis. — a voz saiu cortante. — É exatamente por isso que chamei vocês aqui.

Caminhou alguns passos, aproximando-se o suficiente para que ambos sentissem o peso de sua presença.

— Tenho um servicinho pra vocês. E, se executarem exatamente como eu mandar… — um sorriso lento e cruel surgiu em seus lábios — eu garanto que vocês voltam a ter um lugar onde sempre quiseram estar.

Crabbe e Goyle se entreolharam, a provocação rapidamente dando lugar à expectativa. Um sorriso quase ansioso se espalhou pelos rostos dos dois antes que assentissem, praticamente em uníssono.

Draco devolveu o gesto com um sorriso igualmente perverso, antes de iniciar sua explicação.

Chapter 5: Paraíso na Torre

Notes:

Boa leitura 🥰🥰

Chapter Text

A semana que se seguiu em Hogwarts foi tomada por burburinhos conspiratórios e olhares carregados de curiosidade. Sussurros cruzavam corredores, risadinhas se espalhavam entre mesas do Salão Principal, e não havia praticamente um aluno que não já não estivesse sabendo da aproximação consideravelmente íntima entre Hermione Granger e o herdeiro da famosa família Potter. O fato de terem se permitido um beijo em público — sem recuos, sem constrangimentos — repercutiu pelo castelo com uma rapidez absurda.

Ainda assim, nada daquela euforia coletiva foi capaz de impedir que ambos desfrutassem plenamente do que haviam começado a viver.

A confirmação da existência de um sentimento mútuo foi gatilho suficiente para que passassem a habitar um mundinho só deles. Um espaço íntimo, construído em cumplicidade e presença, onde o simples fato de estarem juntos parecia mais importante do que qualquer consequência externa — mesmo quando isso significava permanecer à vista de outras pessoas.

Eles se procuravam todos os dias: no próprio Salão Principal, onde conversavam antes ou depois do café da manhã. Depois nos olhares e sorrisos trocados durante as aulas que já não se escondiam em desvios apressados.

Entre uma aula e outra, escapavam para corredores menos movimentados e cantos mais reservados do castelo, onde trocavam carícias rápidas e comentários provocativos. Falavam sobre o que um havia pensado ao observar o outro concentrado em pergaminhos, sobre como a simples presença do outro tornava difícil manter o foco. Pequenas confissões trocadas em sussurros, como se o mundo inteiro pudesse desaparecer por alguns instantes.

Os horários livres eram ainda mais bem aproveitados. Desbravavam diferentes espaços do castelo e da área externa, escolhendo lugares onde pudessem ficar à vontade, aproveitando o contato um do outro o máximo possível — mãos entrelaçadas, ombros que se tocavam, corpos que buscavam proximidade sem pressa.

Até mesmo os estudos na biblioteca haviam mudado de tom. Agora eram divididos em momentos de leitura silenciosa e instantes em que deixavam os beijos falarem mais alto do que qualquer palavra dita. Sempre atentos para não serem flagrados por Madame Pince, que parecia observá-los com uma vigilância cada vez mais constante, como se já fosse óbvio para ela que os dois se tratavam como um casal.

Um casal.

Aquilo ecoava nos ouvidos de Hermione como questionamento, definição e afirmação ao mesmo tempo, justamente porque se tornara uma pauta inevitável — ainda que restrita apenas a ela e às amigas mais próximas. Não é a toa que já havia se dado ao trabalho de pensar — e repensar — em como reagir quando fosse abordada, ou melhor, metralhada por aquele assunto.

Hermione limitava-se a esclarecer que eles estavam juntos. Nada além disso. Não era o momento de expor detalhes, nem para as amigas, nem para ninguém. Até porque… nem ela mesma ainda conseguia nomear aquilo com clareza.

Decidira também não compartilhar as declarações trocadas com Harry. Embora fossem encantadoras e aquecessem seu coração de forma plena, havia algo nelas que ainda parecia exclusivamente deles. Algo que, mesmo naquele envolvimento tão íntimo, ambos pareciam precisar processar com calma, sem a pressão de dar satisfações ao mundo.

Além disso, naqueles poucos dias, nada mais fora oficialmente definido entre os dois. Estavam tão imersos em simplesmente estarem juntos — em despejar um no outro tudo o que o sentimento permitia — que não sentiam necessidade de impor rótulos ou cláusulas àquele momento.

E por enquanto, para Hermione, isso bastava.

Estava claro que ambos se sentiam confortáveis e seguros assim. Mesmo em meio à profusão de olhares curiosos e comentários velados, ela se sentia confiante e estimulada o suficiente para que nada daquilo se tornasse um empecilho.

No que dizia respeito a Harry, curiosamente — e até de forma inquietante — ele não vinha precisando lidar com o mesmo tipo de abordagem sobre sua relação com Hermione.

Ele esperava que isso acontecesse, sobretudo depois da discussão com Draco. Na verdade, estava preparado até para algo pior: uma possível retaliação vinda dos integrantes da Sonserina. Mas nada aconteceu.

Durante os dias que se seguiram, absolutamente ninguém o confrontou. Não houve provocações, comentários atravessados ou qualquer tentativa de colocá-lo em uma situação desconfortável. Nem mesmo os colegas de quarto pareciam dispostos a tocar no assunto. Era como se todos, de maneira silenciosamente combinada, tivessem decidido agir como se nada estivesse acontecendo.

Ainda assim, Harry percebia os olhares — especialmente quando era visto ao lado de Hermione pelos corredores do castelo. Alguns carregavam curiosidade, outros julgamento contido, mas nunca ultrapassavam essa linha. Nenhuma piada murmurada. Nenhuma insinuação maldosa.

Aquilo definitivamente não era normal.

Eles eram conhecidos por expor com veemência qualquer percepção de desgosto, e quando o assunto envolvia alguém do próprio grupo, a intensidade costumava ser ainda maior. O silêncio, portanto, parecia muito mais perturbador do que qualquer provocação aberta poderia ser.

Mas, mais destoante do que a reação do colegas, era a postura do próprio Draco.

Desde a discussão no dormitório, não haviam trocado uma única palavra. Aquilo, por si só, não era inédito — os dois já haviam passado por desentendimentos suficientes para saber que, às vezes, o orgulho exigia distância. Mas Harry sabia que, desta vez, a situação ia muito além de um simples desentendimento entre amigos.

Ele esperava uma represália. Um comentário ácido lançado em público, uma provocação estrategicamente calculada, qualquer coisa que sinalizasse que Draco ainda estava ali, reagindo àquilo. Em vez disso, encontrou apenas uma indiferença meticulosa.

Draco não voltou a tocar no assunto. Era como se Harry simplesmente tivesse deixado de ser digno de sua atenção.

E, embora aquilo devesse trazer algum tipo de alívio, o efeito era justamente o contrário.

Havia um receio crescente se instalando no fundo de sua mente. Aquela não era a reação que ele esperava da personalidade de Draco — e isso, por si só, era um alerta.

Ainda assim, Harry se recusava a permitir que aquela sensação obscurecesse o momento incrivelmente extasiante que estava vivendo ao lado de Hermione. Havia algo precioso demais florescendo entre eles para ser contaminado por suposições ou tensões externas.

Se aquela postura inesperada de Draco era apenas um raro sinal de maturidade ou o prenúncio silencioso de uma tempestade prestes a se formar, Harry sabia que, no momento certo, teria de encarar a situação.

Mas não agora. Agora, ele escolhia Hermione. O riso dela. A leveza que encontrava em sua presença. A certeza de que, independentemente do que estivesse por vir, aquele sentimento era real demais para ser colocado em segundo plano.

-XX-

Os alunos mal haviam percebido o tempo passar. O exercício daquela aula de Defesa Contra as Artes das Trevas exigira concentração total: o professor Remo Lupin os fizera praticar um encadeamento rápido de feitiços defensivos, começando pelo Protego, evoluindo para variações mais precisas de bloqueio e finalizando com respostas a ataques simultâneos lançados por encantamentos automatizados ao redor da sala.

O resultado foi uma turma ofegante, suada e, ainda assim, visivelmente empolgada.

— Excelente desempenho hoje — elogiou Lupin, a voz calma ecoando pela sala. — Na próxima aula, vamos colocar essas habilidades em prática por meio de duelos supervisionados.

O local começou a se esvaziar gradualmente. Com o burburinho se dissipando e o som dos passos se afastando pelo corredor, o silêncio tornou mais fácil para que os olhares de Harry e Hermione se encontrassem. Um sorriso cúmplice surgiu nos lábios dos dois quase ao mesmo tempo.

Harry ajustou a bolsa no ombro e atravessou a sala até onde Hermione terminava de organizar seus materiais.

— Tenho que admitir… seu Reducto foi impressionante — comentou ele, aproximando-se com um sorriso divertido. — E eu realmente achava que o meu chegava perto da perfeição.

Hermione fechou a bolsa e ergueu o olhar para ele, um brilho satisfeito refletido em seus olhos.

— Muito gentil da sua parte — respondeu, exagerando um tom teatral de falsa modéstia. — Mas não fui eu quem arrancou suspiros das garotas e deixou metade dos garotos com inveja ao executar um Expelliarmus com precisão absoluta.

Quando perceberam, já não havia mais ninguém na sala além deles.

Harry ergueu a mão e entrelaçou os dedos aos dela com naturalidade. Com a outra mão, afastou delicadamente uma mecha de cabelo que insistia em grudar no rosto dela por causa do suor do treino.

Hermione soltou um pequeno riso, sentindo o toque.

— Acho que estou precisando de um banho depois de tanto esforço… devo estar péssima — comentou, mordendo levemente o lábio inferior, em um gesto distraído.

Harry inclinou o rosto um pouco mais para perto, a voz suavizada por uma nota de carinho e provocação.

— Se isso é estar péssima… acho que vou torcer para termos aulas assim todos os dias.

O sorriso dela se alargou, e, quase sem perceber, Hermione diminuiu a distância entre eles, os ombros roçando de leve, a cumplicidade transformando o silêncio em algo confortável.

Foi então que um ruído metálico suave quebrou o momento.

Ambos viraram o rosto ao mesmo tempo, apenas para encontrar o professor Lupin que havia reaparecido após guardar alguns materiais no compartimento lateral da sala. Ele os observava com um brilho curioso — uma surpresa gentil, quase impressionada.

Hermione se afastou alguns centímetros, o rosto ganhando um tom rosado ao perceber a expressão do professor. Harry, por sua vez, manteve a postura serena e lhe ofereceu um meio sorriso educado.

— Desculpem, não quis interromper — disse Lupin, também sorrindo, em tom tranquilo.

— Já estávamos indo — respondeu Harry.

Lupin assentiu, mas então acrescentou:

— Harry, posso falar com você por um instante? Será rápido.

Ele confirmou com a cabeça e voltou-se para Hermione.

— Nossa programação mais tarde continua de pé, não é?

— Claro que sim — respondeu ela, apertando a mão ainda entrelaçada a dele de leve como despedida. — Te encontro no Salão Principal.

Hermione ainda lançou um pequeno aceno respeitoso ao professor Lupin antes de sair da sala.

Enquanto a porta se fechava atrás dela, Harry respirou fundo e voltou sua atenção ao homem.

— É isso mesmo que acabei de ver? — perguntou Remo, aproximando-se com uma animação evidente na voz. — Você e Hermione Granger?

Harry não conseguiu evitar o sorriso que surgiu diante da abordagem tão direta — e inesperadamente empolgada.

— Sim… estamos juntos.

O semblante de Lupin se iluminou ainda mais.

— Isso é maravilhoso, Harry. — Ele deu um leve tapinha em seu ombro, num gesto caloroso de aprovação. — Não conheço muitos detalhes sobre a senhorita Granger, mas ela sempre me pareceu uma jovem gentil, além de uma aluna exemplar. Só posso me alegrar por você estar se relacionando com alguém assim.

Harry sentiu o peito aquecer com aquelas palavras, mas foi a pergunta seguinte que o fez pigarrear discretamente.

— Então… é namoro mesmo?

Ele desviou o olhar por um instante, coçando a nuca antes de responder.

— Bom… tudo ainda é muito recente. Ainda não tivemos tempo de… — fez uma breve pausa, escolhendo melhor as palavras — oficializar as coisas. Mas pretendo resolver isso em breve.

— Os jovens e suas modernidades... — Lupin comentou com leve humor. — De qualquer forma, desejo que tudo dê certo. Seus pais vão ficar muito felizes quando souberem.

A menção foi suficiente para mudar a expressão de Harry instantaneamente. O sorriso se desfez, dando lugar a um semblante mais sério, como se aquelas palavras tivessem trazido um peso inesperado ao momento.

Ele deu alguns passos, aproximando-se da mesa onde agora Lupin organizava alguns pergaminhos.

— Remo… sobre isso… — começou, a voz mais baixa. — Peço que não comente nada com eles, tudo bem?

Lupin ergueu o olhar com atenção, estreitando-o levemente ao perceber a mudança de tom.

— Espero que seja porque você mesmo queira contar a novidade — respondeu, como quem lança uma provocação calculada.

Harry sustentou o olhar dele por alguns segundos, deixando claro que a situação era mais complexa do que parecia.

— Ah, Harry… você está falando sério? — Lupin suspirou. — Tudo isso porque insiste em manter esse conflito velado com James? Esconder algo assim…

— Não é sobre isso, Remo. — Harry se apressou em esclarecer, o tom firme, mas sem agressividade. — Eu não pretendo esconder Hermione de ninguém. É só que… estou muito feliz agora. E não quero transformar algo tão leve em uma situação carregada, tendo que me preparar para contar ao meu pai e lidar com tudo o que isso inevitavelmente traz.

Ele respirou fundo antes de continuar:

— Se minha mãe vier me visitar — o que provavelmente vai acontecer em breve — eu conto. Para ela. Mas não quero que isso vire “um evento da família Potter” ou… qualquer tipo de celebração forçada. E, por favor, não menospreze meus motivos.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado de compreensão.

Remo, como amigo próximo da família, conhecia bem as fissuras naquela relação. Sabia o quanto o clima entre pai e filho tornava qualquer assunto — até os mais simples — um prato cheio de desconforto.

Por fim, ele assentiu, o olhar mais brando.

— Tudo bem… faça como achar melhor. — disse com suavidade. — Só espero que isso não interfira na sua liberdade de ser feliz plenamente.

Harry ergueu um pouco mais o rosto, a convicção evidente em sua postura.

— Pode ter certeza de que nada vai atrapalhar isso. Não se depender de mim.

-XX-

O anoitecer se impôs sobre Hogwarts de forma quase solene. Como combinado, durante o horário do jantar, Harry e Hermione se encontraram na entrada do Grande Salão. Ele já havia se antecipado. Mais cedo, recorrera à cozinha e, com a ajuda de alguns elfos, providenciara uma cesta generosamente recheada para um jantar a dois, longe de olhares curiosos.

Enquanto caminhavam pelos corredores do castelo de mãos dadas, conversavam sobre trivialidades, trocando comentários leves e sorrisos ocasionais. Ainda assim, em meio àquela descontração, Hermione se mantinha curiosamente atenta ao trajeto que seguiam. Como fora Harry quem planejara a noite, ela não fazia ideia de onde estavam indo — e essa incerteza só tornava tudo mais instigante.

Quando finalmente se situou, Hermione o encarou com uma expressão divertida.

— Quer dizer que o lugar super secreto que você queria me levar… é a Torre de Astronomia? — perguntou, arqueando levemente a sobrancelha.

— Você já veio aqui à noite?

Hermione apenas negou com a cabeça.

— Então não deboche da minha ideia antes de ver com os próprios olhos — completou ele, com um leve humor na voz.

Subiram as longas escadas em espiral, até finalmente adentrarem a torre. Assim que cruzaram o limiar, Harry ergueu a varinha e murmurou um feitiço baixo.

A iluminação se acendeu gradualmente, espalhando-se pelo ambiente em uma meia-luz aconchegante. Pequenos focos mágicos surgiram ao redor do espaço, em tons suaves de dourado e azul, refletindo nas paredes de pedra e nos instrumentos astronômicos. Nada era excessivo — a luz parecia pensada para acompanhar a noite, não para disputar com ela.

Hermione deu alguns passos à frente, aproximando-se da grande varanda aberta. Assim que alcançou o parapeito, soltou um suspiro encantado, incapaz de conter a reação.

A iluminação mágica criava reflexos que pareciam se conectar diretamente com o céu. As luzes do ambiente e as estrelas se misturavam, dando a impressão de que a torre fazia parte do firmamento, como se o céu estivesse ao alcance das mãos.

— Isso é incrível, Harry! — exclamou Hermione, encantada, antes de se virar para ele. — Como você sabia desse efeito nesse horário? Nós nem temos aulas noturnas aqui.

— A professora Sinistra já me deu detenções o suficiente para eu conhecer de cor certos segredinhos dessa sala. — ele respondeu com um meio sorriso. — E vi pela previsão do tempo que essa seria a última noite estrelada antes do clima fechar de vez. Então achei que… valia a pena termos um momento nosso aqui.

Hermione sorriu, tocada pelo cuidado implícito naquela explicação.

Pouco depois, organizaram o jantar improvisado. Harry estendeu uma toalha sobre o chão de pedra e, com um gesto rápido da varinha, lançou um feitiço de aquecimento que se espalhou de forma sutil pelo espaço ao redor. Em seguida, juntos dispuseram os itens da cesta — pães, frutas e alguns pratos ainda quentes, protegidos por encantamentos simples.

Quando terminaram, Harry começou a guardar o que havia sobrado de volta na cesta. Hermione o observava em silêncio, o olhar atento — curioso e instigante na mesma medida.

— Então… — ela começou, a voz casual demais para ser inocente — quantas moças iludidas pelo conquistador Potter você já trouxe para cá?

— O q-quê? — Harry respondeu rápido demais, quase engasgando — Nenhuma!

Foi só então que percebeu o brilho divertido no rosto dela. Um canto de boca erguido, os olhos faiscando de pura provocação. Seus ombros relaxaram imediatamente.

— Quer dizer que é isso que você pensa de mim? — ele retrucou, entrando no jogo, o tom carregado de falsa indignação — Que eu costumo trazer pobres moças inocentes para cá com frequência?

Hermione deu de ombros, encenando uma inocência que não enganava ninguém.

— A culpa não é minha se essa é a fama dos apanhadores de quadribol.

— Diga isso pelos outros… — disse, arqueando uma sobrancelha — Viktor Krum, por exemplo. Você e ele ficaram bem próximos, não foi? Ano passado.

O efeito foi imediato. Hermione corou, o rubor subindo sem aviso.

— Ele me convidou para o baile — respondeu, tentando soar indiferente — Você achou que eu ia esperar para sempre que você me convidasse?

Harry soltou uma risada baixa enquanto se aproximava dela outra vez, diminuindo a distância entre os dois.

— Não precisa me torturar me lembrando disso — murmurou — Tive que me segurar muito pra não mandar ele de volta para Durmstrang a pontapés toda vez que via aquele sujeito perto de você. Sabe… me incomodava bastante.

Hermione não conseguiu conter o sorriso — satisfeito demais para ser disfarçado. Aquela confissão atingia exatamente onde ela queria.

— Será mesmo que você ficou tão incomodado assim? — devolveu, inclinando a cabeça — Se me lembro bem, você estava bem ocupado fazendo companhia pra Daphne Greengrass. Foi até com ela ao baile.

Harry revirou os olhos, divertido.

— Daphne era a única amiga que eu podia convidar sem me preocupar que achasse que eu estava pedindo ela em namoro. Pelo menos até todo mundo começar a pressionar para que fosse exatamente isso.

— Então... você nunca teve nada com ela? — Hermione perguntou, observando-o por cima dos cílios, atenta a cada microexpressão.

— Não. Não com ela. — ele disse, com ênfase, e lançou um leve sorriso debochado para Hermione, o que fez com que ela lhe desse um tapinha no braço como protesto.

Era evidente que aquela troca não passava de provocação mútua: um jogo silencioso que se permitiam, quase instintivamente, como uma forma tácita de testar os limites um do outro… e, sobretudo, de medir a profundidade do sentimento que existia entre eles.

Porque, no fundo, cada um tinha plena convicção de que só de imaginar o outro se envolvendo com alguém mais já despertava um incômodo que beirava o mal-estar.

E havia também aquela certeza ainda não dita em voz alta: nada do que tivessem vivido com qualquer outra pessoa chegava sequer aos pés do que significava pertencer um ao outro.

Logo depois, os dois voltaram a se acomodar sobre a toalha estendida no chão. Agora, recostados, admiravam em silêncio a imagem do céu estrelado e o efeito que a iluminação mágica do ambiente criava.

O braço de Harry envolvia os ombros de Hermione, enquanto a cabeça dela repousava em seu ombro. Havia uma serenidade tão plena naquele instante que ambos sentiam como se pudessem permanecer ali para sempre, suspensos naquela sensação confortável. Justamente por isso, Hermione já se culpava por saber que estava prestes a quebrar, ainda que por um momento, aquela quietude perfeita.

— Harry… — chamou, em voz baixa. — Aconteceu alguma coisa entre você e… seus amigos?

Ele ergueu lentamente a cabeça, afastando-a do topo da dela, e a encarou por alguns segundos antes de responder.

— Por que está me perguntando isso?

Hermione hesitou um pouco, escolhendo as palavras.

— É que… nesses últimos dias, quando você não está comigo, parece estar sempre sozinho. Antes, vocês andavam juntos o tempo todo. Então pensei se isso podia ter alguma relação com a gente… ou comigo.

A forma cuidadosa — e sugestiva o suficiente — com que ela falou deixou claro o que realmente a inquietava.

Harry soltou o ombro dela e se virou para ficar de frente, buscando seus olhos.

— Hermione, eu sei que a Sonserina carrega essa fama por ainda ter pessoas preconceituosas — começou. — Mas meus amigos não são assim. Alguns vêm de famílias que ainda sustentam esse tipo de pensamento, é verdade, mas isso nunca foi algo propagado no nosso grupo. E eu jamais compactuaria com isso. Como você sabe, minha mãe é nascida trouxa também, então… não precisa se preocupar.

— Eu não me preocupo com o que pensam de mim, Harry — disse com calma, mas com aquela firmeza tão característica. — Preconceitos desse tipo sempre existirão, infelizmente. E eu sei muito bem que você não se associaria a pessoas que compactuam com isso.

Ela fez uma breve pausa, o olhar atento e sincero.

— Eu só queria ter certeza de que está tudo bem com você.

Harry segurou a mão dela entre as suas e lhe ofereceu um sorriso reconfortante.

— Está sim. Às vezes temos algumas divergências normais entre amigos… só isso. Mas está tudo bem.

Hermione retribuiu o aperto em sua mão, acariciando-a de leve.

— Se você precisar conversar… desabafar… você pode falar comigo.

O coração de Harry se apertou de imediato. Mas o que ele poderia dizer?

É, você está certa. Meus amigos estão estranhos, e isso tem a ver com o fato de eu estar aos beijos com a garota que virou alvo de um desafio ridículo para que eu me tornasse uma figura importante da Sonserina.

Não. Ele não podia jogar esse peso sobre o que estavam construindo. Ainda mais quando tudo aquilo já estava resolvido. O desafio jamais seria cumprido e isso não precisava virar um problema.

E, acima de tudo, Harry não queria alimentar nela razões para desgostar de sua casa — ainda mais porque, gostasse ou não, ele pertencia àquele lugar.

— Eu sei disso — respondeu por fim, sorrindo com sinceridade. — E agradeço.

As carícias que até então eram leves começaram a ganhar um ritmo mais lento e exploratório. Harry a puxou com sutileza para mais perto, encurtando a distância entre os dois até que seus corpos se alinhassem e suas respirações passassem a se misturar, quentes no ar frio da noite.

— Agora, voltando ao que realmente importa… — murmurou. — Gostou da nossa noite?

Hermione fechou os olhos, um sorriso lento se abrindo ao sentir a mão dele subir devagar por sua clavícula, seguindo um caminho atento até repousar delicadamente em sua nuca.

— Muito — respondeu, quase num sussurro — Até que você sabe planejar um momento especial.

Os narizes já se roçavam, o contato mínimo sendo suficiente para arrepiar sua pele.

— Ótimo… — continuou ele, sustentando o olhar dela — espero conseguir ir além das suas expectativas daqui para frente.

Hermione manteve os olhos presos aos dele, sentindo o coração acelerar diante do sorriso tranquilo — e cheio de intenção — que se formava em seus lábios.

— Até lá… — murmurou, aproximando-se ainda mais, a voz baixa e sincera — estou mais do que satisfeita com isso aqui.

E então os lábios se encontraram em um beijo já tão familiar, mas que a cada encontro ficava mais preciso e conhecedor. Hermione logo tomou a iniciativa, aprofundando-o, roçando sua língua lentamente nos lábios dele, pedindo passagem, saboreando o contorno antes mesmo de entrar.

Mas, antes que ela pudesse avançar mais, Harry interrompeu com sutileza, desviando o caminho do beijo para depositar carícias lentas e consideravelmente mais ternas em sua bochecha.

Hermione mordeu o lábio inferior, tentando não parecer tão ansiosa quanto realmente estava. Ela tentou unir os lábios aos dele outra vez, com a mesma ferocidade que começava a nascer momentos antes, mas percebeu que Harry — à sua maneira — parecia empenhado em tornar tudo mais manso.

Ela soltou um suspiro resignado antes de se afastar apenas o suficiente para encará-lo.

— Harry…

Ele abriu os olhos de imediato, atento demais, como se já esperasse alguma abordagem.

— Está tudo bem? — perguntou, levemente preocupado. — Fiz algo de errado?

Era exatamente o que ela imaginava.

No dia anterior, debaixo da árvore às margens do lago Negro, as coisas tinham esquentado de verdade pela primeira vez. Harry havia intensificado o beijo de um jeito novo, ainda não explorado entre eles; as mãos dele ainda a percorriam com cuidado, mas agora com uma firmeza consideravelmente mais possessiva. Hermione teria de bom grado se entregado à sensação — não fosse o detalhe de estarem em um local público e de alguns alunos do primeiro ano terem passado por ali poucos minutos antes.

Ciente disso, ela interrompera o momento com uma expressão de repreensão mais severa do que pretendia, e ficara claro, mesmo que de forma quase cômica, que Harry havia ficado visivelmente sem jeito. Não fora nada sério — longe disso —, mas era óbvio que, desde então, ele tentava ser mais cuidadoso.

— Claro que não — ela respondeu, suave. — Só não precisa ficar tão contido, sabe… Até porque aqui estamos mais à vontade.

Ele franziu levemente o cenho, como se precisasse ter certeza de que ela realmente falava sério.

Merlin, ele era absurdamente encantador.

Hermione não se deu ao trabalho de responder em palavras. Apenas entrelaçou os braços ao redor do pescoço dele e voltou a beijá-lo, deixando claro — no ritmo e na intensidade — exatamente o que queria.

Não houve mais espaço para hesitação. A mão de Harry subiu pelas costas dela, puxando-a até que não restasse ar entre eles. A outra mão contornou a cintura, o polegar traçando círculos lentos logo acima do cós da calça.

Hermione se arqueou contra ele sem nem perceber, buscando mais contato, mais pressão. Harry respondeu apertando-a ainda mais forte, o peito colado ao dela de forma que ela sentia cada batida descompassada do coração dele ecoando no seu.

Eles não sabiam ao certo se era a ferocidade do beijo ou a proximidade que se tornara ainda mais inevitável, mas, em questão de segundos, Hermione já estava sentada de lado no colo dele, aprofundando aquela sensação avassaladora de pertencimento.

Harry sentia como se tivesse o mundo inteiro nas mãos — mas, ao mesmo tempo, se advertia mentalmente: Não vá estragar tudo! Mãos nos lugares apropriados! Não desça mais nenhum centímetro!

Hermione deixou escapar um suspiro trêmulo contra os lábios dele, resposta instintiva àquele compasso que seus corpos haviam encontrado sem esforço. Foi quando, num movimento quase inconsciente, ela ajustou a posição e roçou de leve os quadris contra os dele. Harry soltou um som rouco, gutural, antes mesmo de conseguir conter a reação.

Hermione se afastou apenas o suficiente para encará-lo, os olhos arregalados de imediato.

— Ai, meu Deus… desculpa. Eu te machuquei? — perguntou, assustada, apoiando a mão no peito dele.

— O quê? — ele respondeu, ainda atordoado, levando um segundo para compreender. — Não… de jeito nenhum. Eu... eu estou gostando muito.

Antes que ela pudesse responder — ou pensar em se envergonhar —, Harry a puxou de volta, colando os lábios nos dela com urgência renovada. A mão dele subiu até a nuca dela, os dedos se enroscando nos cabelos cacheados, voltando a conduzir o momento com um domínio acentuado.

Por longos minutos eles ficaram assim, perdidos em beijos que se tornavam cada vez mais envolventes, enquanto trocavam carícias que testavam limites sem nunca cruzá-los de vez. Era uma tortura deliciosa — estar exatamente na beira, saboreando cada segundo sem apressar o inevitável.

Quando enfim se afastaram, ainda ofegantes, Harry não resistiu a lançar um sorriso malicioso antes de comentar:

— Acho que estamos bem perto do horário de recolher, não acha?

Hermione, ainda envolta pelo frenesi do momento, piscou algumas vezes antes de conseguir se recompor.

— É verdade… — respondeu, deixando escapar um sorriso um pouco nervoso. — E amanhã você tem compromisso durante o dia, não é?

Ela se levantou, aceitando a mão que ele estendeu para ajudá-la, e logo estavam ambos de pé. Harry a puxou novamente pela cintura, reduzindo a distância entre eles até que seus corpos voltassem a se alinhar.

— Mas vou passar o dia inteiro contando os segundos para voltar para você — murmurou, em voz baixa.

— E eu — ela respondeu, o coração ainda acelerado — vou contar cada um deles para ter você de volta.

-XX-

O sábado transcorrera dentro de seu curso aparentemente normal em Hogwarts, mas, para Hermione, o dia parecera se arrastar de forma quase dolorosa. Era a primeira vez, desde aquela semana intensa, que passava tantas horas sem dividir sequer um instante com Harry. E a proximidade vivida na noite anterior apenas escancarou o quanto ela ansiava por mais — por ele.

Já fazia algum tempo que permanecia sentada em uma das poltronas do salão comunal, um sorriso teimoso insistindo em surgir em seus lábios sempre que sua mente retornava aos acontecimentos da véspera. Parte dela ainda se perguntava o quanto devia ter parecido ousada diante dele. O que a deixava estranhamente tranquila era lembrar que Harry, como qualquer garoto de sua idade — talvez até mais suscetível — parecera ainda mais hipnotizado por aquela intimidade crescente, pelos toques que já não eram tão sutis assim.

Hermione escorou a cabeça no encosto da poltrona e deixou o olhar vagar para o alto, ignorando por completo o livro aberto sobre suas coxas. De fato, era isso que significava estar completamente apaixonada por alguém: sentir uma dependência silenciosa de tudo o que envolvia aquela pessoa — do que já havia sido compartilhado, e de tudo o que ainda estava por vir.

— Er… você é a Hermione, não é?

A voz fina a trouxe de volta ao presente. À sua frente, estava uma garota que parecia ser do segundo ano, observando-a com evidente timidez.

— Sou, sim — respondeu, fechando o livro com cuidado.

A menina estendeu a mão, oferecendo-lhe um pequeno pergaminho.

— Um garoto da Sonserina pediu que eu entregasse isso a você.

Hermione pegou o bilhete, mas algo a fez reagir antes que a garota se afastasse.

— Ei, espera — chamou.

A menina se virou, parecendo ligeiramente assustada.

— Quem te deu isso? — Hermione perguntou, o coração acelerando sem motivo aparente. — Foi o Harry Potter? Você sabe… quem ele é, não sabe?

A garota franziu o cenho, confusa.

— Sei sim, mas não era ele. Só disseram que era urgente — respondeu, antes de se sair apressada, quase correndo.

Hermione não se permitiu pensar muito antes de abrir o pergaminho. Mas bastou ler as poucas linhas para sentir um frio incomodo percorrer-lhe a espinha.

"Hermione, eu preciso de você. Aconteceu uma coisa horrível. Estou te esperando na orla da Floresta Proibida.

Por favor, se apresse.

Harry."

As mãos dela começaram a tremer, e foi preciso segurá-las com firmeza para não deixar o pergaminho cair. Aquilo não fazia sentido. Floresta Proibida? Logo naquela noite?

Ela olhou ao redor, como se procurasse alguma rota de fuga racional — uma explicação lógica que afastasse aquela sensação opressiva. Mas seu coração só batia em um único compasso: algo tinha acontecido com Harry. Com seu Harry.

Sem dar espaço para que sua habitual racionalidade falasse mais alto, Hermione se levantou de um salto. Em poucos instantes, atravessava o salão comunal e passava pelo retrato da Mulher Gorda sem sequer registrar as palavras trocadas.

Qualquer obstáculo se tornava irrelevante.

Tudo o que importava era chegar até ele.

E depressa.

Chapter 6: Pesadelo na Floresta

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A noite já havia se instalado completamente e o castelo pulsava em movimento. O horário do jantar se aproximava, e isso criava um curioso contraste: passos apressados, risadas ecoando à distância, vozes animadas típicas de um sábado — tudo isso convivendo com a sensação de que algo mais pesado pairava no ar.

Hermione sentiu um certo alívio ao perceber que conseguia atravessar os corredores sem ser excessivamente notada. Em noites comuns de fim de semana, aquele nível de animação significaria mais chances de ser questionada por conhecidos sobre para onde ia. Se fosse mais tarde, então, transitar por ali se tornaria quase impossível sem atiçar olhares vigilantes.

Não que isso fosse, por si só, o maior dos problemas. O que realmente a inquietava era o dia.

Desde o primeiro ano, os alunos aprendiam — de forma quase ritualística — que a noite do primeiro sábado de cada mês exigia cautela redobrada. A orientação era clara: nada de rondar áreas externas, nada de passagens secretas, nada de aventuras noturnas. A diretoria jamais fingiu ignorar o fato de que os estudantes, especialmente nos fins de semana, sempre davam um jeito de burlar regras e esticar os limites. Ainda assim, naquele sábado específico, o aviso vinha carregado de uma preocupação singular.

O motivo nunca fora oficialmente confirmado.

Falava-se, em tom baixo e especulativo, sobre criaturas antigas da Floresta Proibida — uma entidade que, pelo menos nas pesquisas que Hermione havia feito assim que tomou conhecimento daquilo, não constava em livro algum da biblioteca de Hogwarts. Diziam que elas habitavam as regiões mais profundas, tão inacessíveis que nem mesmo os alunos mais imprudentes ousavam explorar. Segundo rumores, essas criaturas exalava uma forma peculiar de magia residual que se manifestava apenas naquela noite específica do mês.

Em teoria, aquilo não deveria representar perigo algum. A distância, somada ao isolamento delas tornava tudo… controlável. Pelo menos era essa a suposição.

Ainda assim, a ausência total de qualquer registro concreto tornava o risco impossível de medir. Não se sabia se tais criaturas vagavam além de seus territórios habituais — nem se aquela magia, cujas consequências sobre os seres humanos permaneciam um mistério, poderia se estender para além do esperado. Toda essa nebulosidade só deixava Hermione ainda mais intrigada.

Harry sabia disso. Assim como todos os outros.

Então o que ele estava fazendo ali?

A pergunta martelava sua mente a cada passo. Aquilo só reforçava a certeza incômoda de que algo sério havia acontecido com ele. Hermione não conseguia afastar a possibilidade de que tivesse relação com os colegas sonserinos de Harry. Não ficara totalmente convencida quando ele dissera que estava tudo bem, que não havia motivo para preocupação. E agora diante daquele cenário desconhecido — suas suspeitas apenas se intensificaram.

Ela tinha seus motivos para deduzir aquilo. Não eram raras as ocasiões em que soubera — ou presenciara diretamente — integrantes da casa da serpente se envolvendo em situações problemáticas com outros alunos. O que eles chamavam de brincadeiras era, na verdade, uma linha perigosamente tênue para algo muito pior, capaz de ameaçar a integridade física de quem estava envolvido.

Não era à toa que, sempre que testemunhava algo do tipo, fazia questão de denunciar. E isso nunca passava impune: vinha acompanhado de olhares atravessados, murmúrios maldosos e uma animosidade nítida. Tudo isso se somava ao preconceito que alguns nem faziam questão de disfarçar quando se tratava dela.

Diante desse cenário, considerar a possibilidade de que tivessem decidido retaliar Harry por ele estar se envolvendo com ela tornava-se uma conclusão difícil de ignorar.

Ela também notara a sutil instabilidade da letra no pergaminho. À primeira vista, muito parecida com a dele — mas não estava firme. Faltava-lhe a constância que Hermione conhecia tão bem depois de tantas noites dividindo livros e anotações. Pequenas irregularidades denunciavam tensão… ou pressa. Talvez ambas.

E se for uma armadilha? E se armaram algo contra ele, forçando-o a me atrair até aquele local?

Hermione parou por um instante, escorando-se contra a parede fria próxima ao corredor que levava à passagem secreta usada para sair do castelo, em direção às proximidades da floresta. Permaneceu ali por alguns segundos, observando, ouvindo, certificando-se de que ninguém a veria.

Ela respirou fundo, permitindo que sua mente se aquietasse. E então, com o coração acelerado e os sentidos em alerta, seguiu adiante.

Em pouco tempo, Hermione alcançou o corredor que levava à antiga ala de manutenção do castelo. Era ali que se escondia a entrada do alçapão — camuflada por uma irregularidade na parede — que conduzia a um túnel estreito, conhecido por poucos alunos mais atentos às peculiaridades da arquitetura de Hogwarts. O caminho seguia por baixo do terreno, contornava parte das estufas e emergia discretamente nas proximidades da Floresta Proibida.

Ao dobrar a esquina do corredor de acesso, Hermione deu um salto involuntário para trás.

Por pouco não trombou com um casal que se beijava de maneira nada discreta. Sentados e encostados contra a parede, em um canto claramente escolhido pela privacidade, estavam tão absortos um no outro que justificavam perfeitamente o isolamento do local. Hermione quase recuou por reflexo, pronta para dar meia-volta antes que a situação se tornasse ainda mais constrangedora.

Mas foi tarde demais.

Assim que o casal a avistou, surpreso, ela estacou no lugar.

— Ginny?! — escapou, incrédula.

A ruiva saiu rapidamente do colo do rapaz, ainda ofegante, os lábios avermelhados denunciando a intensidade do momento interrompido, enquanto puxava a barra das vestes e ajustava o tecido desalinhado, tentando recuperar alguma compostura.

— Ah… oi, amiga. Você por aqui? — perguntou, alternando o olhar entre Hermione e o rapaz ao seu lado.

Hermione levou alguns segundos para identificar Michael Corner, colega de turma do quinto ano.

— Eu é que pergunto — disse Hermione, ajustando o tom para algo entre a reprovação e o embaraço. — Embora… eu ache que a cena fale por si só.

Ela lançou a Michael um olhar breve e claramente desaprovador, que apenas sustentou um meio sorriso excessivamente satisfeito.

Ginny não perdeu tempo. Segurou Hermione pelo braço e a puxou para o outro lado do corredor, afastando-se alguns passos.

— Por Merlin, Ginny — sussurrou Hermione, indignada. — Isso é um corredor! Se eu tivesse chegado um minuto depois… sinceramente, você já pensou onde estava?

— Sem sermão, Hermione — Ginny respondeu, pousando as mãos na cintura. — Já vi gente fazendo coisa bem pior em lugares bem mais movimentados. E eu não sou mais uma menininha, sei exatamente o que estou fazendo.

Hermione a encarou, incrédula… até que uma compreensão súbita se acendeu.

— Espere — estreitou os olhos. — Isso tem alguma relação com o tempo que você passou rondando a sessão reservada da botica em Hogsmeade?

— Poções contraceptivas — respondeu sem rodeios. — Sim. Só quis ser prevenida e… — lançou um olhar rápido na direção de Michael, acompanhado de um sorrisinho nada inocente — sei que não vai demorar muito pra acontecer.

Então, como se despertasse de repente, a ruiva balançou a cabeça.

— Mas isso não vem ao caso. O que você está fazendo aqui? — cruzou os braços. — Impressão minha ou você estava tentando pegar a saída secreta pra área externa?

Hermione passou as mãos pelos cabelos, respirando fundo. Definitivamente, aquele não era o momento de repreender Ginny.

— Fala mais baixo — pediu, lançando um olhar rápido para o outro extremo do corredor, temendo que Michael pudesse ouvir. — É isso mesmo. Eu preciso ir até a floresta. Mas você não pode comentar isso com ninguém.

— Você enlouqueceu? — Ginny arregalou os olhos. — Você sabe que dia é hoje? Que noite é hoje?

— Claro que sei — Hermione fez uma careta nervosa. — Mas aconteceu algo com o Harry. Tenho certeza. Ele mandou um bilhete pedindo que eu o encontrasse lá.

— Mas isso não faz sentido — a ruiva insistiu. — Por que ele iria querer encontrar você lá? Não que alguns casais não deem uma escapada pra fora, mas hoje…

— Deve ter sido algo grave, Ginny — interrompeu Hermione, com firmeza contida. — Ele não me chamaria até lá à toa. Não me atrairia até lá sem motivo.

Ela lançou um último olhar pelo corredor, sentindo o tempo escapar entre os dedos.

— Não conte pra ninguém — reforçou. — Preciso me apressar.

Hermione já dava o primeiro passo quando Ginny segurou seu braço.

— Tome cuidado. É sério.

Hermione assentiu e, antes de se afastar, lançou um olhar sugestivo para a amiga.

— Você também — completou, revirando levemente os olhos numa tentativa falha de aliviar a tensão.

Não demorou para que Hermione alcançasse o lado de fora do castelo.

Assim que emergiu do túnel estreito, um frio quase cortante a atingiu em cheio — que parecia se infiltrar sob as roupas e arrepiar a pele. O céu estava completamente tomado por nuvens densas e carregadas, tão baixas que davam a impressão de pressionar o ambiente.

À medida que se aproximava da borda da floresta, o silêncio tornava-se opressor. O burburinho distante do castelo desapareceu por completo, dando lugar apenas ao som irregular das folhas sendo agitadas pelo vento entre as árvores altas. Era um ruído constante, inquietante, capaz de provocar arrepios involuntários.

Lumus — murmurou, em um tom baixo e controlado.

A luz surgiu contida, fraca o bastante para iluminar o caminho imediato sob seus pés e, ao mesmo tempo, permitir que fosse vista por alguém que estivesse próximo. Ela manteve-se junto à borda da floresta, avançando com passos calculados, os sentidos atentos a qualquer movimento entre os troncos escuros.

Nada.

A ausência de qualquer sinal de Harry fez seu estômago se contrair. Se ele não estava ali, só podia significar que se encontrava mais adentro da floresta — e essa constatação a fez estremecer. Não por medo irracional, mas por preocupação concreta.

Foi então que percebeu um movimento à frente.

Entre as árvores, uma luz surgiu brevemente — um aceno discreto, semelhante ao reflexo de um Lumus respondendo ao seu. Não parecia distante demais, mas a escuridão impedia que Hermione distinguisse qualquer silhueta.

Ela deu alguns passos cautelosos naquela direção.

Foi quando sentiu algo mudar. O som de pisadas rápidas rompeu o silêncio, vindo de trás de uma árvore próxima, à sua esquerda. Hermione reagiu de imediato, girando o corpo antes mesmo de concluir o pensamento.

Petrificus Totalus!

O feitiço atingiu o alvo com precisão.

A figura que avançava em sua direção enrijeceu instantaneamente e tombou no chão com um baque seco. Hermione avançou um passo, erguendo a varinha para iluminar o rosto do suspeito.

— Você… — começou, o reconhecimento vindo imediato. — Você não é o Goyle da...

Mas antes dela tentar prosseguir, uma pressão brutal a atingiu pelas costas, como se o próprio ar tivesse se fechado ao seu redor. O impacto a lançou para a frente, arrancando-lhe o fôlego. Hermione perdeu o equilíbrio e caiu com força, sentindo uma dor aguda quando a cabeça se chocou contra o solo duro.

A varinha escapou de seus dedos.

O mundo pareceu girar. Sons se misturaram de forma confusa — o vento, o farfalhar das folhas, passos que já não conseguia distinguir com clareza. Sua visão começou a se turvar, as bordas escurecendo lentamente enquanto a consciência lhe escapava.

-XX-

Harry estava recostado na parede próxima à entrada do salão comunal da Grifinória, exatamente no ponto onde costumava esperá-la. Os braços cruzados, uma perna apoiada na pedra fria… e um meio sorriso insistente nos lábios — bobo, ele sabia, mas nem por isso constrangedor.

Mesmo depois de um dia agitado, sua mente não conseguia se afastar da noite anterior.

Era impossível não pensar nela.

Havia ficado receoso, é verdade, ao lembrar de como Hermione parecera surpresa — talvez até desconfortável — com sua investida impulsiva à beira do lago. Ele reconhecia a própria imprudência: fora uma idiotice fazer aquilo em um ambiente tão público. Ainda assim, a lembrança do que viera depois, da forma como ela se mostrara receptiva e claramente tão animada quanto ele na torre, dissipava qualquer dúvida.

O que tinham não era pequeno. Nem passageiro. Era intenso, irresistível… especial demais para caber em algo sem nome.

Harry tinha certeza de que queria muito mais com ela. Queria compromisso. Queria deixar claro — para ela e para todos — que ele era dela, e ela dele. Se antes cogitara que talvez fosse cedo demais para oficializar o que tinham, considerando os poucos dias desde que tudo começara, depois da noite anterior essa hesitação simplesmente não existia mais. Eles haviam chegado num nível perigosamente perto de se entregarem por completo um ao outro. E Harry não queria mais adiar o inevitável.

É óbvio que ele jamais avançaria aquela relação sem oferecer a Hermione todas as garantias possíveis. Tudo o que dissera — sobre o quanto a queria, sobre como seu coração já estava tomado por ela — era a mais absoluta verdade.

Levou a mão ao bolso do casaco e retirou a pequena caixa aveludada. Abriu-a com cuidado, deixando o olhar repousar sobre o colar prateado acomodado ali dentro. O pingente delicado, em forma de coração, cravejado de pequenas pedras brilhantes, refletia suavemente a luz das tochas.

Encontrar aquela joalheria entre os comércios próximos ao Estádio Blackthorn fora um golpe de sorte.

A visita ao local fizera parte de uma programação especial: todos os times de quadribol de Hogwarts haviam passado o dia inteiro do sábado ali, participando de treinos orientados por jogadores profissionais, assistindo a demonstrações aéreas e ouvindo palestras sobre estratégia, preparo físico e a carreira no esporte. Harry se divertira mais do que esperava — mas, ainda assim, tudo parecia secundário quando comparado à leveza que carregava desde a noite com Hermione.

Nem mesmo o fato de não estar totalmente entrosado com seus amigos naquele dia teria sido capaz de afetar seu bom humor.

Ou ao menos… era o que ele imaginava.

Porque, para sua surpresa, Draco estava particularmente agradável. Conversara normalmente, fizera comentários com sua ironia afiada e ao mesmo tempo cômica sobre a visita ao estádio, fez brincadeiras durante os treinos — como se a semana anterior simplesmente não existisse. Provavelmente como consequência daquele estado quase espirituoso do loiro, os demais colegas do time também pareciam à vontade ao seu redor.

Harry chegou a cogitar confrontá-lo, tentar entender o que aquele comportamento ambíguo realmente significava. Mas, sendo honesto consigo mesmo, não se importava o suficiente. Tudo o que queria era conduzir os dias com leveza, sem tensões ou jogos velados — simplesmente existir no presente e desfrutar, sem interferências, dos instantes que dividia com Hermione. Se Draco e os demais não estavam tentando retalhá-lo, provocá-lo ou diminuir o que sentia, não seria ele a criar um problema.

Então, ele se limitou a aproveitar o dia.

Foi tranquilo. Foi leve. E, como um somatório de tudo, Harry sentia-se pleno e ainda mais convicto da sua decisão de não perder mais tempo.

Pediria Hermione em namoro. Entregaria aquela joia como um símbolo sincero de um momento que prometia ser o mais especial de sua vida. Seu coração palpitava descontroladamente só de imaginar que a única coisa capaz de torná-lo ainda mais completo seria ouvir o sim sair daqueles lábios nos quais ele tanto adorava se perder.

Harry ainda mantinha os olhos fixos no colar, o polegar deslizando distraidamente pelo pequeno pingente, quando uma voz soou às suas costas:

Harry?

Ele ergueu o rosto no mesmo instante. Diante dele, um rosto emoldurado por longos cabelos ruivos o observava com evidente confusão.

— Ah… oi! Você é a Weasley, não é?

— Ginny — ela confirmou.

Harry assentiu com um meio sorriso distraído. Ginny, no entanto, parecia inquieta. Seus olhos percorreram o corredor, indo de um lado ao outro, como se procurassem alguém.

— Cadê a Hermione?

— Estou esperando por ela — respondeu, apontando com um breve movimento de cabeça para a entrada do salão comunal. — Combinamos de nos encontrar aqui. A propósito… — acrescentou, lançando um olhar rápido para dentro — se você a vir, pode avisar que estou aqui?

A ruiva deu um passo à frente. A testa franzida denunciava que algo estava muito errado.

— Mas… ela já foi se encontrar com você.

— Como assim?

— Na Floresta Proibida — completou, abaixando a voz, atenta a quem pudesse passar por perto.

— Na floresta? — repetiu, negando com a cabeça antes mesmo de terminar a frase. — Não. Isso não faz sentido. Eu não marquei nada com ela lá. Aliás, nunca faria isso… muito menos hoje.

Um arrepio frio percorreu-lhe a espinha só de imaginar Hermione sozinha, à noite, naquele lugar. Ginny respirou fundo, como se o mesmo temor tivesse acabado de alcançá-la.

— Harry, eu não sei o que aconteceu… — disse, visivelmente aflita. — Mas ela me contou que recebeu um bilhete seu. Dizia que era urgente. Ela parecia preocupada… e foi.

O peito de Harry se apertou de forma dolorosa. O corredor pareceu estreitar-se ao redor dele, o ar ficando denso demais para ser respirado com facilidade. Um pressentimento terrível se enroscou em sua mente, turvando seus pensamentos.

— Que horas foi isso? — perguntou, esforçando-se para manter a voz firme.

— Deve ter uns quarenta minutos.

Ele não esperou mais nada. Harry simplesmente virou-se e saiu em disparada, os passos ecoando apressados pelos corredores de Hogwarts.

Sua mente era um turbilhão caótico — hipóteses, culpas, medo — mas tudo se reduzia a uma única certeza sufocante: Hermione podia estar correndo perigo.

E ele não perderia mais um segundo sequer.

-XX-

Hermione despertou aos poucos, como se estivesse sendo puxada de volta à consciência por fios invisíveis e dolorosos.

A visão era um emaranhado confuso de sombras e luzes tremeluzentes, incapaz de se fixar em qualquer forma concreta. A cabeça latejava com insistência, uma dor profunda e pulsante que denunciava um impacto forte contra algo sólido e pontudo. Um pedra, talvez. O simples ato de respirar parecia reverberar dentro de seu crânio.

A lembrança veio aos solavancos: o passo em falso, a sensação de algo errado, o chão surgindo rápido demais.

Ela não se mexeu. O instinto falou mais alto que o pânico. Hermione permaneceu imóvel, os olhos apenas entreabertos, enquanto aguçava a audição.

Ela já devia ter acordado!Seu idiota! Não era pra ter machucado ela, ele deixou isso bem claro! — retrucou outra, mais grave. — Ele vai matar a gente!

E o que eu devia fazer? — rebateu a primeira, irritada. — Você foi imbecil o suficiente pra não conseguir render uma garota no escuro! E eu não quis machucar ela, ela que caiu sozinha!

Hermione conteve a respiração por um segundo, absorvendo cada palavra. O coração batia rápido demais, mas a mente funcionava com precisão dolorosa. Aos poucos, percebeu que o ambiente parecia iluminado por uma luz tremulava próxima que parecia se tratar de uma lamparina.

Discretamente, deixou o olhar deslizar pelo chão. Sua varinha estava caída a poucos metros de distância, entre folhas e pedras.

Inspirou fundo, ignorando a tontura que ameaçava dominá-la.

Concentração, Hermione. Um único movimento. Um único feitiço.

Esticou o braço com cuidado calculado, a voz reduzida a um fio de ar:

Accio varinha.

O puxão foi imediato. A madeira bateu firme em sua palma, e Hermione agiu antes que qualquer um dos dois pudesse reagir.

Ainda caída, virou-se bruscamente e apontou a varinha.

Incarcerous!

Cordas mágicas surgiram num estalo seco, enrolando-se violentamente nos pés dos dois. O desequilíbrio foi instantâneo — ambos tombaram de costas com um baque desajeitado.

— Merda! — um deles gritou. — O que você fez?!

Hermione se ergueu devagar, apoiando-se no próprio joelho. Levou a mão à cabeça e sentiu os dedos voltarem manchados de sangue. O corte ardia, mas ela se manteve firme.

Aproximou-se deles, a expressão endurecida. Agora, à luz da lamparina, não havia mais dúvidas.

— Goyle — disse, com desprezo contido. — E… Crabbe.

— Solta a gente, sua sangue-ruim! — cuspiu Crabbe, debatendo-se inutilmente.

— Agora! — rosnou Goyle, apesar do rosto crispado pela dor da queda.

Hermione apontou a varinha diretamente para eles.

— Vocês dois não estão em posição de exigir absolutamente nada — respondeu, fria. — E aviso desde já: estou a um feitiço de distância de garantir que passem o resto da noite implorando por misericórdia.

O pânico foi imediato. Os olhos deles se arregalaram.

— Onde está o Harry? — perguntou, a voz baixa, perigosa. — O que vocês fizeram com ele?

— Nada! — Goyle respondeu rápido demais, engolindo em seco. — Ele não tá aqui.

— É… — Crabbe acrescentou, hesitante. — A gente só tava ajudando ele.

Hermione franziu o cenho, incrédula.

— Ajudando? — repetiu. — Do que vocês estão falando? Não quero joguinhos. Estou aqui por causa do Harry!

Claro que está — Goyle retrucou debochado, soltando uma risadinha curta, que logo virou um gemido.

Algo quente começou a queimar no peito de Hermione. Ela avançou mais um passo e encostou a ponta da varinha no queixo dele.

— Cuidado — murmurou. — A próxima palavra errada pode ser a última que você vai dizer hoje.

— Calma, calma! — Goyle se apressou, o pânico dominando sua voz. — A gente só tava ajudando ele a cumprir o desafio.

— Do Primus Sonserinae — Crabbe disparou, nervoso.

O nome caiu como um peso no peito de Hermione. Ela conhecia aquele termo. Não os detalhes, mas a reputação. Era um tipo de ritual antigo da Sonserina. Algo que para eles era importante e exclusivo.

— É… — Goyle continuou. — A missão dele pra virar nosso líder era fazer você cometer uma detenção pesada. Daquelas que dão problemas de verdade. A ideia era te segurar aqui, fora do castelo, num dia em que isso ia pesar ainda mais…

— Você podia até ser suspensa por alguns dias — Crabbe completou, quase orgulhoso.

O chão pareceu desaparecer sob os pés de Hermione.

Não. Não pode ser.

Harry jamais faria aquilo. Jamais a enganaria daquela forma. Ele não era assim.

Mas a angústia veio com força total, cruel e sufocante.

Uma fissura dolorosa se abriu em sua mente — alimentada pelo medo, pelo choque, pela frieza com que aquelas palavras eram ditas. A parte mais racional dela, aquela que sempre se mantinha em silêncio quando Harry estava por perto, sussurrou possibilidades que ela não queria ouvir.

Ela recuou um passo. Depois outro.

— Não… — murmurou, lágrimas se acumulando nos cantos dos olhos. — Isso não faz sentido… ele não…

Hermione!

A voz ecoou pela clareira.

Era ele. Harry.

Mas, ao invés de alívio, um arrepio tormentoso percorreu-lhe o corpo. O som dos passos se aproximando, a luz da varinha dele cortando a escuridão — tudo se misturou em um borrão confuso em seus sentidos.

Antes que pudesse pensar, antes que pudesse enfrentar a possibilidade de que aquilo tivesse algum fundo de verdade, o instinto falou mais alto.

Hermione virou-se e correu mais para dentro da floresta.

Harry alcançou a o local em poucos segundos. A primeira coisa que viu foram dois corpos se debatendo no chão, presos por cordas mágicas que cintilavam sob a luz instável de uma lamparina caída.

— Graças a Merlin… — Goyle arfou, ao reconhecê-lo. — Ajuda a gente, cara!

O alívio na voz dele foi suficiente para acender algo feroz dentro de Harry.

A compreensão veio antes do pensamento — seja o que tivesse acontecido, eles estavam envolvidos.

Harry avançou e, sem qualquer aviso, desferiu um chute violento nas pernas de Goyle.

— O que vocês fizeram com ela, seus merdas?! — rosnou, a voz carregada de fúria.

— A gente?! — Goyle se contorceu, gritando de dor. — Olha o que ela fez com a gente!

— Cadê a Hermione?! — Harry gritou, já fora de si.

Crabbe, choroso, ergueu o queixo na direção da floresta.

— Foi pra lá…

Harry ainda acertou outro chute — agora em Crabbe — antes de se virar e correr na direção indicada.

A cada passo, um frio cortante se infiltrava em seus ossos. Não era só receio por ela. Havia algo errado no ar, algo denso, hostil, como se a própria floresta estivesse em alerta.

Então ele a viu.

Hermione estava parada alguns metros à frente, envolta por uma luz de Lumus forte o suficiente para revelar cada traço e cada reação.

Ela tremia da cabeça aos pés. O rosto contraído em uma expressão que parecia segurar o choro à força. A varinha erguida, apontada diretamente para ele.

— Meu Deus… — Harry parou bruscamente. — Você está ferida!

O fio de sangue que escorria da testa dela fez seu estômago revirar.

— O que aconteceu? — ele deu um passo à frente. — O que aqueles imbecis fizeram com você...

— Não se aproxime. — A voz dela saiu tensa, cortante. — Fica aí.

Harry obedeceu, o corpo rígido.

— Hermione… por favor. Me diz o que houve.

Ela respirou fundo, como se reunir forças fosse fisicamente doloroso.

— Só me diz uma coisa, Harry. — os olhos dela brilharam, úmidos. — É verdade?

Verdade? Do quê...

— Essa história de desafio. — a voz falhou por um instante. — Primus Sonserinae. De me prejudicar. Você está envolvido nisso?

O peso da pergunta pareceu puxá-lo para o chão.

Ele quis negar. Quis dizer que não sabia do que ela estava falando. Quis apagar aquele olhar. Mas a língua pareceu pesar mais do que a gravidade.

— Fala, Harry! — ela gritou, a voz já tomada pelo desespero. — Olha pra mim e fala!

— Eu… — ele engoliu em seco. — Eu posso explicar. Não é o que você está pensando...

— Merlin… — Hermione soltou uma risada seca, quase dolorosa. — Eu sou uma burra mesmo.

Ela balançou a cabeça, incrédula.

— Então esse tempo todo… você se aproximou de mim por causa disso? Pra me enganar? Pra se beneficiar?

— Não! — Harry se adiantou, a voz quebrada. — Eu nunca faria isso com você! Nunca! Se você me deixar explicar...

— Então fala. — ela o interrompeu. — Fala que você não se aproximou de mim por causa desse desafio nojento. Fala isso olhando nos meus olhos.

Harry travou. Ver Hermione assim — ferida, tremendo, decepcionada — foi como uma lâmina atravessando seu peito.

— Eu… — a voz saiu baixa. — Eu não nego que foi isso que me fez me aproximar.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

— Mas eu nunca pretendia ir em frente, nunca quis te prejudicar — ele continuou, rápido. — Olha, vamos sair daqui, conversar com calma.

Mas antes que ele pudesse dar outro passo, sentiu o choque abrupto de um feitiço de contenção. A barreira invisível, conjurada por Hermione, ergueu-se entre os dois como vidro sólido, repelindo-o com força suficiente para fazê-lo recuar.

— Hermione, por favor! — a voz dele já era puro desespero. — Me escuta!

— Eu não quero nunca mais falar com você. — ela disse, as lágrimas finalmente escapando. — Fica longe de mim.

A voz dela saiu fraca, quase sem força. E então ela virou-se e correu.

— Não! — Harry gritou, a voz rasgando o ar. — Hermione, volta! Não entra mais fundo na floresta, é perigoso!

Ela não olhou para trás.

A silhueta dela se dissolveu entre as sombras enquanto Harry golpeava a barreira com força crescente, os punhos ardendo, o pânico tomando conta de cada pensamento.

— Por favor… volta... — a súplica saiu rouca, quase sem som.

Foi quando um clarão tomou a floresta.

Uma luz intensa e glacial explodiu entre as árvores, cegando-o por alguns instantes. A magia que emanava daquele ponto era profundamente errada — agressiva, invasiva, queimando sua pele como se tentasse atravessá-la.

Algo grande se deslocou na mata, sombras se desfazendo entre troncos e galhos. Foi rápido. Antinatural. Fugiu antes que seus olhos pudessem compreender.

Tomado por um impulso violento e desesperado, Harry ergueu a varinha e lançou um feitiço bruto.

— Confringo!

A barreira se despedaçou em estilhaços luminosos, como vidro lançado ao vento. Harry foi arremessado ao chão, sentindo pequenos cortes se abrirem pela pele, a ardência quase imediata — mas nada disso foi suficiente para desviá-lo do que realmente importava.

Ele se ergueu rapidamente, ignorando a dor, e correu na direção em que Hermione havia desaparecido.

O clarão começava a se dissipar quando ele a avistou caída no chão.

— Hermione!

Harry caiu de joelhos ao lado dela, o coração quase rasgando o peito. A pele dela estava pálida, fria demais. Veias escuras se desenhavam pelo rosto e pelos braços, como marcas vivas.

— Não… não… — ele segurou o rosto dela com cuidado desesperado. — Por favor, fala comigo. Fala comigo!

Mas ela estava totalmente inconsciente.

Harry ergueu a varinha para o céu e disparou feitiços de emergência — Explosões Escarlates de Alerta, uma após a outra, cortando o céu noturno como gritos mágicos por socorro.

— Aguenta, amor… — murmurou, encostando a testa na dela. — Por favor… não me deixa.

A floresta, vasta e impassível, respondeu apenas com um silêncio sepulcral — como se guardasse para si o destino que se recusava a revelar.

Chapter 7: Onde Mais Dói

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

A noite já havia se rendido ao avanço silencioso da madrugada.

Sentado no chão frio, os joelhos puxados junto ao corpo, as duas mãos apoiando a cabeça, Harry já não sabia ao certo quanto tempo havia passado naquela posição. O tempo parecia ter perdido o sentido desde o rompimento da barreira na floresta.

A dor física era pulsante, marcada pelos pequenos, porém precisos cortes espalhados por sua pele após o impacto violento do feitiço quebrado. Mas o que realmente o consumia era a tensão que se infiltrava em cada músculo, em cada pensamento, alimentada pela certeza cruel de que, seja lá o que tivesse acontecido com Hermione, fora muito mais sério do que até mesmo seu pessimismo ousava admitir.

A ajuda não demorou a chegar. Professores, funcionários de Hogwarts, Madame Pomfrey — tudo se misturara em um borrão confuso de vozes, passos apressados e feitiços sussurrados. Com o auxílio de magia, atravessando um corredor propositalmente vazio — longe de qualquer olhar curioso, Hermione foi rapidamente levada para uma área reservada da enfermaria.

Conduziram-na para um leito específico, preparado para exames e procedimentos mais delicados. Era como se já soubessem — ou ao menos suspeitassem — que o que quer que a tivesse atingido exigiria mais do que simples poções regenerativas.

Harry tentou acompanhá-la, insistindo em saber exatamente o que estava acontecendo e o que estava sendo feito para ajudá-la. Mas foi impedido, sendo afastado e conduzido – mesmo à base de protestos – para outra ala, onde Crabbe e Goyle já se encontravam. Disseram-lhe que, em breve, todos precisariam prestar esclarecimentos sobre o ocorrido.

Mas ser obrigado a permanecer no mesmo ambiente fechado que os dois diretamente envolvidos no que levara Hermione a se machucar era insuportável. A raiva ferveu em suas veias com uma violência que ele não conseguiu conter. Avançou contra os dois como se buscasse uma justiça primitiva — como se assim pudesse, de alguma forma, desfazer tudo o que havia acontecido.

O professor Snape, que estava incumbido de supervisioná-los, interveio imediatamente. Com um feitiço preciso, separou Harry dos outros dois, afastando-o com firmeza e restabelecendo a ordem no ambiente. Em seguida, o conduziu para longe dali, deixando-o isolado em um canto da enfermaria.

Desde então, permanecia ali sozinho. A única pessoa que aparecera até o momento fora Madame Pomfrey. Ela tentara, inutilmente, cuidar de seus ferimentos. Harry, porém, não permitiu.

Arredio como uma fera ferida, afastou-se ao menor toque. À primeira vista, poderia parecer apenas repulsa a qualquer tipo de cuidado naquele estado caótico.

Mas havia algo mais profundo, mais sombrio.

Era a vontade de se punir. De sofrer.

Não que ver Hermione ferida — atingida claramente por algo danoso e ainda desconhecido — já não fosse um sofrimento esmagador. Aquela imagem martelava sua mente sem piedade. Mas, ainda assim, ele sentia que qualquer dor física que suportasse seria pouco diante da culpa que corroía seus nervos.

Hermione estava naquela floresta por causa dele.

Por algo em que ele se envolvera, ainda que involuntariamente. Por causa do maldito desafio. Por não ter contado a ela toda a verdade, acreditando estar fazendo a coisa certa. Por causa daqueles dois imbecis que haviam agido ativamente para colocar em prática aquela missão dos infernos.

No fim das contas, Hermione estava ferida porque ele havia entrado na vida dela. E naquele momento, não havia nada que Harry desejasse mais do que apagar essa realidade. Nada além de voltar no tempo e impedir cada escolha, cada omissão, cada passo que a levara até ali.

Aliás… havia algo: poder trocar de lugar com ela. Ser ele a padecer todas e quaisquer consequências daquele cenário. Ser ele a sangrar, a perder a consciência, a enfrentar o desconhecido. E não sua Hermione. Embora, depois de tudo, ele já não tivesse certeza se ainda podia ter a liberdade de considerá-la dele.

Harry ainda estava perdido em pensamentos quando uma voz conhecida ecoou próxima demais.

Harry…?

Ele ergueu a cabeça lentamente. O mundo pareceu voltar a girar quando reconheceu Remo Lupin parado a poucos passos.

— Como ela está? — Harry perguntou de imediato, levantando-se do chão rápido demais, quase cambaleando. — Ela acordou? Está consciente?

— Antes disso, você precisa saber que...

Filho!

A interrupção veio carregada de desespero.

Lilian Potter surgiu à porta. No instante seguinte, atravessou o espaço que os separava e envolveu Harry em um abraço quase sufocante, como se precisasse sentir que ele estava ali, inteiro.

— Graças a Merlin… — murmurou, afastando-se apenas o suficiente para examiná-lo. — Achei que você estivesse… — seu olhar percorreu os cortes, as marcas arroxeadas. — Ferido. Céus, você está mesmo ferido. O que são esses machucados? Você está bem?

— Mãe… — Harry afastou-se um pouco, ainda confuso. — O que a senhora está fazendo aqui?

Seu olhar foi imediatamente até Remo, que sustentou a expressão grave.

— Tivemos que avisá-los, Harry — explicou ele.

Claro que tiveram.

A voz dura de James Potter surgiu enquanto ele adentrava no local, o semblante fechado, os olhos faiscando com uma mistura de preocupação e irritação mal contida.

Harry sentiu o maxilar travar.

— Porque você perdeu completamente a noção — começou James —, aprontando em pleno sábado à noite a ponto de causar dano físico em uma aluna.

— James, calma… — tentou intervir Remo.

— Não, Remo. — Harry o interrompeu, a irritação transbordando. — Deixa. Se ele não fizer o show completo, não vai ter valido a pena ter vindo até aqui.

— E por acaso eu estou errado? — James rebateu, avançando um passo. — Recebemos a notícia de que houve um incidente grave, que você estava envolvido, que uma aluna da Grifinória foi seriamente ferida. Só concluí o óbvio: devia ser coisa sua com aqueles amiguinhos marginais da Sonserina. Devem ter arrastado uma pobre menina estúpida o bastante para...

— Dobre sua língua quando falar da Hermione!

A explosão veio carregada de fúria.

— Você não sabe absolutamente nada do que aconteceu pra chegar aqui com esse tom. E eu nunca machucaria ela. Nunca! — Harry estava visivelmente alterado, os punhos cerrados, a respiração descompassada.

— Já chega! — Lilian interveio, colocando-se fisicamente entre pai e filho. — Os dois!

Ela se voltou para Harry.

— Querido, entenda… ficamos desesperados. Viemos o mais rápido possível pela rede de Flu, que foi liberada para nós. Não sabemos ainda a gravidade da situação.

Harry alternava o olhar entre a mãe e o pai com um cansaço amargo no semblante, como se aquela discussão fosse apenas mais um peso sobre algo que já estava prestes a ruir.

James respirou fundo, passando a mão pelos cabelos, como se tentasse recuperar algum controle.

— Qual é a real situação, Remo?

— Hermione foi atacada por uma criatura conhecida como Mórgula Sombria — explicou. — Há muito tempo tentamos reunir informações sobre a magia residual dessas criaturas. Infelizmente, a amostra que tivemos foi… o que ela causou nela.

Remo pausou, olhando diretamente para Harry.

— Ela… — Harry engoliu em seco. — Ela vai ficar bem, não vai?

— Fisicamente, sim — respondeu. — Em breve deve se recuperar. Mas…

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— A magia dela foi afetada — completou.

— Céus… — Lilian levou a mão à boca. — A magia…

— O que isso significa? — Harry perguntou, olhando de um para o outro, desesperado por respostas.

— Significa — explicou Remo — que a magia da criatura danificou a magia vital de Hermione. Ela perdeu uma parte considerável de seu poder… mas não de forma definitiva.

Harry sentiu tudo em volta começar a girar.

— Isso já foi visto antes — acrescentou Lilian. — Existem registros de casos em que certas criaturas mágicas interferem diretamente na magia vital de um bruxo. Não é comum, mas é… devastador quando acontece.

— Por sorte — Remo continuou — existe uma maneira de preservar a magia dela.

— Mas o tratamento é doloroso — Lilian completou. — Extremamente doloroso.

— Um tratamento para o resto da vida — prosseguiu Remo. — À base de uma poção chamada Vitae Doloris. Quem a toma sente dores intensas, mal-estar severo. Exige uma força emocional enorme para suportar.

— Meu Deus… — Harry levou as mãos à cabeça, o desespero finalmente transbordando. — Isso não podia ter acontecido com ela. Não podia…

— E você acha que a garota suportará isso? — James perguntou.

Remo inspirou fundo.

— Conhecendo Hermione… sua disciplina, sua determinação… acredito que sim. Ela vai lutar.

— Bom. — James soltou o ar devagar. — Ao menos isso significa que esse caso pode ser mantido sob controle.

Harry virou-se para o pai com os olhos semicerrados.

— É só isso que importa para o senhor?! Se isso vai repercutir? Enquanto é ela quem vai sofrer com isso?

— Eu só não quero que isso se torne um escândalo — respondeu James, firme. — Você não faz ideia do quanto isso poderia te prejudicar se viesse a tona que você teve participação nesse acidente.

— Ninguém sabe exatamente o que houve — Remo interveio. — Ainda não falamos com ela. Ela pode ter ido à floresta por conta própria e...

— Não. — Harry cortou, impassível. — Hermione não tem culpa de nada. E eu não vou permitir que nada seja imposto a ela. Se alguém tiver que pagar por isso… serei eu.

A tensão era quase palpável.

James abriu a boca para retrucar, mas foi interrompido quando a porta se abriu novamente.

— Com licença…

Minerva McGonagall entrou, o semblante sério, os olhos atentos a cada um deles.

— A Srta. Granger acordou.

-XX-

As vozes ao redor, o constante vai e vem dos curandeiros e o gosto amargo das poções que havia ingerido desde que despertara deixaram Hermione em um estado de completa desorientação. Tudo parecia deslocado, como se estivesse tentando se situar em um ambiente conhecido, mas sob regras ligeiramente diferentes.

O corpo inteiro doía, como se cada músculo tivesse sido violentamente exigido além do limite. Havia marcas escuras espalhadas pela pele que, segundo um dos curandeiros, desapareceriam em poucos dias. Ainda assim, a sensação mais perturbadora não era visível: uma fraqueza interna, diferente de qualquer cansaço que já sentira.

Mas a lembrança do que a levara até ali era o que verdadeiramente a atormentava.

Depois daquela infeliz constatação envolvendo Harry, fora como se algo dentro dela tivesse cedido — física e mentalmente. A sensação de chão seguro simplesmente desaparecera. Ela correra floresta adentro, mesmo sabendo o quão imprudente aquilo era. Mesmo com a voz dele ecoando em seus ouvidos, alertando sobre o perigo. Naquele momento, porém, o desejo de fugir falara mais alto do que qualquer racionalidade. Fugir dele. Fugir da verdade. Fugir de si mesma.

Quando a criatura surgiu, Hermione mal teve tempo de raciocinar.

Era uma forma alta e disforme, de contornos instáveis, como se a própria escuridão tivesse sido condensada. A pele parecia absorver a luz ao redor, e os olhos — opacos, sem reflexo — fixaram-se nela com uma intensidade paralisante. No instante em que seus olhares se cruzaram, Hermione sentiu o corpo inteiro enrijecer, como se a magia dentro de si tivesse sido comprimida.

Ela não chegou sequer a sentir o impacto do corpo contra o chão. A escuridão a engoliu antes.

Momentos após despertar, ainda deitada no leito, Hermione escutara com atenção enquanto a professora McGonagall e o professor Lupin lhe explicavam o ocorrido — a natureza da criatura, a forma como ela a afetara e, sobretudo, as implicações que aquilo poderia ter para sua vida dali em diante.

Ela precisou se controlar com todas as forças para não se mostrar completamente desestabilizada.

Hermione já havia lido sobre casos semelhantes. Bruxos cuja magia vital fora danificada sofriam durante tratamentos longos, muitas vezes por toda a vida. Alguns não resistiam — não fisicamente, mas emocionalmente. Desistiam. E, pouco a pouco, perdiam tanto de sua capacidade mágica que mal conseguiam conjurar um feitiço simples sem extrema dificuldade, como se mais da metade de sua potência tivesse sido irremediavelmente corroída.

Era impossível não sentir medo.

Medo do que a esperava. Do que teria de enfrentar para continuar sendo quem era. Para manter sua magia ativa, viva, pulsante.

Quando a deixaram sozinha para que pudesse assimilar tudo, Hermione finalmente cedeu. Chorou em silêncio, as lágrimas escorrendo sem resistência. Um mal-estar profundo a dominou, misturando exaustão e uma angústia quase sufocante.

Ainda assim, havia algo que ela não conseguia ignorar.

Por mais desagradáveis e assustadoras que fossem as notícias, não era apenas isso que alimentava sua aflição. Embora repreendesse e tentasse afastar aquele pensamento, a descoberta de que Harry a enganara pesava absurdamente dentro dela.

Talvez — envergonhava-se em admitir — tanto quanto a própria mácula deixada em sua magia.

E ela se odiava por isso.

Odiava-se por permitir que aquele sentimento competisse com algo objetivamente mais grave. Odiava-se ainda mais por ter sido tão ridiculamente ingênua, confiante de que Harry era diferente. Que ele destoava completamente da imagem que tantos alunos da Sonserina pareciam carregar.

As recordações do porquê dessa equivocada certeza surgiam sem pedir permissão: o modo como ele a observava, como se cada palavra dela fosse seu mundo. O tom de voz íntimo quando falava apenas para os dois. O cuidado nos gestos. A maneira como a tocava. Os beijos que haviam sido tão intensos e, ao mesmo tempo, tão seguros.

Ela fechou os olhos com força, como se pudesse desalojar aquelas memórias à base de pura determinação. Se ao menos conseguisse converter aquele doloroso deleite em indignação. Em repulsa. Em qualquer sentimento que doesse menos do que a saudade de algo que, agora ela sabia com amarga lucidez, nunca fora real.

Talvez assim — com a lógica finalmente vencendo o afeto — seguir em frente deixasse de parecer uma tarefa insuportável.

Mal tivera tempo de afundar outra vez naquelas reflexões, quando a porta da ala reservada tornou a se abrir.

A professora McGonagall e o professor Lupin aproximaram-se do leito com expressões medidas demais para serem tranquilizadoras.

— Srta. Granger — começou McGonagall —, sei que este não é o momento ideal para interrogatórios. E reconheço que talvez não seja prudente bombardeá-la com tantas informações. Contudo, o que ocorreu é grave demais para deixarmos lacunas.

Lupin deu um pequeno passo à frente, as mãos entrelaçadas às costas.

— Diga-nos… você foi levada à força para a Floresta? As pessoas que estavam com você tiveram participação direta nisso? Crabbe, Goyle… — ele hesitou por um segundo quase imperceptível — e... Potter?

Era simples. Era lógico.

O sim deveria ter surgido imediato e preciso — como uma resposta bem fundamentada em uma prova. Mas, em vez disso, o ar pareceu rarefeito em seus pulmões. O aperto em seu peito se intensificou, desconfortável e persistente.

Honestamente, Hermione, você só pode gostar mesmo de sofrer.

— Senhorita Granger — insistiu McGonagall —, se houve responsabilidade direta, precisamos agir. Não podemos permitir que algo dessa magnitude passe impune.

Era a oportunidade perfeita de fazer justiça e, ao mesmo tempo, recompor o próprio orgulho. De responder, ainda que silenciosamente, à maneira como se sentira enganada. À maneira como seu coração parecera ter sido tratado com uma leviandade que ela jamais admitiria em voz alta.

Então por que aquilo lhe parecia… errado?

Por que, mesmo convencida de que se enganara sobre Harry, a ideia de vê-lo oficialmente acusado - com o risco real de ser expulso da escola - lhe causava aversão?

Hermione inspirou devagar, como fazia antes de apresentar um argumento complicado.

— Eu fui, sim, induzida a ir até a Floresta por Crabbe e Goyle — disse, a voz baixa, mas estável. — E lá deixaram claro que se tratava de uma… espécie de brincadeira.

— Uma brincadeira de extremo mau gosto, como é típico da turma deles — acrescentou com um revirar de olhos — Houve um momento de tensão, e eu reagi de forma insensata. Corri para dentro da Floresta. Foi uma decisão precipitada.

McGonagall e Lupin trocaram um olhar breve.

— Certo… — disse a chefe da casa da Grifinória. — E quanto ao senhor Potter?

Hermione desviou o olhar por um instante, encontrando o de Lupin. Havia em sua expressão uma espécie de lamento silencioso, claramente decorrente do fato de ele ter conhecimento do relacionamento que existira entre ela e Harry até então.

— Harry não teve nada a ver com o que aconteceu comigo — afirmou, agora com firmeza inequívoca. — Eu não sei por que ele estava na Floresta. Se desejarem responsabilizá-lo por ter deixado o castelo, isso é uma questão disciplinar. Mas não o façam pelo meu ferimento.

O silêncio que se seguiu foi denso.

Hermione soltou um suspiro quase teatral — uma tentativa deliberada de encerrar aquela conversa o mais rápido possível.

— Posso descansar agora?

McGonagall assentiu com a cabeça. Lupin fez o mesmo, ainda observando-a com uma curiosidade que beirava a incredulidade — como se tentasse compreender o que ela escolhera não dizer.

Quando saíram, a porta se fechou com um clique suave. E só então Hermione permitiu que os ombros cedessem um pouco sob o peso das próprias decisões.

-XX-

A manhã de domingo não demorou a revelar que seria tão sombria quanto a noite anterior. Nuvens densas cobriam o céu, e a chuva caía forte do lado de fora, tamborilando contra os vitrais da enfermaria em um ritmo constante e pesado.

Harry permanecia deitado em um dos leitos da enfermaria, o olhar fixo na paisagem além da janela próxima.

Se havia dormido, tinham sido minutos breves— fragmentos desconexos, interrompidos por imagens da floresta, pelo corpo de Hermione vulnerável, pela expressão dela antes de tudo desmoronar. O resto da noite fora uma sucessão de pensamentos inquietos e do peso esmagador da espera.

A visita inesperada de seus pais ainda reverberava em sua mente.

Com o pai, como sempre, o clima fora áspero. Pontuado por acusações veladas e por aquele tom que misturava autoridade e desconfiança. Já com a mãe, a preocupação fora quase dolorosa de testemunhar. E fora por ela — apenas por ela — que Harry, por fim, permitira que Madame Pomfrey tratasse seus ferimentos.

Ele aceitara os feitiços cicatrizantes. Engolira as poções amargas. Permanecera imóvel enquanto os curativos eram ajustados. Um gesto silencioso de concessão — suficiente para que a mãe partisse um pouco menos relutante.

Quando a confirmação de que Hermione não o acusara diretamente pareceu satisfazer o senso prático de James, a decisão de partir veio quase imediata.

E foi justamente aquele testemunho dela, mais do que qualquer reprimenda, que inquietou Harry.

Hermione não o culpara. E isso contrariava toda a lógica.

Na floresta, ela deixara claro — com uma lucidez cortante — que acreditava que ele fazia parte daquilo. Que ele estivera envolvido desde o início.

Seria óbvio que o responsabilizasse.

E, se o tivesse feito, ele não teria resistido. Aceitaria qualquer consequência de bom grado. Se isso significasse que, de alguma forma, haveria justiça pelo prejuízo incalculável que ela sofrera.

Mas ela não fizera. E aquilo lhe trouxe expectativa.

Uma possibilidade frágil de se alimentar: talvez Hermione estivesse disposta a ouvi-lo. Talvez houvesse, sob a decepção e a mágoa, espaço para que ele explicasse. Para que dissesse a verdade completa. Para que defendesse não a própria reputação, mas o que existia entre eles. O que estavam começando a construir. O que ele sabia — com uma certeza que doía — que era real.

E se houvesse uma chance, por menor que fosse, ele não a desperdiçaria.

A porta da enfermaria se abriu lentamente. Harry ergueu o olhar, acreditando que fosse Lupin — e já se preparava para insistir ali mesmo que o deixassem ver Hermione.

Mas a figura que cruzou a soleira fez seu corpo inteiro enrijecer.

— Finalmente... — a voz arrastada de Draco Malfoy cortou o silêncio — Estou há horas tentando entrar aqui pra falar com você.

Harry se sentou de supetão. A tontura veio rápida, efeito das poções, mas ele a ignorou. Num movimento rápido, apanhou a varinha na bancada ao lado e a apontou diretamente para o rosto do loiro.

— Chega mais um passo e eu esqueço que ainda estou me recuperando.

Draco parou no mesmo instante, erguendo as mãos com uma expressão de irritação contida.

— Ficou doido?

— Me dá um motivo. — a voz de Harry era pura rispidez. — Um só motivo pra eu não acertar na sua cara agora.

Draco estreitou os olhos, mas não recuou.

— Se você parar de agir como um trasgo e me deixar falar, talvez eu consiga.

— Então fala! Explica como você achou aceitável mandar Crabbe e Goyle levarem a Hermione pra floresta. No dia mais perigoso do calendário escolar.

O maxilar de Draco se contraiu.

— Eu só queria te ajudar a cumprir o desafio.

Draco deu um passo lateral, aproveitando o instante em que o braço de Harry vacilou levemente, forçando-o a recostar-se de novo no leito.

— Passar por cima da sua idiotice de jogar fora anos de amizade, seu respeito na Sonserina… por causa de uma garota. — ele insistiu. — Então convenci aqueles dois palermas a fazerem por você. Sem ninguém saber. Pra te preservar.

— Quer se fazer de bem-intencionado mandando justamente aqueles dois? — o desprezo na voz de Harry era quase palpável. — Você sabe muito bem como eles tratam bruxos como a Hermione.

A rixa antiga pulsava ali. Foi aquela postura orgulhosa da dupla em não disfarçar o preconceito contra os bruxos nascidos-trouxas que levou Harry, há muito tempo, a não fazer questão alguma de manter qualquer vínculo com eles além do estritamente inevitável dentro da Sonserina.

— Eu achei que eles ao menos seriam discretos — Draco retrucou — Prometi que poderiam voltar a circular com a gente depois… o que, convenhamos, nunca foi realmente a minha intenção. — um meio sorriso enviesado surgiu. — Você sabe muito bem que os afastei do nosso círculo por sua causa. Pela nossa amizade.

Harry o encarava como se cada palavra fosse um ultraje.

Draco respirou fundo, passando a mão pelo cabelo.

— Eu não queria que ela se ferisse. Não era esse o plano. Era uma detenção idiota, nada além disso. — ele hesitou. — O caso é tão grave assim?

Harry não respondeu de imediato. Ele não sabia até onde aquilo já tinha se espalhado. Não queria ser ele a colocar em circulação algo que ainda estava restrito a poucos.

— O que você precisa saber — disse por fim, com ódio contido — é que você ultrapassou todos os limites. E essas suas desculpas esfarrapadas não vão apagar isso.

Draco sustentou o olhar.

— Eu sei. Por isso vim assumir a culpa.

Harry franziu o cenho.

— O quê?!

— Vou dizer que fui eu. Que arquitetei tudo. E que você não teve nada a ver.

O silêncio que se instalou foi denso. Harry não esperava aquilo. Draco não era conhecido por assumir responsabilidades. Muito pelo contrário. Sempre encontrava uma forma elegante — ou covarde — de deslocá-las.

— Quando aqueles dois voltaram pro salão comunal e contaram o que tinha acontecido, eu soube que isso ia cair nas suas costas — Draco continuou, a voz mais contida. — Se eu falhei em te ajudar, eu conserto agora.

Harry o encarava como se tentasse decifrar uma armadilha invisível.

— A Hermione... não me denunciou — disse, por fim.

Draco arqueou as sobrancelhas.

— Não? — por um breve instante, um sorriso quase aliviado surgiu nos lábios do loiro. — Então está tudo sob controle.

— Só responde uma coisa. — Harry se inclinou um pouco para frente, estreitando os olhos — Você mandou os dois dizerem pra ela que eu estava por trás de tudo? Que eu tinha colocado em prática o desafio?

A expressão de Draco vacilou por um segundo — as sobrancelhas se franzindo.

— Claro que não. — Ele soltou, com uma confusão cuidadosamente dosada na voz. — Eu deixei muito claro que seu nome não devia ser mencionado. Por que eu sabotaria você?

— Porque foi exatamente isso que disseram a ela.

O silêncio caiu pesado entre os dois.

— Eu não mandei falarem isso — Draco repetiu, agora mais sério. — Se eles inventaram essa parte, foi por conta própria.

Harry o encarou longamente, como se tentasse dissecar cada microexpressão. Ele conhecia a capacidade que o amigo tinha de manipular situações, de agir nas entrelinhas quando algo não lhe agradava. E isso incluía boicotar sua relação com Hermione. E nada tirava da cabeça de Harry que tudo aquilo ainda podia ter ligação com o que não acontecera entre o loiro e ela no passado.

A ideia era como uma farpa incômoda sob a pele. Se algum dia tivesse a confirmação de que Draco plantara aquela mentira deliberadamente — de que colocara seu nome na história para afastá-los — não haveria conversa, nem anos de amizade que sobrevivessem. E, ainda assim, mesmo sem provas, algo se rompera.

— Cara... lamento — Draco disse, por fim, com uma seriedade incomum. — De verdade e...

Sr. Malfoy?

A voz que ecoou da porta fez os dois se virarem ao mesmo tempo.

Remo estava parado na entrada da enfermaria, os braços cruzados.

— Creio que já tenha passado tempo suficiente fora do seu dormitório. Ainda não é horário para alunos circularem pelo castelo.

Draco soltou uma risada leve, quase insolente.

— Claro, professor. Não queria atrapalhar a… recuperação.

O comentário soou carregado daquele desdém habitual. Antes de sair, lançou um último olhar a Harry — que, deliberadamente, manteve os olhos fixos na janela, recusando-se a sustentá-lo.

Assim que Draco se retirou, Harry se virou imediatamente para Remo, a voz tomada de urgência:

— Eu preciso falar com a Hermione.

— Isso eu não posso permitir — respondeu Remo, aproximando-se. — Que loucura foi essa, Harry? Seu envolvimento com ela foi por causa de uma brincadeira idiota entre amigos?

— Não! — a resposta veio indignada. — Não foi isso!

Ele passou as mãos pelo rosto, exausto.

— Eu gosto dela. De verdade. — A voz perdeu parte da firmeza. — Eu sou louco por ela, Remo. Isso tudo só… não era pra ter acontecido.

— Você entende a posição em que ela está? O que aconteceu não foi pequeno. E, no estado em que ela acordou… duvido muito que queira vê-lo agora.

— Eu preciso tentar — insistiu, a determinação substituindo o abatimento. — Só quero uma chance de dizer a verdade pra ela. Por favor, me ajuda!

Remo passou a mão pelos cabelos, num gesto pensativo, antes de assentir vencido.

-XX-

— Professor… vocês não precisavam ter feito isso — ela disse, claramente desgostosa.

Hermione havia dormido poucas horas, e apenas graças às poções e feitiços aplicados para conter a dor. O corpo ainda latejava. A mente, mais ainda.

Assim que despertou completamente, Lupin já a aguardava para tratar de alguns assuntos.

— Foi necessário. O que aconteceu foi muito sério para mantermos sua mãe no escuro. Ela virá assim que possível. Nós vamos cuidar de tudo.

— Ela deve estar… surtando agora — Hermione murmurou, soltando um suspiro trêmulo.

Ela não deixou de notar que o olhar do professor fugia para a entrada da ala hospitalar com uma insistência nervosa. Ele coçou a sobrancelha, claramente hesitante.

— Hermione… — ele se aproximou um pouco mais do leito. — O Harry… ele pediu para falar com você.

O nome foi como uma fisgada. Ela se retesou imediatamente.

— Eu não quero falar com ele.

— Ele só quer uma chance de conversar com você. E, sinceramente… a forma como você aliviou para o lado dele — porque eu tenho certeza de que havia muito mais naquela história do que você deixou transparecer — acho que vocês precisam desse momento.

Um aperto doloroso se instalou em seu peito. Ela não se sentia forte para o embate que a presença de Harry exigia. Encará-lo agora seria admitir sua própria fragilidade, e ela temia que, sob o olhar dele, suas defesas desmoronassem de vez.

Mas um pensamento surgiu em sua mente.

Quanto mais permitisse que a situação se estendesse, mais difícil seria sair dela inteira. Se existia alguma chance de preservar o pouco orgulho que ainda lhe restava, precisava encerrar tudo ali. Seria como arrancar um curativo de uma ferida ainda aberta: rápido o suficiente para que a dor fosse aguda… mas, se tivesse sorte, breve.

— Tudo bem… — disse, hesitante.

Remo lançou um pequeno sorriso antes de sair. Poucos segundos depois, Harry entrou.

Hermione sentiu um rubor de pura indignação da sua patética fraqueza por não conseguir sustentar o olhar dele. Harry, por sua vez, sentia as pernas chumbadas a cada passo. Era como se a barreira física que ela invocara na floresta ainda estivesse ali, intransponível, ditando a distância entre os dois.

Ele não pôde evitar o inventário doloroso das cicatrizes dela: as escoriações e os hematomas eram difíceis de digerir, mas a postura de Hermione era o golpe final. O rosto desviado e o olhar gélido comunicavam que a simples presença dele soava como uma ofensa.

— Tive receio de que você não aceitasse me ver — Harry murmurou, a voz tateando o silêncio como quem pisa em solo instável.

Ela permaneceu na mesma posição.

Ele sentiu o impulso de encurtar a distância, de estender a mão e tocá-la, mas a consciência do momento o freou; ele não tinha o direito de ser tão imprudente.

— Hermione… eu sinto muito. Eu sei que isso não conserta nada. Mas eu preciso que você saiba que eu jamais quis que isso acontecesse. Eu preferia… — ele engoliu em seco — preferia estar no seu lugar mil vezes.

Hermione se encolheu sem perceber. Sentir o olhar pesado dele sobre suas marcas — e sobre sua nova condição — era incômodo demais.

— Sobre o desafio estúpido... sim, ele existiu. Mas eu nunca tive a intenção de cumprir. E que me aproximar de você pode ter sido gatilhado por ele… mas dizia muito mais sobre o que eu sentia do que qualquer outra coisa. Porque eu sempre quis você. Eu quero você.

Hermione finalmente o encarou. A expressão calculadamente desafiadora. Mas os olhos… os olhos denunciavam uma tristeza profunda.

— Eu só me pergunto, Harry, o que te faz pensar que qualquer palavra vinda de você ainda tem algum valor para mim?

— Porque, no fundo, você sabe que o que temos é verdadeiro — ele rebateu, dando um passo instintivo à frente.

O movimento foi interrompido no ar. Ela estendeu a mão, como um aviso silencioso para que ele não ultrapassasse a distância.

— Eu não menti sobre o que eu sinto por você — ele insistiu, a voz agora fragmentada pelo desespero. — Meus atos não deixaram isso claro? A forma como eu me desarmo quando estou perto de você... — o tom dele baixou, tornando-se uma confissão rendida — não deixou isso claro?

Ela respirou fundo.

— A única coisa clara aqui… — Hermione disse, com frieza forçada — é que eu estava muito melhor quando cada um de nós permanecia em seu próprio mundo. Você, cercado pela sua elite de preconceituosos e egocêntricos. E eu perto de pessoas decentes e verdadeiras.

O ar entre eles ficou mais denso.

— Pessoas como nós nunca deveriam ter se misturado. Você está exatamente onde pertence: ao lado de gente tão vazia quanto você. — cada palavra parecia arrancada à força de sua garganta. — Se permiti que entrasse aqui, foi apenas para garantir que você entendesse: nunca mais te quero perto de mim. A partir de hoje, cada minuto que passamos juntos será uma lembrança detestável, um erro que eu farei questão de esquecer.

Ela desviou o olhar, o golpe final vindo em um fio de voz:

— Vá viver sua vida e me esqueça. Porque, pra mim… você não é mais nada.

Hermione se virou de costas para ele, aconchegando-se na cama. As lágrimas desciam sem aviso. O corpo tremia, porém ela mordia os lábios com força, contendo qualquer ruído que pudesse denunciar que aquela despedida estava matando-a por dentro.

Harry queria reagir. Queria lutar.

Queria contestar cada palavra, dizer que ela estava errada, que ele podia consertar. Queria atravessar a distância entre eles, segurá-la pelos ombros e obrigá-la a olhar para ele até entender que nada daquilo fora um jogo.

Mas as palavras dela soaram como maldições imperdoáveis, drenando-lhe qualquer capacidade de defesa. Ecoavam, perigosamente, como algo que ele próprio já temera em silêncio.

Talvez o fato dele ter vestido as cores e adotado a postura de fazer parte da Sonserina o tenha moldado pelo ambiente que tanto quis provar que dominava. Talvez seu propósito de apenas quebrar as expectativas do seu pai tenha atingido um grau que o fez se tornar nocivo por osmose, simplesmente por fazer parte de um círculo majoritariamente hostil.

A constatação veio como um peso esmagador. Como se, naquele instante, ele enxergasse a si mesmo pelos olhos dela — canalha, egoísta, um caso perdido.

Seu maxilar tensionou. O peito ardia com uma dor que vinha da alma. Qualquer argumento soaria pequeno demais diante daquilo que ele mesmo começava a acreditar.

Ele mergulhou a mão no bolso e retirou a delicada corrente com o pingente de coração. Com passos silenciosos, aproximou-se apenas o suficiente para deixá-la na mesa ao lado da cama.

— Eu comprei pra você — disse, quase inaudível. — E se não for pra te ter… se não for pra te ver usando… não me serve pra nada.

Ele a observou por alguns segundos.

— Eu nunca mais vou te incomodar. Mas só quero que você saiba que não vai haver um único dia na minha vida em que eu não vá me martirizar e me odiar por ter perdido a chance de ter alguém como você comigo… de ter, pra mim, a garota que eu tanto amo.

Segundos depois, a maçaneta girou com um estalo discreto. A porta se abriu o suficiente para que ele atravessasse — e se fechou logo em seguida.

Hermione deixou escapar um som doloroso que rasgou sua garganta. Os soluços vieram descompassados, misturados às lágrimas que ela já não conseguia conter.

Ela girou o corpo na cama, os dedos trêmulos tateando a cabeceira até encontrarem o colar. Ela o envolveu na palma da mão, apertando-o contra o peito e fechou os olhos.

Quando finalmente os abriu, encarando a porta por onde ele havia partido, sua voz não passou de um sopro quebrado:

Eu… também te amo.

Notes:

A partir de agora, entramos na segunda fase da história… e posso garantir que a relação do nosso casal vai ficar bem mais intensa. 👀🤭
E pra quem sofreu nesse capítulo tanto quanto eu… respirem. Dois corações que se amam sempre encontram o caminho de volta. 🥹❤️

Chapter 8: Transição

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

O resto do ano seguiu como uma sucessão de dias indistintos para Hermione, marcados pela incômoda constatação de que sua vida, dali em diante, seria muito mais desafiadora.

A primeira vez que ingeriu a Vitae Doloris, entendeu que o nome não era exagero acadêmico. Era uma advertência.

A poção descia pela garganta como fogo líquido, espesso e amargo, mas o pior vinha segundos depois. A dor começava no centro do peito — como se algo estivesse sendo arrancado e refeito ao mesmo tempo. Uma sensação lancinante que se espalhava pelas veias como se seu próprio sangue tivesse sido substituído por brasa.

No início, era impossível não chorar. As lágrimas vinham incontroláveis, acompanhadas de soluços que ela tentava abafar contra o travesseiro da ala reservada da enfermaria. Madame Pomfrey garantia que ela ficasse isolada durante cada sessão, resguardando-a sob camadas de feitiços de privacidade. Assim, ao menos, ela era poupada de olhares que tornariam aquele momento ainda mais intragável.

Com o passar das semanas, a combinação de poções auxiliares e feitiços de contenção começou a suavizar os picos mais insuportáveis. A dor deixou de ser devastadora e passou a ser uma presença. Um lembrete permanente do que precisava suportar.

Hermione começou a se acostumar. Na verdade, a se conformar. Submeter-se àquele tratamento era o preço para manter sua magia plena. E ela pagaria. Pagaria quantas vezes fosse necessário.

Além da dor, havia as marcas.

Conforme avisado, elas foram suavizadas ao longo dos dias. O tom escuro começou a clarear gradualmente até se aproximar de sua própria pele. À distância, poderiam até passar despercebidas e algumas desapareceram por completo.

Mas não era apenas a cor que as denunciava.

As que permaneceram conservavam um leve alto-relevo, discreto o bastante para não chamar atenção imediata, mas evidente ao toque. Seria impossível escondê-las por completo sem recorrer a mangas longas e calças mais ajustadas.

Como forma de facilitar sua rotina, Madame Pomfrey lhe ensinou feitiços de ilusão capazes de disfarçar aquele tipo de sequela. A magia durava apenas algumas horas e exigia reaplicação cuidadosa, mas era suficiente para evitar perguntas indesejadas. E Hermione tornou aquilo uma prioridade quase obsessiva.

Controlar a própria condição era uma necessidade. Evitar olhares de pena, uma questão de sobrevivência.

Felizmente, a real dimensão do ocorrido nunca se tornou pública.

O que circulou pelos corredores foi uma versão reduzida e estrategicamente editada: Hermione precisara permanecer alguns dias internada após ser vítima de uma brincadeira irresponsável de alunos — até então não identificados — que ultrapassara os limites e exigira cuidados específicos.

Foi quase um acordo privado entre os envolvidos — Crabbe e Goyle — e ela. Eles não seriam expulsos. Cumpririam suspensões e detenções até o fim do período letivo. Em troca, não revelariam a ninguém o que realmente ocorrera.

Para qualquer outra pessoa, aquilo pareceria um absurdo. Uma injustiça gritante. Para Hermione, era um alívio inominável. A ideia, inclusive, partira dela.

Se havia algo pior do que aprender a conviver com aquela nova realidade, era a possibilidade de que outras pessoas passassem a tratá-la como frágil. Como alguém quebrada. E isso ela não suportaria.

Além disso, manter a verdade encoberta era também uma maneira de não ampliar o outro dilema que já consumia suas forças. Aquele assunto ainda mais difícil de contornar: seu rompimento com Harry.

Durante semanas, foi abordada repetidas vezes. Perguntas no dormitório, comentários nos corredores, olhares mal disfarçados. Hermione não tinha dificuldade em ignorar pessoas às quais não devia satisfação alguma, mas com suas amigas mais próximas precisou ser convincente.

Quando questionada sobre o distanciamento de Harry — o fato de não conversarem mais e não trocarem sequer um olhar durante o dia — ela explicou, com uma serenidade ensaiada, que haviam decidido encerrar o que estavam vivendo. E que desde o início, segundo ela, tratava-se de algo passageiro.

Aquilo pareceu suficiente para apaziguar a curiosidade sempre latente de Lavender. Com Parvati, porém, não foi tão simples. Ela não se contentou com a versão e perguntou — com cautela demais para parecer casual — se o incidente que acometeu a amiga tinha alguma ligação com o rompimento. Hermione manteve a postura resoluta – garantindo que uma coisa não tinha relação com a outra.

Foi desgastante, mas ela finalmente conseguiu encerrar o assunto.

Ao menos externamente.

Porque, a cada dia que passava, um desespero silencioso se acumulava em seu peito. O sentimento que deveria enfraquecer com o tempo — diluir-se na distância — permanecia ali, pulsando.

Dividir as aulas com ele não ajudava. Ela vinha sendo meticulosa em não permitir que seus olhares se encontrassem. Mantinha uma distância física calculada, escolhia lugares estratégicos, saía apressada no fim das aulas para evitar esbarrões inevitáveis.

Ainda assim, a simples consciência de que ele estava no mesmo ambiente já era suficiente para que o ar parecesse rarefeito.

No Salão Principal, passou a se sentar sempre de costas para a mesa da Sonserina. Mais do que nunca, evitava corredores e horários que sabia serem comuns a ele.

Mas havia coisas que não podiam ser contornadas. Como a memória da voz dele. O jeito que ele a olhava como se ela fosse o único ponto firme em um mundo à beira do colapso

Tão difícil quanto lidar com sua nova condição era reaprender a viver sem ele participando da sua rotina. Sem aquele calor constante ao seu lado.

A Vitae Doloris queimava por dentro. Mas a ausência dele era uma chama diferente, mais íntima e talvez ainda mais devastadora.

No que dizia respeito a Harry, os meses restantes do ano foram marcados por introspecção e isolamento.

Ele passou a funcionar quase no automático. Comparecia às aulas, treinava quadribol e interagia quando o contexto exigia. Fora desses cenários, buscava qualquer brecha para ficar sozinho.

O salão comunal de sua casa tornou-se um ambiente evitado. Barulho demais. Presenças demais. Uma convivência que ele não tinha energia para sustentar.

No dormitório, entrava tarde, calculando o horário para que os colegas já estivessem adormecidos. Quando não conseguia evitá-los, fingia dormir. Virava-se para a parede e permanecia imóvel, como se o próprio corpo tivesse aprendido a se ausentar.

Seu semblante constantemente fechado era, na maioria das vezes, suficiente para afastar aproximações. Quando não era, ele se limitava a trocas monossilábicas. E, nos dias particularmente mais sombrios — o que, convenhamos, tornara-se frequente — a impaciência vinha acompanhada de rispidez, uma frieza cortante que encerrava qualquer tentativa de diálogo.

Curiosamente, assim como acontecera após seu conflito com Draco — quando Harry deixara claro que não cumpriria o desafio — ninguém o questionava diretamente sobre o seu atual comportamento. E, assim como naquela ocasião, ele tinha certeza de que havia o dedo de Draco no meio.

Sempre que estavam no mesmo ambiente, era notório o olhar fulminante e autoritário do loiro dirigido aos demais. Um aviso silencioso, uma ordem muda: Deixem ele em paz.

Depois da conversa que tiveram na enfermaria, Draco nunca mais tocara diretamente no assunto. Ainda assim, havia algo naquele comportamento que soava como compensação. Como se, nas entrelinhas, estivesse tentando consertar o que fosse possível entre eles.

Talvez nutrindo a ilusão de que o fato de Harry não tê-lo confrontado novamente significasse que tudo estava resolvido.

Em determinado momento, Draco o abordou para discutir uma solução alternativa à questão do título de Primus Sonserina, já que o desafio não fora cumprido.

Harry precisou recorrer a uma reserva de mansidão que nem sabia possuir para não explodir. O título lhe parecia grotescamente insignificante diante de tudo o que acontecera. Ainda assim, limitou-se a responder que Draco poderia fazer o que quisesse com aquela posição — só jamais conseguiria fazê-lo assumi-la.

A insatisfação do loiro era evidente. Contudo, em mais um comportamento surpreendentemente contido, Draco não insistiu.

Nada disso, porém, tinha peso real. Porque qualquer questão envolvendo reputação, títulos ou a maneira como era visto pelos outros tornava-se irrelevante quando Hermione surgia em sua mente.

Ela nunca deixara de habitar seus pensamentos. Seus sonhos — que frequentemente se transformavam em pesadelos. Seus devaneios involuntários.

Mas quando ele a via atravessar um corredor, sentar-se em uma mesa, mover-se distraidamente enquanto organizava os livros… o mundo parecia alterar a própria frequência.

Ele cumprira o que prometera. Depois daquela despedida na enfermaria, jamais voltara a abordá-la. Não houvera um único contato direto, nem mesmo um cumprimento.

E o fato de ninguém questioná-lo sobre o distanciamento dela — especialmente aqueles que seria esperado fazê-lo — só reforçava sua suspeita de que Draco inventara alguma explicação conveniente para justificar a aproximação anterior. Provavelmente com algo ainda relacionado ao desafio.

A ausência de questionamentos, entretanto, não tornava a perda mais suportável. Lidar com o vazio deixado por Hermione em sua rotina era dilacerante.

Era evidente o esforço dela para evitá-lo. Harry percebia o enrijecimento do rosto dela nas aulas compartilhadas, a postura contida, o olhar cuidadosamente desviado. Havia algo quase físico naquela barreira silenciosa que ela erguera — como um feitiço repelente, sempre alerta a qualquer risco de aproximação.

Cada gesto calculado dela era uma punhalada lenta. Somava-se a isso a consciência constante do sofrimento que ela enfrentava com o tratamento para manter a própria magia.

Harry sentira um alívio profundo ao saber que o ocorrido não se tornara público. Remo lhe contara sobre o acordo com Crabbe e Goyle — e que a iniciativa partira dela.

Aquilo não o surpreendera. O pouco tempo de convivência o fez perceber que Hermione não era orgulhosa no sentido trivial. Mas ser vista como vulnerável, como frágil, jamais faria parte de sua essência. Já bastava lidar com o preconceito velado — e às vezes explícito — por ser nascida trouxa. Se pudesse evitar qualquer nova etiqueta que a definisse por algo que lhe fora imposto, ela o faria.

Ainda assim, saber que ela sentia dor, que carregaria aquilo pelo resto da vida, e que, de alguma forma, a aproximação entre eles fora o gatilho de tudo... era insuportável.

Era justamente nesses momentos que ele censurava seu egoísmo por — em meio aquela nova realidade infeliz — ceder espaço para lamentar a ausência do toque dela, por sentir falta do sorriso direcionado exclusivamente a ele. Por recordar, com uma precisão quase cruel, o modo como o corpo dela reagia ao seu — a respiração que falhava, o arrepio que ele aprendia a reconhecer.

Por desejar, acima de tudo, sentir novamente o sabor adocicado dos lábios dela pressionando os seus, com aquela entrega intensa que ainda queimava em sua memória.

Sempre que seus pensamentos retornavam ao último momento em que estiveram juntos, era inevitável não sentir o mesmo arrepio percorrer sua pele ao lembrar-se de como declarara, de forma tão natural, que a amava.

E Harry não se arrependera daquilo em nenhum instante.

Ao contrário — depois de dias remoendo aquela confissão, chegou a alimentar a ilusão de que talvez ela tivesse sentido a verdade nas suas palavras. Que, em algum nível, aquilo pudesse ter tocado algo nela. Consertado o que já parecia irremediavelmente destruído.

Mas a distância cada vez mais evidente ao longo dos meses o empurrava de volta à realidade, à lembrança vívida do olhar dela naquele dia, às palavras duras, à forma como o fizera enxergar a si mesmo através de uma lente impiedosa.

E essa constatação persistente começava a transformar algo dentro dele — algo que se enrijecia cada vez mais, algo que o petrificava naquela sensação de perdição.

-XX-

As férias de verão não trouxeram alívio. Para nenhum dos dois.

Hermione retornou para casa carregando mais do que malas e livros. Levava consigo frascos cuidadosamente lacrados das poções que precisaria continuar tomando. As dosagens foram ajustadas para que pudessem ser administradas longe da ala hospitalar e curandeiros designados faziam visitas periódicas para avaliar seu progresso.

Mas sem os feitiços de isolamento profissional da enfermaria e sem a presença técnica de Madame Pomfrey a poucos passos, cada sessão era um exercício solitário de controle.

Principalmente porque agora havia algo que ela não conseguia afastar com magia: o olhar da própria mãe.

Havia sido um desafio imenso conter o desespero dela ao descobrir que Hermione sofrera um “acidente” que danificou sua magia. No ponto de vista da mãe, porém, havia sempre algo além: o vislumbre de que algo ainda mais irreversível pudesse ter acontecido.

E houve o momento mais difícil: quando a mãe, tomada pelo instinto de proteção, cogitou seriamente tirá-la de Hogwarts.

Hermione precisou reunir toda a firmeza que possuía para dissuadi-la. Minimizou o ocorrido, garantiu que estava sob acompanhamento constante e repetiu que sua saúde não corria nenhum risco.

É por isso que se gemesse de dor, se explanasse as tortuosas sensações a cada vez que tomava a poção, toda aquela narrativa ruiria. Ser vulnerável, mesmo em seu próprio lar, não era uma opção.

Para Harry, voltar para casa também não estava sendo sinônimo de descanso. Seu humor cada vez mais instável, somado à rispidez que se tornara quase reflexo, deixou o ambiente mais tenso do que já costumava ser. Respostas curtas à mesa. Silêncios prolongados. Um olhar constantemente endurecido.

O pai percebia e reagia como de costume: cobranças veladas, comentários sobre postura, responsabilidade, legado. Pequenas provocações que eram o suficiente para atiçar entre eles embates ásperos.

Sem que soubessem, ele e Hermione chegaram à mesma conclusão naquele verão: o sexto ano não poderia ser a continuação daquele abismo. Chega de confrontos exaustivos e de apenas sobreviver ao peso dos próprios sentimentos. Precisavam de uma trégua, deixar que as coisas seguissem o curso natural.

E, apesar das cicatrizes — as que marcavam a pele e as que se escondiam além — decidiram que tentariam reivindicar o que lhes restava: o direito de aproveitarem o final da adolescência plenamente. Sem dramas.

Ou, ao menos, fingindo que sabiam como apagar o que ainda ardia em brasa dentro deles.

-XX-

Assim que o ano letivo começou, Hermione aceitou o novo convite feito pela Professora McGonagall para tornar-se uma das monitoras da Grifinória.

O pedido não foi exatamente uma surpresa. No quinto ano, ela já havia o recusado educadamente. Argumentara que, embora fosse uma função honrosa, poderia comprometer projetos acadêmicos e programas estudantis nos quais estava profundamente envolvida.

Agora, era diferente. Hermione sabia que assumir mais essa responsabilidade combinava com a rotina cuidadosamente planejada que ela tentava reconstruir para si mesma. Com o controle que ela buscava recuperar.

De maneira quase contraditória —, ao mesmo tempo em que assumia mais deveres, ela começou a permitir-se envolver mais em momentos de entretenimento.

Como era típico das turmas do sexto ano, as reuniões nos fins de semana tornaram-se mais frequentes. Pequenas festas improvisadas no salão comunal da própria casa, com música alta, risadas soltas e conversas que se estendiam até mais tarde. Antes, aquilo raramente a atraia, preferindo deitar cedo ou adiantar leituras. Agora, participava sem tanta relutância.

Aproveitava sem excessos, obviamente. Continuava assumindo quase automaticamente seu papel de cuidar das amigas que se aventuravam mais, garantindo que ninguém ultrapassasse limites.

Mas, entre músicas altas e gargalhadas desmedidas, havia algo que ela não podia negar: aqueles momentos funcionavam como um anestésico. Uma pausa temporária da própria mente.

E foi justamente nesse contexto que Hermione começou a perceber algo curioso: estava sendo abordada com uma frequência notória por Ronald Weasley.

Eles eram do mesmo ano, mas o ruivo possuía comportamentos e traços de personalidade bastante destoantes do que Hermione costumava considerar atraente. Além de possuir um temperamento impulsivo e um humor às vezes imaturo.

Somado a isso, houve momentos no passado em que ele — assim como outros garotos da Grifinória — já a tomara como alvo de piadas tolas e de provocações tipicamente juvenis. Nada grave. Ainda assim, não eram exatamente memórias lisonjeiras.

Dessa vez, porém, ele parecia diferente. Ou, ao menos, tentava parecer. Mostrava-se mais suportável. Procurava oportunidades para estar perto, para acompanhá-la, para criar pequenas conexões que nunca existiram.

E, antes que percebesse exatamente como, Hermione logo se viu aceitando namorar com ele.

Foi algo prático. Sem o frio no estômago que ela sabia ser possível sentir — pelo menos não da parte dela.

Ronald, por outro lado, parecia genuinamente empolgado. Ele assumiu o compromisso com entusiasmo visível, especialmente quando percebeu que não enfrentou grande resistência.

A princípio, assumir um compromisso público — principalmente depois de toda a exposição do ano anterior — não estava exatamente nos planos de Hermione. Não combinava com a discrição que pretendia manter.

Mas houve um fator decisivo: Harry parecia ter seguido em frente com uma fluidez quase irritante.

Os comentários surgiam mesmo quando ela não queria ouvir: no salão comunal, meninas cochichando sobre ele ter sido visto com uma garota da Corvinal. Na biblioteca, rapazes comentando que ele andava ficando com alguém da Lufa-Lufa. No banheiro feminino, relatos exagerados sobre beijos trocados tarde da noite em algum corredor pouco iluminado.

Para o desgosto de Hermione, cada novo rumor causava uma náusea visceral. Um aperto traiçoeiro no estômago.

A constatação foi brutal: a simples ideia de Harry com outra ainda tinha poder sobre ela.

E foi essa percepção — não o entusiasmo por Ronald, não a expectativa de romance — que a empurrou para frente, como uma tentativa de provar para si mesma que estava no comando. Que não estava presa a um sentimento unilateral. Mesmo que, no fundo, ela ainda não tivesse certeza se estava realmente avançando… ou apenas reagindo.

Enquanto aquela realidade permanecia confinada apenas na mente de Hermione, era relativamente mais fácil de lidar. O problema começou quando Ginny chegou, sem esforço algum, à mesma conclusão.

A ruiva era a única que sabia que o rompimento com Harry teve conexão com o que havia acontecido a Hermione. Afinal, fora Ginny quem avisara ao garoto de que ela tinha ido até a floresta atrás dele.

Para seu alívio, Hermione encontrou na amiga confiança suficiente para que aquele assunto não fosse revelado a mais ninguém. Embora, infelizmente, não pudesse contar com ela para apoiar seu namoro com o irmão.

— A culpa não é minha se você é o filho idiota da nossa mãe!

Ginny gritou, sua voz ecoando pela sala comunal ao mesmo tempo em que Ronald saía abruptamente pelo retrato da Mulher Gorda.

— Sinceramente, às vezes eu me pergunto como somos da mesma família. — acrescentou, virando-se para Hermione, que estava sentada em uma poltrona massageando as têmporas. — Você viu isso?

— Já disse para vocês dois que não vou servir de árbitra nessas discussões. — respondeu Hermione, exasperada.

Ginny bufou e se jogou na poltrona ao lado.

— Um dia você vai entender melhor o que estou dizendo. Quando aceitar de vez que a sua relação com ele não passa de uma bengala.

Hermione arregalou os olhos imediatamente, olhando ao redor para conferir se alguém tinha escutado.

— Merlin, para com essas piadinhas, Ginny. Se alguém escutar…

— Ah, por favor. — a ruiva inclinou-se um pouco mais perto dela, baixando o tom apenas o suficiente. — Estou errada, por acaso? Você ir do Potter para o meu irmão não é nem uma queda. É um desabamento.

Hermione respirou fundo, claramente tentando manter a calma.

— Pensei que você preferisse que sua amiga estivesse com alguém que realmente gosta dela.

— Eu prefiro que minha amiga esteja com alguém de quem ela goste também. — respondeu Ginny, sem rodeios.

— Nós não vamos voltar a esse assunto.

— Claro que não — disse Ginny, revirando os olhos. — Eu só acho que você está perdendo seu tempo com alguém que não vai te acrescentar em nada. E a química entre vocês? Argh. O Ron está completamente envolvido… e você parece que ainda está tentando se convencer. Qualquer um pode ver isso.

Ginny já havia deixado claro várias vezes: não acreditava que Harry tivesse feito algo para prejudicar Hermione, independentemente do que tivesse acontecido — embora ela, assim como os outros, não soubesse dos detalhes.

Pelo contrário, a ruiva frisava que Harry havia ficado preocupado. Surpreso, até, com a informação de que Hermione tinha ido até a floresta.

E, embora Hermione por vezes se visse tentada a ceder ao ponto de vista da amiga, rapidamente ela dissipava qualquer resquício de inclinação.

Ainda assim, foram confrontos como esse — a forma como Ginny vinha apontando que parecia cada vez mais evidente que Hermione não era tão recíproca assim com o namorado — que a levaram a ceder a mais uma investida de Ron, permitindo que o relacionamento deles avançasse para um nível de proximidade maior.

Hermione entregou sua virgindade a ele acreditando — ou querendo acreditar — que o ato em si poderia despertar algo mais profundo, mais verdadeiro entre eles. Que a intimidade física, enfim, faria florescer o afeto que ela tanto desejava sentir.

Mas a frustração foi inevitável.

Ron claramente se esforçava, à sua maneira, para que fosse agradável para ela. Ainda assim, durante aqueles momentos, era evidente que ele parecia ser o único que realmente estava completamente satisfeito.

Nas primeiras vezes, ele ainda perguntava, com uma mistura de insegurança e expectativa, se ela havia gostado. Hermione respondia com monossílabos e sorrisos frágeis, aliviada quando, com o tempo, as perguntas simplesmente cessaram.

Mentir deixava tudo mais constrangedor.

Porque cada resposta afirmativa reforçava uma vergonha que queimava dentro dela: naqueles instantes mais íntimos, sua mente se recusava a estar presente. Não havia espaço para Ron. Havia apenas Harry — a imagem, a sensação imaginada de suas mãos, do seu olhar. Era com ele que ela fantasiava ter vivido aquele momento pela primeira vez. Era ele quem, em segredo, ocupava cada recanto proibido de sua imaginação.

E ela se repreendia por isso. Tentando organizar os próprios pensamentos, apelando para o bom senso. Mas quanto mais buscava racionalizar, mais claro ficava o diagnóstico cruel: mente e coração estavam irrevogavelmente entrelaçados.

E foi então que o medo a atingiu, visceral e real. Hermione temia o que restaria de si mesma se permitisse que aquela presença invisível continuasse a governar cada pensamento, mesmo enquanto se refugiava nos braços de outro.

Apavorava-a a suspeita de que aquele amor, sussurrado apenas para si mesma, fosse uma força maior do que a própria mágoa — uma chama persistente que ameaçava se prolongar por um tempo indeterminado, vasto demais para que ela pudesse, algum dia, fingir que não existia.

-XX-

Embora não tivesse assumido o título de Primus Sonserinae, Harry ainda precisou lidar com algumas responsabilidades logo no início do ano.

A melhor delas, sem dúvida, foi ter se tornado capitão do time de quadribol. Aquilo lhe dava ainda mais justificativa para passar horas no campo — um bom uso do tempo que o fazia se sentir mais leve, como se ali conseguisse, ao menos por um tempo, respirar sem o peso constante que carregava.

A pior, por outro lado, foi não poder recusar quando o professor Snape o nomeou como um dos monitores da Sonserina.

Em outros tempos, além de ser um convite completamente sem fundamento, ele não pensaria duas vezes antes de negar. Mas se submeter a ficar “a serviço” de Snape fazia parte da compensação pelo professor ter concordado — em meio a uma relutância irritante — em ajudá-lo com projetos importantes.

Em meio à rotina corrida, ele voltou a interagir com seu grupo de amigos. O conforto prático na frieza sonserina e a falta de questionamentos emocionais facilitaram bastante as coisas.

Entretanto, como era de se esperar, com Draco houve mudanças.

Eles continuavam andando juntos, quase como um hábito natural da convivência, mas Harry havia reduzido bastante a liberdade e a espontaneidade com que tratava o amigo antes. Draco, por sua vez, não fazia cobranças. O comportamento menos hostil de Harry parecia ser suficiente para o loiro.

Sem nada que o obrigasse a voltar àquele assunto que o havia consumido no ano anterior, Harry se esforçava para seguir seus dias com naturalidade.

Ou, ao menos, algo próximo disso.

As festas da Sonserina — famosas por seus extremos e intensidade — permitiam que ele se perdesse um pouco mais nos excessos daquele mundo.

Harry colecionava encontros como se aquilo fosse apenas uma parte banal da rotina, cuidando para que nenhum rosto se tornasse familiar demais.

Sua preferência recaía sobre as alunas do sétimo ano; o prazo de validade acadêmico delas era uma garantia de que não precisaria lidar com insistências ou expectativas por muito tempo. Também passou a evitar garotas da própria Sonserina, principalmente depois que duas delas duelaram por sua atenção — um espetáculo que inflaria o ego de qualquer outro garoto. Para Harry, no entanto, era uma perturbação em algo que deveria ser um escape relaxante.

Deveria.

Porque o efeito estava longe de ser o esperado. A intenção era se anestesiar, se perder por algumas horas. Mas antes mesmo que conseguisse sentir a satisfação típica daqueles momentos, sua mente o traía. E o puxava, com violência, para Hermione.

Para o sorriso dela. Para as sensações que ela despertava nele. Para a voz suave dela ecoando em seus ouvidos em momentos que eram só deles.

E então tudo perdia o sentido. Cada tentativa de ter um momento em que não precisasse raciocinar sobre o desgaste da própria vida ia por água abaixo.

Mas qualquer cenário complicado se tornou brincadeira de criança diante da sensação quando ele descobriu que Hermione havia começado a namorar Ronald Weasley.

Um ruivo — atual goleiro da Grifinória — a quem Harry mal se dava ao trabalho de observar nos jogos, já que ele estava longe de ser um grande destaque.

Mas depois daquela confirmação, foi como se tudo de ruim na vida de Harry tivesse se personificado nele.

Aquele desgraçado.

Não foram poucas as vezes em que Harry criou situações para provocar embates diretos com o Weasley. A ponto de, em duas ocasiões, acabar levando detenções severas por partir para agressões físicas.

Uma vez depois de um jogo. Outra no pátio principal, durante um conflito entre amigos em comum.

Eram oportunidades. Válvulas de escape para toda a frustração que era saber que agora era ele quem tinha Hermione em seus braços. E, pior do que tudo, tinha o coração dela.

Harry sabia que não tinha esse direito. Era quase uma quebra da promessa que fizera quando garantiu que não se meteria mais na vida dela. Que não seria um estorvo.

Mas a única coisa que ainda lhe restava era pensar nela. Imaginar que, em algum lugar dentro dela, Hermione ainda o desejava. Como eles poderiam estar agora, se nada daquilo tivesse acontecido.

E constatar que ela estava seguindo em frente — sem precisar apelar para uma vida vazia sem compromissos. Uma vida que legitimava um cara que não se importava com mais nada além de si mesmo — quase uma tentativa desesperada de se tornar exatamente aquilo que Hermione agora via quando olhava para ele... tornava tudo, insuportavelmente, pior.

Foi a partir daí, numa investida que, para ele, parecia perfeitamente lógica, Harry decidiu seguir justamente na direção que antes jurara evitar.

Se ficar com garotas como mero entretenimento não chegara nem perto de esvaziá-lo sentimentalmente, talvez assumir um compromisso pudesse ajudar. Talvez aquilo fosse capaz de, finalmente, fazê-lo superar a ausência de Hermione.

E, se havia alguém ali por quem ele, se pudesse, escolheria se apaixonar, era Daphne Greengrass.

Ela era sua única amiga próxima do sexo oposto. A única que, mesmo nutrindo sentimentos por ele havia muito tempo, jamais permitiu que a falta de correspondência de Harry interferisse na amizade entre os dois.

Com isso em mente, ele passou a investir naquela ideia, ficando com ela em algumas ocasiões. Foi aí que Harry se deu conta: o sentimento de Daphne continuava ali — intacto, torcendo para que ele avançasse.

E ele avançou.

O início do namoro deles foi um verdadeiro acontecimento na Sonserina. Amigos em comum comemoraram como se aquilo fosse algo que já deveria ter acontecido há muito tempo. Para todos, parecia fazer sentido.

E, de certa forma, Harry não tinha do que reclamar.

Daphne era carinhosa, bonita, uma companhia agradável. E se mostrava segura o suficiente para permitir que o relacionamento deles avançasse rapidamente, sem cobranças exageradas ou inseguranças.

Mas era justamente nesses momentos que Harry se sentia um completo canalha.

Porque, por mais apaixonada que fosse sua entrega, era sempre Hermione quem invadia sua mente. Quando beijava Daphne, era a boca de Hermione que ele desejava provar de verdade. Quando os dedos dela deslizavam por sua pele com desejo, era a maciez imaginada das mãos de Hermione que ele sentia explorando-o.

E quando estavam unidos, no auge do prazer, seu corpo ardia — sim, de êxtase, mas também de um remorso cortante. Porque, nos instantes em que deveria se perder por completo com sua namorada, ele se via abraçando Hermione em vez dela. Imaginando o corpo dela se movendo sob o seu, o suspiro dela em seu ouvido, o olhar castanho que o desarmava.

Com o passar dos dias, tornava-se cada vez mais frustrante perceber que ele continuava estagnado naquele impasse.

Havia, porém, algo que Harry aceitava com uma ponta de gratidão: poder contar com Theodore Nott — claro, com as ressalvas de praxe.

Theo era perspicaz o bastante para ter compreendido, desde o início, que o que vira entre Harry e Hermione na biblioteca não tinha o menor parentesco com o desafio. E talvez fosse o único ali — além de Draco — que realmente sabia que aquilo tinha sido verdadeiro.

O amigo tornara-se a única pessoa com quem ele podia, de vez em quando, baixar a guarda.

— Daphne está à sua procura — anunciou Theo, surgindo das sombras do corredor

Harry virou a cabeça devagar na direção do amigo.

— É... eu vou falar com ela — respondeu ele, antes de dar um gole longo na cerveja amanteigada, sentindo o calor do líquido contrastar com o ar frio das masmorras.

Ele havia escolhido um nicho de pedra mais isolado, do lado de fora do salão comunal. Lá dentro, a festa da Sonserina rugia com risadas estridentes e uma música rítmica que fazia as paredes vibrarem, mas ali fora, o som chegava apenas como um eco abafado e irritante.

— Só precisava de um momento longe do caos.

Theo se encostou na parede úmida ao lado dele, observando-o com uma expressão ponderada.

— Eu pensei que as coisas... bem... que ficariam mais fáceis para você depois que decidiu assumir algo sério com ela.

Harry o encarou por um breve instante, entendendo perfeitamente a que o garoto se referia.

— Eu também achei — admitiu Harry, voltando os olhos para o redemoinho dourado dentro de seu copo. Ele hesitou, o semblante obscurecido. — A Daphne é... ela é incrível. Mas parece que a minha situação é mais complicada do que eu imaginava.

Theo soltou um suspiro pesado.

— Pode ser que você só precise de mais tempo. De qualquer forma... — continuou, tentando soar mais leve — Estamos quase chegando ao sétimo ano. Falta pouco para terminarmos a escola. Logo você não terá que ver a Hermione todos os dias. Talvez nunca mais precise olhar para ela.

Harry retribuiu com um meio sorriso que não chegou aos olhos; um gesto puramente mecânico.

— É — murmurou ele, sentindo o nome de Hermione ecoar como uma sentença em sua mente. — Só mais um ano.

Notes:

Sei que capítulos com menos diálogo nem sempre são os mais empolgantes, mas foi necessário para entendermos melhor como cada um lidou com tudo — e como isso contribuirá para a maturação dos dois até chegarmos ao momento da nova colisão entre eles.

Claro, além de incluir informações muito importantes para a relação deles lá na frente 👀

E para quem já está com saudade das interações diretas do nosso casal… no próximo capítulo elas voltam com tudo.
E sim, os refrescos também estão voltando, prometo 🤭❤️

Obrigada pelo apoio de sempre!

Chapter 9: Reaproximação Compulsória

Summary:

Mais um capítulo pra vocês 🥰

Chapter Text

1997

Sétimo Ano

Os corredores do Ministério da Magia estavam tomados por um burburinho constante naquela manhã. Vozes animadas, comentários apressados e até algumas discussões atravessavam o amplo saguão enquanto o grupo de alunos do sétimo ano avançava em conjunto.

As aulas haviam começado a menos de um mês, mas, para a maioria deles, aquele era o momento mais aguardado da vida acadêmica.

O programa de estágio supervisionado da disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas, realizado em parceria com o Departamento de Execução das Leis da Magia, era considerado um dos grandes diferenciais de Hogwarts. Mais do que aulas e teoria, oferecia aos quase formandos o primeiro contato real com o trabalho de campo — com investigações e patrulhas.

Harry caminhava junto aos colegas com uma expectativa vibrante pelo que viria a seguir.

Ele havia cogitado a possibilidade de que seu pai pudesse aparecer de alguma forma envolvido na supervisão do programa — algo que tornaria tudo desconfortavelmente complicado.

Mas, quando foi confirmado que quem conduziria a turma seria Sirius Black, seu padrinho e atual Comandante das Operações Especiais do Departamento de Aurores, a tensão inicial desapareceu imediatamente.

Se havia alguém capaz de tornar aquela experiência ainda melhor, era Sirius.

— Boa tarde a todos! Sejam muito bem-vindos! — anunciou ele assim que o grupo se reuniu em um amplo corredor do departamento.

Sirius falava com sua animação típica, mas havia também firmeza em sua postura — o tipo de presença que deixava claro que, apesar do sorriso fácil, ele continuava sendo um dos aurores mais respeitados do Ministério.

— Como vocês já devem saber, a parceria entre Hogwarts e o nosso departamento já dura há mais de dez anos — continuou. — E tem trazido ótimos resultados.

Seu olhar percorreu o grupo antes de parar brevemente em Harry.

— Principalmente para aqueles que pretendem se tornar auror um dia.

Harry não conseguiu evitar o sorriso satisfeito que surgiu em resposta.

— Durante o estágio, vocês irão atuar junto com algumas equipes em investigações de casos… menos fatais, digamos assim — Sirius acrescentou, com um leve tom de humor. — Aqui será a parte ativa: investigação, coleta de informações e prática em campo.

Alguns alunos trocaram olhares empolgados.

— Em Hogwarts, vocês continuarão acompanhando a parte teórica em sala com o professor Lupin, além de cumprir alguns deveres extras.

Uma onda de murmúrios animados percorreu o grupo.

— Agora — disse Sirius, batendo palmas uma vez — vamos nos dirigir à sala dos estagiários, onde faremos a divisão das equipes. Será por sorteio. Cada grupo terá cinco integrantes.

Ele abriu caminho pelo corredor.

— Sigam-me.

A empolgação geral aumentou, mas Harry mal teve tempo de apreciar o momento.

Porque, ao lado dele, Draco começou a resmungar.

— Patético — sibilou o loiro, claramente irritado. — Sorteio? Sério? Como se não bastasse sermos obrigados a participar desse circo, ainda corro o risco de cair na mesma equipe que alguém da Grifinória.

— Que tragédia — murmurou Pansy logo atrás deles.

— Só de imaginar o cheiro de mofo e coragem barata já me dá ânsia de vômito.

Harry soltou um suspiro baixo e resignado.

Percebendo que Draco parecia disposto a repetir aquilo pelo resto do trajeto, ele diminuiu o passo discretamente, deixando o loiro avançar à frente — e, consequentemente, incomodar os ouvidos de outra pessoa.

Foi então que sentiu alguém se aproximar ao seu lado.

— Só pra deixar claro, Potter — disse uma voz familiar e provocativa —, se eu der o azar de cair na sua equipe, não vou ser seu escravinho.

— Sabe como é... — continuou, arqueando uma sobrancelha — os sonserinos e essa síndrome do “todo-poderoso”…

Ron Weasley falava baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse, lançando-lhe um sorriso debochado.

Harry o encarou por um instante, divertido.

— Não precisa tentar se enganar, Weasley. — inclinou um pouco a cabeça. — Seria um prazer imenso para você passar mais tempo na minha companhia. Está na cara que você sente a minha falta.

Então sorriram — cúmplices, quase conspiratórios — antes de se afastarem novamente, como se nada tivesse acontecido.

Harry ainda achava curiosamente insano o fato de que o pouco tempo de contato que tivera com o ruivo no último mês tivesse sido suficiente para criar entre eles aquela sutil… afinidade.

Flashback — Férias de Verão

Harry estava sentado no chão, recostado contra a parede de pedra clara, observando as nuvens que deslizavam lentamente pelo céu.

Era o segundo dia da Semana de Honrarias do Ministério, um evento anual criado para celebrar funcionários que haviam se destacado em seus departamentos. Durante uma semana inteira, o Ministério abria parte de suas áreas externas para uma programação que misturava discursos, premiações e atividades para as famílias: jogos, apresentações mágicas, duelos amistosos e até pequenas partidas de quadribol improvisadas.

Como sempre, Harry viera mais por insistência da mãe do que por vontade própria. Seu único alívio era saber que Remo e Sirius estariam por ali em algum momento — e, em anos anteriores, alguns colegas da Sonserina costumavam aparecer acompanhando os pais, o que tornava tudo um pouco menos entediante.

Mas, naquela ocasião, nenhum deles havia vindo.

O resultado era simples: isolamento.

Sua mãe ainda tentava convencê-lo a ficar mais próximo da família, ou, ao menos, participar de alguma atividade. Mas a ideia de assistir a mais um discurso do pai sobre seus grandes feitos — e ainda precisar manter uma expressão neutra para não acabar “estragando o momento” — era pedir demais.

Ainda naquele estado de quieta resistência, Harry mal percebeu quando alguém se aproximou.

— Vai acabar torcendo o pescoço desse jeito.

Ele virou o rosto. Uma garota de longos cabelos ruivos o observava com um sorriso divertido.

— Ah… oi, Ginny.

— Desde ontem eu notei que você estava… — ela fez um gesto vago com a mão — imerso em solidão.

O tom era leve, quase brincalhão.

— Então pensei em fazer uma boa ação hoje.

Harry arqueou uma sobrancelha.

— Meu time está precisando de um apanhador — continuou ela, inclinando a cabeça na direção de um espaço mais à frente, onde alguns jovens estavam reunidos jogando quadribol. — Não quer se juntar a nós?

O olhar de Harry seguiu automaticamente para o local indicado. E logo encontrou a cabeleira ruiva de Ron à distância.

O rosto do garoto estava avermelhado enquanto bufava, visivelmente contrariado pela irmã estar ali.

Harry exibiu um meio sorriso forçado.

— Acho que seus amigos não querem a minha presença lá.

— Que nada — Ginny respondeu de imediato. — Eles sabem que, se você entrar, o jogo fica mais interessante.

— Você acha mesmo uma boa ideia eu ficar perto do seu irmão? Já ficou bem claro na escola que ele e eu próximos…

— …é um perigo — completou Ginny revirando os olhos, em seguida virou o rosto para observar a expressão desgostosa de Ron. — Não leva pro pessoal essa cara de sapo dele. Ele só está… se recuperando de um baque daqueles.

O tom dela ganhou um ar sugestivo.

— Digamos que ele ainda não superou muito bem o “fora” que levou da namorada antes das férias.

Harry quase engasgou. O corpo dele se moveu instintivamente, denunciando a surpresa.

Ginny abriu um sorriso malicioso, como se soubesse exatamente o efeito que aquela informação tinha causado.

— E então? — ela insistiu. — Vai sair desse mofo e se mexer um pouco?

Antes mesmo de perceber, Harry já estava se levantando.

Ele assentiu com a cabeça, enquanto uma energia eufórica percorria seus músculos — como se o corpo inteiro estivesse pedindo movimento, adrenalina.

Fim do flashback.

Saber que Ron não tinha mais um relacionamento com Hermione — e, principalmente, que tinha sido ela quem tomara a iniciativa de terminar — provocou em Harry uma onda de bem-estar que ele não experimentava havia muito tempo.

Os motivos ainda eram desconhecidos por ele, e talvez continuassem sendo. Mas aquela informação, por si só, fora o suficiente para reafirmar o quanto o seu sentimento latente por Hermione ainda ditava a oscilação de seu humor.

Ao aceitar o convite de Ginny, Harry não esperava que o ruivo se mostraria menos hostil do que imaginara, principalmente depois dos conflitos entre eles no ano anterior.

Na verdade, bastou que Harry fizesse alguns comentários durante o jogo sobre como o vento estava mudando a trajetória da goles, sobre a forma como um dos batedores estava errando o tempo das rebatidas, e até sugerir uma jogada para atrair o goleiro para o lado errado do aro — para que a conversa entre eles fluísse. Como se Ron fosse uma criança facilmente atraída por um assunto do seu interesse.

Durante aquela semana, entre partidas improvisadas e algumas provocações leves, os dois acabaram desenvolvendo uma convivência inesperadamente agradável, onde Harry concluiu que o ruivo era dotado de uma personalidade solar e descomplicada que destoava drasticamente da frieza e do cinismo que ele encontrava por vezes entre alguns colegas de casa.

Ainda assim, havia algo que Harry não conseguiu deixar de notar: o fato de Ron parecer não fazer ideia do que realmente havia existido entre ele e Hermione. Dos detalhes, da profundidade. Ou, ao menos, de como tudo tinha terminado.

Aquilo deixou bastante claro: ela devia ter omitido muita coisa. Talvez tudo.

E, por mais que tentasse não pensar demais sobre isso, ele acabou se perguntando se aquilo era algo positivo… ou negativo.

Poucos instantes depois, já no presente, todos haviam chegado à sala dos estagiários.

O ambiente era amplo, com várias mesas dispostas. Estantes altas ocupavam boa parte das paredes, repletas de arquivos e pastas etiquetadas com nomes de casos e datas. Em alguns pontos, quadros mágicos exibiam mapas do mundo bruxo e registros de ocorrências recentes que se atualizavam sozinhos com pequenos flashes de luz.

— Agora vamos iniciar o sorteio — anunciou Sirius, posicionando-se à frente da sala.

Ele ergueu a varinha, e um pequeno globo de vidro surgiu no ar, girando lentamente. Dentro dele, vários pergaminhos minúsculos se misturavam, embaralhando-se com magia.

— Cada nome será chamado a partir daqui — explicou Sirius. — E o próprio globo vai organizar os grupos.

O objeto brilhou levemente, fazendo o primeiro nome surgir flutuando no ar.

Depois da formação dos quatro primeiros grupos — que incluía um Draco visivelmente revoltado por ter caído em uma equipe com três integrantes da Grifinória — Sirius prosseguiu.

— Vamos continuar.

O globo girou novamente.

— Daphne Greengrass, Sonserina.

— Susan Bones, Lufa-Lufa.

— Neville Longbottom, Grifinória.

Os três começaram a se dirigir para o espaço indicado por Sirius, onde cada equipe estava se organizando.

O globo brilhou outra vez.

— Harry Potter, Sonserina.

Harry deu um passo à frente. Mas, antes que ele alcançasse o grupo, as palavras seguintes fizeram seu corpo estancar.

— Hermione Granger, Grifinória.

Por um instante, foi como se uma corrente elétrica percorresse todo o seu corpo. Lentamente, Harry virou o rosto na direção de onde já havia notado que Hermione estava.

Ela parecia incrédula.

Os olhos ligeiramente arregalados, a boca entreaberta — como se estivesse prestes a protestar com veemência. Mas não o fez.

Antes que qualquer reação dela se concretizasse, Harry desviou o olhar, como já havia aprendido a fazer. Ainda assim, sentiu quando ela começou a se aproximar a passos lentos e contidos, até parar ao lado dele e dos demais integrantes da equipe.

Tudo ao redor pareceu distante, quase borrado. As vozes, os movimentos, o restante do sorteio — nada parecia realmente alcançar Harry.

Ele só voltou a prestar atenção quando a voz de Sirius soou um pouco mais firme.

— As equipes formadas permanecerão juntas até o final do período obrigatório do estágio. Vocês serão o apoio uns dos outros. Farão tarefas, irão a campo e também precisarão realizar reuniões e cumprir todos os deveres em Hogwarts juntos.

Sirius fez uma pausa teatral.

— Então, tratem de se dar bem.

Alguns alunos riram.

— Agora vamos continuar o tour pelo Ministério. A parte prática começa apenas a partir da semana que vem.

O grupo começou a se dispersar para acompanhar Sirius, mas, como se estivessem presos por um fio invisível e comum, Harry e Hermione permaneceram estáticos.

Foi quando os olhares finalmente se cruzaram. E Harry não conseguiu ignorar a batida irregular do próprio coração naquele momento.

Mas a conexão logo se desfez.

Hermione foi a primeira a se mover. Descruzou os braços — que até então permaneciam tensos junto ao corpo — e avançou em passos rápidos para alcançar os demais, deixando Harry para trás ainda parado enquanto tentava neutralizar novamente a respiração.

-XX-

A semana de Hermione transcorreu em um estado de desordem mental que ela considerava, no mínimo, ultrajante.

Ela se via estagnada nas aulas, a mão — que costumava disparar para o ar antes mesmo dos professores terminarem as perguntas — permanecia pesada sobre a mesa. Lia e relia o mesmo trecho dos livros várias vezes sem realmente absorver o que estava escrito. Até suas rondas como monitora, antes executadas com uma precisão cirúrgica, haviam se tornado fardos confusos. O que era, por si só, uma negligência inadmissível. Afinal, ela acabara de ser nomeada Monitora-Chefe.

Como se não bastasse, ela virou motivo de chacota entre suas amigas. Elas descreviam com malícia como Hermione ultimamente reagia a qualquer pergunta com um “o quê?” atordoado e uma expressão quase caricata de quem acabara de cair de paraquedas na conversa. A garota mais brilhante da idade dela agora parecia precisar de um mapa para encontrar o próprio raciocínio.

Hermione tentava ignorar, mas, no fundo, a irritação vinha do fato de que elas não estavam erradas.

Lidar com aquele novo cenário — ter que atuar diretamente com Harry, e consequentemente, conviver com ele — era uma variável desestabilizadora.

Assim que o auror Sirius Black anunciou que os grupos seriam formados por sorteio, foi como se sua mente tivesse antecipado exatamente o que poderia acontecer.

E, naquele instante, toda a sua concentração se dissolveu.

Enquanto os nomes começavam a ser chamados, Hermione sequer ouvia de fato. Estava ocupada demais em uma súplica desesperada e irracional ao destino.

Na equipe dele não. Na equipe dele não.

As palavras repetiam-se em seu subconsciente, rítmicas e frenéticas como um feitiço de proteção. Mas foi inútil.

Quando ouviu seu nome sendo chamado logo depois do dele, Hermione precisou reunir todo o autocontrole que conseguiu encontrar dentro de si para não protestar ali mesmo. Para não contestar aquela absurda coincidência. Para não deixar transparecer o quanto aquilo a afetava.

Dividir o grupo com Harry não era um mero inconveniente. Era a ruína de toda uma jornada exaustiva para manter distância. Distância do olhar dele, da presença dele e, principalmente, daquela lembrança traiçoeira — que queimava em sua memória como fogo de dragão — de como era sentir a pele dele contra a sua.

E, mais do que nunca, a certeza de que Harry Potter ainda tinha o poder de desestruturar tudo dentro dela só reforçava a conclusão de aquilo não era apenas um problema. Era o prenúncio de uma catástrofe.

Certo… por essa eu não esperava.

Ginny falou devagar, ainda assimilando a informação, a expressão de espanto tão evidente que Hermione quase se arrependeu de ter se dado ao trabalho de explicar à amiga o motivo de estar tão fora de si naquela semana.

— E agora? — a ruiva perguntou, cruzando os braços.

— Agora nada — retrucou Hermione, o tom de voz subindo um oitavo pela impaciência. — Eu não tenho escolha. O grupo deve permanecer formado enquanto o estágio for obrigatório até o final do ano. Vou ter que suportar ele até lá.

— Bom... olhe pelo lado positivo: podia ser pior. Imagine se o Ron tivesse caído na mesma equipe. — Ginny abriu um sorriso travesso. — Se isso acontecesse, eu faria questão de levar uma poltrona e assistir a cada reunião de vocês de camarote.

— Honestamente, comentários como esses me levam a reavaliar a nossa amizade — Hermione retrucou, disparando um olhar que era um misto de censura e descrença.

Ginny caiu na risada e se aproximou, sentando-se ao lado dela e dando um empurrãozinho de ombro.

— Ah, é brincadeira, sua boba! Só estou tentando evitar que você sofra uma combustão espontânea antes do jantar. — A expressão de Ginny suavizou, tornando-se subitamente séria e compassiva. — Eu sei que... bem... que essa história toda ainda te faz querer desaparatar para outro continente.

Hermione desviou o olhar para um ponto fixo na lareira, os dedos mexendo nervosamente na barra da saia.

— Eu só... — murmurou, a voz perdendo a rigidez. — Só quero terminar este ano e cortar, de uma vez por todas, cada elo indesejável que ainda me prende a ele.

O silêncio caiu sobre as duas, quebrado apenas pelo estalar do fogo. Então, Ginny retomou a palavra, desta vez com um tom cauteloso.

— E qual é o plano de guerra? Sabe... para não azarar ele no primeiro “bom dia”?

Hermione imediatamente endireitou a postura, como se aquilo a ajudasse a recuperar um pouco de controle.

— Eu vou agir como a mulher madura e sensata que sou.

Ginny ergueu uma sobrancelha.

— E vou limitar qualquer interação ao mínimo necessário — continuou Hermione, firme. — Amanhã já teremos a primeira reunião do grupo na biblioteca, para organizar o planejamento inicial do estágio. E eu pretendo quebrar o gelo com a mais absoluta indiferença.

A ruiva observou a amiga por longos segundos. Uma mistura de incredulidade e diversão passou pelo seu rosto, mas ela preferiu não dizer nada. Hermione parecia perigosamente convencida da própria estratégia.

Mas Ginny estava certa de algo: se Hermione continuasse respirando daquele jeito curto e tenso, amanhã ela não quebraria apenas o gelo. Ela acabaria derretendo toda a sua fachada de menosprezo antes mesmo de Harry abrir a boca.

-XX-

Harry cruzou o portal da biblioteca ao lado de Daphne para a primeira reunião do grupo do estágio de DCAT. Durante boa parte do caminho, a garota falava animadamente sobre algo, mas Harry mal absorvia o que estava sendo dito. Sua atenção se mantinha fixada na mesa familiar ao fundo.

Desde o incidente no quinto ano, ele e Hermione nunca mais haviam trocado uma única palavra. E agora, eles estavam prestes a ficar frente à frente onde, outrora, fora um local tão deles.

Lembranças de sussurros ao pé do ouvido, sorrisos cúmplices e carícias contidas brilharam em sua mente, arrancando de seus lábios um suspiro silencioso e involuntário.

Mas a realidade o alcançou no instante seguinte. Três rostos se voltaram para eles quando já estavam próximos o suficiente: Neville, Susan e Hermione — que não fez o menor esforço para disfarçar a expressão quase intimidadora com que o encarava.

— Desculpem o atraso — disse Daphne, acomodando-se — Estávamos em outra aula.

— Sem problema — respondeu Neville rapidamente. — Nós também chegamos há pouco.

Susan apenas sorriu com simpatia, o que, de alguma forma, tornava a carranca de Hermione ainda mais hostil.

— Então… por onde começamos? — perguntou Susan, olhando para todos.

Daphne assumiu o controle com um tom prático:

— O Sr. Black mencionou que o ideal seria revezarmos a liderança da equipe. Podemos começar nomeando alguém. Creio que deveríamos iniciar com quem tenha um domínio nato sobre DCAT. E Harry é a escolha óbvia para nos orientar nesse primeiro momento.

— Somos uma equipe de cinco. — a voz de Hermione cortou o ar. — Acho mais prudente consultarmos a lógica de uma votação antes que você decida proclamar a liderança do seu... namoradinho.

O clima na mesa despencou.

— Não sei como funcionam as coisas nas masmorras — ela acrescentou, com um leve arquear de sobrancelha —, mas nas outras casas, ainda prezamos pela democracia.

Harry sentiu os músculos da mandíbula retesarem.

Merda.

Daphne se remexeu na cadeira, visivelmente desconfortável.

— Se você tivesse a cortesia de me deixar concluir — retrucou, as bochechas coradas de indignação —, saberia que eu ia abrir para votos. Meu voto, obviamente, é no Harry.

— Eu também voto no Harry — Susan concordou prontamente. — Ele é definitivamente o mais preparado de todos nós na parte prática.

O silêncio caiu sobre a mesa quando todos se voltaram para Hermione.

— Voto... no Neville — ela disse após um instante de hesitação calculada.

Neville soltou uma tosse seca, parecendo desejar que um alçapão se abrisse sob seus pés ao sentir o olhar inquisidor de Hermione.

— Eu... bem... — ele gaguejou, olhando de Harry para Hermione — Eu voto no Harry.

Hermione soltou um bufo mudo, revirando os olhos como resposta.

Harry percebeu que a situação era pior do que imaginara. Pelo jeito lidar com a indiferença de Hermione era bem menos torturante do que com aquele evidente rancor vivo que ela exalava.

— Sendo assim — Harry começou, a voz baixa e controlada enquanto organizava seus pergaminhos com uma calma fingida —, meu voto é irrelevante. Vamos iniciar os planejamento.

Contudo, não demorou para que a dinâmica desandasse. A cada observação que Harry arriscava, Hermione se manifestava, quase como um reflexo condicionado.

Suas intervenções vinham em rajadas: correções pontuais, complementos desnecessários ou simples refutações. Ela tratava cada fala dele como um rascunho mal acabado, algo incompleto ou equivocado — mesmo quando Harry sabia que não era o caso.

— Isso é ineficiente — interrompeu ela pela décima vez. — As diretrizes do Ministério priorizam a análise teórica de precedentes antes de qualquer incursão prática.

— Foi exatamente o que eu acabei de sugerir, Hermione — Harry retrucou, o tom perdendo a paciência.

— Não com precisão.

— Por Merlin...

— Potter, estratégia exige rigor, não suposições vagas de um apanhador.

Em minutos, a reunião degenerou em um duelo verbal. As palavras iam e voltavam afiadas, carregadas de uma tensão que nenhum dos dois parecia disposto a disfarçar.

Os outros três assistiam apreensivos, os olhares saltando de um para o outro como se estivessem presenciando um feitiço de impacto de alta voltagem.

— Pessoal… — Susan interrompeu, o tom cauteloso — Acho melhor continuarmos outro dia. Quando… sei lá… os ânimos estiverem mais favoráveis. Porque hoje não vai sair nada de produtivo daqui.

Daphne assentiu com um suspiro cansado, enquanto Neville recolhia seus pertences com uma pressa quase cômica, claramente grato pela oportunidade de fuga.

Hermione juntou seus livros com movimentos bruscos. Mas, antes que ela pudesse bater em retirada, Harry deu a volta na mesa. O movimento foi fluido, predatório, bloqueando o caminho dela.

— Posso falar com você?

Hermione parou. Harry viu o momento exato em que ela engoliu em seco, a garganta descendo e subindo sob o colarinho engomado. Quando ele olhou ao redor, os outros três já eram apenas vultos distantes.

Ela cruzou os braços, as mãos apertando os próprios cotovelos.

— O que você quer?

— Quero saber se vai ser assim toda vez que o nosso grupo se reunir. — disse Harry, sustentando o olhar dela com uma intensidade sombria. — Esse… clima. Esse embate desgastante entre nós dois.

Os olhos castanhos de Hermione se estreitaram, a boca se apertando numa linha fina.

— Lamento se você carece de competência para aceitar críticas construtivas sem transformar em um drama pessoal...

— Chega, Hermione!

A voz dele foi um comando cortante, baixo e absoluto. Hermione calou-se no mesmo instante, o peito subindo e descendo com uma respiração curta.

Harry deu meio passo à frente.

— Nós dois sabemos muito bem o que está acontecendo aqui. — continuou ele, a tensão ainda vibrando em cada sílaba.

Hermione tensionou os ombros e elevou o queixo, numa postura de desafio mudo.

— Eu não posso fazer nada se você é incapaz de lidar com alguém que simplesmente... não suporta a sua presença.

As palavras atingiram Harry com o impacto de um feitiço de estuporação. O lado sensato de sua mente teria o feito recuar. Mas algo se mexeu dentro dele.

Talvez fosse a proximidade. Talvez o cheiro familiar de pergaminho e lavanda que ainda emanava dela. Ou o fato de que o corpo dele ainda reagia a ela como se nenhum tempo tivesse passado.

Antes que a lógica pudesse intervir, ele encurtou a distância. Em um movimento impetuoso, Harry segurou o braço dela, puxando-a para o seu espaço pessoal.

— Mas o que... — O protesto dela morreu em um arquejo quando o corpo dele quase colidiu com o dela.

Eles estavam perto demais. Ele podia sentir o calor que subia da pele dela, o leve tremor que corria pelo braço que ainda segurava. Podia ver as pupilas dilatadas, o subir e descer rápido do peito sob a blusa.

— Então me diz — a voz saiu rouca, quase um rosnado. — Me diz o que eu faço, Hermione.

— Quer que eu fale com o Sirius? Quer que eu peça para sair do grupo? Eu farei isso! Assim eu acabo de vez com esse seu sofrimento.

Hermione não reagiu. Só ficou ali, o corpo tenso como corda esticada, os olhos presos nos dele transbordando confusão e uma faísca de algo que Harry não ousou decifrar.

Ele sentiu tudo ao mesmo tempo: a indignação que ainda queimava, a tensão em cada músculo, o desejo absurdo e inoportuno de simplesmente inclinar o rosto e…

Ele piscou. De repente consciente de cada centímetro que os separava — e de cada centímetro que não separava.

Lentamente, ele soltou o braço dela. Em seguida, recuou um passo, passando a mão pelos cabelos em um gesto de pura frustração, o coração martelando contra as costelas.

— Assim que voltarmos ao Ministério na semana que vem... — ele começou, a voz agora mais baixa — farei o que for preciso para trocar de equipe.

Ele respirou fundo, tentando recuperar o oxigênio que ela parecia ter roubado do ambiente.

— Se não for possível... eu simplesmente abandono o estágio. Não me importa o prejuízo.

Harry olhou para ela uma última vez, o olhar vacilante, antes de endurecer a expressão.

— Mas você não terá que... suportar a minha presença novamente.

Sem esperar pela resposta, Harry girou nos calcanhares e saiu. Seus passos ecoavam rápidos e pesados, a respiração ofegante — deixando para trás uma Hermione estática entre as sombras das estantes.

-XX-

O burburinho animado na sala dos estagiários preenchia o ambiente com uma energia vibrante. Alguns alunos cochichavam entre si, outros observavam curiosos os diversos relatórios espalhados pelas mesas e os quadros mágicos que exibiam casos antigos do Ministério. Era o primeiro dia efetivo do programa.

Assim que todos se acomodaram, Sirius iniciou uma breve explicação sobre o funcionamento. Falou sobre o revezamento entre os dias em campo — quando parte dos grupos acompanharia investigações reais — e os dias em que permaneceriam no Ministério, auxiliando na análise de evidências e na elaboração de relatórios.

Mas a atenção de Hermione não estava totalmente ali.

Embora mantivesse a postura atenta e o queixo apontado para Sirius, seus olhos traíam sua disciplina, desviando-se para o canto oposto da sala.

Harry estava lá. Ele se fundia às sombras, encostado contra a parede de pedra com uma indiferença estudada, as mãos mergulhadas nos bolsos.

Desde que haviam atravessado a rede de Flu, Hermione sentia-se gravitando em torno dele. A declaração de Harry na biblioteca — a oferta de poupá-la de sua presença — agira como um ácido em sua consciência.

Ela sabia que cruzara uma linha perigosa quanto ao seu comportamento diante dele. Não havia sido apenas defensiva. Fora cruel, ofensiva. Detestável, se fosse completamente honesta consigo mesma.

O gatilho para aquele comportamento irracional a constrangia com violência. No instante em que Harry entrara na biblioteca ladeado por Daphne Greengrass, a lógica de Hermione fora substituída por um impulso primário de retaliação. Ela queria que ele sentisse o mesmo aperto sufocante que ela sentia ao vê-los juntos.

Ela evitara aquele cenário por meses. Mudara rotas, antecipara horários, fizera malabarismos com o cronograma de monitoria apenas para não ter que ver o “casal de ouro” da Sonserina. E então, ali estavam eles: Daphne sorrindo, Harry ao seu lado, uma imagem de cumplicidade que parecia zombar da promessa que ele lhe fizera dois anos antes.

“Eu sempre vou me martirizar por perder a garota que eu tanto amo.”

A lembrança daquelas palavras subiu como bile em sua garganta. Era ilógico, ela sabia. Era uma traição estatisticamente impossível, dado que eles não tinham mais nada.

E nunca tiveram sua estúpida, pelo menos não de verdade. Jamais esqueça disso.

O que restou foi um incômodo persistente de remorso e vergonha. Ela tinha perdido completamente a oportunidade de agir como a mulher madura e superior que queria aparentar.

Então, o castelo de cartas de sua indignação desmoronara de vez, graças a uma observação casual de Neville mais tarde naquele dia.

Início do Flashback

— Hermione… eu sinto muito… — Neville começou, coçando a nuca, claramente desconfortável.

Ela estava afundada em uma poltrona do Salão Comunal da Grifinória, os olhos fixos em um tomo de Transfiguração Avançada.

— Você parecia meio histérica mais cedo — continuou Neville. — Então achei que votar no Harry para líder seria menos... assustador para o grupo.

Hermione bufou, sem desviar os olhos do livro.

— Não precisa se explicar, Neville. Fico feliz que vocês tenham priorizado a harmonia do casalzinho da Sonserina.

— Casalzinho? Você quer dizer o “ex-casal”, não é?

Hermione finalmente ergueu o olhar.

— Do que você está falando?

— Que Harry terminou com a Daphne no início do verão. Foi o que ouvi no dormitório. Pelo jeito que se tratam, parecem ter voltado a ser apenas bons amigos agora, se tratam tão...

— Como... como você sabe disso? — interrompeu ela, tentando — e falhando — em manter a voz em um tom neutro.

— Ah, você sabe como são os garotos... — Neville corou. — Informações sobre quem está disponível circulam rápido. Enfim, eles não são namorados há meses.

Fim do flashback

A informação causara um maremoto interno. Primeiro, uma centelha de alívio tão infantil que a deixara furiosa consigo mesma. Depois, a percepção devastadora de sua própria injustiça.

Mas Hermione sabia que não era só isso. Aquele exercício de mesquinhez apenas havia tornado as coisas mais claras.

Ela não queria que Harry se prejudicasse. E não queria que ele saísse do grupo. A verdade, nua e crua sob as camadas de orgulho, era que ela repugnava a ideia de perdê-lo de vista outra vez. De ficar longe dele.

O olhar dela deslizou de volta até ele, agora mais suave, mas carregado de uma determinação quieta e inabalável: ela estava disposta a impedir aquilo. E ela iria impedir.

Hermione entrou em estado de alerta assim que viu Sirius encerrar as instruções e Harry se despregar da parede para interceptá-lo. O auror envolveu os ombros do garoto com um braço de modo fraternal, conduzindo-o em direção à saída.

O coração dela acelerou imediatamente.

— Hermione, sobre o cronograma de... — Neville começou ao seu lado, segurando um pergaminho.

Ela nem o deixou concluir. Já estava em movimento, cortando o fluxo de estagiários como uma flecha, esquivando-se de grupos de conversa e ignorando os chamados ao fundo. Quando alcançou o corredor de pedra fria e viu os dois a alguns metros de distância, o impulso falou mais alto.

Harry!

Os dois viraram ao mesmo tempo, visivelmente surpresos com a interrupção abrupta. Hermione sentiu o rosto aquecer, principalmente ao notar o olhar curioso — e um pouco confuso — de Sirius.

— Desculpem… — disse ela, aproximando-se com a respiração levemente descompassada. — Harry, preciso falar com você. É urgente.

O tom dela dessa vez saiu com uma nota de vulnerabilidade.

Harry ainda parecia atônito, alternando o olhar entre ela e o homem.

— Eu… posso falar com você mais tarde? — ele perguntou, hesitante.

— Claro — Sirius disse, dando um tapinha encorajador no ombro do garoto. — Falo com você depois.

Ele ofereceu a Hermione um sorriso educado antes de seguir seu caminho.

Assim que ficaram sozinhos, Harry se aproximou dela com cautela, como se esperasse um novo ataque verbal. Mas os nervos de Hermione já haviam ultrapassado o limite da paciência. Seus dedos envolveram o pulso dele — um toque carregado de uma voltagem que a fez estremecer — e o conduziu para um nicho entre duas estátuas de mármore, longe da vista de quem passava por ali.

Harry não desviou os olhos do ponto onde a mão dela tocava sua pele. Ao perceber, Hermione soltou devagar, cruzando os braços em seguida numa tentativa de recuperar a compostura.

Os olhos dele encontraram os dela.

— O que foi isso? — Harry perguntou.

Isso — começou ela, forçando a voz a soar firme — foi eu tentando evitar que você fosse tolo o suficiente para se prejudicar.

Ele franziu a testa.

— Eu estava indo falar com o Sirius…

— Para sair do grupo. Eu percebi. E você não vai fazer isso.

Harry soltou um suspiro cansado.

— Hermione, achei que a nossa conversa na biblioteca...

— A conversa na biblioteca foi quase um monólogo seu — ela o interrompeu, as palavras saindo em cascata. — Olhe, Harry... Sei que não fui razoável naquele dia. E lamento por isso — a frase saiu com certa dificuldade. — Não há motivo lógico para nos comportarmos como se estivéssemos em lados opostos de uma guerra. Somos adultos. Literalmente adultos, de acordo com o Estatuto de Maioridade Bruxa, e...

Ela parou abruptamente ao notar que Harry a observava com os lábios levemente entreabertos, uma expressão de surpresa um tanto encantadora demais. Hermione engoliu em seco, desviando o olhar da boca dele antes que sua mente a traísse por completo.

— Você está dizendo… — Harry falou devagar, como se testasse as palavras — …que quer que eu fique?

Ela prendeu a respiração, sentindo o ar rarefeito.

— Você não precisa sair. Só isso — resumiu, sucinta. — Estou disposta a manter uma convivência estritamente formal e produtiva, se você puder fazer o mesmo.

Harry passou a mão pelos cabelos, o semblante pensativo.

— Se você acredita que podemos... manter o equilíbrio, sem que tudo ao redor desmorone... eu me dou por satisfeito — admitiu ele, permitindo que um meio sorriso quase imperceptível surgisse no canto dos lábios.

— Nesse caso… — ela começou.

— E eu também lamento.

Ela piscou, surpresa com a interrupção.

— Por aquele dia... — Harry continuou, desviando o olhar brevemente. — Eu passei do ponto. Não devia ter sido tão... ríspido. Nem ter agido daquela forma. Com aquelas palavras... e aqueles gestos.

O tom dele foi sugestivo o suficiente para que a memória do corpo dele contra o seu voltasse a incendiar a pele de Hermione.

— Está tudo bem — ela murmurou, a voz perdendo a força.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas se encarando. Até que Hermione se remexeu, estendendo a mão em sua direção, num gesto formal que selava a trégua.

Harry envolveu a mão dela, sustentando o olhar com uma intensidade que a impedia de recuar.

E, naquele simples contato, Hermione sentiu o corpo reagir de uma forma que a deixou perigosamente consciente do que os próximos meses poderiam significar.

Porque, apesar de toda a negação e do distanciamento autoimposto.. a pele de Harry continuava absurdamente instigante.

Chapter 10: Apenas Colegas?

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Duas semanas haviam se passado desde aquela trégua inesperada que Hermione propusera com uma serenidade que ainda surpreendia Harry quando se lembrava.

No início, a desconfiança fora seu escudo.

Durante os primeiros dias, manteve uma espécie de cautela constante, como se andasse num pântano de gelo fino. Parte dele permanecia em alerta, esperando que, a qualquer momento, Hermione simplesmente voltasse atrás e retomasse o comportamento hostil demonstrado antes.

Contudo, o golpe não veio. Em vez disso, algo sutil começou a se infiltrar nas frestas da rotina.

As palavras dela agora eram medidas, desprovidas daquele veneno que antes intoxicava o ar. Ela ainda o questionava, é claro, mas agora suas intervenções pareciam pontes, não barreiras. Em certas ocasiões, ele chegara a captar o que parecia ser um elogio velado, camuflado sob termos técnicos.

O mais desconcertante, porém, eram os sorrisos. Discretos, quase involuntários. Um leve erguer de canto de boca quando ele fazia algum comentário divertido numa reunião, um brilho rápido nos olhos castanhos quando seus olhares se cruzavam por acidente. Ela parecia… relaxada. Como se a presença dele, antes um campo minado, tivesse deixado de ser fonte de desconforto.

Harry tentava, com uma disciplina quase masoquista, não alimentar ilusões. Repetia para si mesmo que aquilo era civilidade. Que, depois da trégua, uma convivência mais leve era simplesmente o caminho natural das coisas.

Mas seu próprio coração parecia pouco interessado em aceitar aquela lógica.

Porque, apesar de todos os seus esforços, Harry ainda se perdia no labirinto de cada olhar trocado. No roçar acidental de dedos ao se tocarem por descuido sobre um pergaminho. Ou mesmo num sussurrar, perto demais de seu ouvido, quando ela se aproximava para analisar alguma execução de feitiço durante a atuação da equipe em campo.

E cada interação mínima tornava-se um combustível para a lembrança de como era quando tudo entre eles parecia simples. Da sensação de completude que só existira quando ela estivera verdadeiramente ao seu lado. Quando ele podia chamá-la de sua.

E agora, aquela presença voltava a reivindicar território dentro dele. Mais do que ele era capaz de policiar.

Já não se limitava aos encontros agendados do grupo. Bastava um vislumbre da cabeleira castanha em um corredor movimentado, ou num encontro fortuito entre as aulas, para que o resto do mundo perdesse o foco. Harry sentia o ritmo de sua respiração vacilar, uma falha mecânica em seus pulmões que só se corrigia quando, por um breve e devastador segundo, os olhos dela encontravam os dele outra vez.

— Você sabe que não precisa mais ficar tão tenso perto dela, não é?

A voz surgiu ao seu lado, tingida por um tom de divertimento que fez Harry desviar o olhar do horizonte.

Daphne o observava com uma expressão curiosa. De fato, a imagem de Harry devia ser dissonante. Ele tinha acabado de sair do treino de Quadribol e a adrenalina ainda pulsava sob sua pele, mas sua caminhada pelo pátio principal havia desacelerado até quase parar.

O motivo estava do outro lado do pátio.

Hermione atravessava a extremidade oposta, cercada por amigas e segurando um feixe de pergaminhos contra o peito. Por um breve instante, ela ergueu o rosto e seus olhos encontraram os dele. Ali, sem hesitações, eles trocaram um meio sorriso de cumprimento.

Mais um passo naquela nova realidade frágil que eles vinham construindo.

— Não sei do que você está falando — murmurou Harry, tentando soar natural enquanto retomava o passo em direção às masmorras.

Ela soltou um riso baixo, sem malícia.

— Quero dizer que agora ela está bem mais à vontade perto de você. Dá para notar nos gestos dela, na forma como o olhar dela não foge mais do seu.

Harry encarou-a de soslaio, sentindo o peso do assunto.

Não era a primeira vez que Daphne fazia comentários daquele tipo sobre ele e Hermione. Na verdade, aquilo já havia sido motivo de algumas discussões no curto relacionamento que tiveram — discussões que Harry sempre tentava abafar antes que o fogo se espalhasse.

— Daphne, não entendo por que você insiste em ressuscitar esse assunto e...

Ela parou, segurando o braço dele com suavidade, mas suficiente para fazê-lo parar também.

— Harry… nós não estamos mais juntos.

A crueza da afirmação o deixou mudo.

— Você terminou nossa relação assim que as férias começaram — continuou Daphne, com serenidade. — Eu fiquei péssima, sim. Mas prezo demais pela nossa amizade para perdê-la por causa de um orgulho ferido. Então, aqui estamos.

Ela deu de ombros, um gesto elegantemente despojado.

— Antes você omitia — ou ao menos tentava — enquanto me devia alguma coisa. Agora você não me deve mais nada. Então, por favor, não tente me convencer de que seu coração bate em um ritmo normal quando ela sorri daquele jeito.

Harry abriu a boca para contestar, mas as palavras pareceram secar em sua garganta. Era desorientador ter suas defesas mais profundas expostas com tanta facilidade.

— Eu não sei o que houve com vocês no quinto ano… — ela prosseguiu — Só sei que não adiantou nada Draco insistir que foi um “efeito colateral” relacionado ao desafio do Primus Sonserinae.

Ele revirou os olhos com um enfado amargo. O envolvimento do loiro em toda aquela trama ainda era uma farpa inflamada em sua memória.

— Estava óbvio que foi algo… verdadeiro — concluiu Daphne. — Porque você não fala com ela? Tenta consertar o que quer que tenha acontecido.

Harry desviou o olhar para o chão de pedra. Sentia uma pontada de culpa; ele sabia que Daphne ainda possuía sentimentos genuínos por ele, e o fato de ele ter falhado em retribuir com a mesma intensidade fora o que o levara a romper. Ver que ela enxergava com tanta clareza onde o coração dele realmente morava tornava tudo ainda mais cortante.

— Não é tão simples, Daphne… — ele passou a mão pelos cabelos, um gesto de puro desalento — O que você tem que saber é que… eu a magoei. Profundamente. E ela tem toda razão em… sabe… ter se comportado arredia comigo todo esse tempo.

— Seja lá o que aconteceu, Harry, está claro que não é mais forte do que... isso. — ela fez um gesto vago entre ele e a direção onde Hermione sumira. — Essa gravidade que puxa um para o outro.

Harry permaneceu em silêncio. No fundo, ele sabia que ela não estava completamente errada.

— Você é um cara incrível, Harry — continuou Daphne, com um sorriso sincero — E eu fiquei feliz de você ter dado uma chance pra gente. Mas você merece estar com alguém que você ama de verdade. E, pelo que eu sei… você não é exatamente o tipo de pessoa que foge de uma batalha quando ela vale a pena.

As palavras dela mexeram em algo que estava adormecido há tempo demais: uma faísca de esperança teimosa, uma vontade que ele tentava sufocar com racionalidade e culpa.

Se a vida dele não tinha ficado mais fácil tentando manter distância de Hermione… talvez — só talvez — fazer justamente o oposto ainda fosse uma possibilidade.

E, honestamente…

Aquele meio sorriso que Hermione tinha dado para ele no pátio poucos minutos antes já era suficiente para fazê-lo considerar isso com muito mais seriedade do que ele pretendia admitir.

-XX-

— Por hoje é só, pessoal.

Harry falou alto o suficiente para chamar a atenção de todos à mesa. Havia um certo entusiasmo na voz dele — aquele tipo de energia que costumava aparecer quando algo realmente tinha dado certo.

— Nossa semana foi bem proveitosa — continuou ele. — Quero parabenizar cada um de vocês. Fomos oficialmente classificados como o grupo de maior destaque do estágio... e isso é reflexo direto do empenho de todos aqui.

Hermione, assim como os demais, permitiu-se um sorriso satisfeito. A engrenagem do grupo realmente fluía como nunca: ideias se conectavam sem esforço, sugestões eram acolhidas com entusiasmo genuíno, e os projetos pareciam se encaixar em perfeita harmonia. Mas, no fundo, ela sabia que boa parte daquele sucesso vinha da liderança dele.

Harry tinha um talento nato para tomar a frente sem sufocar ninguém. Sua postura de comando era firme, mas nunca autoritária — ele ouvia, recebia sugestões com atenção consciente, ponderava e, quando discordava, explicava de um jeito que fazia todo mundo se sentir parte da decisão. Era notável.

E Hermione se pegava admirando cada vez mais esse lado dele.

Quando deu por si, seus olhos já haviam buscado os dele. E, como se houvesse uma conexão própria entre os dois, Harry já a observava. Aquele sorriso surgiu nos lábios dele, carregado de uma cumplicidade que estava se tornando o novo normal na dinâmica entre eles.

Hermione sentiu o coração acelerar de leve ao retribuir o gesto. Mas, antes que o silêncio compartilhado se tornasse longo demais para ser ignorado pelos outros, uma nova voz cortou o ar.

— Eu tenho uma sugestão para celebrarmos esse triunfo. — disse Susan, inclinando-se para frente com um brilho travesso nos olhos. — Amanhã é sábado e... bem, meu aniversário. Farei uma pequena comemoração na sala de estudos próxima à torre de Astronomia. Nada extravagante, só uns amigos, música baixa, cerveja amanteigada e uns petiscos. Quero convidar vocês todos.

— Eu vou — disse Neville quase imediatamente.

— Também — acrescentou Daphne, com um sorriso tranquilo.

Hermione abriu a boca para aceitar, mas algo a fez hesitar. Foi como se um fio de seda tivesse se esticado entre ela e Harry; mesmo sem olhar diretamente, ela sentia a intensidade da atenção dele sobre si. Ele parecia esperar a reação dela com uma certa expectativa — como se a decisão dela fosse o sinal para a dele.

— E você, Hermione? — perguntou Susan, voltando-se para ela.

Hermione piscou, recompondo-se daquela transe momentânea.

— Ah... com certeza. Será um prazer — respondeu, oferecendo um sorriso encorajador.

Assim que voltou os olhos para Harry, ele respirou fundo — um suspiro quase inaudível de satisfação.

— Tenho treino de Quadribol no fim da tarde — disse ele — Mas estarei lá sem falta. Não perderia por nada.

A ênfase que ele colocou nas últimas palavras foi acompanhada por um olhar tão direto e prolongado que o resto do grupo pareceu desaparecer por um instante. Ele não estava falando para a mesa; estava falando para ela.

Como consequência direta disso, o sábado de Hermione transcorreu sob uma expectativa persistente em relação àquela noite.

O que, sob sua análise minimamente racional, era bastante tolo.

Ela já convivia com Harry com frequência suficiente para vaciná-la contra aquele tipo de nervosismo. No entanto, todos os encontros até então haviam sido blindados pelo profissionalismo da equipe ou limitados a breves intercâmbios de olhares e sorrisos sutis nos corredores.

Externamente, Hermione estava orgulhosa de si mesma. Acreditava ter alcançado a tão esperada “leveza” diplomática, mantendo a avalanche de sentimentos que Harry despertava trancada em um compartimento profundo de sua mente. Ver que ele também parecia lidar com tudo com uma naturalidade desconcertante — bem demais, diga-se de passagem — trazia-lhe um certo alívio.

Hermione tentou não se permitir divagar sobre o que aquela facilidade dele significava. O fato era que, naquela noite, sem discussões acadêmicas como distração, eles seriam apenas dois jovens em uma festa. E eles eventualmente teriam que conversar.

Durante boa parte do dia, ela travou um duelo mental contra si mesma. Repreendia-se a cada cinco minutos, buscando enterrar qualquer expectativa infundada sob camadas de pragmatismo.

Não interpretar demais. Não supor entrelinhas. Não se deixar levar pela profundidade daqueles olhos verdes.

Era um mantra simples, ou ao menos deveria ser. Na prática, porém, Harry Potter continuava a provocar um rebuliço catastrófico em seu sistema, um caos que nenhum planejamento estratégico parecia capaz de organizar.

A confirmação de sua derrota veio ao cair da tarde. Enquanto se arrumava para o aniversário, Hermione escolheu uma saia jeans nova que terminava no meio das coxas e uma blusa azul-sereno, cujos detalhes delicados no decote e nas mangas conferiam uma elegância sutil. Ao vê-la, Parvati e Lavender dispararam elogios imediatos, perguntando, com sorrisos maliciosos, para quem exatamente ela estava se produzindo daquela forma.

A conclusão era inevitável: seu inconsciente a traíra. Por mais que tentasse negar, a escolha daquela roupa, o cuidado com os cachos e a atenção ao espelho tinham um objetivo único: a perspectiva silenciosa de Harry a observar com aquele antigo vislumbre — aquele olhar que a fazia sentir-se a única pessoa no castelo.

Hermione cruzou o limiar da sala de estudos indicada por Susan, sentindo imediatamente o contraste entre o frio dos corredores e a energia vibrante do ambiente. A sala era uma das maiores de Hogwarts, o que permitia que os convidados se acomodassem com uma folga confortável. O local estava animado, banhado por uma meia-luz acolhedora que suavizava as arestas de pedra das paredes.

Ela viera na companhia de Neville, supondo que o amigo seria sua âncora social naquela noite. Contudo, a lealdade dele durou pouco. Neville foi prontamente atraído por um aluno da Lufa-Lufa, um entusiasta de Herbologia, e os dois se afastaram em uma discussão fervorosa sobre bulbos saltadores.

Hermione mal teve tempo de processar o “abandono” quando a porta se abriu novamente, anunciando a chegada de Harry.

Ela o observou cumprimentar Susan, mas notou que o olhar dele não se demorou na aniversariante. Ele percorreu o recinto até que, finalmente, ancorou nela. Hermione sentiu o rosto aquecer sob o escrutínio dele. Harry permitiu que seus olhos descessem e subissem pelo corpo dela — um relance rápido, quase imperceptível, mas que carregava uma admiração densa. O leve repuxar no canto dos lábios dele foi o selo de aprovação que ela, secretamente, ansiara a tarde toda.

Para sua surpresa, ele não hesitou. Harry caminhou em sua direção com uma determinação linear, como se ela fosse o único ponto de interesse em toda a sala. Hermione recuou instintivamente, encostando-se em uma mesa próxima, mas o receio se dissipou assim que ele sorriu.

— Pelo jeito, fui o último a chegar — disse ele, parando a uma distância que desafiava o espaço pessoal dela.

— Neville e eu chegamos há pouco tempo também — respondeu ela, esforçando-se para que sua voz soasse tão natural quanto a dele.

— Acho que vou me servir de uma Cerveja Amanteigada. Aceita uma?

— Ah... claro.

Quando ele retornou, a entrega da bebida foi acompanhada por um breve momento de silêncio compartilhado. Mas logo Hermione cedeu ao impulso de perguntar:

— Então... a Daphne não veio com você?

— Eu a vi no Salão Comunal antes de sair — respondeu Harry, após um gole generoso. — Ela disse que não estava se sentindo bem. Cólicas femininas. Preferiu ficar por lá e descansar.

Hermione apenas assentiu, sentindo um alívio mesquinho que tentou esconder atrás de sua bebida. Harry indicou com o queixo o outro lado da sala, onde Neville gesticulava animadamente.

— O Neville parece ter encontrado o paraíso.

Hermione soltou uma risadinha.

— Claramente, a caneca dele contém algo mais potente que cerveja amanteigada.

— Algo que não podemos nos dar ao luxo, não é? — Harry comentou, erguendo uma sobrancelha com uma malícia suave. — Daqui a pouco temos a ronda dos Monitores-Chefes.

O comentário agiu como um feitiço de convocação em sua memória. Hermione lembrou-se, com certo constrangimento, da petição quase desesperada que fizera ao Diretor para que as rondas fossem separadas. A ideia de dividir corredores desertos com Harry à luz de lanternas fora considerada um risco tático para seu autocontrole.

Dumbledore aceitara, desde que Harry concordasse. Ela nunca soubera exatamente o que acontecera depois, mas quando McGonagall a designou para Grifinória e Lufa-Lufa, entendeu que Harry havia cedido — e ficado com Sonserina e Corvinal.

— É... precisamos estar lúcidos, especialmente em um sábado à noite — ela respondeu, desviando o olhar por alguns segundos para se recompor.

— As casas sob sua supervisão dão muito trabalho? — ele perguntou, aproximando-se o suficiente para que Hermione sentisse o calor que emanava dele.

— Talvez não mais do que as suas. Jovens são propensos ao caos independentemente da insígnia que carregam. E Sonserina e Corvinal?

— O pessoal da Sonserina tem uma certa dificuldade em me respeitar, por motivos óbvios — ele revirou os olhos com sarcasmo. — Mas, no geral, consigo manter o controle.

Harry girou a bebida na mão, o olhar tornando-se subitamente mais sério e focado.

— Sabe... se algum dia você se sentir sobrecarregada, ou se as rondas ficarem pesadas demais... eu estou à disposição. Posso ajudar você.

Hermione sentiu um torpor doce a envolver. A proximidade de Harry agora era absoluta; o perfume amadeirado dele, misturado ao calor da sala, parecia preencher seus sentidos. Ela abriu a boca, mas as palavras pareceram fugir.

— Quero dizer... — Harry apressou-se em emendar, claramente interpretando o silêncio dela como uma rejeição — eu sei que você é perfeitamente capaz de cuidar de tudo sozinha. É só que... bem, estou aqui se precisar.

— Eu entendi, Harry — ela disse, a voz suavizando involuntariamente. — E agradeço por isso. Digo o mesmo. O trabalho flui melhor quando as pessoas realmente se ajudam.

O sorriso que iluminou o rosto dele foi como um feitiço de impacto direto no peito de Hermione. Foi uma sorte estatística que Neville – ou nem tanto assim - tenha retornado naquele momento, interrompendo a bolha de intimidade que ameaçava isolá-los do resto do mundo.

-XX-

A noite já havia reivindicado as janelas altas do Ministério da Magia. O grupo de estagiários permanecia confinado à sala de reuniões, sob a supervisão de Sirius, finalizando os relatórios exaustivos da atuação em campo daquele dia.

A maioria dos alunos já havia retornado a Hogwarts pelo horário regular, mas Sirius, valendo-se de sua autoridade, concedera uma permissão especial para que a equipe permanecesse até concluir a tarefa.

Harry manteve-se mergulhado em uma concentração absoluta durante a maior parte do tempo. No entanto, seu foco começou a ruir quando uma vibração sutil ao seu lado roubou sua atenção.

Ele notou a forma como Hermione se remexia na cadeira com uma sutileza calculada para não atrair olhares. O gesto repetitivo de prender uma mecha de cabelo atrás da orelha apenas para soltá-la segundos depois; a frequência com que ela mordia o lábio inferior, num sinal claro de inquietude. O relógio em seu pulso parecia ser seu pior inimigo, consultado-o com uma constância obsessiva.

Quando Sirius finalmente declarou a reunião encerrada e os cinco alunos retornaram à sala dos estagiários para recolher seus pertences, a tensão de Hermione pareceu atingir o ápice.

— Neville... você se importaria de levar meu material e deixar no Salão Comunal? — a voz dela saiu um tom acima do normal, ligeiramente trêmula. — Eu pego com você assim que chegar lá.

— Como assim? — Susan perguntou, franzindo a testa. — Você não vem conosco agora?

— Eu... eu tenho quase certeza de que deixei um pergaminho vital de Aritmancia Avançada na ala de preparação para a atividade externa — Hermione justificou, as mãos apertando as alças da bolsa com tanta força que os nós dos dedos empalideceram. — É uma pesquisa original. Vou precisar buscar.

— Nesse caso, nós esperamos você — Harry interveio, o olhar atento a expressão dela. — Assim, retornamos à Hogwarts todos juntos.

— Não!

O movimento na sala parou e todos se voltaram para ela, carregados de uma curiosidade intrusiva. Percebendo que sua reação fora desproporcional, Hermione forçou um sorriso desconcertado.

— Quero dizer... — ela suavizou o tom, tentando recuperar a máscara de racionalidade. — Está tarde e todos vocês estão exaustos. Não faz sentido me esperarem por causa de um descuido meu. Eu vou logo em seguida. Até mais!

Antes que qualquer um pudesse protestar, ela girou nos calcanhares e saiu apressada, o som de seus passos rápidos desaparecendo no corredor.

Harry permaneceu olhando para a porta por alguns segundos. Algo estava errado. Ele não sabia exatamente o quê, mas estava.

— Daphne, leve meus pergaminhos também — ele disse, já se movendo com uma agilidade predatória.

Sem esperar por uma resposta, Harry atravessou o batente da porta.

Por mais rápido que Hermione tivesse tentado ser, não conseguiu despistar o suficiente. Harry a seguia a uma distância segura, mantendo os passos leves e rítmicos. Ele pensou em interceptá-la, mas a angústia que emanava dela o fez hesitar. Havia algo de sagrado e desesperado na pressa de Hermione, e ele não queria abordá-la antes de entender o porquê.

Como suspeitado, ela dobrou em direção ao lado oposto da ala de preparação, seguindo para um corredor deserto, ladeado por armários de ferro que guardavam relatórios de casos arquivados há décadas, longe do fluxo constante de funcionários.

Harry estancou atrás de uma coluna de mármore, observando-a. Ela olhou de um lado para o outro com uma paranoia febril antes de adentrar uma das portas. O estalo da tranca ecoou no corredor vazio.

Os pensamentos de Harry giravam em um redemoinho de suspeitas antes de finalmente se aproximar da porta. Mas, antes que pudesse formular o próximo pensamento, um som abafado — um grito de dor contido, sufocado por trás da madeira — o fez reagir por puro instinto.

Alohomora! — sussurrou ele.

A porta cedeu e Harry irrompeu na sala, mas estancou logo na entrada. Hermione estava escorada contra um dos armários metálicos, o rosto de uma palidez cadavérica. Suas mãos tremiam violentamente enquanto ela tentava, com uma dificuldade agoniante, levar um frasco de poção aos lábios.

Ela inspirava profundamente, lutando para manter o corpo ereto, mas a expressão dolorosa deixava claro que sua firmeza estava prestes a colapsar.

Harry entendeu no mesmo instante. Era a carga que ela carregava agora; a poção necessária para estabilizar sua magia, para manter sua essência íntegra.

Quando os olhos castanhos de Hermione, dilatados pela dor, encontraram os dele, o susto foi imediato. Sua respiração tornou-se entrecortada, perigosamente instável.

— O que você... Harry, saia daqui! — ela arquejou, a voz falhando. — Agora!

Ele abriu a boca para responder, mas um ruído vindo do corredor os supreenderam. Passos pesados e vozes metálicas de dois funcionários se aproximavam. Harry reagiu com a rapidez de um reflexo de duelo. Em um passo largo, ele alcançou Hermione.

— Calma. Fique em silêncio — murmurou.

Ele a puxou para si, colando o corpo dela ao seu para garantir que nenhum espaço sobrasse entre eles. Antes que ela pudesse protestar, Harry agitou a varinha, lançando um Feitiço de Desilusão potente que os envolveu como uma manta invisível.

Segundos depois, a porta se abriu.

— Mas o que essa porta está fazendo aberta? — um dos funcionários resmungou, entrando na sala. — E a luz acesa?

O homem olhou de um lado para o outro, passando a vista exatamente por onde o casal estava imóvel. Harry segurava Hermione com uma firmeza protetora, sentindo o coração dela martelar contra o seu peito em um ritmo frenético. O outro funcionário espiou por cima do ombro do colega, deu de ombros e resmungou algo sobre “estagiários descuidados”. Eles apagaram a luz e fecharam a porta, deixando-os novamente na escuridão.

No silêncio que se seguiu, Harry não a soltou. Ele a mantinha em pé, sentindo o tremor constante que percorria o corpo dela. A respiração de Hermione, quente e rápida, batia contra a curva de seu pescoço. Ela soltou um gemido baixo, uma contenção final da dor que ainda a vencia.

Quase automaticamente, Harry começou a acariciar as costas dela com a palma da mão, um gesto circular e cuidadoso. Para sua surpresa, ele sentiu o corpo dela começar a ceder, a tensão neutralizando-se sob o seu toque. Ficaram ali, abraçados na penumbra, até que o batimento cardíaco dela finalmente se estabilizou.

Harry desfez o feitiço e acendeu a luz com um movimento de varinha. O rosto dela estava a centímetros do dele. Ele a soltou devagar, permitindo que ela recuperasse o equilíbrio.

— Lamento por isso — ele se apressou em dizer, a voz carregada de uma culpa sincera. — Eu só fiquei preocupado. Se eu soubesse que... eu sinto muito. Não tive a intenção de ser invasivo.

Hermione passou as mãos pelos cabelos e pelas roupas, um gesto mecânico para tentar se recompor. Ela voltou a encará-lo, e o que Harry viu não foi raiva, mas uma vulnerabilidade crua.

— Harry... obrigada.

Ele piscou, surpreso. — O quê?

— Já tinha passado do horário de eu tomar a poção — ela explicou, a voz suave e exausta. — Eu já estava me sentindo muito mal. Precisava de um canto isolado. Se você não estivesse aqui... eu não teria conseguido lançar a Desilusão sem afetar o meu feitiço de anestesia. — Ela o olhou nos olhos. — Então, agradeço por estar aqui.

Ouvir aquilo foi ensurdecedor para Harry. Ver Hermione tão sensível, tão exposta, exigiu dele um esforço sobre-humano para não quebrar a distância novamente e tomá-la nos braços mais uma vez. Ele queria dizer que queria estar com ela em cada dose, em cada dor. Que, se pudesse, tomaria aquele fardo para si.

Mas ele apenas deu um passo à frente e segurou a mão dela com uma delicadeza terna.

— Não precisa agradecer — disse ele, a voz vibrando de uma promessa silenciosa. — Não mesmo.

O silêncio que se seguiu foi denso, carregado pela eletricidade da respiração deles que ainda se misturava no ar. Hermione, com cuidado, retirou a mão e sussurrou:

— Melhor irmos.

Harry apenas assentiu, deixando que ela saísse primeiro. Ele precisou de alguns segundos extras para recuperar o sentido da realidade antes de conseguir acompanhá-la pelo corredor escuro.

-XX-

Pela terceira vez, a voz trêmula de Neville ecoou pelo pequeno círculo da equipe, repetindo as instruções para a missão de campo daquele dia. Após um mês sob a liderança impecável de Harry, o grupo decidira que a rotatividade do comando seria definido por sorteio. E o sorteado da vez foi justamente Neville.

Hermione mantinha uma expressão de incentivo, mas era uma batalha interna não ceder ao divertimento. Neville limpava a garganta a cada duas frases, como se estivesse prestes a enfrentar um dragão, ansioso para que seu mandato terminasse antes que algo explodisse.

Enquanto ouvia as orientações, o olhar de Hermione deslizou, quase por gravidade, para o de Harry. Ele a observava de volta, com um brilho cômico e cúmplice nos olhos verdes que dizia mais do que qualquer palavra.

— Então... como eu estava dizendo... — Neville gaguejou, perdendo-se novamente nas linhas do pergaminho.

— Nós entendemos, Neville — Daphne interveio com uma paciência divertida. — Mas como será a divisão da equipe desta vez?

— Bom... — Neville coçou a nuca. — Da última vez, as três ficaram juntas e eu fui com o Harry. Pensei em misturar.

— Posso ir com a Hermione dessa vez — Harry apressou-se em dizer. Havia uma nota de empolgação em sua voz que ele não se esforçou muito para esconder.

Um sorriso involuntário brotou nos lábios de Hermione quando Neville assentiu. Desde a noite em que Harry a amparara durante a crise da Vitae Doloris, ela sentiu que a dinâmica entre eles atingiu uma intensidade tectônica.

Era intrigante. Para alguém que andava cultivando independência feroz e repulsa a ser vista em momentos de fragilidade, a presença de Harry se mostrou a única variável que fez o cálculo daquele incômodo parecer suportável. Além disso, ela já não fingia mais — ao menos para si mesma — que qualquer tempo extra ao lado dele era convenientemente agradável.

O cenário da missão era uma tocaia em um beco úmido e sombrio no lado leste de Londres. Um auror experiente estava posicionado metros à frente, tecendo feitiços de contenção ao redor de um armazém suspeito de traficar artefatos das trevas. Harry e Hermione aguardavam na retaguarda, mergulhados nas sombras.

Ele estava recostado contra o muro de tijolos, observando o homem com um foco predatório. Hermione, postada na parede oposta, fazia o mesmo, mas sua atenção foi rapidamente sequestrada pelo ritmo da respiração dele. O movimento cadenciado do peito de Harry, subindo e descendo com uma calma absoluta, exercia um fascínio hipnótico sobre ela.

— Tem alguma mancha na minha roupa?

A voz de Harry a fez sobressaltar, como se despertasse de um feitiço de entorpecimento.

— O quê? — ela perguntou.

Harry virou o rosto, o sorriso de canto revelando que ele estivera perfeitamente ciente do escrutínio dela.

— Seu olhar está fixo aqui há uns bons dois minutos... — ele indicou o próprio peito com um gesto circular. — Fiquei curioso. Alguma coisa fora do lugar, Monitora-Chefe?

Hermione sentiu as orelhas queimarem instantaneamente.

— Não é nada. Eu só... me distraí com a tática do Jackson — mentiu ela, voltando o rosto para o auror.

A risadinha abafada que veio de Harry foi o suficiente para fazê-la morder o lábio. Aquela leveza era o novo normal entre eles; pequenas provocações que serviam como uma ponte sobre o abismo do passado.

Mas a paz durou pouco.

Um zumbido de alta frequência, como o estalo de um chicote elétrico, rasgou o ar. Antes que pudessem processar o som, uma explosão de luz escarlate detonou no centro do armazém.

A onda de choque foi brutal. Harry e Hermione foram arremessados contra o chão. A poeira e o cheiro de enxofre inundaram os sentidos de Hermione enquanto ela lutava para situar-se.

— Ei! Olhe para mim! — as mãos de Harry eram âncoras firmes em seus ombros. Ele a ajudou a se levantar com uma urgência que beirava o pânico. — Você está bem?

— Estou... o que foi isso? — ela tossiu, limpando a fuligem do rosto.

— Descobriram a tocaia — Harry respondeu, os olhos escaneando o corpo dela em busca de ferimentos.

— Sr. Jackson! — Hermione correu em direção ao auror, que jazia caído próximo à entrada do prédio. — Harry, fique em guarda! Ele está sangrando no ombro.

O auror gemia de dor, mas a situação ao redor era um caos de feitiços cruzados. Harry assumiu a posição, varinha em riste, enquanto Neville, Susan e Daphne surgiam correndo pelo beco.

— Vocês estão bem? — Susan perguntou, ofegante.

— Sim, mas o Jackson se feriu! Ajudem a Hermione! — comandou Harry.

Hermione já estava ajoelhada. Em um movimento ágil, ela despira o blusão pesado que usava para poder apoiar a cabeça do auror, ficando apenas com uma regata preta de alças finas.

No meio do movimento frenético de primeiros socorros, um dormência gelada percorreu sua espinha. Devido à posição curvada e ao esforço, a joia que ela carregava escondida sob as roupas deslizou para fora do decote da regata. O pingente de coração balançou, brilhando intensamente contra sua pele pálida sob a luz das explosões distantes.

Hermione sentiu o sangue fugir do rosto. Ela subiu o olhar devagar, rezando para que ele estivesse distraído.

Foi em vão.

Harry estava estático, a varinha ainda em punho, mas os olhos verdes estavam fixos, dilatados e transbordando confusão, no colar que pendia do pescoço dela. O reconhecimento foi instantâneo. O choque dele foi quase físico, uma colisão silenciosa no meio do campo de batalha.

Hermione fechou os olhos, uma prece muda para Circe, antes de agarrar o colar com a mão trêmula, ocultando-o contra a palma, forçando Harry a encarar seus olhos agora. Ao redor deles, o mundo pareceu entrar em modo mudo; o grito dos aurores e o estalar dos feitiços tornaram-se ruído de fundo.

Quando reforços chegaram para levar Jackson, Hermione vestiu o blusão com dedos trêmulos, erguendo o tecido até cobrir o pescoço. Mas era tarde demais. O efeito do flagrante fora absoluto e o ar entre Harry e ela já havia irremediavelmente mudado.

-XX-

O retorno ao Ministério foi um borrão de silêncios pesados. Durante todo o trajeto, Hermione operou em modo de negação absoluta. Evitara o olhar de Harry, estudando as fendas no piso de mármore para não ter que encarar o verde esmeralda que, ela sabia, a estaria caçando.

Na ala médica, curandeiros de túnicas limpas trataram as escoriações dos braços dela com feitiços rápidos e pomadas de ditamno.

Enquanto esperava o efeito da medicação, Hermione tentava construir uma fortaleza de desculpas caso Harry a confrontasse. Precisava de algo que não soasse tão patético quanto a verdade: que ela carregara aquele amuleto contra o peito, dia após dia, como uma âncora em um mar de mágoas.

O que aquele colar definiria sobre ela agora? O que dizia sobre o que eles ainda eram?

Assim que Hermione cruzou a saída da sala do curandeiro, seus receios se materializaram. Harry estava no corredor, encostado na parede oposta. Ao vê-la, ele se desencostou com uma agilidade predatória e interceptou seu caminho.

— Como você está? — a voz dele era baixa, vibrando em uma frequência que ela sentia nos ossos.

— Estou bem. Foram apenas escoriações rasas — respondeu ela, a voz saindo mais formal do que pretendia. Ela indicou a porta com um gesto seco. — Estão esperando por você.

— Não antes de conversarmos — ele rebateu prontamente.

Hermione quis hesitar, mas a determinação no rosto de Harry era inquestionável. Para evitar olhares curiosos, ela permitiu que ele a conduzisse até o recuo de uma coluna maciça, onde a penumbra oferecia um simulacro de privacidade. Ela se recostou no mármore frio, sentindo Harry fechar o espaço entre eles.

— Harry, você precisa cuidar disso — ela apontou para o braço dele, onde um filete de sangue escorria por um rasgo na manga, rastro do impacto da queda.

— Desde quando... — ele começou, ignorando a tentativa dela de desviar o assunto. — Desde quando você usa... isso?

Ele lançou um olhar fugaz para a região do pescoço dela, agora devidamente oculto pelo tecido grosso do blusão.

— Não sei do que você está falando — Hermione disse, tentando sustentar sua máscara de seriedade.

Harry soltou o ar com força pelo nariz, um riso amargo e impaciente.

— Você sabe perfeitamente. O colar. O que eu te dei na enfermaria... há dois anos. No dia em que...

Ele não terminou a frase, mas as palavras não ditas pairaram no ar como fumaça. Hermione abriu a boca, mas nenhuma lógica parecia capaz de salvá-la naquele momento.

— O que isso significa, Hermione? — Harry deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — O que eu devo pensar...

O olhar dele era uma súplica torturada, despojada de qualquer arrogância.

Hermione sentiu o ar faltar.

— Harry, por favor... não faça isso — sussurrou ela, sentindo o mármore frio contra suas costas enquanto ele se aproximava. — Não vamos estragar o que construímos nestas últimas semanas. Estava tudo indo tão bem... a convivência, o estágio...

— Não. — Harry interrompeu, segurando os braços dela com firmeza, os polegares traçando círculos lentos. — Eu não vou passar mais nenhum segundo fingindo que essa distância entre nós é real enquanto você carrega um presente meu pendurado no pescoço.

A palma direita dele deslizou devagar pelo braço dela, subindo até a curva sensível do ombro, depois contornou o pescoço até finalmente se encaixar na lateral do rosto. Ela soltou um arquejo, os olhos fechando-se por puro instinto diante do contato.

— Harry... não... — sussurrou ela, embora seu corpo estivesse traindo sua vontade, inclinando-se para ele.

— Me diz para parar — ele murmurou, os olhos perdendo o foco pela proximidade absurda. — Me diz que o fato de você usar ele não significa nada... e eu juro que me afasto.

Os lábios dele roçaram os dela, uma carícia hesitante que prometia um incêndio. O coração de Hermione martelava contra as costelas, implodindo seu raciocínio.

— Ah, Harry... — foi tudo o que ela conseguiu articular antes que ele eliminasse a distância final.

Os lábios dele capturaram os dela com uma intensidade trêmula. Hermione sentiu a pressão entre o mármore frio às suas costas e o calor sólido do corpo de Harry à sua frente.

A língua dele não tardou em explorar a dela num ritmo lento e possessivo que parecia querer provar cada canto da boca dela. Hermione respondeu com igual intensidade, deslizando contra a dele em movimentos longos e deliberados, saboreando o gosto familiar e viciante que ela tanto adorava.

Uma das mãos de Harry permaneceu no rosto dela, pressionando de leve para mantê-la exatamente onde ele queria. A outra mão deslizou pelas costas dela, os dedos abertos percorrendo a coluna devagar, subindo até a nuca e se enterrando nos cabelos castanhos, puxando-a mais para si com uma pressão controlada, mas inegociável.

Hermione enlaçou os braços ao redor do pescoço dele, os dedos das duas mãos se cravando nos cabelos negros da nuca, puxando-o para mais perto enquanto os polegares dela acariciavam as laterais do pescoço dele, sentindo o pulsar quente da pele sob as pontas dos dedos.

A sensação era como voltar para casa depois de um exílio interminável.

Eles ainda estavam perdidos naquele redemoinho quando uma voz distante os puxou de volta à realidade.

Sr. Potter? Sr. Potter?

A voz do curandeiro, vinda do corredor principal, agiu como um balde de água gelada. Hermione se afastou bruscamente, o peito subindo e descendo em arfadas curtas. Harry recuou, os olhos nublados e o rosto marcado por uma confusão deliciosa.

— Vai, Harry. Agora — ela sussurrou, a voz tão fraca que mal atravessou o espaço entre eles.

Harry assentiu lentamente, sustentando o olhar dela por um último instante carregado de desejo e de eletricidade antes de desaparecer na claridade da ala médica.

Hermione permaneceu encostada na coluna, as pernas instáveis. Ela levou a mão ao peito, sentindo o colar sob a ponta dos dedos. Ele estava quente — pelo calor do corpo dela ou pela intensidade do momento, ela não sabia. Só sabia que a sensação de ter tido Harry novamente, tão inteiramente dela, pulsava incontrolável em sua pele, e em seu coração.

Notes:

Que delícia ver esses dois nesse clima outra vez 😌
Ainda há muita coisa para acontecer pela frente, mas já posso adiantar que teremos bons motivos para sorrir daqui em diante ❤️
Até o próximo capítulo!

Chapter 11: Avanços Limitados

Chapter Text

A manhã avançava com a cadência habitual de uma Hogwarts em plena atividade, mas, dentro do quarto de Harry, o tempo parecia ter estagnado.

A privacidade que o cargo de Monitor-Chefe lhe conferia nunca fora tão providencial: após uma noite em que o sono fora substituído por um carrossel de sentimentos, ele precisava do isolamento. Harry passara horas andando de um lado para o outro, o carpete abafando seus passos enquanto sua mente tentava, em vão, organizar o caos.

Ele fechava os olhos e a memória o traía, projetando com nitidez a sensação dos lábios de Hermione contra os seus. Não era apenas uma lembrança, era uma tatuagem sensorial. Ele ainda podia sentir o calor da pele dela, o gosto da urgência e o modo como o corpo dela desistira rápido demais de lutar contra ele para se fundir ao seu.

Sua respiração falhava sempre que o pensamento voltava ao ponto de ruptura: o colar.

Harry viveu sob o peso da convicção de que Hermione o teria destruído. Que a mesma revolta e desprezo com que ela o tratara na enfermaria, quando selara o fim deles, havia sido aplicada ao objeto.

Mas a verdade estava lá, pulsando sob a regata preta dela. Ela o guardara. Ela o carregava consigo.

Sabe-se lá há quanto tempo. Sabe-se lá por quê.

Inicialmente, sua intenção ao confrontá-la no corredor do Ministério foi racional. Ele queria respostas, queria entender a lógica por trás daquela contradição. Mas bastou ver a adorável expressão no rosto dela — aquela mistura de choque e um receio profundo que ela tentava ocultar atrás de camadas de intelecto — para que a centelha de esperança que ele tentava sufocar se tornasse um incêndio.

A alegria de saber que ela não se livrara daquela lembrança foi o gatilho. O fato de ela o estar usando era mais significativo do que qualquer debate.

Então, ele se entregou à ânsia de mostrar a ela que nada havia mudado para ele. Que o tempo e a distância haviam sido apenas obstáculos geográficos para um sentimento que permanecia intacto, selvagem e absoluto.

E, céus, ela retribuiu. Com uma intensidade que cheirava a saudade acumulada e uma familiaridade que queimava.

Contudo, o depois chegou com o peso da realidade.

Após ser liberado pelo curandeiro, Harry havia sido informado de que Hermione já havia retornado à Hogwarts. Ele não a vira mais desde então.

Agora, ele usava a dispensa das aulas daquele dia não para curar o corpo — cujas escoriações mal o incomodavam —, mas para curar a própria hesitação. Ele se perdeu em cenários, em conflitos e em possíveis rejeições, até que a clareza finalmente se instalou.

Harry parou diante da janela reforçada, o olhar fixo na imensidão esmeralda do Lago Negro. A decisão estava tomada.

Não importava como Hermione reagiria ou qual seria a posição dela do que seria deles a partir de agora. Ele não permitiria que o medo do fracasso o impedisse de ser cristalino. Que o respeito à mágoa dela se transformasse em uma omissão eterna.

Deixaria claro que seu coração ainda batia por ela de forma descontrolada e inevitável. Que todas as suas tentativas de manter distância haviam sido apenas um teatro mal encenado.

Harry estava pronto. Pronto para reconstruir cada ponte que fora implodida. Para provar que ela continua sendo seu mundo, sua única perspectiva real de felicidade. Se ela permitisse, ele empenharia sua própria vida como garantia de que poderia ser, outra vez, o Harry dela.

Algo que, na verdade, ele nunca deixou de ser.

Harry moveu-se com uma determinação que beirava a urgência. Antes que pudesse processar o próprio ímpeto, já estava cruzando os corredores úmidos que levavam à saída das masmorras. Ele pretendia vasculhar cada centímetro quadrado daquele castelo até encontrar Hermione.

No entanto, sua trajetória retilínea foi interrompida por um vulto que surgiu de uma das passagens laterais. Theodore Nott quase colidiu com ele, parando a tempo de evitar um impacto desajeitado.

— Ah, aí está você! — Theo exclamou, levemente ofegante, ajeitando a túnica. — Era exatamente quem eu estava procurando.

— Agora não, Theo — Harry retrucou sem diminuir o passo, terminando de abotoar o casaco com gestos ríspidos. — Estou com pressa.

— Se eu fosse você, diminuía um pouco essa pressa porque…

Theo não conseguiu terminar. Harry já havia alcançado o arco que separava as masmorras da escadaria principal, mas estancou ali mesmo, como se tivesse atingido uma barreira invisível.

Hermione estava lá.

Ela permanecia em pé, a poucos metros de distância, as mãos entrelaçadas nervosamente à frente do corpo em um gesto que denunciava sua inquietação. O olhar dela, fixo no corredor de onde ele acabara de sair, carregava uma expectativa silenciosa.

— Bom... eu ia avisar que ela estava te esperando aqui fora — Theo murmurou, lançando um sorriso provocativo e cúmplice ao amigo.

Hermione inclinou a cabeça levemente para Nott em um gesto de agradecimento. O sonserino retribuiu com um aceno e desapareceu de volta para as sombras das masmorras.

Harry começou a se aproximar devagar, como se uma força invisível o puxasse. Cada passo parecia ecoar mais alto do que deveria.

— Espero que eu não tenha interrompido nada importante — ela disse, a voz baixa, mas firme. — Pedi ao Nott que chamasse você... caso ainda estivesse lá embaixo.

— Não... claro que não — Harry respondeu, incapaz de disfarçar a satisfação genuína que inundava seu peito ao tê-la ali. — Na verdade, eu estava indo atrás de você. Agora mesmo.

Um pequeno sorriso, nascido daquela coincidência inevitável, surgiu entre os dois. Contudo, a leveza evaporou assim que Hermione percebeu os olhares enviesados de alguns sonserinos que subiam para o Grande Salão. Uma tensão sutil tomou conta do rosto dela.

— Podemos ir para um local mais... reservado? — ela perguntou.

Harry sustentou o olhar dela e assentiu devagar.

Ele a conduziu para longe do tráfego dos corredores, até um pequeno jardim recuado, uma área ladeada por bancos de pedra e protegida por arcos antigos.

Harry sentiu um alívio imediato ao perceber que o local estava deserto. O silêncio do jardim, quebrado apenas pelo vento suave, era o cenário ideal para o que viria a seguir.

Lado a lado, eles se sentaram em um dos bancos de pedra.

Harry sentia as palavras queimando em sua garganta, prontas para serem entregues como uma confissão. Mas ele se conteve. A postura de Hermione — o esforço para manter a coluna ereta e o queixo erguido — denunciava a tentativa de sustentar uma máscara de controle. O nervosismo dela era palpável, um tremor sutil que ele não queria agravar despejando suas próprias expectativas sobre ela.

— Nós... — ela começou, a voz oscilando antes de encontrar firmeza. — Precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem, Harry.

Harry permitiu que um meio sorriso surgisse.

— Fico aliviado em saber que você também quer ter essa conversa. Não podemos mais deixar esse assunto para depois… não depois de tudo.

A voz dele baixou para um registro mais íntimo. Ele estendeu a mão e tocou a dela, sentindo o tremor nos dedos de Hermione ceder instantaneamente ao contato.

— Eu sei — ela disse, a respiração tornando-se mais pesada. — E é exatamente por isso que eu tenho uma... proposta para você.

Harry franziu o cenho, o otimismo dando lugar a uma cautela instintiva.

Proposta?

— Sim. — Ela forçou uma nota de pragmatismo na voz. — Depois de ontem, ficou claro que não podemos mais ignorar o que causamos um no outro. O quanto um… deseja o outro.

Um lampejo de euforia atravessou o peito de Harry. Era isso? Hermione estava disposta a dar mais uma chance a eles?

— Eu mal posso acreditar no que você está dizendo — ele murmurou, o sorriso abrindo-se com uma sinceridade que ele não conseguia esconder.

Involuntariamente, seu corpo inclinou-se em direção ao dela, buscando o calor que sua alma implorava. Mas Hermione pousou a mão no ombro dele, um gesto que funcionou como um freio abrupto.

— Por favor… deixa eu terminar.

Harry soltou uma risada baixa, erguendo as mãos em sinal de rendição antes de se recompor.

— Sou todo ouvidos.

— Estou querendo dizer que não pretendo mais ignorar esse clima entre nós. E creio que você também não esteja disposto a isso. Então, se você quiser... podemos repetir aquilo. Com frequência.

Harry teve que se segurar para não soltar uma exclamação de triunfo. Ele assistia, em um misto de diversão e ternura, à ginástica mental que ela fazia para racionalizar o fogo que os consumia. Era o ápice do charme de Hermione.

Isso... é o que eu mais quero. Há tanto tempo. Eu nunca quis que terminássemos. Eu tinha tanto pra te falar, tanto pra consertar e…

— Harry. — Ela o interrompeu — Acho que você não entendeu.

O sorriso dele murchou. A expressão de Hermione havia enrijecido; não havia a leveza de alguém que acabara de reatar um namoro. Havia algo mais denso ali.

— O que exatamente eu não entendi? Você quer que fiquemos juntos de novo, não é?

Hermione inspirou profundamente, como se estivesse prestes a pular de um penhasco.

— Quero que nos permitamos uma relação íntima. Mas nada que se defina como compromisso. Não é um namoro, Harry. E nem pretendo que seja. Estou falando de… nos vermos. Passar tempo juntos. Sem rótulos, sem cobranças e sem expectativas.

Ela então acrescentou, o tom sublinhado por uma urgência defensiva:

— E, principalmente: sem que ninguém saiba.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Harry processava as palavras como se fossem um feitiço de tradução reversa.

— Eu não entendo. Eu pensei que você quisesse reconstruir o que tivemos.

— Harry, eu preciso que você entenda que eu não esqueci o que aconteceu há dois anos — ela disparou, a mágoa brilhando nos olhos antes que ela pudesse ocultá-la. — As circunstâncias de como aquela “relação” se iniciou...

— Eu não menti quando disse que o que tivemos foi verdadeiro! — Harry insistiu, a urgência voltando à sua voz.

— Você me magoou. — a afirmação veio acompanhada por um suspiro exausto que reverberou em Harry com mais força do que qualquer maldição. — E não há nada que você diga que mude o passado. Contudo… estou disposta a negociar essa questão em troca do que você desperta em mim. Do que eu não consigo mais ignorar.

Ela finalmente sustentou o olhar dele, uma fragilidade crua aparecendo sob a superfície.

— Posso me entregar a isso, e entregar o mesmo a você. Mas preciso saber se você consegue aceitar que as coisas funcionem apenas nesses termos.

Harry notou o leve tremor na voz dela nas últimas palavras. Ela estava visivelmente tensa com a possibilidade de uma negativa da parte dele.

E era o que ele deveria fazer.

Deveria dizer que o que sente por ela é sagrado demais para ser reduzido a encontros furtivos nos cantos do castelo. Dizer que ceder aquele pacto de sombras era submeter o oceano que sentia por ela a um copo d’água.

Mas, diante da perspectiva de perdê-la outra vez, qualquer recusa soava como uma heresia. E saber que, de alguma forma, aquela proximidade clandestina seria satisfatório a ela era a única justificativa que Harry precisava para se lançar naquela escuridão de bom grado.

— Eu aceito, Hermione. Aceito ter você nessas condições. E ser seu, da mesma forma.

O suspiro de alívio que escapou dela foi acompanhado por um sorriso que misturava satisfação e a exaustão de quem acabara de passar por um teste exaustivo.

— Mas... preciso deixar uma coisa clara — Harry continuou, aproximando-se e levando a mão ao rosto dela, obrigando-a a sustentar o olhar. — Eu estraguei tudo entre nós quando não fui totalmente sincero. Não cometerei o mesmo erro agora. Eu aceito suas regras. Mas eu não vou te enxergar da forma que você está tentando se forçar a nos ver.

Hermione piscou, confusa. — O que quer dizer?

Ele acariciou a bochecha dela, o polegar traçando o contorno de seu lábio.

— Porque para mim você nunca será algo raso. Não me peça para dizer à mulher que eu nunca deixei de amar que ela é apenas uma conveniência.

Hermione abriu a boca, o choque paralisando suas defesas.

— Harry... eu não...

Shhh. — Ele pousou o polegar delicadamente sobre os lábios dela, sorrindo de canto com uma melancolia doce. — Não se preocupe. Eu prometo que será do seu jeito. Só não me peça para fingir aqui dentro — ele tocou o próprio peito com a outra mão.

Hermione parecia prestes a formular um último argumento, mas a resistência simplesmente se esvaiu de seu olhar, substituída por uma aceitação silenciosa. Sem dar margem para hesitações, Harry se inclinou e selou os lábios dela em um beijo lento e profundo.

As mãos dela subiram instintivamente, enroscando-se na nuca dele para ancorá-lo ali, enquanto o frio da estação era esquecido no calor que se formava entre os dois.

Explicações e consequências foram relegadas ao amanhã. Hoje, a única verdade que Harry permitia a si mesmo sentir era o pulsar da pele dela contra a sua.

-XX-

A movimentação no Grande Salão estava em seu ápice. Entre o tilintar de talheres e o murmúrio constante, alunos de todas as idades iam e vinham, ostentando bandeiras e trocando farpas que beiravam o limite das regras. Era dia de quadribol, a data em que a rivalidade entre Grifinória e Sonserina deixava de ser uma tensão latente para se tornar uma guerra declarada.

Hermione havia se sentado há poucos minutos, diante de uma tigela de sopa fumegante. Ela estava exausta. Dias de jogo eram, para uma Monitora-Chefe, maratonas de diplomacia armada. Sua função era ser o muro entre a paixão esportiva e o caos absoluto, mediando discussões e desfazendo azarações impertinentes entre torcedores exaltados.

No entanto, aos poucos, ela sentia a tensão em seus ombros se esvair. E não era apenas pelo calor do líquido que ingeria.

Saber que, em poucas horas, ela poderia desfrutar do momento mais aguardado de sua rotina era um estímulo considerável.

Hermione revirou os olhos em uma repreensão divertida a si mesma por ter catalogado aqueles encontros furtivos — onde Harry a prensava contra paredes de pedra em corredores isolados — como sua atividade predileta. Era uma irresponsabilidade monumental, ela sabia. Mas o bem-estar que aquilo lhe trazia era um entorpecente do qual ela não pretendia se desintoxicar tão cedo.

Sentia-se mais leve. Mais paciente. Até as pilhas de pergaminhos da biblioteca pareciam menos intimidadoras. Era óbvio que trocar carícias e beijos com a pessoa que fazia seu coração operar em um ritmo frenético tinha seus benefícios terapêuticos.

E foi sob essa conclusão que ela se sentiu menos constrangida pela audácia de sua proposta.

A madrugada que sucedera o flagrante do colar e o beijo avassalador no Ministério fora um campo de batalha intelectual. Hermione passara horas dissecando alternativas, tentando encontrar a saída menos prejudicial para resolver aquela questão.

De todas as ideias que cruzaram sua mente, uma verdade permaneceu inabalável: ela não tinha condições de negar o vínculo elétrico que existia entre eles.

Seria impossível olhar para Harry e dizer que não o queria. Que o beijo, que o colar guardado contra o peito por dois anos e que cada batida acelerada de seu pulso não tinham nada a ver com o sentimento insistente que a habitava. Que a decepção, as máculas dilacerantes que o fim da breve relação deles deixara haviam sido capazes de apagar aquele rastro.

Então ela chegara ao meio-termo que considerara o mais eficaz: permitir o desejo sem abrir mão das barreiras.

Se Harry realmente quisesse manter aquela proximidade — aquela química que os puxava um para o outro como ímãs —, que fosse nos termos dela. Sem rótulos que pudessem ser quebrados. Sem a vulnerabilidade total de confiar nele de novo, plenamente, como fizera antes. E, acima de tudo, sem a exposição pública.

Se tudo desmoronasse. Se ficasse provado que eles eram duas forças da natureza destinadas apenas à destruição mútua. Se a frustração de não tê-lo que a dominava desde o terceiro ano voltasse a sufocá-la... ela sofreria, de fato. Mas ao menos estaria resguardada pelas limitações que ela mesma impusera.

Ela sabia dos riscos. Tinha consciência de que a ideia de “saciar o desejo para seguir em frente” era uma armadilha tola e que as chances de acabar ainda mais rendida a ele eram altíssimas.

Contudo, era a única decisão que permitia a descoberta.

O problema fundamental era que suas certezas sofriam fissuras toda vez que Harry agia fora do roteiro. Como quando ele reafirmara que a amava com uma quietude avassaladora, deixando claro que, embora respeitasse as imposições dela, Hermione jamais seria para ele uma mera conveniência.

Quando nos encontros roubados em salas de aula vazias ou em trechos distantes da Ala Sul, Harry a fazia se sentir o centro de um universo particular não apenas com suas carícias lentas na nuca que desintegravam sua resistência, mas com a simplicidade devastadora de seus sussurros ao pé do ouvido que faziam sua pele trair sua mente.

Como nos momentos em que ele perguntava como fora o dia dela e narrava o dele com uma naturalidade desconcertante, como se fossem um casal unido há décadas.

Ou como agora. Onde o burburinho do Grande Salão pareceu diminuir quando Harry entrou já vestido com o uniforme verde-esmeralda de quadribol, o protetor de braço ajustado e os cabelos ainda mais desordenados pelo vento que soprava lá fora.

Quando seus olhares se encontraram numa linha reta, familiar e atrativa, Hermione sentiu o coração falhar uma batida, como se o órgão quisesse deserdar seu peito e caminhar sozinho em direção a ele.

Harry era sua perdição. E, em uma ironia cruel, sua única salvação.

Mas Hermione não queria se dar ao trabalho de pesar os contras naquele momento.

Aquela análise não era uma prioridade quando ele lançava aquele meio sorriso contido — um gesto quase imperceptível para quem olhasse de fora, mas que para ela estava transbordando com a promessa de um pós-partida exclusivo, privado e, sem dúvida alguma, prazeroso.

— Sempre satisfatório ver a nossa Monitora-Chefe contribuindo tão ativamente para a vitória da sua casa no quadribol.

A voz de Ginny ecoou rente ao ouvido de Hermione, um sussurro carregado de uma ironia que só a garota poderia captar.

Sobressaltada, Hermione desviou os olhos do par de orbes verdes que a prendiam do outro lado do salão e mergulhou sua atenção, com uma pressa quase culposa, de volta à sopa.

— Se está falando do fato de eu ter revertido a azaração no nariz de um dos seus batedores... de nada — rebateu com uma naturalidade ensaiada, finalmente encarando Ginny, que se acomodara ao seu lado já ostentando o escarlate e ouro do uniforme de jogo.

A ruiva soltou uma risadinha baixa, nada convencida.

— Fico grata por isso também, claro. Mas estou falando da sua generosidade em garantir que o apanhador rival esteja mais atento em te devorar com os olhos do que em prestar atenção no que Nott está tentando ajustar com ele sobre a partida.

Ginny indicou a cena com um sutil movimento de queixo. Hermione levantou o olhar a tempo de ver Harry, como se tivesse despertado subitamente de um transe ao notar que não era apenas o par de olhos de Hermione que o observava, desviar a atenção de forma desajeitada para o colega ao lado.

Hermione inspirou fundo, sentindo o peso do olhar malicioso da amiga.

— Não tive a intenção — declarou, dando de ombros com uma indiferença que soou oca até para si mesma.

— Ah, é mesmo? Pensei que você fosse me dar uma aula agora sobre como estou sendo equivocada — Ginny provocou, afinando o tom de voz em uma imitação perfeita da postura professoral de Hermione. — Explicando que isso é apenas uma “consequência inevitável do êxito em manter uma relação estritamente formal e diplomática” com ele.

Hermione revirou os olhos, mas não conseguiu conter um vestígio de sorriso.

— De fato, é exatamente esse o motivo.

— Certo — Ginny disse, levantando-se e pegando um pãozinho da mesa. — Então fico muito feliz em ver o quão satisfeita você parece estar com o seu êxito.

O tom sugestivo arrancou um olhar de repreensão imediato de Hermione. Se Ginny soubesse que a formalidade andava envolvendo toques compartilhados e a rendição total dos sentidos, ela provavelmente passaria semanas alugando os ouvidos de Hermione. Repetindo com um sorriso triunfante que sempre soube que o lugar dela era com Harry — e que ela fora uma tonta por resistir tanto tempo ao maior gato de Hogwarts.

Ginny pousou a mão no ombro de Hermione, inclinando-se para um último comentário:

— Vou indo para o campo. Podem voltar aos cumprimentos formais de vocês.

E saiu com aquele sorriso debochado que lhe era característico. Com a amiga fora de vista, Hermione finalmente permitiu que a tensão em sua postura relaxasse. Ela soltou um suspiro longo e, sem mais amarras ou interrupções, permitiu-se retornar o olhar para o único ponto do Grande Salão que realmente lhe importava.

-XX-

— Precisamos ser mais discretos! — O sussurro de Hermione foi trêmulo, perdendo o fôlego antes mesmo de terminar a frase.

Harry demorou alguns segundos para processar o alerta. Ele estava perigosamente distraído, os lábios traçando uma trilha lenta pela curva do pescoço dela, embriagado pelo perfume doce e inebriante de lavanda misturado ao cheiro sutil de pele aquecida.

Ele murmurou algo inaudível contra a clavícula dela, acreditando que o som seria aceito como uma resposta, mas ela não cedeu.

Com um esforço relutante, Hermione o afastou o suficiente para que seus olhares se cruzassem.

— Você me ouviu? — O tom tentava soar autoritário, mas o rosto não escondia um leve divertimento ao vê-lo tão absorto, tão inteiramente focado nela a ponto de ignorar o mundo exterior.

Harry soltou um suspiro teatral, recuando apenas alguns centímetros.

— Certo... mais discretos. Tem algum motivo específico para esse reforço de segurança? — Ele perguntou, os dedos subindo para acariciar a nuca dela com uma lentidão calculada. — Porque, ao meu ver, estamos sendo impecáveis. É só olhar para onde estamos.

Eles estavam na Sala das Tapeçarias Desbotadas, um anexo esquecido no quarto andar, onde o pó e o silêncio eram seus únicos guardiões. O jogo de quadribol já havia terminado e Harry garantiu a vitória para a Sonserina com uma captura limpa do pomo. Mas, enquanto o restante do time celebrava no Salão Comunal, Harry mal havia parado para um banho rápido antes de correr para o ponto de encontro.

Hermione olhou rapidamente ao redor, sentindo o calor do corpo dele. Ela estava tão inclinada sobre Harry contra a parede de pedra que qualquer movimento a faria deslizar para o colo dele — um território que, eles sabiam bem, não era mais inexplorado.

— Acontece que nossos olhares em público estão chamando atenção. Hoje mesmo tive que ouvir insinuações nada sutis da Ginny — Hermione explicou, a preocupação nublando levemente seu olhar castanho.

— E o que eu devo fazer? Não te encarar quando você passa por mim linda desse jeito? — Ele fez uma careta dramática de negativa. — É pedir demais. Lamento.

Ele voltou a se inclinar, depositando beijos suaves e castos pelo rosto dela, descendo até o canto de sua boca. Hermione soltou um gemido baixo — aquele som específico que fazia Harry sentir que todas as trocas clandestinas eram insuficientes para a imensidão do que ele ainda queria vivenciar com ela.

— Você é impossível — ela retrucou, embora seus dedos já estivessem se enroscando nos cabelos da nuca dele. — Eu tentando falar de um assunto sério e você me distraindo cruelmente.

Harry riu contra a orelha dela, soltando o ar quente devagar.

— Como se você não me torturasse tanto quanto — sussurrou. — Mas me diga, o que devemos fazer diante desse impasse?

— Devemos ser mais cuidadosos — ela disse, a voz quase falhando enquanto os braços dela envolviam o pescoço dele. — Não demorar mais do que alguns segundos na troca de olhares. Parecer casual. E evitar que o corpo reaja à aproximação... iminente.

Harry pausou os beijos e ergueu o olhar para ela, notando a frustração sutil no rosto dela com a interrupção.

— Acredito que esse conselho se aplica mais a você. Não são meus lábios que eu fico mordendo durante as aulas quando nos encaramos, são? — Ele passeou o olhar entre a boca dela e seus olhos, exibindo um meio sorriso provocante.

Hermione abriu a boca em um protesto de falsa indignação.

— Isso é uma consequência da forma como você me olha da cabeça aos pés, Potter! De forma lenta e... claramente sedutora além do aceitável. Portanto, o aviso serve para os dois.

— É difícil cruzar com minha namorada nos corredores e fingir que...

Harry estancou a frase, fechando os olhos com uma força quase dolorosa ao perceber o deslize. Era a terceira vez que aquela palavra escapava.

— Perdão... — ele inspirou fundo — Eu sei que preciso me policiar.

Hermione permaneceu em silêncio, mas o afago distraído e constante em seus cabelos era uma evidência reconfortante de que não havia punição.

Harry não testava a paciência dela por estupidez. O problema era que, na arquitetura de sua mente, o rótulo surgia com uma naturalidade irresistível.

Agora que ele não precisava mais camuflar seus sentimentos, omitir a verdade parecia um esforço inútil.

Ele já havia voltado a confessar que a amava, sem rodeios ou artifícios. E, embora ela não tivesse devolvido as palavras, o fato de não as ter minimizado era um espaço que ele pretendia preencher com provas de lealdade.

Cada momento compartilhado era, para Harry, um investimento: ele aceitava as regras dela hoje, apostando que a intimidade crescente curaria a confiança quebrada, transformando aquela relação em uma realidade sem ressalvas.

— Eu... não me incomodo com isso — Hermione disse por fim, a voz suave. — Só espero que tudo ainda continue bem claro para você. Sobre o que combinamos.

Harry sorriu de canto, envolvendo um cacho dela nos dedos enquanto admirava as pequenas sardas espalhadas pelo nariz e bochechas, como se fossem constelações particulares.

— Você pode confiar em mim, Hermione. Da mesma forma que eu sei que posso confiar em você.

Num movimento sincronizado, ao mesmo tempo que Harry a puxava com mais firmeza para si, Hermione já se encaixava sentada de lado no colo dele. Seus corpos se enroscaram com familiaridade e os lábios se encontraram num beijo que começou lento, mas que logo reivindicou a urgência de se entregarem, traçando em movimentos molhados e possessivos.

Enquanto Harry tivesse a esperança de um dia poder respirar aliviado e tê-la em seus braços sem medo de perdê-la, ele aceitaria viver com aquelas limitações quantas vezes fosse preciso. Porque, para ele, o brilho de Hermione valia qualquer escuridão.

-XX-

— Com licença, Srta. Granger. O Sr. Black a aguarda no gabinete dele.

Hermione franziu levemente o cenho antes de assentir para a secretária do auror. Ela estava com Susan e Daphne, organizando os últimos pergaminhos antes de o grupo de estagiários partir de volta para Hogwarts. Harry e Neville haviam ido entregar relatórios finais em outra ala do Departamento de Execução das Leis da Magia.

O trajeto até a sala de Sirius foi preenchido por uma curiosidade inquieta. Ela assumira a liderança da equipe naquela semana, mas Sirius costumava tratar de diretrizes com o grupo reunido. Uma convocação individual cheirava a algo muito mais denso do que burocracia de estágio.

Ao adentrar o gabinete, encontrou o homem de pé, observando a névoa mágica através da grande janela. Quando percebeu a presença dela, virou-se imediatamente.

— Oh, olá, Hermione. — ele indicou a cadeira de couro à frente da mesa. — Por favor, sente-se.

— Em que posso ajudar, Sr. Black? — ela perguntou, acomodando-se.

Sirius revirou os olhos com um brilho brincalhão.

— Já disse que podem me chamar de Sirius. Umas dez vezes, talvez?

— Desculpe... hábito e excesso de respeito — ela admitiu com um sorriso tímido.

O sorriso dele desapareceu gradualmente, dando lugar a um semblante austero.

— Hermione, chamei você aqui para uma conversa estritamente privada. Algo que precisa ficar entre nós dois. Pelo menos por enquanto.

A franqueza de Sirius fez Hermione ajustar a postura instantaneamente.

— Estou sendo direto porque se trata de algo incomum para uma relação de mentor e estagiária. Mas você entenderá o motivo — ele continuou, apoiando os cotovelos sobre a mesa maciça. — Estou liderando uma investigação sobre a reorganização de simpatizantes de Voldemort. Eles estão tentando retomar as ideias criminosas do passado, com foco agressivo em nascidos-trouxas.

Hermione assentiu, ciente de que grupos isolados sempre tentavam ressurgir, mas todos foram desarticulados antes de ganharem força. Contudo, a expressão de Sirius indicava que a ameaça atual tinha raízes mais profundas.

— Desta vez, suspeitamos que uma figura de grande influência no Ministério esteja financiando e orquestrando o movimento — Sirius revelou, baixando a voz. — Lucius Malfoy.

Ela sentiu o estômago contrair. Os rumores sobre o passado do patriarca da família Malfoy como comensal da morte eram ecos constantes, mas nunca houve uma prova que rompesse sua armadura de ouro e influência.

— Entendo... mas por que está me contando isso?

— Porque preciso de uma fonte absoluta de confiança dentro de Hogwarts. Nossos informantes garantem que o filho dele, Draco, esteve presente no que parecem ser reuniões na Mansão Malfoy. Se houver alguém atento a rumores, conversas ou mudanças de comportamento envolvendo Draco ou outros filhos de famílias puro-sangue... isso nos daria o substrato necessário para um processo formal.

Hermione engoliu em seco. A proposta era perigosa.

— Sirius... eu entendo a gravidade. Mas por que eu? — ela hesitou, a voz falhando minimamente ao completar: — Existem pessoas muito mais próximas dessa realidade... como o Harry.

Sirius suspirou, cruzando os dedos sobre a mesa.

— Nada me daria mais satisfação do que contar com meu afilhado. Mas aqui entra o conflito de interesses, Hermione. Até onde sei, Harry e Draco mantêm um vínculo de amizade. Mesmo sabendo que ele aceitaria contribuir sem titubear, não posso colocá-lo nessa situação sem saber o quanto isso afetaria o julgamento dele. Seria irresponsável.

Um silêncio tenso se instalou. Hermione sussurrou um “compreendo” quase inaudível.

— Na falta de Harry, você é a escolha lógica. Seus feitos no estágio e seu histórico em Hogwarts a precedem. E além disso... — Sirius lançou-lhe um olhar perspicaz, quase cúmplice. — Saber que meu afilhado confia em você e é... digamos... um evidente apreciador da sua companhia... torna minha confiança em você absoluta.

Hermione sentiu o rosto arder sob a insinuação.

— Posso contar com você, Hermione? E, mais importante, podemos manter isso em sigilo absoluto? Ninguém, em hipótese alguma, pode saber.

— Será uma honra ajudar. O senhor tem a minha palavra.

Minutos depois, Hermione estava de volta à sala principal. Harry estava encostado em uma das mesas, e o olhar dele a localizou instantaneamente. Ela se aproximou, tentando manter a expressão neutra.

— Sirius solicitou sua presença. Está tudo bem? — ele murmurou apenas para ela, enquanto os outros guardavam seus materiais.

— Sim. — ela forçou um sorriso de canto. — Apenas uma documentação pendente sobre as horas de estágio. Tudo pronto para irmos?

Ele assentiu, e ambos começaram a caminhar com os demais em direção à Rede Flu. No tumulto do deslocamento, seus braços se roçaram e Harry, em um gesto furtivo de carinho, entrelaçou os dedos nos dela.

Aquele toque, que geralmente era sua âncora, agora parecia agir como uma acusação tátil. A constatação de que omitia algo tão vital dele tornou-se um ruído incômodo.

Hermione retribuiu, apertando os dedos dele de volta, deixando-se ser tomada por aquele gesto que representava uma válvula de escape para a tensão que agora se fazia presente.

Definitivamente, esconder segredos do homem a quem se ama incondicionalmente é um veneno lento para os nervos.

Chapter 12: A Noite em Godric's Hollow

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

O Grande Salão já estava sendo desocupado aos poucos naquela sexta-feira à noite. A maioria dos alunos já havia migrado para os salões comunais, onde reuniões barulhentas e outras atividades de entretenimento fervilhavam.

Ainda era cedo o suficiente para que Harry não precisasse se preocupar com sua ronda de monitor, o que se alinhava perfeitamente ao convite sutil que Hermione fizera mais cedo: ela estaria na biblioteca caso ele quisesse passar um tempo com ela.

Como se Harry fosse capaz de escolher qualquer outra alternativa que não fosse estar onde ela estivesse.

Ele deixou o salão com passos decididos, mas sua mente estava pesada. Ao longo de todo o dia, uma inquietude silenciosa o acompanhou.

Hermione esteve... diferente. Nas aulas, seu brilho perspicaz foi substituído por um silêncio aéreo. Ela não corrigiu ninguém, não levantou a mão e, o que mais o preocupara, pulou o café da manhã e o jantar.

Notou ainda que ela evitou a companhia das amigas e que o sorriso que ela tentava lhe retribuir nas trocas de olhares não passava de uma máscara pálida, incapaz de esconder um semblante profundamente abatido.

Ao entrar na biblioteca, o silêncio habitual do lugar o envolveu imediatamente. Rapidamente, ele a localizou ao fundo, perto de uma janela alta onde a chuva de outono castigava o vidro com fúria. Hermione segurava um pequeno pergaminho, os olhos perdidos nas palavras antes de se desviarem para a escuridão úmida lá fora.

Quando ela finalmente percebeu sua presença, Harry notou que os ombros dela relaxaram, como se a simples visão dele tivesse removido parte um fardo invisível.

— Não quero ouvir nenhuma palavra até a senhorita dar, pelo menos, duas mordidas neste sanduíche — Harry disse suavemente, sentando-se ao lado dela e estendendo um lanche cuidadosamente embrulhado que ele trouxera do salão.

Ela soltou um sorriso fraco, genuinamente agradecida.

— Eu pretendia passar na cozinha mais tarde... mas já que você foi gentil o suficiente para se lembrar por mim, obrigada.

Ela tocou a mão dele, e Harry apertou seus dedos em um afago silencioso.

Mas o alívio foi breve. O semblante dela voltou a cair, as sombras sob os olhos parecendo mais profundas sob a luz fraca.

— Vai me dizer o que aconteceu? — Harry perguntou em um tom cauteloso.

Hermione sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de soltar um suspiro pesado.

— Hoje completa dez anos do falecimento do meu pai.

Um silêncio solene tomou o ambiente. Harry levou a mão ao braço dela, acariciando-o com uma ternura que dispensava palavras.

— Sinto muito, Hermione... deve ser um dia terrivelmente doloroso.

— Hoje está sendo particularmente mais difícil — ela admitiu, a voz embargada. — Todos os anos eu passo esse dia com a minha mãe. Se cai no fim de semana, vou para casa. Se é dia letivo, nos encontramos em Hogsmeade e passamos o dia juntas, apenas as duas.

— E por que não foi dessa vez? — Harry franziu o cenho. — É sexta, você poderia ter pedido autorização para passar o fim de semana com ela.

Hermione mordeu o lábio inferior, hesitando.

— É que... no final do ano passado, ela conheceu um homem. Eles começaram a namorar e estão morando juntos desde o verão.

Harry ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— E... está tudo bem para você?

— Por Merlin, sim! — ela confirmou prontamente. — Aidan é uma pessoa incrível. Pelo tempo que passei com eles, deu pra ver que ele realmente a ama. Ele a faz feliz de um jeito que eu não via há anos.

— Então, por que a resistência?

— Justamente por isso, Harry — ela suspirou, olhando para o pergaminho em suas mãos. — Ela finalmente está refazendo a vida. Se eu fosse para lá hoje, eu a arrastaria de volta para um período de dor do qual não quero que ela seja prisioneira. Nós amamos meu pai, e isso nunca vai mudar. Mas não posso mais obrigá-la a carregar o fardo do luto... comigo.

Harry a encarou com uma compreensão profunda. Hermione era a personificação da abnegação: ela processava a própria dor em isolamento apenas para garantir que a felicidade alheia não fosse perturbada.

Era uma das qualidades mais admiráveis nela, e, ironicamente, a que mais lhe dava vontade de abraçá-la e dizer que ela não precisava ser forte o tempo todo. Dizer que ele estaria sempre ali para ampará-la.

— É por isso que eu estava aqui... terminando de escrever uma carta com uma desculpa qualquer para justificar minha ausência. — ela inspirou fundo, tentando recuperar a compostura. — Vai ser melhor assim.

Harry observou em silêncio enquanto ela dobrava o pergaminho com cuidado meticuloso, selando-o com um feitiço simples. Sua mente, no entanto, trabalhava rápido, girando em torno do que poderia fazer por ela.

Embora nunca tivesse experimentado o luto de forma tão estruturada, Harry possuía uma empatia visceral pela dor dela. E ver Hermione mergulhada naquela melancolia despertou nele uma inquietação.

Foi então que uma ideia audaciosa, quase imprudente, cruzou seus pensamentos.

Não era sua intenção deliberada fazer aquele tipo de convite— até porque aquele ambiente específico era algo que ele evitava há anos —, mas as circunstâncias eram convergentes demais para serem ignoradas.

— Sendo assim... — ele começou, acariciando a mão dela que voltou a se entrelaçar à sua — você terá que satisfazer sua necessidade de companhia comigo este final de semana.

Hermione soltou uma risadinha anasalada, o primeiro lampejo de humor em horas.

— O grande Potter me agraciando com sua imponente presença para me entreter? Muito generoso da sua parte.

Harry ajeitou a postura, lançando aquele meio sorriso provocante que ele sabia que a desarmava.

— Eu sei que daria conta do recado muito bem sozinho. Mas eu estava pensando em algo... a mais.

Hermione franziu o cenho, captando a mudança no tom dele.

— Eu prometi à minha mãe que iria jantar em casa amanhã. Ela organiza um jantar pequeno todos os anos para o aniversário do Sirius. Como você sabe, ele é praticamente parte da família... além de ser meu padrinho. Então... eu quero que você me acompanhe.

A reação foi imediata. Hermione abriu a boca, o choque paralisando suas feições por um segundo antes de as palavras atropelarem umas às outras.

— Você... — ela começou, a voz quase falhando. — Você está me convidando para ir à sua casa? À casa dos seus pais? Para um jantar de família? Isso é loucura!

— Não acho — Ele deu de ombros com uma indiferença ensaiada. — Seria uma mudança de ares para você. Uma distração necessária.

— Sua família nem me conhece! — ela sibilou, lançando um olhar cauteloso ao redor antes de continuar em um sussurro ultrajado — É um momento para pessoas próximas. Não faz o menor sentido eu aparecer assim, como uma intrusa.

Harry hesitou por um breve momento, decidindo-se pela transparência total. Ele revelou que seus pais não apenas sabiam quem ela era, como também tinham sido informados sobre o incidente na floresta no quinto ano. A revelação pareceu deixar Hermione em um estado de negação ainda maior.

— De jeito nenhum, Harry... tudo isso... tudo isso é...

— Escute, Hermione — ele interrompeu, a voz agora calma e grave. — Se você realmente não quiser ir, tudo bem. Não vou insistir. Mas saiba que, nesse caso, eu também não irei. Não pretendo deixar você aqui sozinha este fim de semana.

Hermione o encarou com uma expressão de pura repreensão.

— Você não pode fazer essa desfeita! É o aniversário do seu padrinho... o que sua mãe vai dizer?

— Eu sempre encontro mil motivos para não pisar naquela casa. Não seria a primeira vez que eu daria um cano neles. Mas desta vez... — ele deu um sorriso cansado, porém decidido — eu estaria muito mais motivado a ficar.

Ele levou a mão aos cabelos dela, afagando os cachos com uma paciência infinita. Harry já conhecia Hermione o suficiente para saber que a melhor forma de desarmar seus debates professorais era oferecer uma boa dosagem de carinho.

— Eu só sei de uma coisa — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela. — Eu não vou para lugar nenhum onde você não esteja.

Hermione abriu a boca para um último protesto. Mas, aos poucos, o calor do toque dele e a firmeza absoluta em seu olhar verde fizeram sua resistência desmoronar.

Ela soltou um suspiro longo, derrotada pela ternura.

— Você é um caso perdido, garoto — ela resmungou, embora um sorriso involuntário começasse a brincar no canto de seus lábios.

Foi o suficiente para que o sorriso de Harry se alargasse, vitorioso. Ele sabia que aquele era o sinal de rendição que precisava.

-XX-

Hermione sentiu o leve esvoaçar de seus cachos e o puxão característico no umbigo no instante em que o mundo ao redor se dobrou.

Cedendo a uma exigência inflexível dela — que se recusara terminantemente a surgir pela Rede de Flu diretamente na sala de estar dos Potter —, eles utilizaram a conexão de Hogwarts até uma estação bruxa discreta em West Country. De lá, aparataram para os limites da propriedade.

Quando seus pés tocaram o solo firme, Hermione não pôde deixar de notar a imponência do local. Embora a mansão não ostentasse um luxo gélido e aristocrático, era nítido que aquela era a residência mais bela da rua. Exalava uma grandeza orgânica, digna do status da família mais influente do mundo bruxo dos últimos tempos, mas mantendo uma naturalidade que afirmava existir um lar ali dentro.

Durante todo o percurso, a mente de Hermione permaneceu um turbilhão. Os últimos dias haviam sido um mosaico de sensações contraditórias. De um lado, a satisfação profunda de ter Harry consigo, de submergir na ternura e nos momentos cada vez mais intensos que dividiam.

Do outro, o peso sombrio do luto que retornara com a força de uma maré, somado à missão sigilosa que Sirius lhe confiara. O fato de que sua atenção meticulosa estava começando a desenterrar mais do que ela imaginava sobre Draco e alguns sonserinos a estava deixando submersa em uma inquietação constante.

Foi quando o calor da palma da mão de Harry, que continuou envolvendo a sua mesmo após a aparatação — agora a guiando com uma naturalidade desconcertante pela alameda de cascalho até a grande porta branca —, a trouxe de volta ao presente com uma gravidade lenta e branda.

Ali, diante da entrada, ela se viu aliviada por poder focar momentaneamente em uma preocupação simples e imediata: como seria recebida pela família dele.

Ela ainda se sentia incomodada por saber que os pais de Harry a conheciam pelo incidente na floresta. Mas Harry, com aquela leveza típica, garantiu que não havia motivos para nenhum tipo de tensão.

Ele enviou uma coruja de emergência à mãe, avisando que levaria uma amiga, e assegurou que o simples fato de ele aparecer para o jantar seria por si só o evento principal da noite.

O que, na prática, não acalmava os nervos dela em nada.

A inércia deles na soleira da porta finalmente chamou a atenção de Hermione. Ao buscar os olhos de Harry, ela viu que ele ainda a devorava com mesma admiração indisfarçável de quando a vira pronta na escola.

— Se arrependeu de me trazer? — Hermione perguntou com um tom divertido, tentando resgatá-lo do que parecia ser um novo torpor.

Harry balançou a cabeça de forma teatral, como se despertasse de um feitiço.

— Fiquei distraído... eu já mencionei o quão linda você está hoje? — o sorriso dele era pura provocação agora.

Ela mordeu o lábio inferior, sentindo o rosto aquecer.

— Só o caminho todo, Harry.

— Vamos entrar, antes que o frio congele esse seu belo sorriso — ele disse, ainda segurando a mão dela com firmeza.

O aperto íntimo, no entanto, fez Hermione raciocinar rápido.

— Harry... acho melhor entrarmos sem... estarmos tão próximos.

Com relutância, ela desentrelaçou os dedos dos dele. Em uma tentativa de fugir da própria hipocrisia — de fingir uma distância que ela mesma não desejava —, ela desviou o olhar. Ouviu apenas um tem razão, baixo o suficiente para deixar claro que ele também lamentava aquela separação.

De repente, a porta se abriu de supetão, antes mesmo que precisassem tocar a campainha.

— Já que vocês estavam demorando tanto para entrar, resolvi recebê-los antes que os alarmes mágicos decidissem anunciar invasores.

A voz de Lilian Potter surgiu como uma melodia acolhedora. Assim que cruzaram o limiar e a porta se fechou atrás deles, a mulher envolveu Harry em um abraço tão apertado que o rapaz soltou um pequeno gemido sofrido sob o carinho excessivo da mãe. Ele tentou alguns protestos divertidos, mas a ruiva mal o ouviu, as esmeraldas de seus olhos — tão idênticos aos do filho — já fixos em Hermione com uma curiosidade vibrante.

Ao soltá-lo, Lilian deslizou em direção a convidada com uma graciosidade natural.

— Fiquei radiante ao saber que Harry traria uma companhia esta noite. Seja muito bem-vinda à nossa casa, Hermione.

Hermione piscou surpresa. Ela acreditava que Harry não havia mencionado o nome dela na carta, mas o sorriso largo e sincero daquela mulher não deixava dúvidas: ela era esperada.

— É um prazer conhecê-la, Senhora Potter — Hermione respondeu, buscando toda a sua neutralidade diplomática, embora o coração batesse acelerado.

— Por favor, sou Lily para você — corrigiu ela, antes de envolver Hermione em um abraço.

De soslaio, Hermione viu Harry observar a cena. Ele tinha um sorriso lento, admirado e quase... encantado. E ela tinha quase certeza que estava exibindo a mesma expressão.

Minutos depois, já estavam na sala de jantar. Harry não exagerou ao afirmar que a atmosfera seria estritamente familiar. Além do casal Potter e de Sirius, o aniversariante, estavam apenas Remo Lupin e sua esposa, a aurora Ninfadora.

Qualquer centelha de desconforto que Hermione viesse a sentir foi dissipada com a condução do jantar.

Sirius exalava uma alegria contagiante, disparando histórias de juventude e comentários provocativos que faziam todos parecerem adolescentes novamente. Tonks se mostrou uma presença vibrante e hilária, tropeçando em palavras e objetos de um jeito que tornava o ambiente ainda mais descontraído.

Remo e Lilian, por sua vez, demonstravam um interesse genuíno em cada comentário de Hermione, trocando olhares impressionados diante da profundidade intelectual da jovem. Até mesmo o lendário James Potter, embora mais contido e observador, mostrou-se um anfitrião impecável e acessível.

Mas o que realmente a mantinha flutuando era Harry ao seu lado.

Ele era o seu ponto de ancoragem. O sorriso que ele lhe lançava, o olhar vigilante que garantia que ela estivesse confortável... e os toques.

Ah, os toques.

Debaixo da mesa, os dedos de Harry roçavam levemente suas costas, depositavam uma pressão firme na sua coxa, ou encontravam sua mão em um aperto furtivo. Gestos rápidos, silenciosos, destinados apenas aos dois, provocando arrepios que Hermione precisava de todo o seu autocontrole para não deixar transparecer.

Contudo, a sensibilidade de Hermione não a deixou ignorar a nebulosidade que pairava silenciosa sob a superfície. A obviedade de que o clima entre pai e filho era carregado de algo oposto ao que se via no restante da mesa era gritante.

O olhar de Harry tornava-se sombrio e gélido sempre que James tomava a palavra. E, embora o homem mantivesse uma postura firme, Hermione percebeu que ele não era indiferente ao semblante do filho. Havia um incômodo contido nele, um esforço mudo para alcançar um filho que parecia ter erguido muralhas intransponíveis.

Um pesar tomou conta do peito de Hermione. Pelo visto, existiam lutos em vida. Mesmo Hermione tendo conhecimento do motivo que gatilhou esse rompimento da parte de Harry, ela não pôde deixar de lamentar por aquilo. Lamentar pelos dois.

Logo após os brindes e as felicitações a Sirius, Hermione fez questão de ajudar Lilian com a louça. As duas eram, visivelmente, as que menos haviam se entusiasmado com a circulação generosa de firewhisky e vinho élfico pela mesa.

Enquanto as risadas e exclamações ainda ecoavam da sala de jantar, a cozinha tornou-se um refúgio de suavidade. Elas ainda riam de algumas histórias contadas.

— Vai ser muito difícil olhar para o Sirius como um mentor sério depois de escutar essas vivências ousadas — comentou Hermione, secando uma lágrima insistente que escapara de tanto rir.

Lilian a acompanhou com um brilho divertido no olhar.

— Imagine para mim a dificuldade de trabalhar perto dele. Faz tempo que desisti de levar qualquer um daqueles três a sério quando estão juntos.

O clima permaneceu leve até que Lilian, ao secar as mãos, mudou o tom para algo mais íntimo.

— Sabe, Hermione... não nego que fiquei eufórica quando Harry decidiu não apenas vir ao jantar, mas avisou que traria alguém. Pode ter certeza de que sua presença foi o diferencial desta noite.

Hermione sentiu o rosto corar sob o elogio direto.

— Eu confesso que fiquei receosa por ser algo tão familiar, mas estou feliz por ter aceitado. Foi uma noite muito agradável.

— Saiba que, a partir de agora, você é mais do que bem-vinda aqui — Lilian disse, inclinando a cabeça com uma malícia maternal perfeitamente calculada. — Até porque Harry nunca traz amigos para casa com frequência... e do sexo oposto, então..

Hermione engoliu em seco. A curiosidade e o desejo de entender um pouco mais o lugar que ocupava na vida de Harry falaram mais alto.

— Harry é uma pessoa muito bem relacionada — ela começou, tentando manter a voz estável. — Imaginei que vocês estivessem acostumados com esse tipo de visita. Amigas... ou talvez alguma namorada.

Lilian captou exatamente onde ela queria chegar. Sua voz tornou-se mansa, carregada de uma sugestividade doce.

— Na verdade... não. Harry nunca trouxe moça alguma até nossa casa. Pelo menos até hoje.

A informação reverberou como um feitiço de impacto nela. Lilian deu uma risada curta, como se entendesse perfeitamente o efeito de suas palavras.

— Pelo que pude perceber da proximidade entre vocês dois... você deve saber que ele e o pai carregam conflitos em sua relação. Isso acabou fazendo com que Harry se fechasse muito para nós... como família.

A ruiva soltou o ar com força, o olhar perdendo-se por um instante no horizonte da janela.

— Ver surpresas afáveis como você me faz imaginar como seria maravilhoso um mundo onde nossa família respirasse apenas amor e comunhão. Um mundo em que aquele fatídico dia...

Ela se interrompeu bruscamente, como se tivesse tropeçado em um terreno perigoso. Hermione percebeu que Lilian lidava com algo mais profundo do que a infidelidade do marido no passado. Parecia haver uma espécie de ponta de culpa compartilhada. Antes que ela pudesse refletir com mais atenção sobre aquilo, a porta da cozinha se abriu.

— Precisam de ajuda? — Harry emergiu com um sorriso de canto.

— Não se preocupe, querido. Hermione me ajudou a tempo de voltarmos para a sala e jogarmos uma partida de Snap Explosivo — Lilian disse, recuperando a vivacidade.

Harry caminhou para dentro do cômodo, parando ao lado de Hermione.

— Mãe, já está tarde. Acho melhor voltarmos para Hogwarts agora.

— De maneira alguma! — Lilian exclamou, fazendo ambos saltarem de surpresa. — Tarde desse jeito, com vocês tendo bebido? Vão dormir aqui! Inclusive, já deixei um quarto pronto para recebê-la, Hermione.

Hermione abriu a boca, atônita. Já Harry não parecia surpreso com a imposição. Ele apenas lançou a ela um olhar que dizia claramente: Essa é a minha mãe, boa sorte em tentar argumentar.

— Lilian... — Hermione tentou intervir — nós não avisamos à direção que dormiríamos fora. A autorização foi apenas para ida e volta no mesmo dia.

— Ora, isso é o de menos. Mandarei uma coruja agora mesmo explicando que vocês estão sob minha supervisão e retornarão amanhã.

Hermione buscou o olhar de Harry, ainda perdida na velocidade dos acontecimentos.

— Você decide — ele disse simplesmente.

O olhar quase suplicante de Lilian, somado à ânsia ruidosa que Hermione sentia de permanecer ali — de habitar o mundo de Harry por mais algumas horas —, foi tudo o que ela precisou.

— Nesse caso... acho que tudo bem.

E foi impossível para Hermione ignorar a onda de orgulho que a invadiu ao ver a satisfação no rosto dele. O sorriso que Harry abriu não era apenas de mero contentamento, era um vislumbre radiante de um resto de noite ainda mais promissor.

-XX-

Harry estava encostado na parede de carvalho do corredor superior, o corpo relaxado apenas em aparência. A poucos passos dali, sua mãe terminava de acomodar Hermione em um dos quartos de hóspedes ao lado do seu.

Ele notou a própria impaciência no bater incessante do pé contra o tapete felpudo, uma ansiedade residual que nem mesmo o sucesso do jantar conseguiu dissipar.

Por mais que tivesse planejado cada detalhe daquela noite para garantir que Hermione se sentisse acolhida, nem ele poderia prever o convite súbito de Lilian para que dormissem ali. Muito menos a aceitação quase sem relutância de Hermione.

Harry inclinou a cabeça para trás, sentindo a frieza da parede contra a nuca. Ele era sensato o suficiente para dividir o mérito com Sirius, Remo, Tonks... e, acima de tudo, Lilian. Eles possuíam aquela magia doméstica de derrubar barreiras com um sorriso ou uma piada bem encaixada. E ele próprio garantira o resto.

Na carta enviada à mãe, deixou ordens explícitas: Hermione o acompanharia e o incidente na floresta — que resultara na atual e delicada saúde mágica dela — era um assunto terminantemente proibido.

Ele respeitava o silêncio de Hermione sobre suas condição, talvez porque, no fundo, ainda carregasse uma sensação incômoda de responsabilidade. E era justamente por isso que ele fazia questão de tomar todas as providências possíveis para ajudá-la.

Mesmo que ela ainda não fizesse a menor ideia do quanto ele estava disposto a fazer por ela. Do que já estava fazendo.

Seu olhar se perdeu por um instante no jogo de luz e sombra do corredor. Inevitavelmente, seus pensamentos recuaram para James.

Seu pai foi extremamente cortês, agindo com uma naturalidade rara quando se tratava de alguém próximo de Harry. Ele sabia que parte disso vinha do alento de ver o filho acompanhado por uma grifinória, um contraste berrante com o círculo de amizades sonserinas que Harry cultivava para desgosto do homem.

Mas havia algo mais profundo. James parecia grato. Grato por Hermione estar ali, e, por extensão, ser a razão para Harry estar cruzando aquele umbral voluntariamente.

Apesar do esforço visível de James para não deixar o clima pesado, Harry não baixou a guarda. Ele se manteve como uma sombra protetora ao lado de Hermione durante todo o jantar, atento a cada respiração dela, disposto a intervir ao menor sinal de desconforto.

Em vez disso, houve o sorriso dela. Constante. Genuíno. Um brilho nos olhos castanhos que não se desfez em momento algum.

Pela primeira vez em muitos anos, Harry sentiu uma completude estranha ao estar naquela casa. Não era apenas sobre as memórias de infância ou o dever familiar. Era sobre o fato de que, naquele momento, o seu mundo mais precioso — Hermione — parecia ter se sentindo em casa também.

A porta do quarto de hóspedes rangeu suavemente, e Lilian saiu, lançando um olhar cúmplice e um sorriso pequeno ao filho antes de descer as escadas.

Hermione saiu em seguida, fechando a porta com cuidado.

— Tudo certo? — Harry perguntou, desencostando-se da parede e diminuindo a distância entre eles.

— Sim — ela respondeu, com um suspiro admirado. — Sua mãe é fora de série. Ela tem até pijamas reservas, limpos e novos, para qualquer visita que precise.

Harry soltou uma risada breve, balançando a cabeça.

— É, ela me lembra uma certa Monitora-Chefe.

Hermione soltou uma risadinha, entendendo a comparação.

Houve um pequeno silêncio entre eles, confortável, mas carregado de uma eletricidade que parecia vibrar no ar penumbroso do corredor.

— Então... você já vai dormir? — Harry perguntou, a voz baixando de tom. Sem pensar muito, ele levou a mão até uma mecha rebelde dos cabelos dela, afastando-a com cuidado para trás da orelha.

Hermione olhou discretamente para os lados, certificando-se de que estavam sozinhos.

— Não estou com tanto sono assim — ela murmurou, entrelaçando os dedos nos dele, um gesto que fez o pulso de Harry disparar. — Acho que podemos ficar um pouco juntos. Até porque preciso compensar você por esta noite... foi perfeita.

Ela estava tão próxima, o perfume de lavanda flutuando deixando-o ainda mais sedento.

— Quer descer e ficar um pouco na sala? — ela sugeriu.

Harry engoliu em seco. A ideia de compartilhar o sofá com os pais não era exatamente o que ele tinha em mente para compensar a noite.

— Meus pais ainda estão lá embaixo... — ele falou, a audácia lutando com uma timidez rara. — Se você quiser... podemos ficar no meu quarto.

Hermione arqueou uma sobrancelha, um brilho divertido dançando nos olhos.

— Impressão minha ou você parece nervoso com essa proposta?

Harry percebeu, então, o quanto seus ombros estavam tensos e se obrigou a relaxar, soltando uma risada nervosa.

— É só que... bem, é a primeira vez que uma garota vai entrar no meu quarto.

Ela cruzou os braços, fingindo incredulidade.

Da minha casa... — ele corrigiu, sentindo as orelhas aquecerem.

Ela riu de leve, descruzando os braços e tocando o braço dele.

— Só estou brincando, seu bobo. Vamos.

Harry alargou o sorriso e a guiou pela porta seguinte. Ao entrarem, ele notou como os olhos de Hermione escaneavam tudo com aquela curiosidade intelectual que ele tanto amava.

O quarto era uma mistura caótica e fascinante de sua dualidade: posters de Quadribol em movimento, uma estante apinhada de livros técnicos de Defesa e Poções, um gramofone mágico e uma escrivaninha bagunçada com cadernos e edições da Vassoura Semanal.

— Viu algo que gostou? — ele perguntou, fechando a porta com um clique suave e definitivo.

— Estou admirada. Tudo aqui é muito você.

Ela se aproximou da cama, passando a mão distraidamente sobre a colcha de tons sóbrios. Foi o suficiente. Ver Hermione ali despertou em Harry um anseio no corpo que ele tentava manter sob controle absoluto há tempo demais.

— Olha só... — disse Hermione, pegando um volume pesado sobre a mesa. — Almanaque das Grandes Táticas do Quadribol Arcano… já ouvi os garotos da Grifinória dizendo que dariam um braço por essa edição de colecionador.

— Tenho vários desse tipo — respondeu ele, aproximando-se com mais entusiasmo e pegando algumas revistas para mostrar.

Aos poucos os dois foram se aproximando da cama e sentaram-se lado a lado, os ombros quase se tocando enquanto folheavam páginas e diagramas. Eles conversavam, rindo baixo sobre anotações antigas de Harry.

Até que ele parou de falar, apenas a encarando por um instante longo demais. Hermione percebeu e virou o rosto com um sorriso de canto.

— O que foi?

— Fico imaginando como é o seu quarto — ele confessou em voz baixa. — Na sua casa.

Ela deu de ombros, fechando o livro.

— Tem muitos livros, claro. Alguns itens bruxos, mas muitos trouxas também. Como uma TV e alguns filmes.

As sobrancelhas de Harry se ergueram, genuinamente interessado.

— Já ouvi falar disso. É um dos principais entretenimentos dos trouxas, não é?

— Sim! — Hermione se empolgou, os olhos brilhando ao explicar. — São histórias projetadas em uma tela... romance, comédia, ação... tem para todos os gostos. É imersivo de um jeito diferente da magia.

— Eu adoraria conhecer... — Harry sussurrou, a mão dele encontrando a dela sobre o lençol. — Você poderia me mostrar um dia.

Hermione inclinou a cabeça, o olhar suavizando.

— Mas para isso... você teria que ir conhecer mais de onde eu vim. Teria que entrar em uma parte do meu mundo, Harry.

Ele apertou os dedos dela, sem desviar o olhar. A voz saiu grave e decidida.

— Pensei que eu já tivesse deixado claro o bastante que essa é a minha maior intenção. Tudo o que envolve você... é do meu maior interesse.

Um silêncio quente e denso se instalou no quarto. O som da chuva lá fora parecia isolá-los em uma bolha temporal. A mão de Harry começou a subir lentamente pelo braço dela, como se estivesse pedindo permissão a cada centímetro, até alcançar a curva delicada do pescoço.

Hermione fechou os olhos por um breve instante, um suspiro trêmulo escapando de seus lábios. Harry não pôde deixar de enxergar aquilo como um convite, um sinal de prazer que deixava seu autocontrole por um fio.

Os corpos já gravitavam um em direção ao outro, a distância entre eles reduzida a um sopro. Harry afastou os cachos de Hermione com uma reverência quase sagrada, abrindo caminho para depositar beijos lentos ao longo do pescoço dela.

A pele quente sob seus lábios o fez fechar os olhos, absorvendo a textura e o perfume que ele tanto adorava.

Hermione cravou os dedos no ombro dele, apertando o tecido da camisa como se precisasse se ancorar em meio à vertigem.

— Harry… — o sussurro dela foi um apelo baixo.

— Hum…? — ele murmurou contra a pele dela, a voz vibrando de forma rouca.

A respiração dela mudou. Tornou-se errática, quente, roçando o pescoço dele. Mas, no ápice da tensão, ela se afastou. O espaço que se criou foi abrupto, interrompendo o ritmo crescente.

Harry estancou, o peito subindo e descendo com força, o corpo ainda em alerta.

— Desculpa… — começou ele, passando a mão pela nuca — Eu não quero que pense que estou forçando, ou que porque estamos na minha casa eu...

— Não é isso — Hermione o cortou, a voz suave, mas carregada de uma hesitação que ele raramente via. Ela desviou o olhar para um ponto qualquer na colcha. — Eu só… não sei se este é o dia ideal.

Harry franziu o cenho.

— Se você está desconfortável por estarmos aqui, eu entendo perfeitamente, podemos apenas...

— Harry, eu tenho cicatrizes — ela disse, finalmente encontrando os olhos dele. — Do que aconteceu na floresta. Elas não são visíveis aos olhos, mas dá para sentir ao toque. Como estamos no inverno, eu não fiz o feitiço de desilusão tátil nelas... hoje.

Harry sentiu uma pontada no peito. Era inacreditável que ela pensasse, por um segundo sequer, que algo nela pudesse repeli-lo.

Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele.

— Hermione, não há absolutamente nada que faça parte da sua vida, voluntariamente ou não, que eu me negaria a aceitar. Ou a amar.

O olhar que ela lhe devolveu foi de uma profundidade avassaladora, um misto de alívio e entrega que fez Harry estremecer.

Ele queria avançar. Queria tomá-la nos braços com toda a intensidade que vinha guardando. Mas não fez. Esperou. Deixou que ela cruzasse primeiro aquela linha tênue.

E ela cruzou.

As mãos dela subiram devagar até a camisa social dele, desfazendo os botões com uma precisão trêmula. Harry sentiu o ar faltar nos pulmões a cada centímetro de pele revelada.

Em resposta, ele deslizou o cardigan pelos ombros dela, um gesto lento e cerimonioso, expondo a pele macia dos ombros e as alças finas do vestido. Hermione puxou a camisa escura dele, deixando o peito nu à mostra, os músculos definidos se contraindo sob o toque dela.

A mão de Harry percorreu o braço dela com um cuidado infinito. Ao encontrar as marcas em relevo sob a ponta dos dedos, ele não recuou. Em vez disso, seus dedos tornaram-se mais suaves.

Hermione soltou um suspiro longo, fechando os olhos sob o toque dele. Harry inclinou-se até o ouvido dela, o hálito quente provocando um arrepio nela.

— Eu quero você, Hermione… inteira.

Ela abriu os olhos, e o que ele viu ali foi uma confirmação silenciosa. O beijo que se seguiu começou como uma prece, mas logo se transformou em uma fome antiga.

As línguas se entrelaçaram com urgência enquanto os dedos de Harry buscavam o zíper do vestido dela. O tecido caiu, revelando a lingerie de renda que moldava o corpo dela. Hermione arfou quando ele mordeu de leve o lábio inferior dela como reação àquele vislumbre, o som ecoando baixo no quarto silencioso.

Harry a deitou sobre a cama com um cuidado protetor, nunca rompendo o contato, afastando as revistas de quadribol para o chão sem desviar os olhos dos dela.

Continuaram o beijo ávido, as mãos explorando com mais ousadia do que nunca. Em minutos, ambos estavam apenas de roupas íntimas.

Quando não restou mais nenhuma barreira entre eles, Harry pairou sobre ela, os braços sustentando o peso do corpo enquanto admirava a mulher sob ele.

— Eu preciso saber, Hermione… — murmurou ele, o ar quente roçando o rosto corado dela. — Me diz que você quer… tanto quanto eu.

Ela levou a mão ao rosto dele, o polegar traçando a linha do maxilar.

— Eu quero você, Harry. Me faz sua.

Foi o bastante.

Num beijo profundo, ele se moveu para dentro dela devagar, centímetro por centímetro, sentindo-a se abrir quente ao seu redor.

Hermione arqueou as costas, um gemido longo escapando dos lábios entreabertos.

— Você é perfeita… — sussurrou ele contra a boca dela, começando a se mover em um ritmo lento. — Perfeita pra mim…

— Mais, Harry… — ela pediu, a voz trêmula de prazer, as unhas cravando levemente nas costas dele. — Por favor… preciso tanto de você…

Ele obedeceu, acelerando os movimentos, tornando mais intenso, mais possessivo. Os gemidos dela se tornaram mais altos, mais desesperados. O nome dele escapava como uma oração rouca entre os lábios dela.

— Assim… amor… exatamente assim… — murmurou ele, beijando o pescoço dela, o ombro, a clavícula, descendo até trilhar o caminho da curvatura mais macia de sua feminilidade, capturando-o com sua boca em uma posse reverente. — Você é tudo pra mim… tudo…

— Harry... como eu te quero... — ela disse quase sem voz, as pernas envolvendo a cintura dele, buscando mais atrito, mais dele.

Harry estava totalmente rendido à expressão de êxtase no rosto dela, intensificando os movimentos em um desespero carregado de luxúria.

Foi quando Hermione se desfez, as costas arqueando forte, o corpo tremendo enquanto o clímax a atravessava em ondas violentas.

Harry sentiu-a apertá-lo ao redor, o calor e o pulsar o levando ao limite. Ele acelerou mais uma, duas, três vezes, até atingir o próprio ápice com um gemido abafado contra o pescoço dela, o nome dela escapando como um juramento.

Minutos depois, eles ainda estavam entrelaçados. Harry deslizou para o lado dela, mas não se afastou, mantendo-a colada ao seu peito. Ele beijou suavemente suas pálpebras, uma de cada vez.

— Dorme aqui… — ele murmurou, a voz carregada de um afeto exausto e feliz. — Não quero perder o seu calor.

Hermione sorriu, a languidez do torpor tornando sua voz arrastada e doce.

— Não consigo negar nada a você hoje — ela se aninhou no peito dele, sentindo os batimentos cardíacos de Harry se acalmarem. — Quero ficar assim... para sempre.

A voz dela se dissolveu em um suspiro profundo enquanto o sono a vencia.

Harry permaneceu acordado por mais alguns minutos, observando-a, gravando na memória a paz que emanava de seu rosto.

Ele acariciou o contorno de sua bochecha uma última vez, antes de fechar os olhos.

— Você vai ficar, meu amor — ele sussurrou para o silêncio do quarto. — Eu vou garantir isso.

Notes:

Um amor sem medidas por este capítulo! ❤️
As coisas atingiram um novo nível de intensidade agora.
Ansiosa para mostrar a vocês as repercussões... 👀🤭

Chapter 13: Cedendo a Nós

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

As velas tremulavam no quarto particular de Hermione, projetando sombras que dançavam freneticamente pelas paredes de pedra. Do lado de fora, o iminente inverno escocês rugia com um frio cortante, mas ali dentro, o clima era de um verão particular.

Hermione sentia o contraste na pele, dando todo o crédito ao calor natural de Harry, que servia como um aquecedor muito mais eficiente do que qualquer feitiço de calefação.

Ela estava sentada no colo dele, uma perna de cada lado, sentindo a firmeza da musculatura dele contra a sua. Harry estava escorado na cabeceira da cama, os olhos semicerrados fixos nela enquanto ela se movia com uma lentidão torturante, subindo e descendo, arrancando gemidos baixos e sussurros roucos que denunciavam o quanto a respiração de ambos já estava comprometida pelo desejo.

As mãos grandes e levemente calejadas dele exploravam seu corpo já totalmente despido, tateando pelas costas, traçando a curva da cintura, acariciando a nuca, tudo com uma familiaridade que já não pedia licença.

Já fazia mais de um mês desde aquele dia em Godric’s Hollow, em que a intimidade entre eles florescera em algo tão intenso quanto visceral.

Quando a manhã irrompeu, a mente de Hermione disparou em sua habitual e frenética racionalidade. O primeiro instinto foi saltar da cama e alcançar o quarto de hóspedes num rastro de invisibilidade, antes que James ou Lily notassem que ela passara a noite na cama do filho deles. Com ele.

Mas seu coração, que ultimamente ditava as regras com uma autoridade muito mais consistente, tinha outros planos. Ela permanecera aninhada a ele, desenhando padrões abstratos no peito de Harry, inalando o perfume misturado ao suor do esforço da noite anterior, sentindo-se irremediavelmente entregue.

Quando despertou, o meio sorriso que surgiu nos lábios dele foi quase insuportavelmente encantador. Ele a admirou como se ela fosse a visão mais perfeita do mundo.

Foi nesse torpor delicioso que tomaram banho juntos — a água quente escorrendo pelos corpos, as mãos dele ensaboadas explorando lugares nela que nunca haviam sido tocados daquela forma, levando-a a um prazer desnorteante contra os azulejos frios. Foi nesse mesmo frenesi que ele a guiou para fora do quarto, para o café da manhã em família.

Os pais de Harry trocaram um olhar cúmplice ao notarem os cabelos ainda ligeiramente úmidos de ambos, o que a fez passar uns bons quarenta minutos com o rosto corando como pimenta, enquanto tentava desesperadamente focar em qualquer assunto banal para não evaporar de constrangimento.

Contudo, nem aquele momento comicamente embaraçoso foi capaz de apagar aquela chama crescente. Os dias que se seguiram transformaram a presença de Harry em uma espécie de droga, algo facilmente viciável e absolutamente vital.

Ter experimentado sua completude a deixava em um estado de flutuação constante, e foi essa urgência que a fez converter seu dormitório de Monitora-Chefe no santuário clandestino deles. O anexo à Torre da Grifinória, com o acesso livre que o cargo de Harry permitia, tornou-se o cenário de suas tardes livres e noites pós-ronda.

Era incrível como ele conseguia ser carinhoso e terno, mas simultaneamente sedutor e irresistível. Ali, entre lençóis, Hermione entendeu a verdade por trás dos clichês: a intimidade, quando ancorada no amor, operava em uma frequência surreal.

Hermione arquejou intensamente quando Harry cravou os dedos em seus quadris, guiando os movimentos dela com uma urgência nova, acelerando o ritmo em uma busca frenética pelo ápice.

O suor que escorria pela testa dele e o fio quente que ela sentia deslizar lentamente pelas suas próprias costas eram o sinal inequívoco de que ambos estavam chegando ao limite de suas forças.

A intensidade do contato fez com que um gemido longo e rouco escapasse de sua garganta, anunciando que o mundo ao redor finalmente desbotou. Seu corpo se contorceu, pulsando ao redor dele em ondas violentas de prazer, os quadris ainda se movendo em espasmos.

Segundos depois, Harry também chegou ao clímax, enterrando o rosto em seu pescoço com um rosnado abafado enquanto se derramava dentro dela.

Por alguns instantes, o mundo pareceu parar. Só restando aquela sensação quase irreal de plenitude.

Mal conseguiram recuperar o fôlego quando Harry, com uma manobra rápida e cuidadosa, segurou-a pelos braços e a virou de costas sobre o colchão, posicionando-se por cima. Seus olhares se encontraram e ambos sorriram ao notar o rubor intenso que coloria as bochechas um do outro.

Harry baixou o rosto e tomou sua boca num beijo lento e profundo, a língua acariciando a dela com preguiça enquanto suas mãos deslizavam pela pele de Hermione em carícias suaves, acompanhando o ritmo dos corações que aos poucos se acalmavam.

Quando ele finalmente rolou para o lado, Hermione inspirou fundo, sentindo imediatamente a dolorosa ausência dele no vazio que deixou em seu corpo. Ela se virou, aninhando-se de frente para ele, encaixando-se perfeitamente em seus braços.

— Sei que corro o risco de me tornar insuportavelmente redundante — Harry começou, a voz ainda um pouco ofegante e rouca. — Mas preciso repetir: você é perfeita demais, Hermione.

Ela deu uma risadinha suave, escondendo o rosto por um instante no travesseiro.

— Seus elogios serão sempre muito bem-vindos, Sr. Potter.

Harry apoiou-se em um dos cotovelos para olhá-la de cima, a expressão tornando-se subitamente mais zelosa.

— Estive pensando... — ele hesitou, os dedos traçando o contorno da bochecha dela. — Você tem certeza de que está confortável com a poção contraceptiva? Como eu já disse, posso usar os métodos masculinos se preferir. Não precisa ser um fardo seu.

Hermione sentiu o peito aquecer. Harry estava sempre atento, buscando qualquer detalhe que pudesse garantir o bem-estar dela naquela nova realidade.

— Realmente não é um incômodo.— ela respondeu com doçura. — Eu já uso desde que Madame Pomfrey começou a oferecer para as garotas no quinto ano... ajuda muito com as dores do meu ciclo. — fez uma careta rápida, lembrando-se das cólicas atrozes de outrora.

Ele afastou uma mecha úmida de seu rosto e assentiu. Eles permaneceram ali, mergulhados no silêncio confortável do quarto, até que Harry se escorregou para o travesseiro ao lado dela, abraçando-a pela cintura.

Foi quando Hermione virou o rosto e o relógio de mesa, com seus ponteiros dourados, anunciou a sentença costumeira: quase meia-noite. Ela mordeu o lábio inferior.

— Harry... — ela chamou, a voz cuidadosa.

Ele estava com os olhos fechados, aproveitando o momento.

— Sim?

— Já está tarde.

Cada sílaba parecia sair com uma dificuldade maior. E isso se tornava mais frequente a cada noite que ela se dispunha a pronunciar aquela frase.

Harry abriu os olhos e a encarou por alguns instantes. Como de costume, não houve protesto da parte dele. Apenas um meio sorriso contido e um aceno de cabeça resignado.

Ele se levantou devagar, começando a recolher cada peça de roupa espalhada pelo chão. Hermione sentou-se na cama, enrolando o lençol ao redor do corpo enquanto o observava se vestir.

O silêncio que se instalava naquele momento era denso, quase ensurdecedor. E estava ficando nítido que o semblante de Harry já não se esforçava tanto para esconder que aquela partida o incomodava profundamente.

Ele terminou de vestir a camisa, quando se virou para ela.

— Bom... tenha uma boa noite. Nos vemos amanhã.

Ele se inclinou e depositou um selinho em seus lábios — rápido demais para passar despercebido por ela.

Harry já caminhava em direção à porta com passos precisos quando ela o interceptou com a voz:

— Harry!

Ele parou com a mão na maçaneta e virou-se. A respiração dele parecia mais pesada agora, os olhos verdes carregando o que parecia ser uma expectativa silenciosa.

Hermione abriu a boca para falar, as palavras dançando perigosamente em sua mente. Mas, no último segundo, ela obrigou os ombros a relaxarem e forçou um pequeno sorriso.

— Te vejo amanhã.

O sorriso que ele devolveu foi ainda mais fraco. Ele assentiu e saiu, fechando a porta atrás de si.

No momento em que ficou sozinha, os ombros de Hermione voltaram a tensionar, e o quarto, antes tão quente, pareceu subitamente gélido.

-XX-

Na tarde seguinte, mesmo com o vento gelado cortando o terreno de Hogwarts, o campo de Quadribol fervilhava. O horário livre para a maioria dos estudantes permitiu que os times organizassem um revezamento rigoroso de treinos para as partidas decisivas do mês.

O treino da Sonserina havia encerrado a poucos minutos e, ao contrário dos demais jogadores que buscaram imediatamente o calor do castelo, Harry decidiu permanecer sentado em um banco de madeira desgastado numa área próxima dos vestiários.

Ele se cercou de frascos de óleo para vassouras e kits de manutenção. Começou a ajustar imperfeições invisíveis, revisar as cerdas, polir a madeira com um afinco excessivo.

Uma clara tentativa desesperada de manter as mãos ocupadas e a mente absorta, buscando a distração necessária para silenciar a repreensão que ecoava em seu peito a cada cinco minutos.

Harry, seu completo imbecil.

Ele fechou os olhos com força, respirando o ar úmido antes de retomar o polimento. Não era fácil ignorar o fato de que ele havia vacilado, deixando transparecer justamente o que lutava arduamente para manter sob controle.

Harry sabia que Hermione era perspicaz demais para ser enganada. No momento em que ela, de forma indireta e gentil, o alertou de que era hora de partir, o desconforto no rosto dele foi uma nota dissonante em uma sinfonia que deveria ser perfeita.

Aquilo virou uma rotina muda. Nas noites em que partilhavam o dormitório privativo dela, Harry nunca permanecia até a manhã seguinte. Hermione sempre vigiava o relógio, pontuando o momento em que ele deveria retornar ao seu próprio quarto.

No início, Harry aceitava com fluidez. Ele não esperava que a experiência mágica em sua casa — onde dormiram e acordaram entrelaçados — se repetisse com naturalidade em Hogwarts.

Mas agora, o efeito que Hermione causava nele não podia mais ser administrado por tabelas ou termos de compromisso. Já não era tão simples lidar com a limitação de momentos roubados.

Agora que ele dividia a cama com ela, conhecia o mapa de sua pele que a levava ao ápice e o tirava o fôlego, a necessidade de mais tornara-se uma fome impossível de saciar com parcimônia.

Ele vinha cultivando a expectativa de que as coisas mudariam. De que ela quebraria o protocolo. Esperava que ela o puxasse de volta para debaixo dos lençóis e implorasse por sua permanência. Que confirmasse que as palavras sussurradas na Mansão Potter — de que queria aquilo para sempre — não haviam sido apenas o subproduto de um torpor pós-intimidade.

Mas a realidade se impunha, implacável. As cláusulas daquela relação ainda sem nome continuavam em plena validade, e a exaustão emocional dele transbordou na noite anterior.

Harry passou a mão pelos cabelos desalinhados pelo vento, soltando um suspiro carregado de frustração. Sabia que era tolice. Era pura ingratidão lamentar pelo que não possuía, em vez de celebrar o que tinha.

Afinal, Hermione dera uma chance a eles. Ela o desejava. Ele era o homem em sua cama. Havia ali uma brecha, uma possibilidade tênue, mas real, de que um dia ele alcançasse o seu objetivo: o coração dela por inteiro, sem muros, sem recuos. Um futuro que fosse, de fato, deles.

E era exatamente por isso que ele continuava ali. Sendo exatamente o que ela precisava. Respeitando os limites que ela impusera. Fazendo o possível, e o impossível silencioso, para garantir sua felicidade.

A insegurança, porém, era uma toxina resistente. Harry temia que a entrega dele nunca fosse o bastante. Se via assombrado pela ideia de que, um dia, a balança de Hermione penderia para a desistência, julgando que o esforço daquela relação não valia mais a pena.

Mas, com a mesma ferocidade com que o pessimismo surgia, ele o esmagava, endireitando os ombros.

Porque nenhum receio tinha permissão para se sobrepor à ameaça de falhar com ela outra vez.

Ele continuaria sendo exatamente o que ela demandasse, pagando o preço necessário para garantir o sorriso no rosto dela.

No fim, sua única prece era para que ela continuasse a Hermione que ele conhecia: compreensiva o suficiente para ignorar o clima pesado que ele impusera e generosa o suficiente para lhe dar o benefício do amanhã.

— Nunca vi ninguém tão concentrado em aparar as cerdas dessa forma.

Harry deu um sobressalto leve, surpreso com a voz que surgiu logo atrás dele. Ao reconhecer a figura alta e ruiva, relaxou os ombros e esboçou um meio sorriso nos lábios.

— Espionando o apanhador do time rival em vez de treinar, Weasley? — retrucou Harry, voltando a atenção para a madeira da vassoura. — Por isso vocês andam perdendo pra gente.

Ron sentou-se ao lado dele no banco, rindo do deboche sem se ofender.

— Estou esperando o treino começar. Só falta a Katie Bell e o Jimmy Peakes pararem de discutir a relação — Ron apontou com o queixo na direção do casal, que gesticulava intensamente em um canto do campo. — Sério... não recomendo namoro entre jogadores. Uma hora ou outra, o time inteiro entra no enrosco deles.

Ele revirou os olhos, arrancando de Harry uma risadinha baixa.

— Na Sonserina não é diferente… acredite. O drama é um idioma universal.

Por alguns minutos, a conversa seguiu leve, alternando entre comentários sobre os treinos e provocações entre as casas. Até que Ron arqueou uma sobrancelha, mudando o tom.

— Tá tudo bem com você, cara?

Harry o olhou de soslaio.

— Tudo certo... por quê?

O ruivo deu de ombros, observando o horizonte cinzento.

— Sei lá... estou te achando meio sério. Quer dizer... menos radiante do que nas últimas semanas.

Harry soltou uma risada anasalada, genuinamente surpreso.

— Desde quando eu ando radiante? Você anda me notando demais para o meu gosto.

Ron soltou um bufo divertido, balançando a cabeça.

— Eu sou meio tapado, admito, mas ainda consigo ver um palmo na minha frente, Harry. — ele coçou a nuca, agora com um ar levemente hesitante — Por exemplo... é uma coincidência muito grande que essa sua luminosidade tenha surgido junto com uma calmaria e um bom humor quase… surreal da parte da Hermione.

Harry virou-se completamente para ele, os olhos arregalados. O choque foi como um balde de água gelada. Era isso? Ron estava… sondando-o sobre Hermione?

O ruivo riu, claramente satisfeito com a reação de espanto do sonserino.

— Definitivamente, uma das coisas que eu mais gosto é conseguir surpreender alguém com a minha singela sagacidade.

Harry piscou algumas vezes, como se saísse de um pequeno transe, e rapidamente balançou a cabeça, voltando o olhar fixo para a vassoura.

— Não sei do que você está falando.

— Ah, por Merlin, assim você me ofende.

Harry ergueu os olhos novamente. Ron continuava com o semblante sereno, quase afetuoso.

— Esse clima entre você e ela… eu já lido com isso há muito tempo. Mesmo quando a gente namorava, não me passava despercebido o quanto ela se distraia sempre que você estava por perto. Às vezes com cara de raiva… às vezes com uma cara de…

Ele parou, engolindo em seco, como se a memória ainda tivesse uma aresta viva e incomoda.

— Bom, seja lá o que está rolando… ou não rolando entre vocês… — ele lançou um meio sorriso encorajador para Harry — Resolvam, tá? Dá para ver que um faz muito bem para o outro.

Harry sentiu uma mistura avassaladora de surpresa e mansidão. Ouvir aquilo de Ron — saber que, mesmo quando estavam juntos, Hermione ainda… orbitava de alguma forma ao redor dele — era como um presente dos céus para seu íntimo torturado.

Ele soltou o ar devagar, os ombros finalmente relaxando de verdade.

— Ron... tudo é... complicado — Harry admitiu, a voz mais baixa. — Mas obrigado. Eu precisava mesmo ouvir isso.

O ruivo apenas deu um tapinha firme no ombro dele, antes de soltar um suspiro alto, levantando-se.

— Bom, parece que o casal ali também já se resolveu — comentou Ron, vendo Katie e Jimmy entrarem em campo de mãos dadas, com sorrisos apaixonados.

Antes de seguir para o centro do campo, Ron parou e olhou para Harry uma última vez.

— Sabe... se a Hermione tivesse sentido por mim, ou ao menos me admirado metade do que ela parece quando se trata de você... já teríamos escolhido até o nome dos nossos futuros filhos.

Ele deu uma piscadela cúmplice antes de sair caminhando, deixando Harry sozinho novamente.

Um sorriso lento, aliviado e genuíno começou a surgir nos lábios dele.

Realmente... nem tudo parecia estar perdido.

-XX-

O início da noite já se infiltrava pelas janelas do Ministério quando as equipes do estágio de DCAT retornaram de mais uma missão de campo. Entretanto, a mistura densa de fuligem espalhada pelas roupas, marcas de feitiços nos tecidos, poeira de reboco grudada na pele e nos cabelos tornava impensável o retorno imediato a Hogwarts sem uma boa limpeza prévia.

Foi nesse contexto e no isolamento do vestiário feminino que Hermione entregou-se ao fluxo constante da água do chuveiro. Normalmente, um bom banho quente servia como um santuário de ordem, um local onde as engrenagens de seu raciocínio encontravam o encaixe perfeito.

Mas, nos últimos dias, o mecanismo parecia viciado, girando obsessivamente em torno de uma única imagem: a expressão no rosto de Harry três noites atrás.

Um nó apertou-se em sua garganta ao reviver a cena. A feição dele, no momento da partida para o seu próprio quarto, carregava uma sombra de decepção, como se ela o estivesse privando de algo vital com um descaso que ele não merecia.

No fundo, ela previra aquilo. A decisão de não criar o hábito de convidá-lo a pernoitar em seu quarto — de não repetir a entrega absoluta que viveram em Godric’s Hollow — fora uma escolha deliberadamente estratégica.

Ela precisava de um anteparo contra a intensidade avassaladora que aquela relação vinha ganhando. Hermione sabia que a intimidade física cotidiana era um vínculo perigoso, um fio de Ariadne que a levaria direto ao centro de um labirinto do qual ela não tinha certeza se conseguiria sair.

Por isso, nos momentos roubados entre eles, toda vez que a pele dela queimava por mais, Hermione recuava, ofegante. E Harry, mesmo com os olhos escuros de desejo e o corpo tenso a um fio de perder completamente o controle, sempre respeitava. Sempre recuava junto, os dedos tremendo ligeiramente ao soltá-la, como se cada recuo fosse uma doce tortura que ele aceitava de bom grado.

Quando finalmente cruzaram o limiar, Hermione soube imediatamente: se aquilo se tornasse costumeiro, não demoraria para que a deixasse ainda mais vulnerável ao efeito Potter. Perder-se na completude de Harry era um território sem mapas, uma força gravitacional contra a qual ela já não possuía tantos recursos assim.

O fato é que, embora o Harry do presente fosse o retrato da lealdade e do companheirismo, os fantasmas do quinto ano ainda sussurravam em seus ouvidos. Mesmo que já não acreditasse na hipótese de que tudo entre eles fora friamente calculado.

Contudo, a cautela exacerbada, o resquício de um orgulho ferido ou mesmo o temor paralisante de uma ruptura ainda exerciam um controle rigoroso sobre suas ações. Hermione ainda encontrava, em algum recanto de sua disciplina, força suficiente para se manter confinada nos limites que ela mesma estabelecera como zona de segurança.

Nem que para isso fosse necessário silenciar, com uma firmeza quase violenta, o impulso de saltar naquele precipício emocional e entregar seu coração, de uma vez por todas, sem qualquer salvaguarda.

Ou melhor, deixar que ele saiba que já o possui, admitiu para o vapor do banheiro.

Hermione encostou a testa contra a frieza dos azulejos, buscando um contraste para o calor da água que a envolvia. Instantaneamente, um inquisidor mais metódico que os anteriores assumiu o controle de sua mente.

E se Harry começar a interpretar minha cautela como uma afronta? E se minha tentativa de forçar tanta casualidade estiver asfixiando ele?

Era notável que, após aquela noite, Harry havia se esforçado para mostrar que estava tudo bem entre eles. Os sorrisos permaneciam ternos, as carícias mantinham o calor habitual e o olhar afetuoso parecia intacto.

Contudo, a ausência dele em seu quarto na noite anterior fora um dado que não se encaixava na equação, provocando nela um estremecimento involuntário. A desculpa de que precisava finalizar uma “atividade extra de grande importância” durante o horário pós-ronda soou fraca demais.

Hermione era incapaz de conter a hipótese catastrófica que sua mente projetava: a possibilidade de que Harry estivesse finalmente agindo para frear aquele curso. Para frear eles.

Ela cerrou os olhos com força, sentindo uma pontada de desespero. Pela primeira vez, a variável que ela nunca ousara incluir em seus cálculos se tornava real: a ideia de que Harry pudesse concluir que o esforço de alcançá-la através de suas barreiras simplesmente não valia mais a pena.

Hermione já havia se trocado. Suas vestes estavam limpas e ela finalizava um feitiço de secagem nos cabelos; o clima úmido de Hogwarts não perdoava fios molhados. Foi então que a porta do vestiário rangeu, revelando uma Daphne visivelmente exausta e ainda coberta de poeira.

— Ótimo… — bufou a sonserina, deixando a bolsa cair pesadamente de um dos bancos. — Pelo visto, serei a única a retornar podre para o castelo.

Hermione franziu a testa, interrompendo o movimento da varinha.

— Não vai se banhar?

Daphne ergueu o braço, apontando para o curativo firme no antebraço.

— Precisei tratar esse corte agora mesmo. Nada de água nas próximas horas ou a poção cicatrizante perde o efeito. — Ela fez uma careta de desgosto. — Vou ter que me contentar com um feitiço de limpeza… o que, convenhamos, nunca substitui uma chuveirada de verdade.

Ela se sentou, já tateando uma troca de roupas dentro da bolsa. Hermione sentiu uma onda de empatia e se aproximou com hesitação.

— Posso ajudar, se quiser. Eu aplico o feitiço de limpeza para você não precisar forçar o braço ferido.

Daphne ergueu o olhar, a surpresa cruzando seus traços aristocráticos antes de ceder a um sorriso genuíno.

— Seria ótimo.

Hermione moveu a varinha com precisão, executando um Tergeo e um Scourgify suaves, limpando a fuligem da pele exposta e do cabelo loiro de Daphne. Quando terminou, a garota parecia renovada.

— Pronto. Não substitui o banho, mas ao menos você não vai assustar ninguém nos corredores.

— Muito obrigada. Me ajudou mais do que imagina — Daphne respondeu.

Mas, no instante seguinte, seus lábios tremeram e ela soltou uma risada sem contenção.

Hermione arqueou uma sobrancelha, divertida.

— O que é tão engraçado?

— É só que, até uns meses atrás, se você apontasse a varinha para mim, eu teria certeza de que seria azarada.

— De onde você tirou isso? — Hermione soltou uma risada anasalada, numa tentativa de se fazer de desentendida.

— Ah, sei lá... talvez pela forma absurdamente intimidante com que você me encarava pelos corredores.

— Se eu aparentava isso, com certeza havia motivo — Hermione rebateu, numa tentativa de desviar o assunto, já prevendo onde aquela conversa poderia chegar. — Além do mais, quem costuma sustentar esse tipo de olhar são os integrantes da sua casa. Eu apenas retribuo o escrutínio.

Daphne se levantou com dificuldade e se aproximou de uma das pias, encarando Hermione pelo grande espelho.

— Mas não estamos falando aqui da personalidade questionável de alguns dos meus colegas... Estamos falando de um certo garoto de olhos verdes que, com certeza, foi a razão desse nosso conflito mudo.

Hermione quase deixou cair a última peça de roupa que guardava. A menção indireta dele ecoou como um trovão silencioso.

— O... Harry? — Ela tentou soar incrédula, mas o tom saiu falho, denunciando-a.

— Ele mesmo. Você acha que eu nunca percebi a atração entre vocês?

Hermione sentiu as defesas se acumulando na garganta, pronta para refutar qualquer acusação. Mas Daphne ergueu a mão boa, interrompendo-a com suavidade.

— Relaxa, Hermione. Não é uma crítica e, por Salazar, muito menos dor de cotovelo. É só... uma constatação. O remédio para um Harry satisfeito e para uma Hermione que finalmente deixou de esconder o quanto é adorável… é vocês dois convivendo muito bem juntos.

O sorriso da loira era pura malícia, mas havia uma honestidade desarmante ali. Hermione tentou recuperar a postura, buscando um fio de controle.

— Você fala dele com muita propriedade… — Hermione soltou, testando o terreno. — Afinal, você foi a namorada dele. Deve saber melhor do que ninguém o que realmente mexe com ele.

— Namorada, sim. Amor da vida dele? Infelizmente, nunca. Isso ele sempre teve muito bem definido quem é.

A revelação atingiu Hermione como um feitiço de impacto. Daphne suavizou a expressão, aproximando-se.

— Eu sou uma romântica incorrigível, Hermione. Do tipo que enterra qualquer desilusão quando percebe que está assistindo a algo maior do que ela mesma. Sei que não somos amigas, mas sou amiga dele. Então me sinto na obrigação de dizer: se passa pela sua cabeça qualquer dúvida ou receio sobre o que ele sente por você... por favor, não dê ouvidos.

Daphne colocou a mão no ombro de Hermione, os olhos fixos nos dela.

— Ele poderia ter qualquer garota, e você sabe disso. Mas ele não quer. Ele quer você. E não é um querer leve ou passageiro.

— Não sei que nome dão ao que têm, nem a história completa de vocês, mas eu sei que teria sido a mulher mais feliz do mundo se ele tivesse me desejado da forma como ele anseia por você.

Hermione sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto antes que pudesse impedir. O coração batia descompassado. As palavras se cravaram fundo, como uma verdade muito bem-vinda.

O peito apertou com uma mistura dolorosa e doce: alívio por ouvir alguém de fora confirmar o que, no fundo, ela sempre precisou escutar; reconhecimento por perceber o quanto aquilo a inundava de completude; e uma onda quente de ternura que fez seus olhos arderem ainda mais.

Antes de raciocinar, ela avançou e envolveu Daphne em um abraço apertado. A resposta foi um som surpreso e uma risada leve, enquanto a sonserina se acomodava ao gesto com o braço bom.

Ao se afastarem, Hermione limpou o rosto e riu, um pouco sem jeito.

— Para todos os efeitos, esse momento nunca aconteceu, está bem?

Daphne assentiu de forma teatral.

— Até porque ninguém acreditaria em tamanha afeição entre nós.

As duas riram, cúmplices.

Enquanto saíam do vestiário, Hermione percebeu com o coração carregado de alivio que as palavras certas podiam aquecer muito mais do que qualquer banho quente.

-XX-

Os corredores de Hogwarts já estavam mergulhados no silêncio, com as lamparinas mágicas tremulando e projetando sombras alongadas pelas paredes de pedra enquanto Harry e Hermione finalizavam mais uma ronda.

Nas últimas semanas, a decisão de patrulharem juntos provara ser acertada. As responsabilidades de Monitores-Chefes pareciam bem menos exaustivas quando compartilhadas, assim como a gestão dos demais monitores.

— Até que o saldo foi proveitoso — Harry comentou com um suspiro cansado, quebrando o silêncio. — Aquele aluno do quarto ano da Corvinal pareceu subitamente mais atento ao meu sermão, sem que eu precisasse sequer tocar na varinha.

Ele olhou para Hermione de soslaio, com um brilho suspeito nos olhos, como se soubesse que ela era a verdadeira arquiteta daquela obediência repentina. Hermione encolheu os ombros com uma inocência milimetricamente ensaiada.

— Bem... talvez o fato de a minha varinha estar apontada para ele, quando eu estava logo atrás de você, tenha sido um incentivo pedagógico suficiente.

Ambos riram baixo, um som cúmplice que se dissipou rapidamente no corredor deserto.

Harry desacelerou o passo, aproveitando que os quadros estavam adormecidos e a privacidade era total. Ele se virou para ela, a mão subindo em um gesto instintivo para tocar a lateral do braço de Hermione.

O toque pareceu elétrico. Hermione fechou os olhos por um breve instante, entregando-se à carícia com uma satisfação evidente.

— Você mencionou que amanhã precisa sair antes do amanhecer... — Harry começou, a voz caindo para um tom mais íntimo.

— É uma atividade de Astronomia — ela corrigiu, abrindo os olhos para encará-lo. — Meu grupo precisa observar um alinhamento planetário em um horário específico. Se o céu colaborar, desta vez... Já é a nossa terceira tentativa.

Harry assentiu, mas havia uma hesitação em seu semblante.

— Nesse caso... prefere que eu não vá ao seu quarto hoje? Não quero atrapalhar seu descanso se você precisar acordar tão cedo.

Hermione o encarou por um tempo que pareceu eterno. Então, ela respirou fundo e levou a mão até a nuca dele, os dedos deslizando com suavidade pelos fios rebeldes.

— Pelo contrário, Harry. Eu quero... e preciso de você. — Ela encurtou a distância, colando o corpo ao dele até sentir o calor de sua respiração. — E, desta vez... quero que você fique. Quero que durma comigo.

Harry afastou-se apenas o suficiente para encarar o rosto dela, a surpresa gravada em cada traço, misturada a um êxtase que ele nem sabia que ainda era capaz sentir.

— Está falando sério? Dormir... passar a noite toda? — Ele afagou os cabelos dela, a voz carregada de expectativa. — Você tem certeza disso?

— Tenho tanta certeza — ela afirmou, a voz firme e decidida — que já desocupei uma das gavetas da minha cômoda para você. Para que possa deixar suas coisas lá... roupas, livros, o que precisar. E escolhi uma das grandes.

Ela acariciou o rosto dele, os olhos brilhando com a consciência do quanto aquele gesto significava para ambos. Harry sentiu um tremor delicioso percorrer o corpo enquanto um sorriso largo iluminava seu rosto.

— Eu queria muito conseguir bancar o difícil agora... fazer algum tipo de suspense — ele brincou, fechando os olhos teatralmente antes de fixá-los nela com uma intensidade avassaladora. — Mas vou ter que falhar miseravelmente. Não existe nada que eu queira mais.

Ele se inclinou, selando o momento com um beijo profundo que arrancou dela um gemido baixo e sôfrego.

— Eu também, Harry — ela murmurou contra os lábios dele. — Não quero mais impedir a gente de viver o que já é inevitável.

Naquela noite, não houve relógios ou avisos de partida. Houve apenas uma entrega absoluta envolta de prazer que os levou a um sono tão tardio que, quando o despertador tocou, pareceu que mal haviam fechado os olhos.

Ainda não havia amanhecido quando caminhavam de mãos dadas pelos corredores gelados. Ao chegarem à bifurcação que separava o caminho das masmorras da escadaria da Torre de Astronomia, Harry a puxou para si com um movimento súbito, fazendo-a soltar um gritinho surpreso quando seus corpos colidiram.

— Não foi o suficiente passar a noite inteira grudado em mim? — ela provocou, com um sorriso radiante.

— Nunca vai ser suficiente — Harry respondeu, os olhos escurecendo antes de tomarem os lábios dela em um beijo lento, que carregava todo o calor da noite anterior.

— Eu preciso ir... — Hermione disse com dificuldade, relutante em quebrar o contato. — E você precisa dormir mais uma hora, ao menos.

— Divirta-se com os planetas — ele brincou, fazendo-a revirar os olhos com um desdém carinhoso.

Enquanto ela se afastava apressada, Hermione virou-se uma última vez e soltou, como se fosse a coisa mais natural do mundo:

— Te vejo mais tarde, amor.

Harry permaneceu estático, observando-a sumir na penumbra da escadaria. Levou alguns segundos para processar o peso daquela palavra final.

— Sim... meu amor — ele sussurrou para o corredor vazio, onde ela já não podia ouvir.

Com um sorriso que não cabia no peito, ele deu meia-volta para descer às masmorras, sentindo um medo irracional de dormir e descobrir que tudo aquilo foi um delírio.

Porém, assim que ele sumiu de vista, uma figura loira emergiu de trás de uma coluna maciça. O rosto de Draco Malfoy estava pálido, a incredulidade dando lugar a um desdém furioso e cortante.

Desgraçados.

Notes:

Para todos que estão ansiosos para desvendar os questionamentos que se formaram ao longo da história… a partir do próximo capítulo, começaremos a ter algumas respostas.
E isso vai acontecer capítulo por capítulo — sempre mantendo o foco no que tanto amamos: o desenvolvimento do nosso casal 🥰
Então, um pouquinho mais de paciência… porque até o final (que já não está tão distante assim 🥹), tudo será esclarecido.
Como costumo dizer: aguenta coração ❤️

Chapter 14: Sempre Cuidarei de você

Notes:

Boa leitura 🥰✨️

Chapter Text

Os gritos ecoavam pelas masmorras com uma intensidade que fez os passos rápidos de Harry vacilarem por um microssegundo. O tom era de agonia pura. Ele seguiu a voz, adentrando o Salão Comunal da Sonserina.

A cena era exatamente o que Daphne, em um aviso apavorado minutos antes, o implorara para intervir. Um garoto do quarto ano contorcia-se no chão, soluçando em prantos.

— P-por favor... p-para...

Diante dele, Draco Malfoy mantinha um sorriso gélido que não alcançava os olhos cinzentos e a varinha estendida, repetindo o feitiço Nervum Torquere. O garoto era atingido por espasmos incontroláveis, os tendões parecendo repuxar sob a pele.

— Seu patife medroso — sibilou Draco, caminhando lentamente ao redor do garoto como um predador. — Isso é para você aprender. Se quiser participar de algo grande... precisa virar homem primeiro e fazer o que for preciso.

— Ficou maluco, Draco? — A voz de Harry cortou o salão como um chicote. — Deixe o garoto em paz. Agora!

Draco virou o rosto lentamente, um bufo de desprezo escapando de seus lábios.

— Ora,ora... se não é o nosso ilustre Monitor-Chefe — os olhos de Draco brilharam com um escárnio venenoso. — Não se meta, Potter. Vá cuidar das suas funções de mulherzinha.

Harry nem esperou o fim da provocação. Ele se colocou fisicamente entre Malfoy e a vítima, apontando sua varinha diretamente para o rosto do loiro.

— Eu não vou repetir. Chega.

Por um instante, o silêncio pesou tanto que parecia sufocar os presentes. Então, o feitiço cessou. O garoto amoleceu ainda no chão, arfando, e começou a se arrastar para longe.

Draco deu um passo à frente, o semblante obscurecendo.

— Quem você pensa que é? — rosnou. — Acha que tem alguma moral sobre mim com essa sua função ridícula? Abriu mão do Primus Sonserinae, a única coisa que te daria algum respeito real entre nós, e acha que esse broche idiota te dá poder?

— Pouco me importa o que você pensa, Malfoy — Harry respondeu, sua paciência esticada ao limite. — Mas entenda uma coisa: acabou a sua liberdade de usar os outros como joguetes para alimentar seja lá o que você está, claramente, aprontando.

Draco recuou um passo. A insinuação por trás daquilo foi o bastante para que ele entendesse que Harry sabia muito mais do que aparentava.

— Ei, pessoal, qual é… — Blaise Zabini tentou intervir, colocando a mão no ombro de Draco para conter o furacão iminente. — Somos todos amigos aqui.

Draco arrancou a mão de Zabini com uma brutalidade desnecessária.

— Amigos?! — Ele riu, um som seco. — Eu não vejo nenhum amigo aqui. Só você... Crabbe e Goyle.

A dupla ao fundo soltou uma risada abafada, mas o olhar de Draco já havia voltado para Harry, percorrendo-o de cima a baixo com um nojo visceral.

— Parece que o monitorzinho já definiu o seu novo ciclo de lealdade. Conversinhas pelos cantos com os porcos da Grifinória, risadinhas com nossos rivais… — Ele semicerrou os olhos, aproximando o rosto do de Harry. — E um contato bem íntimo... com a vadia da sua coleguinha monitora.

O sangue de Harry ferveu, correndo como labaredas por suas veias. Ele apertou a varinha com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Por acaso você está se referindo à Hermione, seu merda? — A voz saiu num sussurro mortal.

Draco deu de ombros, inclinando a cabeça com um sorriso de escárnio.

— Ora… e por acaso você anda fodendo outra sangue-ruim além dela?

O impacto veio antes mesmo da consciência. O punho de Harry encontrou o rosto de Draco com uma força bruta, o som do osso contra o osso ecoando pelo salão. Malfoy foi lançado ao chão.

— Harry! — Zabini gritou, enquanto um murmúrio de choque percorria o salão.

Harry avançou, jogando-se sobre Draco e agarrando-o pelo colarinho, chacoalhando-o.

— Repete, seu verme — vociferou Harry. — Eu te desafio a repetir o que acabou de dizer!

Antes que Harry pudesse desferir outro golpe, Draco disparou um feitiço de impacto à queima-roupa. A força lançou Harry para o outro lado da sala com violência. O choque seco contra a parede roubou seu fôlego, e ele caiu no chão, o gosto metálico de sangue enchendo a boca.

Draco levantou-se cambaleando. Um olho já começava a fechar, arroxeado, e um filete de sangue escorria de sua sobrancelha.

— Vai fazer o quê, Potter? Me matar? Vai usar uma Imperdoável? — o loiro cuspiu, a voz envolta de um escárnio histérico. — Você não tem a ousadia de um sangue puro para cruzar essa linha. E jamais terá, seu mestiço imundo! Você é uma anomalia entre nós... e ter te deixado entrar na minha vida foi o erro mais patético que já cometi.

Em um movimento preciso, Harry devolveu um feitiço de ataque que fez Draco rodopiar no ar e colidir contra o solo. Harry se levantou, limpando o sangue do próprio lábio com o dorso da mão.

— Pelo visto, Malfoy, concordamos em pelo menos uma coisa.

O que se seguiu foi um borrão de violência. Uma sucessão brutal de insultos, feitiços e agressão física.

Draco socou o estômago de Harry, que revidou com golpes sucessivos no rosto do loiro. Faíscas de lampejos mágicos ricocheteavam pelas colunas de pedra enquanto os dois se estapeavam como animais.

Os sonserinos assistiam em uma mistura de horror e êxtase, até que Theo e Pansy irromperam no salão, estupefatos.

— Mas o que é que está acontecendo aqui?! — gritou Pansy, levando as mãos à cabeça.

Theo vinha logo atrás, os olhos arregalados.

— Por Merlin, parem!

O garoto tentou intervir, mas foi lançado para o lado por um feitiço errante.

Até que um clarão branco, ofuscante e frio, os atingiu simultaneamente. Ambos foram lançados ao chão, imobilizados por uma força que parecia pregar seus corpos à pedra.

— Malfoy! Potter! Chega!

A voz do professor Snape ecoou, firme e gélida, fazendo o salão inteiro estremecer.

Enquanto o homem ordenava que outros alunos os levassem para a ala hospitalar, Harry não tirou os olhos de Draco.

O loiro, com o rosto desfigurado, murmurou apenas para que ele ouvisse:

— Acabou para você, Potter. Acabou para vocês dois.

Harry tentou se desvencilhar do feitiço para avançar novamente, mas a mão de Snape apertou seu ombro com uma força esmagadora. Havia uma lucidez fria naquele toque — um aviso silencioso de que haveria uma hora certa e um momento certo para resolver aquilo.

E ele não descansaria enquanto qualquer ameaça, por mais velada que fosse, pairasse sobre sua Hermione.

-XX-

A visão de Hermione ainda estava turva enquanto ela cruzava os corredores com passos rápidos.

Ela se negou a processar qualquer barreira no caminho, as palavras de Parvati ainda ecoando em sua mente como um feitiço de mau agouro: confusão violenta nas masmorras… Harry e Draco… enfermaria.

Embora tentasse não tirar conclusões precipitadas, um pressentimento sombrio a consumiu.

Harry não era imprudente. Ele costumava ser firme quando necessitava usar sua autoridade de Monitor-Chefe, mas aquilo não parecia se tratar de uma mera intervenção disciplinar. Uma violência física daquela gravidade indicava que algo a mais havia rompido. Algo que a assustava, principalmente devido ao outro nome envolvido na confusão.

Ao alcançar a enfermaria, o movimento incomum de alunos da Sonserina em grupos sussurrantes não a intimidou. Hermione ignorou os rostos e murmúrios, concentrando-se em Theodore Nott.

Assim que a viu, o sonserino apenas indicou com um gesto discreto a ala reservada, como se soubesse exatamente o que ela buscava.

Hermione seguiu para o cômodo separado da ala principal, o que entendeu ser uma clara tentativa de manter os dois combatentes em hemisférios opostos.

Ao atravessar o umbral, o peito de Hermione apertou.

Harry estava deitado na maca. Algumas partes do corpo estavam marcadas por hematomas e escoriações que contrastavam com a pele pálida, além de um corte profundo no lábio.

Ao notar a presença dela, ele forçou um sorriso.

— É, eu sei... — ele tentou soar divertido, embora a voz saísse um pouco arrastada. — Devo estar nada atraente agora.

A incredulidade tomou o rosto dela. Em poucos passos, Hermione já estava ao seu lado, sentando-se com um cuidado extremo na beirada da maca.

— Por Circe, Harry… — a voz dela falhou, enquanto o brilho das lágrimas denunciava seu pânico. — Olhe para o seu estado... está tão ferido.

— Ei… — ele sussurrou, levando a mão até o braço dela, acariciando-a devagar. — Vai ficar tudo bem. Garanto que o Malfoy ficou em condições consideravelmente piores.

Hermione ergueu a mão, hesitando no ar, como se temesse que qualquer contato pudesse agravar suas lesões. Até que ele quebrou o silêncio com um fio de voz que tentava soar sedutor:

— Sabe... eu tenho a teoria de que um beijinho agora aceleraria o processo de cicatrização em pelo menos cinquenta por cento.

Hermione arregalou os olhos e, em vez do beijo, desferiu um tapa seco em seu ombro ileso.

Harry James Potter!

— Ai! Você está tentando me internar permanentemente? Isso é crueldade com um enfermo! — ele protestou, embora um meio sorriso brincasse em seus lábios.

— Crueldade é o que você faz com o meu sistema nervoso! — ela retrucou, a voz subindo de tom pela mistura de indignação e censura. — Como você se permitiu chegar a esse ponto? Se meter em uma briga bárbara dessas? Pelos céus, Harry, você é Monitor-Chefe! Não um pugilista de rua, nem um membro do Clube da Luta!

Harry franziu o cenho com a referência trouxa que claramente não entendeu, fazendo Hermione balançar a cabeça, frustrada.

— Esqueça. Eu venho aqui transbordando de preocupação e você me recebe com piadinhas? Você é verdadeiramente impossível!

— Me desculpe... — ele murmurou, a diversão dando lugar a uma seriedade terna. — Eu só detesto ver esse olhar assustado.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração trêmula de Hermione. Ela suspirou, derrotada pelo próprio afeto, e inclinou-se devagar sobre ele, depositando um beijo lento em seus lábios. Hermione se movia cautelosamente, evitando roçar o corte do local, mas demorando o suficiente para que o mundo lá fora deixasse de existir.

Quando finalmente se afastaram, as testas permaneceram coladas. A respiração dele roçava quente contra a boca dela.

— Pode me dizer agora o que aconteceu? — sussurrou Hermione.

Harry respirou fundo, lutando contra o incômodo no tórax.

— Só uma explosão entre mim e o Draco que já estava sendo adiada há tempo demais.

Ele ia prosseguir, mas o som da porta se abrindo com um estrondo controlado interrompeu o raciocínio. Snape entrou no recinto, sua capa preta flutuando como uma sombra. Ele sequer olhou para Hermione enquanto se aproximava de Harry.

— Bom, Potter. Sei que não adianta fazer uma acareação agora devido ao seu estado deplorável, mas espero que sua consciência o lembre de que aquela exibição grotesca nas masmorras é absolutamente inadmissível para o seu cargo.

— Com licença, Professor Snape — Hermione interveio, levantando-se. — Mas tenho certeza absoluta que o Harry não deva ser o único alvo de suas admoestações.

— Senhorita Granger, creio que o senhor Potter não precisa de uma aspirante a advogada — Snape sibilou.

— Estou apenas trazendo a tona o que consta no Manual de Orientação dos Monitores! — Hermione insistiu. — O parágrafo quarto estabelece claramente que, em situações de legítima defesa ou para neutralizar um perigo iminente contra terceiros, o uso de força...

— Isso só pode ser uma tortura — Snape revirou os olhos, cortando-a.

Harry buscou a mão de Hermione para ancorá-la, antes de fixar no homem um olhar de uma seriedade cortante.

— Estou ciente das sanções disciplinares, Professor. Contudo... se houve um saldo positivo nesse caos, foi a validação das nossas suspeitas. — Harry falou de forma sugestiva. — Averigue a varinha do Draco.

O olhar de Snape mudou instantaneamente. Por um breve instante, a máscara de indiferença vacilou antes de ele assentir.

— Providenciarei isso. Trate de se recuperar, Potter. Quando melhorar, apuraremos os fatos devidamente. Granger. — Ele se despediu seco, saindo do recinto apressadamente.

Hermione estava pronta para bombardear Harry com perguntas, quando Madame Pomfrey surgiu, equilibrando uma bandeja de prata com frascos tilintantes.

— Muito bem, querido. Aqui estão as poções analgésicas e os tônicos reconstituintes. A posologia deve ser seguida à risca. — sentenciou a enfermeira. — Senhorita Granger, receio que seu tempo de visita tenha expirado. Ele precisa se submeter a um repouso absoluto agora.

— O quê?! Não! — os dois disseram em uníssono.

— Não seria possível uma extensão de apenas alguns minutos? — Hermione pleiteou, com o semblante desgostoso.

— Não será necessário, porque eu não pretendo passar a noite toda aqui de jeito nenhum — Harry declarou, tentando se impulsionar para cima com uma careta de dor — Eu odeio alas hospitalares.

— Senhor Potter, eu preciso monitorar suas reações! — a mulher protestou.

— Madame Pomfrey... — Hermione interveio. — Se o problema é a supervisão, eu posso assumir a responsabilidade. Quero dizer... — ela sentiu o rosto esquentar sob o olhar curioso da enfermeira — eu o escoltarei até o dormitório e garantirei que um de seus colegas de casa monitore a administração das poções durante a madrugada.

Hermione trocou um olhar significativo com Harry, que pareceu entender aonde ela queria chegar.

— Pois bem. Mas certifique-se de que o rapaz seja minimamente responsável — cedeu a mulher, a contragosto.

Depois de alguns minutos de cuidados extras, Hermione começou a ajudá-lo a caminhar lentamente para fora da enfermaria, o braço dele passado pelos seus ombros.

— Hermione… — ele murmurou. — Eu não vou conseguir ir para o seu dormitório. Não estou em condições para manter um feitiço de desilusão ou enfrentar as escadarias da Torre da Grifinória nesse estado.

Hermione revirou os olhos, como se fosse óbvio.

— Eu sei disso. É por isso que, esta noite, eu ficarei com você no seu dormitório.

Harry parou de repente, olhando para ela com uma mistura de surpresa e um êxtase que a fez exibir um sorriso involuntário.

-XX-

Harry despertou com uma inspiração profunda. Ele levou a mão aos olhos, esfregando-os devagar para afastar o peso residual do sono. Era a segunda vez que cochilava desde que Nott e outro colega da sonserina o ajudaram a chegar ao seu dormitório.

Seu corpo ainda parecia estranho. Estava consideravelmente melhor, mas sentia os membros pesados e lentos, como se cada músculo estivesse envolto em uma camada de cansaço espesso — cortesia do coquetel de poções que corria em seu organismo.

Ele sabia que deveria estar processando a briga com Draco e o caos nas masmorras. Naquele momento, porém, Harry só conseguia se concentrar na expectativa da figura de Hermione que a qualquer momento entraria por aquela porta.

Embora a ideia o deixasse profundamente satisfeito, além de realizar uma antiga fantasia de tê-la em um espaço tão pessoal, ele nunca ousou convidá-la ao seu dormitório. Mesmo sendo um anexo reservado, ainda fazia parte das Masmorras. Um ambiente que andava carregando uma aura de hostilidade que ele se recusava a associar a ela.

Naquele ano, os casos de preconceito contra nascidos trouxas haviam escalado de falatórios contidos nos corredores para agressões isoladas cada vez mais frequentes. Embora ele tivesse consciência de que a força e a imponência de Hermione servisse como escudo suficiente para não intimidá-la, Harry detestava a ideia de submetê-la voluntariamente a um ambiente que exalava tanta toxicidade.

Mas, como sempre, Hermione o surpreendeu. O fato de ela priorizar simplesmente estar com ele, cuidar dele e ser o que se esperava daquela relação — que se mostrava mais cheia de conexão do que nunca — falava mais alto do que qualquer caos ao seu redor.

A porta rangeu levemente. O ar ondulou quando o feitiço de desilusão foi desfeito, revelando-a. Rapidamente, os olhos de Hermione já estavam sobre ele, percorrendo-o como se fizesse um diagnóstico silencioso antes mesmo de dizer qualquer palavra.

— Consegui vir a tempo da sua próxima dose — anunciou ela, já alcançando os frascos na mesinha de cabeceira.

Harry fez uma careta de puro desgosto ao engolir o líquido viscoso que ela havia lhe entregado.

— Isso é pior do que suco de bubotúbera estragado.

Hermione soltou uma risadinha curta. Em seguida, deu alguns passos pelo quarto, observando o ambiente ao redor.

— Pelo jeito — ela comentou, tocando a lombada de um livro na prateleira —, aqui também tem muito da sua personalidade. Como na sua casa... só que um pouco menos organizado.

— Perdão pela bagunça. Eu definitivamente não esperava uma visita tão ilustre. — ele brincou, recostando a cabeça no acolchoado da cabeceira.

Ela voltou a se aproximar, sentando-se na beirada da cama. O rosto exalando a mesma curiosidade de mais cedo.

— Harry... aquele seu comentário com o Professor Snape... — ela começou, cautelosa.

— Eu sabia que você tinha prestado atenção — ele disse com um meio sorriso.

Ela suspirou, cruzando os braços.

— Pareceu algo sério. Que tipo de coisa exatamente vocês estavam suspeitando?

Harry respirou fundo.

— Tem havido um movimento tenso nas masmorras ultimamente. Além disso houve todos aqueles ataques sem autoria, alunos de outras casas aparecendo machucados nos corredores desertos... você sabe do que estou falando.

Hermione assentiu.

— Sim. Inclusive, denunciei os fatos de que tive conhecimento.

— Pois bem — continuou Harry, a voz baixando de tom. — Snape me pediu para ficar atento aos meus colegas... especialmente em Malfoy.

Ele não pôde evitar notar que Hermione se remexeu desconfortavelmente quando o nome do loiro foi citado.

— Eu achei sem fundamento no início, mas notei que ele andava tendo reuniões privadas com membros da sonserina de caráter questionável. Conversas que paravam quando eu me aproximava. E hoje... tudo fez sentido.

Hermione franziu o cenho, inclinando-se para frente.

— Como assim?

— Draco fez uso de um feitiço de efeito duplo, Hermione. O Gemini Ictus.

Hermione arregalou os olhos, a cor fugindo de seu rosto.

— O Golpe Gêmeo?! Tem certeza?

— Sim — Harry confirmou, a expressão tensa. — Ele lança um feitiço visível, mas anexa um segundo efeito silencioso, para que o estrago seja maior sem que ninguém perceba a origem. Foi o que ele fez comigo hoje.

— Por Merlin! — Hermione levou as mãos à boca. — Como você identificou?

— Ele lançou um lampejo visível, algo comum para me distrair, mas junto veio a carga secundária. Quando ele me jogou contra a parede, não foi só o impacto físico. Eu senti uma pressão interna brutal, como se meus órgãos estivessem sendo comprimidos por mãos invisíveis. Definitivamente não era o efeito esperado do feitiço que ele disparou.

— Consegui evitar que ele efetuasse outros, mas se eu tivesse baixado a guarda por mais alguns segundos, estaria bem mais debilitado.

— Aquela criatura desprezível! — Hermione vociferou, a indignação brilhando em seus olhos. — Harry, esse tipo de prática é crime! O Ministério da Magia possui protocolos rígidos para feitiços de carga secundária. É um conhecimento avançado que sequer é ensinado em Hogwarts, restrito a grupos táticos que passam por anos de treinamento específico...

Ela parou abruptamente, a conclusão surgindo em sua mente como um raio.

— Você acha que ele está sendo instruído por alguém de fora a fazer isso? E a ensinar a outros alunos?

— Exatamente — disse Harry, satisfeito pela rapidez com que ela ligou os pontos. — E nada me tira da cabeça que isso tem a ver com algo perigoso que estão tentando implantar aqui. Algo que vem de alguém muito mais mal intencionado.

Um silêncio denso se instalou entre eles, interrompido apenas pelo estalar suave das brasas na lareira do dormitório.

— Harry, o que eu ainda não consigo entender é... — começou ela, a voz carregada de uma confusão genuína — você e o Draco sempre foram tão próximos. Todos esses anos. Se ele está se perdendo em ideologias tortuosas, você não teria liberdade suficiente para confrontá-lo? Para tentar trazê-lo de volta?

Harry deixou o olhar vagar para um ponto distante na parede de pedra, onde as sombras dançavam.

— Minha relação com Draco tem gravitado em direção a um abismo inevitável. — a voz dele saiu baixa, tingida de uma amargura quase melancólica.

— O que houve entre nós foi o colapso de uma estrutura. Ele costumava se esforçar para ser mais do que se esperava de um herdeiro Malfoy, e foi essa centelha de autonomia que nos tornou amigos. Mas... desde que certas expectativas dele em relação a mim foram frustradas, a dinâmica mudou. E isso explodiu de vez esse ano.

Ele fez uma pausa, o olhar intenso voltando para ela.

— Malfoy não mede esforços para converter sua insatisfação em retaliação. Aceitar Crabbe e Goyle no círculo dele foi o golpe final. Ele sabe que eu os desprezo. Antes, ele os mantinha à distância por respeito a mim. Agora, ele os exibe como um desafio. Enfim... atualmente nos resumimos a dois estranhos que quando ocupam o mesmo espaço, tendem a gerar esse tipo de resultado — ele gesticulou para os próprios ferimentos.

Hermione hesitou, o desconforto evidente em sua postura.

— Ouvi rumores de que ele foi... agressivamente sugestivo sobre nós dois. E que esse foi o motivo de toda a confusão entre vocês...

Harry tensionou os ombros, uma nota de apreensão atravessando seu peito ao se perguntar o quanto ela teria absorvido do veneno do loiro. Pelo semblante dela, contudo, as ofensas mais cruéis ainda eram desconhecidas.

— Sinto muito por isso, Hermione. Eu tento manter a maior discrição possível em relação a nós e...

— Não peça desculpas — ela interveio, aproximando-se com aquela ternura que o desarmava — Eu... definitivamente não ando me importando se o restante da escola perceber que não somos nem um pouco indiferentes um ao outro.

A convicção daquela declaração trouxe um afago instantâneo ao coração de Harry.

— E... sobre as expectativas de que você se referia – Hermione continuou, colocando uma mecha atrás da orelha – Isso tem a ver com o tal do... Primus Sonserinae?

— Também — Harry admitiu, ciente de que Hermione lembrava o suficiente de parte do assunto que gatilhou toda aquela tragédia no quinto ano. — Embora haja mais coisas no meio.

Ele buscou a mão dela, tocando-a com suavidade.

— E eu vou precisar te pedir licença para não entrar em detalhes sobre isso. Não sem expô-lo de uma forma que eu não considero justa.

Hermione piscou, parecendo surpresa com a honestidade crua dele. Aquilo fazia parte do que Harry queria mostrar dia após dia a ela: o respeito acima de tudo na relação dos dois. Uma relação livre de mentiras ou omissões.

Mas falar sobre o interesse quase obsessivo e surreal que Draco nutriu por ela parecia-lhe uma invasão desnecessária.

Contar que Draco fora o dono daquele bilhete anônimo no terceiro ano? Explicar que o desafio ridículo que pretendia prejudicá-la e que Harry nunca poria em prática nasceu de uma frustração profunda do loiro por nunca ter tido Hermione para si?

Revelar isso seria expor a nudez emocional de um garoto que um dia foi seu melhor amigo, seu confidente e a única pessoa em quem Harry confiava cegamente.

Para seu alívio, Hermione apenas assentiu com uma complacência gentil, apertando a mão dele de volta.

— Não precisa se preocupar com isso. Você tem razão em não querer expô-lo. Fico feliz em saber que, embora tudo tenha mudado drasticamente, você ainda se mantém fiel ao que aquela amizade um dia significou.

Ela levou a mão ao rosto dele, acariciando a pele perto do hematoma com uma leveza de pluma. Harry fechou os olhos por um instante, apreciando o toque, antes de depositar um beijo na mão dela.

— Obrigado por entender. Não existe nada que eu deseje mais do que ser transparente com você... com tudo o que estamos construindo agora.

A voz dele era um sussurro firme.

— Inclusive, soube que o Snape e a McGonagall pretendiam convocar uma reunião conosco para tratar dos ataques e das suspeitas. Foi por isso que eu ainda não tinha comentado antes, por entender que em breve seríamos orientados oficialmente. E quando acontecer, trabalharemos juntos para enfrentar o que for preciso.

Harry sorriu com mais confiança. Hermione pareceu hesitar por uma fração de segundo antes de retribuir o sorriso com a mesma determinação.

— Claro, Harry. Enfrentaremos juntos.

-XX-

A madrugada já esticava suas sombras para encontrar os primeiros vestígios acinzentados do amanhecer. Hermione permanecia desperta, os olhos atentos apesar do cansaço que pesava em suas pálpebras e do labirinto de inquietações em sua mente.

Ela se remexeu na poltrona ao lado da cama de Harry e puxou com mais força, ao redor dos ombros, a manta de lã que ele havia oferecido, enquanto o observava dormir profundamente.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios ao lembrar da teimosia dele de horas antes. Quase à beira da exaustão, Harry insistiu para que ela se deitasse ao seu lado, indignado por saber que ela pretendia passar a noite naquela poltrona apenas para ficar de olho nele e acordá-lo quando fosse necessário tomar a próxima dosagem da poção.

Embora fosse uma tentação que beirava o irresistível a ideia de adormecer ali entrelaçada a ele, Hermione fora irredutível. Ela precisava permanecer alerta para monitorar qualquer reação adversa. Além disso, queria que ele tivesse todo o espaço necessário para uma recuperação confortável.

Para alívio dela, Harry já estava visivelmente melhor. Ela notou que os hematomas arroxeados haviam empalidecido e os cortes já não passavam de linhas finas e rosadas, graças à intervenção precisa de Madame Pomfreye. Ele dormia sem sobressaltos, um sinal claro de que a dor finalmente cedera.

Hermione soltou um suspiro longo, sentindo um peso sair de seus ombros. Ver Harry machucado daquela forma a atingira em um ponto tão vulnerável que a fez precisar reunir cada gota de seu autocontrole para não desmoronar descontroladamente na frente dele. A simples possibilidade de algo irreversível ter acontecido fazia seu estômago revirar.

Aquilo era apenas mais uma constatação de que Harry tornara-se a base da sua estabilidade. Vê-lo seguro era o que a mantinha em equilíbrio e qualquer ameaça à integridade dele a desestabilizaria por completo. Seus sentimentos por ele, mais do que nunca incontestáveis, reforçavam essa verdade.

No entanto, uma inquietação martelava em sua mente: Draco Malfoy.

Hermione não se ressentiu por Harry ter omitido a ela quanto às suspeitas de Snape. Fazia sentido aquela reserva. Até pouco tempo, a dinâmica entre os dois orbitava estritamente entre as formalidades do estágio no Ministério e o florescer do romance deles. A parceria como Monitores-Chefes ainda era uma tinta fresca.

O que a surpreendeu, de fato, foi a confirmação da ruptura definitiva entre Harry e o loiro.

Hermione já havia notado o afastamento deles. Ultimamente, via Harry na companhia de Theodore Nott e outros colegas, além de vê-lo engajado em partidas amistosas com Ron, Ginny e estudantes das demais casas — muitas vezes sendo o único representante da Sonserina no gramado.

Presenciar Harry tão desarmado, desfrutando de uma leveza sem as amarras da arrogância característica de grande parte da Sonserina tradicional, era a prova viva de que ele parecia mais fluido e autêntico. E Hermione sabia, mesmo à distância, que a personalidade elitista que Malfoy exalava não coexistiria pacificamente com essa versão de Harry.

Embora sentisse um conforto inegável por Harry estar livre de uma influência tóxica, Hermione lamentava. Ela percebeu que, por trás da fachada de neutralidade e indiferença dele, havia a marca da perda. Anos de um vínculo que beirava a irmandade não eram descartados sem dor, mesmo quando o rompimento era uma questão de caráter.

As peças do quebra-cabeça finalmente se encaixavam com uma clareza sinistra: os ataques nos corredores, os alunos feridos, as suspeitas por parte dos professores de que Draco estava diretamente envolvido... e, fora dos muros da escola, a investigação sigilosa de Sirius.

Era óbvio agora: Lucius Malfoy estava planejando algo grande, e o filho era seu peão no tabuleiro escolar.

Hermione já havia se reunido com Sirius algumas vezes para relatar suas próprias observações e investigações precisas, seguindo a orientação dele de ser discreta.

Quando ele soubesse das suspeitas dentro da própria escola — e, principalmente, que Harry já estava envolvido ativamente na apuração —, ela poderia finalmente retirar o peso de participar de algo tão importante sem que Harry, que merecia atuar nisso tanto quanto ela, estivesse a par da situação.

Hermione voltou toda a sua atenção para ele no instante em que Harry se remexeu, as molas da cama soltando um rangido discreto sob seu peso.

Ela piscou pesadamente, lutando contra a névoa do sono que começava a turvar sua visão. Buscando algo que distraísse sua mente, seu olhar vagou pela penumbra até se deter na escrivaninha de carvalho negro.

Levantou-se silenciosamente, os passos amortecidos pelo tapete espesso, e aproximou-se do móvel. Uma curiosidade genuína a atingiu ao notar que Harry parecia ser tão adepto a anotações quanto ela mesma.

Havia pilhas de pergaminhos — disciplinas que despertavam seu interesse e rascunhos de táticas de monitoria e quadribol. Hermione não conteve um sorriso ao ver que aquele lado dedicado de Harry era, de certa forma, fascinante.

Ela começou a folhear os papéis com leveza, até que sua visão foi capturada por um emaranhado de pergaminhos no canto mais afastado. Estavam separados, amarrados com um cordão de couro, como se Harry fizesse questão de que não se misturassem com os demais.

Hermione inclinou a cabeça. A mão estendeu-se por puro instinto, mas parou a poucos centímetros do papel. O modo como estavam enrolados sugeria algo valioso, algo que ele protegia da própria bagunça organizada com um zelo quase sagrado.

Ela mordeu o lábio inferior, lançando um olhar de relance para a figura adormecida na cama.

Maldita mania de satisfazer minha curiosidade... — sussurrou para si, divertida com o conflito interno.

A necessidade de entender o que Harry guardaria com tanto fervor venceu o escrúpulo da privacidade. Ela apenas suplicou mentalmente a Merlin que não fosse algo estritamente pessoal — ou masculino demais — que a fizesse se arrepender de bisbilhotar.

Com cautela, ela desfez o nó e abriu o primeiro pergaminho. Seus olhos varreram as primeiras linhas e, instantaneamente, o mundo pareceu perder o eixo. Sua respiração pesou, tornando-se curta e errática.

Hermione passou para o segundo, e depois para o terceiro, os olhos voando pelas frases. As palavras e seus significados começaram a colidir dentro de sua mente.

Ela precisou agarrar a borda da escrivaninha com força para não tombar para trás diante do impacto do assunto em destaque. Levou o último pergaminho ao peito, apertando-o contra o coração com uma firmeza quase dolorosa.

Seus olhos, arregalados e transbordando um turbilhão indomável de sensações, fixaram-se novamente na figura de Harry. Ele jazia a poucos metros no sono profundo, alheio à tempestade emocional que acabara de desabar sobre ela.

-XX-

Harry abriu os olhos lentamente, a consciência emergindo vagarosamente do sono profundo. A realidade retornava aos poucos, em fragmentos, mas seus instintos logo procuraram pela silhueta de Hermione.

Ele a viu, um contorno borrado contra a luz fraca do ambiente, sentada diante de sua escrivaninha. Ela parecia absorta, debruçada sobre alguns pergaminhos que estavam espalhados diante dela.

Tateando a cabeceira, Harry encontrou seus óculos e os ajustou no rosto. Aos poucos, o mundo ganhou nitidez.

— Amor… — a voz saiu rouca, arrastada pelo sono. — Ainda não acredito que passou a noite em claro e…

Ele começou a se sentar, mas parou no meio do movimento. O cenho se franziu ao perceber que as anotações que Hermione examinava com tanta concentração não eram de seus assuntos habituais.

O reconhecimento trouxe consigo um frio súbito na espinha.

Hermione ergueu o rosto lentamente em direção a ele. O tempo pareceu suspender a respiração naquele instante. Ele deslizou as pernas para fora da cama, os pés tocando o chão gelado em um reflexo imediato de ir até ela, mas se conteve. Sua mente corria em alta velocidade, envolto pelo receio de não saber qual seria a reação dela.

Com cautela, Harry se levantou. Hermione o acompanhou, levantando-se devagar. Não havia mais dúvidas.

— Hermione... isso é... — murmurou, a voz falhando.

— Um emaranhado de testes, pesquisas e protocolos de modificação alquímica... que parecem ser mais precisos e organizados do que relatórios do St. Mungus — completou ela, a voz saindo em um sussurro. — Sobre a poção que trata a mácula da minha magia vital... a Vitae Doloris.

Ela se aproximou dele com uma lentidão que contrastava violentamente com a intensidade de emoções que transbordava de seu semblante cansado.

O silêncio que se instalou foi quase asfixiante.

Embora Harry nunca tivesse previsto que aquela situação pudesse acontecer, seu primeiro impulso era de explicar, de evitar que ela tirasse conclusões precipitadas antes que ele pudesse justificar sua reais intenções em estar tão imerso em um território que ela preferia, diante dele, manter sob interdição.

Mas a hesitação o venceu novamente.

Harry zelava pelo seu relacionamento com Hermione com uma reverência quase sagrada e temia que qualquer palavra fora do lugar, especialmente sob aquela tensão, pudesse desmoronar aquela estrutura delicada.

Contrariando suas reservas, porém, a voz dela saiu baixa, serena, embora envolta de uma ansiedade contida:

— Harry... eu li e reli todos eles. Há quanto tempo, exatamente, você trabalha nisso?

Harry respirou fundo, tentando manter a voz estável.

— Desde o início do sexto ano.

Os olhos dela se arregalaram em genuína surpresa.

— Eu passei o quinto ano inteiro submerso na culpa — ele confessou, o peito apertando. — A ideia de que você se feriu por minha causa, mesmo sem ter sido intencional, era insuportável. Eu não conseguia pensar em nada que não fosse encontrar uma forma de aliviar o seu fardo.

Ele sustentou o olhar dela, desafiando-a a desviar.

— Sei que existem meios para refinar feitiços e poções de tratamento, potencializando sua eficácia e amenizando seus efeitos colaterais. Procurei o Snape e sugeri a possibilidade de trabalharmos nisso. Em atuarmos para tentar melhorar a Vitae Doloris.

Ele fechou os olhos por um instante, depois os abriu novamente.

— No início ele desdenhou, entendendo que eu estava fazendo aquilo apenas por causa dos meus sentimentos por você. Mas eu insisti. E ele cedeu contanto que em troca, eu aceitasse o cargo de Monitor-Chefe e fosse seu assistente em outros projetos. Desde então, trabalhamos juntos duas vezes por semana: realizamos testes, anotamos resultados e ajustamos as fórmulas para podermos enviar uma proposta sólida ao St. Mungu’s.

Sua voz ganhou um tom mais esperançoso.

— É uma chance de tornar a poção menos dolorosa para você e para todos que precisem fazer uso dela… e quem sabe, um dia, suficientemente potente para que não precise mais tomá-la todos os dias. Talvez apenas algumas vezes por mês… ou até uma única vez por ano. Já estamos vendo resultados promissores e…

Hermione ergueu a mão, um gesto mudo e trêmulo que o silenciou instantaneamente. Ela parecia oscilar, o corpo reagindo às informações enquanto seus olhos permaneciam cravados nele.

— Harry… sobre o teste de estabilidade em tecido vivo. Sobre a reação alérgica que você monitorou… em si mesmo. — A voz dela carregava incredulidade e preocupação. — Você realmente fez isso? Se expôs à poção?

— Sim — admitiu Harry, dando um passo cauteloso à frente. — Snape conseguiu manter isso fora dos relatórios oficiais e garantiu que não houvesse sequelas permanentes. Foi fundamental para tornar a pesquisa mais precisa.

— Isso foi uma imprudência estúpida, Harry! — ela explodiu, a voz embargada enquanto as palavras saíam em cascata. As lágrimas finalmente venceram a barreira, inundando seu rosto. — Você tem noção do risco? E se a reação fosse grave demais? Se nem o professor Snape conseguisse conter? Por que se submeter a isso? Tanto tempo, tanto esforço... arriscar a sua saúde por algo que nem tinha garantias de dar certo?

Harry a alcançou. Ele segurou os braços dela, sentindo o tremor que a percorria, tentando ancorá-la em meio ao seu colapso.

— Porque eu amo você, Hermione! — A declaração ecoou pelo quarto — Porque mesmo quando achei que tinha te perdido, ou que nunca teríamos outra chance, o pensamento de você sofrendo era insuportável. Eu precisava fazer algo, mesmo que você nunca soubesse.

Ele suavizou o toque, os polegares traçando círculos lentos na pele dela.

— Se eu pudesse tornar sua vida um milímetro mais leve... mesmo que você passasse o resto dos seus dias me odiando à distância, eu faria tudo exatamente igual. Sem hesitar. E sem um único arrependimento.

O impacto do corpo dela contra o dele foi tão violento que o fez recuar um passo. Mas antes que ele pudesse se equilibrar, Hermione o envolveu em um beijo que foi puro incêndio. Era desesperado, faminto, carregado de uma intensidade que as palavras não conseguiam mais conter.

Em um movimento contínuo, ela o prensou contra a parede mais próxima. Seus dedos se cravaram na camisa dele com força, enquanto ela sitiava seus lábios, sugando-os como se ele fosse seu único oxigênio.

Harry correspondeu com a mesma urgência febril, as mãos travando na cintura dela para puxá-la, suspendendo-a quase, eliminando qualquer espaço que ainda ousasse existir entre os dois. Era caótico e perfeito.

Quando ela se afastou minimamente para respirar, Harry soltou um gemido baixo de frustração. Seus olhos desceram imediatamente para os lábios dela, inchados, vermelhos e entreabertos.

— Você fez isso… — ela sussurrou, a voz rouca, o desejo ardente e evidente em cada traço de seu rosto. — Mesmo quando eu fui cruel, quando tudo parecia perdido… você ainda cuidava de mim.

Harry levou a mão ao rosto dela, o polegar secando o rastro úmido de uma lágrima antes de deslizar para a nuca, segurando-a com uma delicadeza firme. O calor de suas respirações misturadas era o único ar que ele queria respirar.

— Entenda — ele disse, a voz vibrando. — Eu sempre vou cuidar de você, Hermione. Com o que eu tiver. Com meu amor, com minhas mãos, com a minha mente... ou com a minha vida. Eu serei o que você precisar. Pelo tempo que for.

E, sem esperar resposta, Harry tomou os lábios dela novamente, a sensação percorrendo cada centímetro do seu ser, como uma promessa de que eles estavam fundidos um na vida do outro permanentemente.

Chapter 15: Enfim, Nós

Notes:

Aproveitem ❤️✨️

Chapter Text

O Salão Comunal da Grifinória pulsava com uma energia que não se via há muito tempo. O burburinho de vozes excitadas e a música improvisada criavam uma atmosfera de triunfo absoluto. O motivo era nobre: após oito jogos consecutivos, eles finalmente havia subjugado a Sonserina em campo de forma esmagadora.

Hermione tentava desviar do movimento caótico, esquivando-se de alunos que dançavam e cantarolavam hinos de guerra.

Embora ficasse feliz pelo espírito de sua Casa, uma sombra a impedia de se juntar à euforia. Ela sabia que a vitória tinha um fator determinante: a ausência de Harry no time adversário, fruto de uma suspensão por três jogos após o confronto com Malfoy. Sem o capitão e apanhador titular das cobras em campo, tudo fluiu sem grandes percalços.

Com passos cautelosos, ela cruzou o salão. Deu atenção distraída aos comentários de Parvati, repreendeu Ginny quando a ruiva ameaçou pular de uma das mesas após goles generosos de firewhisky e sentiu uma alegria genuína ao notar Ron e Lavander em um canto. O flerte recente parecia ter avançado para algo mais sólido: os dois estavam entrelaçados, com os lábios colados em um beijo tão intenso que era difícil distinguir onde um começava e o outro terminava.

Aproveitando um momento de vácuo de atenção, Hermione deslizou para perto de uma mesa de canto. Com um movimento fluido, confiscou uma garrafa de hidromel e dois copos, ocultando-os em sua bolsa com um feitiço, antes de cruzar o buraco do retrato.

Ainda era cedo, e a adrenalina pós-jogo que fervilhava pelos corredores tornava nada propício para que ela e Harry se encontrassem em qualquer um dos seus dormitórios. Por isso, como já era hábito, haviam combinado de se encontrar antes da ronda dos monitores em uma sala de aula desativada no quinto andar.

Aquele tipo de refúgio já se tornara parte da rotina.

Encontrarem-se apenas à noite — ou em momentos rapidamente roubados durante o dia — já não acalmava a urgência que os habitava. Cada brecha entre aulas, cada intervalo de estudo, ou horários livres de atividades particulares era agora, por um acordo tácito, dedicado um ao outro.

Um sorriso quase infantil surgiu no rosto de Hermione ao recordar que fora ela a dar voz a essa nova geometria. Se era para se torturarem com olhares carregados pelos corredores, que satisfizessem o desejo estando, de fato, juntos sempre que possível.

A expressão de êxtase no rosto de Harry quando ela sugeriu a intensificação daqueles momentos foi o melhor dos pagamentos. Aquela iniciativa havia sido um dos símbolo de sua nova faceta: a Hermione que não apenas reagia ao afeto, mas que principalmente reivindicava seu espaço na vida dele.

Essa entrega tornou-se ainda mais natural desde o dia em que descobriu o inimaginável. Saber que Harry vinha se dedicando incansavelmente há mais de um ano para encontrar uma forma de aliviar os efeitos da Vitae Doloris era algo que transcendia o romântico. Era surreal. Impressionante. A declaração de amor mais profunda que ela poderia imaginar em receber do homem que amava.

Hermione fizera sua própria lição de casa, obviamente. Desde que compreendeu que a poção seria uma constante dolorosa em sua vida, buscou respostas, alternativas, qualquer avanço na área.

Mas os resultados eram desanimadores. Poucos bruxos precisavam daquela poção ao longo da história — e, por isso, havia baixa prioridade por parte da comunidade mágica no investimento em melhorias.

Ela mesma pretendia se especializar na área no futuro para tentar mudar essa realidade, mas sabia que, sem um mestre especialista em Poções para os testes práticos, a melhor das teorias seria inútil.

O fato de Harry estar se esforçando numa área que ele definitivamente não dominava, insistido com o professor mais intragável da escola, submetendo-se a tarefas que detestava e chegando a usar o próprio corpo como cobaia apenas pela remota probabilidade de poupá-la um dia, era algo que Hermione jamais teria capacidade para ignorar.

Harry se mostrou mais do que verdadeiro ao afirmar seus sentimentos, o quanto ela significava para ele e o quanto zelada por aquela relação.

Ele se revelou, mais do que nunca, o garoto por quem ela se apaixonara desde o terceiro ano, o rapaz amoroso e envolvente com quem se relacionara no quinto, e, agora, o homem que ela escolheria, por mil vidas, para caminhar ao seu lado.

Qualquer resquício de dúvida ou orgulho residual havia se dissolvido, tornando-se uma nota de rodapé irrelevante na cronologia deles. E ela não daria mais brechas para que Harry cogitasse, nem por um instante, que o fogo dela queimava com menos intensidade que o dele.

Um anseio desesperado agora guiava seus dias: recompensar o tempo perdido em que seu orgulho estúpido a cegara diante do amor imensurável por Harry, e por tudo que queria viver ao lado dele.

Ela iria demonstrar, na precisão de cada escolha e na entrega de cada toque, a imensidão do que sentia. E, mais do que isso… colocando em prática algo que já rondava sua mente há tempos.

-XX-

Hermione empurrou a porta pesada da sala de aula. O ranger das dobradiças foi abafado pelo estalar acolhedor da lareira que Harry já havia acendido.

Ela o encontrou encostado contra a moldura da janela oposta, observando a neve cair contra o vidro. A luz tênue das chamas dançava em sua pele clara, esculpindo seu perfil com uma beleza quase hipnotizante que fez Hermione precisar conter um suspiro.

Ao notar o movimento, Harry virou o rosto, um sorriso lento iluminando suas feições.

— Trouxe algo para amenizar esse frio congelante — disse ela, fechando a porta e revelando a garrafa de hidromel. — Foi a coisa menos embriagante que encontrei no Salão Comunal.

— A Monitora-Chefe contrabandeando bebidas? Impressionante, mas não inédito...— Harry brincou, desencostando-se da parede e apontando para a mesa baixa ao lado da poltrona, onde outra garrafa e dois copos já esperavam.

Hermione soltou uma risadinha diante da coincidência, enquanto se aproximava.

— Não me diga que a Sonserina também celebra as derrotas?

— Digamos que, na alegria ou na tristeza… o paladar não deve sofrer as consequências do placar — ele respondeu, enquanto encurtava ainda mais a distância entre eles.

Harry envolveu a cintura dela, puxando-a para si com uma familiaridade que ainda fazia o coração de Hermione acelerar. Em seguida, tomou seus lábios num beijo lento e exploratório.

Momentos depois, acomodaram-se nas poltronas diante do fogo. Hermione não hesitou em se aninhar ao lado dele, sentindo o braço de Harry circundar seus ombros como um refúgio intransponível.

— Como está o clima nas masmorras? — perguntou ela, a cabeça descansando no ombro dele enquanto seus dedos traçavam padrões preguiçosos sobre o tecido da calça de Harry.

— O gosto amargo da derrota esta imperando — ele respondeu, revirando os olhos com um divertimento seco. — Me esforcei para passar todas as técnicas para o Nott assumir a liderança em campo, mas o time sentiu o baque da minha ausência. Ainda tenho dois jogos de suspensão pela frente. Vamos ajustar as engrenagens ... mas o clima de enterro só deve melhorar a partir de amanhã.

— Eu não estava perguntando exatamente sobre o quadribol — ela hesitou, a voz baixando de tom. — É sobre todo o resto.

Harry se remexeu, a expressão endurecendo levemente. As últimas três semanas haviam gerado uma tensão evidente em Hogwarts, principalmente dentro da Sonserina.

A análise da varinha de Draco confirmara o uso de feitiços ilegais e, como se esperava, a punição fora severa. O loiro recebeu uma suspensão das aulas e da própria escola por tempo indeterminado.

Previsivelmente, a família Malfoy reagiu com um frenesi aristocrático, disparando ameaças a autoridades ministeriais para tentar sobrepujar a diretoria, mas a gravidade dos fatos blindara a escola contra influências externas.

Como consequência, o atual círculo íntimo de Draco — Zabini, Parkinson, Crabbe e Goyle — circulava com uma cautela quase paranoica, oscilando entre o receio de uma retaliação e a hostilidade latente contra Harry.

— Ainda anda... complicado — Harry admitiu — A divisão é nítida. Metade da Casa está assustada com o que aconteceu, a outra metade projeta a própria frustração em mim. — ele deu de ombros — Mas nada que eu não tire de letra.

Hermione ergueu o rosto, estudando-o. Embora admirasse aquela resiliência inabalável, a recusa em se curvar diante das intimidações, ela detestava a ideia dele imerso em um ambiente que estivesse exalando animosidade.

— E os rumores? Alguém mencionou as abordagens dos professores ou o que Draco parecia estar coordenando? Os ataques...?

— Pelo menos não na minha frente. O que é compreensível. Ninguém vai se acusar de cumplicidade depois da queda do Draco.

Harry inspirou fundo, o olhar fixo no fogo da lareira.

— Mas eu tenho a impressão de que, se estivermos no rastro certo, algo definitivo virá à tona em breve.

Harry soltou um suspiro teatralmente sofrido e virou-se para ela, acomodando as pernas de Hermione sobre o próprio colo, mudando completamente o tom.

— Eu sei que nossos dias estão submersos nesse assunto, mas eu quero desesperadamente focar em nós hoje.

Ele inclinou o rosto, depositando um beijo demorado na curva do pescoço dela, arrancando-lhe um suspiro trêmulo.

— Quero saber o que vamos fazer na semana que vem. Já é Natal. — Harry começou, a voz vibrando rente à pele dela. — Naquele dia no Ministério, minha mãe perguntou se nós dois iríamos ceiar com eles... o que você acha? Se preferir ficar no castelo, por mim está perfeito também. Só quero estar com você.

Hermione mordeu o lábio inferior, permitindo que a ansiedade que cultivava finalmente aflorasse.

— Na verdade... eu tinha outros planos. E preciso saber se você vai concordar.

Harry arqueou uma sobrancelha, curioso.

— Estive pensando... — ela ajeitou a postura — e eu adoraria que você passasse o Natal na minha casa.

Harry quase engasgou.

— N-na... na sua casa? Com a sua mãe?

— E com o namorado dela — Hermione acrescentou, um sorriso tímido, mas decidido, surgindo. — Eu não a vejo há meses. Não queria fazer essa desfeita.

Harry fechou os olhos por um breve instante, uma pontada de culpa o atingindo.

— Sinto muito, amor. Nem passou pela minha cabeça que você ia querer ir para sua casa. Mas... você quer mesmo que eu vá? — a voz dele era pura expectativa.

— Claro que sim! — Ela abandonou sua poltrona e acomodou-se definitivamente no colo dele. Sentada de frente, com uma perna de cada lado, ela o ancorou com o olhar. — Eu já faço parte da sua vida, Harry. Convivo com sua família... Eu quero que seja recíproco. Quero que você conheça o lado de Hermione Granger que quase ninguém acessa.

Ela deslizou os dedos pelos cabelos da nuca dele, puxando-o levemente para mais perto.

— Além do mais… você mencionou uma vez, de forma bem específica, que tinha curiosidade sobre o meu quarto. Ou o interesse expirou?

O tom maroto e desafiador dela fez Harry despertar do torpor. Ele sorriu, um brilho predatório surgindo nos olhos.

— De maneira alguma. Eu só… estou surpreso. Vai ser uma honra te acompanhar.

Ele a puxou para mais perto, fazendo com que uma ofegância doce dominasse o ar com a sensação dos corpos tão unidos.

— E sua mãe? Ela vai estar de acordo?

— Minha mãe já recebeu uma coruja avisando da possibilidade da sua visita ilustre — ela confessou, com um ar teatral de culpa.

Harry soltou um riso baixo, incrédulo diante da eficiência dela.

— Vai ser um Natal perfeito, então.

— E podemos passar o ano novo com os seus pais — Hermione acrescentou, visivelmente animada — Assim, marcamos presença nas duas famílias.

Um silêncio carregado de significado se instalou. Harry a trouxe para o espaço mínimo entre seus lábios, onde a respiração de ambos se tornava um único elemento.

— Cuidado com esse tipo de fala, Granger… vai acabar me acostumando mal.

— Você tem total liberdade para se acostumar com o que quiser… em relação a mim. A nós.

O sorriso de ambos se desmanchou no mesmo instante, sentindo o peso e a beleza daquelas palavras. Harry a puxou e envolveu sua boca num beijo profundo, perdendo-se completamente naquele momento.

Hermione sentiu cada fibra do seu corpo reagir. Era como tirar nota máxima em um teste impossível, mas com a recompensa infinitamente mais real de possuir e ser possuída, sem reservas.

-XX-

Harry não se lembrava da última vez em que sentira um nervosismo tão... singular. Algo novo, vibrante e deliciosamente humano.

A perspectiva iminente de visitar a casa de Hermione e conhecer sua mãe o levara a extremos cômicos: ele chegara a treinar cumprimentos, ajustar a postura e ensaiar sorrisos diante do espelho — uma autocrítica que achava ao mesmo tempo ridícula e estimulante.

A verdade era que o convite de Hermione tinha sido um sopro de luz em meio a dias opacos.

Nas últimas semanas, Harry vinha operando sob uma névoa de tensão constante. Lidava com a instabilidade de uma Sonserina que, em sua maioria, o tratava como persona non grata, enquanto mergulhava na obscuridade das investigações sobre até onde haviam chegado as ações de Draco. Além do peso emocional de ver alguém que já fora tão próximo cair daquela forma…

Embora mantivesse a firmeza externa, o fardo daquela responsabilidade, somado à ruptura — ainda que silenciosa — com pessoas que um dia chamara de amigos, deixava um incômodo pairando dentro dele.

E, como de costume, Hermione vinha sendo o seu ponto de equilíbrio.

Estar ali, permitindo-se ansiar por algo tão perfeitamente ordinário quanto passar o Natal com a família da mulher por quem era perdidamente apaixonado, parecia o maior dos presentes.

Essa viagem era o auge de uma conexão que havia se consolidando de forma avassaladora nas últimas semanas.

Desde que Hermione descobrira o esforço silencioso dele com a Vitae Doloris, as brumas de incerteza que por vezes nublavam o olhar dela pareciam ter se dissipado por completo.

Não que Harry tivesse planejado aquela empreitada em busca de reconhecimento, mas ficara profundamente impactado ao ver como aquele gesto — aquele instinto tão natural e óbvio de querer cuidar dela — a fizera se desarmar de vez.

Hermione, com a precisão analítica que lhe era nata, não deixou margem para dúvidas sobre o quanto fora tocada. E, embora soubessem que Snape recusaria sua atuação direta nas pesquisas, eles criaram o próprio universo: ela contribuiria com teorias e ideias nos momentos que eram estritamente deles, transformando aquele projeto em mais uma parceria que alimentava o fogo emocional entre eles.

Dessa nova configuração, surgia uma Hermione sem filtros. Ela agora distribuía frequentemente palavras ternas e carinhos sem as antigas travas. Buscava a proximidade dele nos corredores com uma ousada confiança, dividia naturalmente mesas na biblioteca sob o olhar atento de todo o castelo e não mais evitava toques que, embora discretos aos olhos desatentos, carregavam uma eletricidade óbvia.

A realidade era incontestável: a relação escalava para um grau de intensidade inédito, e o impulso agora partia na mesma proporção de ambas as partes.

Embora ele permanecesse agindo cautelosamente, Harry estava se permitindo fluir naquele avanço. Estava, finalmente, saboreando o retorno da persistência obstinada em não desistir da pessoa sem a qual ele não conseguia visualizar um único dia de sua existência.

E agora, aquele avanço todo culminava ali.

Harry estava sentado à mesa dos Granger na véspera de Natal, cercado pelo calor de um lar que logo o recebeu como se ele já fosse parte dali.

Helenna Granger revelou-se uma mulher extrovertida e perspicaz, tratando Harry com uma naturalidade que desarmava qualquer nervosismo remanescente. Em poucos minutos, ela já havia disparado comentários que arrancaram de Hermione um rubor adorável. Aidan, o novo companheiro dela, mostrara-se igualmente simpático e acessível, com um humor sutil que se encaixava perfeitamente na dinâmica da casa.

Eles haviam chegado há poucas horas, mas o tempo parecia ter se dilatado.

— Então quer dizer que a Hermione foi quase suspensa por organizar um motim contra a dissecação de sapos? Inacreditável! — Harry perguntou, um brilho de malícia divertida nos olhos enquanto alternava o olhar entre mãe e filha.

— Imagine a minha cara quando recebi o chamado da escola — a mulher respondeu, rindo com uma feição maternal e orgulhosa. — O mais surpreendente foi entrar na sala da diretoria e encontrá-la se defendendo com argumentos tão convincentes que o diretor simplesmente não teve saída. Ele trocou a suspensão por uma mera advertência verbal. Minha raiva se desmanchou na hora. Aquela carinha de determinação era irresistível.

— Mãe! — Hermione repreendeu, embora um sorriso tímido entregasse sua própria nostalgia. — Em minha defesa, era uma causa ética o suficiente para justificar um ato de rebeldia.

As risadas voltaram a preencher a mesa enquanto eles se serviam de uma segunda rodada da ceia.

— Fiquei maravilhado quando Helenna me disse que vocês estudam em uma escola tão exclusiva para superdotados na Escócia — Aidan comentou, mudando o foco para Harry com um entusiasmo genuíno. — Diga-me, Harry… você parece ter um porte atlético. Pratica algum esporte por lá? Futebol, talvez?

Harry trocou um olhar rápido com Hermione. Ela já o havia alertado sobre perguntas desse tipo. Aidan ainda não sabia da natureza real de Hogwarts, e as metáforas eram necessárias.

— Ah, sim… futebol — respondeu Harry, esforçando-se para soar natural ao usar o termo trouxa. — Mas, sinceramente, é apenas por diversão. Não sou exatamente brilhante nisso. Este físico é mais resultado de treinos funcionais e exercícios ao ar livre.

— Exercício é fundamental — Aidan concordou, satisfeito. — E você está em ótima forma, rapaz.

— Está mesmo… — Helenna completou, lançando um olhar insinuante e divertido para a filha. — Não acha, querida?

Hermione parecia estar lutando contra o impulso de esconder o rosto nas mãos de tanto constrangimento. Harry, por outro lado, deliciava-se com a situação, especialmente quando, em um sussurro quase inaudível, ela concordou com a mãe.

— Não ligue para a Helenna, Harry. Ela só está emocionada porque a Hermione finalmente trouxe um namorado para casa… — Aidan comentou, casualmente.

— Ah, não, senhor… — Harry tratou de corrigir imediatamente. Foi um ato reflexo, um instinto de proteção para não causar desconforto a Hermione. — Nós somos apenas…

As palavras morreram em sua garganta.

Hermione havia esticado o braço sobre a mesa, cobrindo a mão dele com a dela. O toque era suave, mas a intenção era firme. Ela respirou fundo, os ombros se endireitando.

— Aproveitando que o assunto surgiu… — começou ela. O nervosismo estava lá, vibrando em sua voz, mas não havia rastro de hesitação. — Eu… quer dizer, nós… ficamos muito felizes de estar aqui com vocês. Especialmente nesta nova fase.

Helenna levou a mão ao peito, o ar escapando em uma nota de expectativa.

— Isso quer dizer que…?

— Estamos juntos — Hermione confirmou.

Harry sentiu o coração falhar uma batida. Aquela era a primeira confissão pública de Hermione sobre eles — e ela escolhera fazer isso para a pessoa que ele sabia que ela jamais envolveria se não fosse algo definitivo. O peso e o valor daquelas palavras ecoaram nele como um feitiço de proteção.

Harry apertou a mão dela de volta, os dedos se entrelaçando com força.

— Sim, senhora Granger… e nada me faz mais feliz do que ter a sua filha ao meu lado. Ela é a pessoa mais extraordinária que já cruzou o meu caminho.

O sorriso de Hermione se alargou, iluminando o rosto de uma forma que Harry guardaria na memória para sempre. Logo, os quatro estavam de pé, trocando abraços apertados e cumprimentos calorosos.

Enquanto a noite avançava, Harry permanecia ancorado naquele momento. As palavras de Hermione imperavam em seu coração, selando aquele dia como o Natal mais gratificante de sua vida.

-XX-

A madrugada já se instalara, estendendo um silêncio aveludado sobre a casa conforme o movimento diminuía. Após ajudarem na organização do pós-jantar, os quatro se acomodaram na sala.

Enquanto Aidan comentava, animado, sobre os lances de alguns jogos de futebol que passavam na TV, Harry mantinha uma atenção genuína, imerso em um mundo cujas regras físicas ainda o fascinavam.

No outro canto do sofá, Hermione conversava com a mãe, mas seus olhos nunca deixavam Harry por muito tempo. Era imensamente satisfatório vê-lo ali, tão à vontade em seu ambiente trouxa, integrando-se à sua família como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.

Por vezes, ele desviava o olhar da tela para encontrá-la, eram frações de segundo carregadas de certezas não verbalizadas, uma cumplicidade que vibrava no ar.

Não demorou para que o cansaço, temperado pelas taças de vinho, vencesse os anfitriões, que logo se recolheram. Minutos depois, Harry e Hermione seguiram o mesmo caminho.

Assim que passaram pela porta fechada do quarto principal, Harry agiu. Com um movimento ágil, ele a envolveu pela cintura, girando-a até que as costas de Hermione tocassem a parede oposta.

— Só repete isso de novo para eu ter certeza de que não é o álcool me pregando peças — ele sussurrou, com um tom de incredulidade lúdica. — Eu ouvi direito lá embaixo? Você e sua mãe comentaram, com a maior casualidade do mundo, que nós vamos dividir o seu quarto?

Hermione mordeu o lábio inferior, o brilho divertido nos olhos denunciando seu triunfo silencioso.

— Ouviu perfeitamente bem. Minha mãe é... admiravelmente flexível. E eu fiz questão de deixar subentendido na carta que, se você aceitasse o convite, ela não precisaria se dar ao trabalho de preparar o quarto de hóspedes.

Harry abriu um sorriso maroto, balançando a cabeça em uma mistura de choque e admiração.

— Bom, a parte da flexibilidade ficou clara. Só ainda estou estupefato com a quantidade de surpresas que você guardou para esta noite.

O ar entre eles tornou-se subitamente eletrizante. Hermione deslizou a mão pelo braço dele até entrelaçar seus dedos aos dele.

— Vamos... — ela disse baixinho, conduzindo-o até a porta ao final do corredor.

Ao entrarem, Hermione sentiu um calor no peito ao ver Harry explorando o cômodo. Ele ficou fascinado com a disposição dos objetos trouxas e, mais uma vez, encantado com a simplicidade funcional da pequena TV no canto do quarto.

Invertendo os papéis da visita que fizera à mansão dele, Hermione assumiu o papel de guia em seu próprio mundinho. Mostrou seus livros de infância preferidos — que não tinham figuras que se moviam, mas que a haviam levado a lugares mágicos muito antes de Hogwarts —, alguns apetrechos que ele examinava com uma curiosidade quase infantil, e as fotos antigas nos porta-retratos.

— O que faltava aqui era só uma biblioteca para você competir com Hogwarts — comentou Harry, divertido. Eles estavam sentados na cama dela, enquanto folheavam um dos livros mais volumosos de Hermione.

— Meu pai havia planejado uma reforma para criarmos um espaço assim... — disse ela, mas o sorriso suavizou, ganhando um traço de saudade que deixou sua voz mais baixa. — Infelizmente… não houve tempo.

Ele colocou o livro de lado, buscando a mão dela, entrelaçando seus dedos aos dela.

— Eu gostaria muito de ter conhecido ele.

— Ele teria adorado você. Tenho certeza. Vocês iam se dar muito bem…— ela apertou os dedos dele de volta, permitindo-se um sorriso leve. — Pelo menos já sabemos que minha mãe e o Aidan te adotaram oficialmente para a família.

Harry soltou uma pequena risada, mas logo seu olhar mudou ao se voltar totalmente para ela.

— Eu… tive que me segurar para não ficar completamente boquiaberto lá embaixo — confessou ele. — Quando você... nos assumiu.

— Espero que você não tenha ficado chateado por eu não ter te consultado antes… — murmurou Hermione, o rosto levemente ruborizado.

— O quê?! Claro que não — ele respondeu de imediato, quase interrompendo. — Eu gostei, Hermione. Gostei mais do que você imagina. Ter você me reivindicando dessa forma... é tudo o que eu queria.

O sorriso dela se alargou, um alívio visível relaxando seus ombros.

— Fico feliz por isso… porque, a partir de agora, Harry… eu não pretendo esconder o que sinto por você de mais ninguém.

Harry sentiu uma tontura doce diante daquela confissão.

— Você... tem certeza? — perguntou ele, a voz reduzida a um sussurro, aproximando-se até que o calor de seus corpos se encontrasse.

— Tenho... — ela disse, a voz reduzida a um fio. — Tanta certeza quanto tenho de que não quero passar um dia sequer longe de você.

A mão dela subiu até a nuca dele, os dedos perdendo-se nos fios rebeldes.

— Tanto quanto sei que foi uma enorme tolice resistir por tanto tempo ao nosso sentimento… — ela se inclinou, as respirações se misturando em um ritmo descompassado. — Tanto quanto sei que eu te amo… mais do que tudo. Mais do que qualquer coisa… mais do que a mim mesma.

O peito de Harry subia e descia com intensidade. Ele mapeava cada traço do rosto dela, tentando processar se aquilo era real ou uma peça pregada pelos deuses.

Foi quando Hermione abriu a boca contra a dele, a língua invadindo, enroscando-se na de Harry com uma fome profunda. Ele correspondeu com urgência, envolvendo-a com força, ancorando-se nela como se Hermione fosse a única coisa sólida em um mundo de incertezas.

Harry se afastou brevemente, a respiração errática.

— Me diz que eu não estou sonhando… — murmurou ele, quase suplicante. — Me diz que você realmente me ama… que eu não estou enlouquecendo.

Ele começou a trilhar um caminho de beijos pelo pescoço dela, alcançando a clavícula com uma intensidade que a fazia arquear o corpo contra o dele.

— É real, Harry... é o mais real que já senti — ela disse, a voz rouca de desejo. — E eu sinto muito… por ter demorado tanto para me permitir isso.

Ele a puxou para o colo dele, como se tentasse se fundir a ela e apagar qualquer distância restante. Harry levou as mãos à barra do suéter de Hermione, retirando-o com um desespero febril. Ela se moldava contra ele, cada movimento sobre seu colo arrancando-lhe um arfar traído pelo desejo latente que pulsava no corpo dele.

— Não me peça desculpas — murmurou ele, segurando firme a cintura dela, fazendo-a ficar imóvel por um instante. O olhar verde brilhava, desorientando-a. — Eu viveria quantas vidas fossem precisas, esperaria décadas, só pra ter você assim pra mim. Completa.

Hermione levou as mãos às costas, desprendendo a peça íntima com um movimento decidido. Harry a reverenciou com um olhar que misturava fome e adoração absoluta, as mãos subiram devagar pelas costelas dela até envolverem a plenitude de sua forma. Com os polegares, ele iniciou uma carícia torturantemente lenta sobre os centros sensíveis, arrancando dela um gemido baixo.

— Eu vou ser sua, Harry. Eu sou sua. Para sempre.

Os lábios dele voltaram a se unir aos dela agora com uma lentidão provocante.

Em poucos minutos, ambos já estavam totalmente sem nenhuma barreira.

Hermione se movia libidinosamente sobre Harry, os quadris subindo e descendo, sentindo a plenitude daquela união preenchê-la completamente. O calor que emanava de seus corpos, agora cobertos por uma fina camada de suor, criava um casulo de febre que ignorava completamente o inverno rigoroso que fustigava a janela.

Harry deslizou as mãos com firmeza pelas costas dela até ancorar os dedos nos cabelos da nuca, exercendo uma pressão leve enquanto impulsionava o corpo para cima, buscando um encaixe ainda mais profundo.

— Você é maravilhosa... — gemeu ele contra a boca dela, as línguas se buscando com uma ânsia renovada.

Hermione segurava seus ombros, as unhas cravando na pele enquanto ambos gemiam, arfavam e declaravam juras de amor como se fossem água no deserto.

— Harry… mais… por favor… — pediu ela, a voz trêmula de prazer.

Numa agilidade precisa, Harry inverteu as posições, deitando-a de costas na cama e se movimentando com um frenesi cuja conexão os levava à beira da ruína.

— Harry… estou tão perto… me faz sua… totalmente sua — ela sussurrou com dificuldade, os lábios inchados e sensíveis roçando os dele em busca de um último ponto de apoio.

— Se desfaz comigo, amor — respondeu ele, acelerando as investidas com uma força controlada.

Hermione atingiu o ápice em um arco de tensão e satisfação, o corpo arqueando enquanto pulsava ao redor dele, o nome de Harry escapando de seus lábios como uma prece.

Ele não tardou a segui-la, alcançando o próprio limite em um espasmo de prazer que o fez estremecer enquanto a preenchia por inteiro.

Não demorou para que o silêncio do quarto fosse preenchido apenas por respirações pesadas. Eles se aninharam sob o peso acolhedor dos lençóis, os membros entrelaçados em uma confusão de carinho. Harry deslizava os lábios pela pele dela, em beijos castos e lentos, como se estivesse memorizando a textura da felicidade.

— Eu te amo, Hermione. Com toda a minha vida — ele sussurrou antes que seus olhos se fechassem, vencidos por uma exaustão doce, enquanto ele se entregava ao sono profundo.

Hermione ergueu o rosto por um breve instante, observando as feições dele agora relaxadas. Ela sorriu, uma lágrima de alívio ameaçando surgir, e depositou um beijo suave em seu ombro.

— Eu também te amo. Feliz Natal, meu amor.

-XX-

Os dias que se seguiram na residência dos Granger deixaram em Harry e Hermione a sensação de habitarem uma lua de mel suspensa no tempo.

Durante o dia, perdiam-se em passeios com Helenna e Aidan, aproveitando a neve em momentos de uma leveza, onde as únicas preocupações eram o frio nas bochechas e a mira precisa para o próximo alvo de uma bola de neve.

À noite, porém, a atmosfera se transmutava. Sob o abrigo do quarto de Hermione, eles se entregavam à completude um do outro — uma celebração íntima, silenciosa e febril da estabilidade que, finalmente, a relação deles emanava.

Embora Harry estivesse plenamente satisfeito, o calendário avançava.

Com a proximidade da véspera de Ano Novo, era hora de partir para Godric’s Hollow. Lílian já havia enviado duas corujas com uma urgência contida, revelando uma ansiedade que apenas o instinto de Harry sabia decifrar. Ele não a julgava. Era tão raro e quase surreal quando ele confirmava que iria para casa que sua mãe transbordava expectativas.

Além disso, Harry não conseguia — e talvez nem quisesse — disfarçar a antecipação. Ele estava particularmente ansioso para cruzar o limiar de sua casa e revelar à família e aos amigos que ele e Hermione pertenciam, de fato, um ao outro.

Eles materializaram-se na Mansão Potter através da Rede de Flu, ainda envoltos pela atmosfera romântica que cultivavam minutos antes. Harry, impulsionado pelo desejo que não parecia ter fim, enroscou o braço na cintura de Hermione, colando seus quadris com uma possessividade terna.

— Harry! — ela protestou entre risos, o rosto corado pelo susto. — Agora não! Seus pais podem aparecer a qualquer momento e nos flagrar!

— Se corrermos para o meu quarto agora, conseguimos alguns minutos para terminar o que começamos na sua casa — ele murmurou contra o pescoço dela, sentindo-a soltar risadinhas que se misturavam a pequenos gemidos de antecipação.

Eu deveria ter previsto que me depararia com uma ceninha patética dessas.

O sangue de Harry pareceu congelar instantaneamente. O reconhecimento daquela voz gélida e arrastada foi como um balde de água gelada.

Ambos se viraram em um sobressalto. Harry sentiu a mão de Hermione apertar a sua com uma força dolorosa, as unhas cravando-se em sua palma.

No sofá da sala de estar, uma figura loira e pálida se levantou de forma ligeiramente cambaleante, os olhos cinzentos faiscando.

Harry abriu a boca, sentindo o ar faltar e as palavras saírem ásperas, como se estivessem quebradas:

Draco?

Chapter 16: Conflitos e Confissões

Notes:

Boa leitura 🥰✨️

Chapter Text

— O que você está fazendo na minha casa? — a voz de Harry saiu como um rosnado.

Qualquer nota de espanto foi instantaneamente incinerada diante daquele absurdo.

Draco parecia terrivelmente perturbado. Ele era a antítese do herdeiro impecável que costumava ser: os cabelos loiros estavam em um desalinho caótico, as roupas finas encontravam-se abarrotadas e sua expressão parecia flutuar em uma órbita estranha, como se ele não estivesse totalmente ancorado na realidade.

— Ora, Potter... onde estão os seus modos? — Draco rebateu carregado de uma ironia doentia. — Deveria ser mais receptivo.

— Chega de gracinhas. O que você quer? Onde estão meus pais? E... — Harry estreitou os olhos, analisando mais uma vez a instabilidade do loiro antes de completar: — Você está bêbado?

— Ele não está bêbado — a voz de Lílian cortou o ambiente.

Ela surgiu da cozinha às pressas, trazendo em mãos uma pequena taça que exalava um vapor de cheiro acre e desagradável. Para Harry, o odor pareceu vagamente familiar, embora ele não conseguisse precisar a origem.

— Draco claramente fez uso de... — Lílian hesitou, escolhendo as palavras com cautela — ...de uma poção entorpecente muito forte.

Harry lançou um olhar rápido para Hermione. Ela ainda parecia tensa, mas seus olhos agora estavam voltados para a taça e à postura de Lílian com uma atenção analítica, como se estivesse imersa em um pensamento específico.

— Vamos, tome isso — Lílian insistiu, estendendo a taça ao rapaz.

— Senhora Potter... — Draco disse, com um resquício de cortesia forçada. — Como eu já disse, eu não preciso de nada disso. Por mais que as aparências sugiram o contrário... eu estou perfeitamente bem.

— Eu quero saber agora, Draco: por que você está aqui? Aliás, desde quando? — Harry insistiu.

— Ele chegou há cerca de uma hora — explicou Lílian, tentando aplacar a combustão iminente do filho. — Na verdade, uma carta dele chegou ontem. Parecia desesperado para falar com você. Eu respondi, sem que seu pai soubesse, avisando que você estaria aqui hoje.

— E cadê o meu pai?! — Harry retrucou, exasperado. — Duvido que aceitaria ele sob o teto dele.

— James não está em casa. Por favor, Harry, mantenha a calma — Lílian pediu, com um olhar suplicante. — Eu o aceitei aqui porque parece se tratar de algo sério. E levei em consideração os anos de amizade de vocês.

O olhar dela pousou sobre Draco e, por um breve segundo, o orgulho Malfoy pareceu se quebrar. Ele abaixou a cabeça, um gesto de respeito contido que Harry nunca imaginou ver.

— Eu realmente preciso falar com você, Harry. A sós — Draco murmurou, lançando um olhar sugestivo e hostil para Hermione.

— Não vou a lugar nenhum, se é isso que está sugerindo — Hermione rebateu de imediato.

— Não me recordo de ter solicitado a sua opinião — Draco cuspiu as palavras.

— Ei! — O aviso de Harry veio como um estalo de chicote. — Meça cada palavra dirigida a ela. A Hermione fica. O que quer que tenha a me dizer, será dito na presença dela.

Harry respirou fundo, tentando retomar o controle de seus instintos.

— Mãe... tudo bem. Pode ir — disse, sem desviar os olhos do loiro.

A ruiva olhou hesitante para os três, claramente preocupada com a volatilidade da situação, mas assentiu em silêncio e retirou-se, deixando-os sozinhos.

— Tanta fama para a Mansão Potter ser tão mixuruca — Draco desdenhou, dando um giro lento e instável, sem sair do lugar.

Embora as palavras fossem destinadas a Harry, os olhos de Draco estavam pregados em Hermione. Ele percorria o rosto dela com uma mistura de hesitação dolorosa e uma repulsa fabricada.

Como se suspeitasse que Draco pudesse se tornar ainda mais indecoroso e ao notar que a respiração de Hermione tornara-se irregular — um sinal sutil de que a presença do loiro a estava desestabilizando —, Harry posicionou-se entre os dois, bloqueando a visão de Draco.

— Veio até aqui só para destilar veneno? Deve estar com muito tempo livre — Harry disse, o maxilar enrijecido.

— Não se preocupe — Draco retrucou. — Não pretendo tomar muito do seu tempo... nem do seu brinquedinho.

Harry abriu a boca para revidar, mas Hermione foi mais rápida. Ela emergiu de trás do ombro de Harry.

— Qual é o seu problema comigo, Malfoy? — ela disparou, a voz vibrando de indignação. — Que você carrega esse preconceito arcaico, nunca foi novidade. Mas não pense que admitirei suas ofensas… muito menos para atingir o Harry.

Draco deu alguns passos instáveis à frente. Instintivamente, Harry avançou também.

— É muita pretensão da sua parte — Draco sibilou. — Como uma sangue-ruim ousa dirigir a palavra a mim com tamanha afronta?

— Cala a boca, seu merda! — Harry já estava prestes a partir para cima dele quando sentiu os dedos de Hermione cravarem-se em seu braço.

— Não, Harry… deixa ele vomitar esse ódio todo.

Ela deu um passo à frente, encarando o loiro com uma coragem que parecia queimar o ar entre eles.

— E como você ousa vir à casa do meu namorado, em pleno Natal, tratar a ele e à família dele com tamanho desprezo? O que foi? Ficou tão insuportável que nem seus pais te aguentam mais?

Cada palavra era um golpe cirúrgico na armadura já trincada de Draco.

— Acabou para você, Malfoy. Seja lá o que você e seu pai estejam tramando… vai ruir. E essa soberba que vocês ostentam vai soterrar todos vocês.

O rosto de Draco mudou. Não foi raiva, foi um choque paralisante ao ouvir aquelas palavras saindo especificamente da boca dela. Ele se remexeu, a postura agressiva vacilando.

— Muito tocante você usar esse rótulo, Granger... namorado — ele disse, a amargura distorcendo suas feições — Mas um tanto teatral, não acha? Considerando que você já obteve dele o que pretendia.

— Do que você está falando? — ela perguntou, o cenho franzido.

— Do fato de que você só se aproximou do Harry para ter um informante confiável de dentro das masmorras! — Draco explodiu. — Porque estava me investigando, como a irritante sabe-tudo que sempre foi!

Um silêncio pesado caiu sobre a sala.

— Ficou maluco, Draco? — Harry desdenhou, mas percebeu que Hermione se calara, o rosto empalidecendo.

— Está surpresa?! — Draco ignorou Harry completamente. — Você acha que minha família não tem contatos no Ministério para saber que você recebeu ordens de me investigar informalmente na escola? Acha que não notei você me rondando? Perguntando por mim por aí? — O semblante dele tornou-se subitamente sofrido, uma confissão de dor em meio ao delírio. — Me fazendo acreditar que você finalmente... finalmente tinha entendido que seu lugar era comigo.

Harry permaneceu estático. Draco parecia totalmente transtornado, expondo sentimentos ocultos de uma forma doentia. Ele não deixou de notar que Hermione, por outro lado, parecia estar em estado de choque, atingida pela acusação e ao mesmo tempo horrorizada pela distorção da realidade que o loiro criara.

— Mas o que eu poderia esperar de alguém da sua estirpe? Que me iludiu, se insinuou para mim, apenas para depois seduzir o meu melhor amigo e estilhaçar nossa irmandade por um carguinho no Ministério... porque é isso que vadias como vo...

Harry já empunhava a varinha, mas não foi dele que partiu o primeiro golpe.

Um jato de magia pura e violenta atingiu o peito de Draco, arremessando-o contra a parede oposta. O impacto foi surdo, seguido pelo som de madeira se estilhaçando quando a mesa de canto se desintegrou sob o peso do loiro.

— Cala a boca! — Hermione gritou. Ela estava ofegante, a varinha tremendo na mão enquanto os olhos transbordavam lágrimas. — Cala essa boca agora… seu desgraçado!

Ela olhava de Draco para Harry com um desespero lancinante.

— Mas o que aconteceu aqui?! — Lílian retornou apressada, o rosto pálido diante da cena.

Draco tentava se erguer, atordoado e sangrando. Usando cada grama de autocontrole para não azará-lo permanentemente, Harry caminhou até o loiro. Ele o forçou a levantar, segurando-o pelo colarinho com uma força que quase o suspendia do chão.

— Você ultrapassou qualquer limite que ousou pensar que ainda tinha — Harry disse, a voz mortalmente baixa. — Não me interessa o que você veio fazer aqui. Saia da minha casa. Agora. Você morreu para mim, Draco. Como você mesmo disse uma vez, nossa amizade não passa de um erro que finalmente foi corrigido.

— E da próxima vez que eu ouvir você proferir uma única ofensa contra a Hermione… contra a minha família… ou contra qualquer pessoa que sua arrogância julgue inferior… eu te mato. Posso arruinar a minha vida, mas garanto que acabo com a sua primeiro.

Os dois se encararam. Um abismo de sentimentos traídos e ódio se abrindo entre eles. Draco empurrou a mão de Harry com um resto de dignidade estilhaçada.

— Meu pai tinha razão... eu sou um completo imbecil — murmurou, limpando o sangue do lábio. — E eu ainda vim até aqui para te ajudar... para ajudar...

Ele olhou para Hermione com uma mistura de asco e desejo reprimido.

— Quer saber? Para o inferno com vocês!

Com um estalo seco e violento, ele desaparatou no centro da sala.

— Por Merlin! — Lily levou a mão ao peito. — Ele não devia ter aparatado nesse estado... está completamente desorientado pela poção!

Harry sentiu o tremor de adrenalina em suas próprias mãos, antes de se voltar para Hermione. Ela chorava silenciosamente, as lágrimas descendo em cascata pelo rosto empalidecido.

— Harry… — ela sussurrou, a voz quebrada.

Ele apenas caminhou até ela e a envolveu em um abraço protetor. Harry beijou sua testa demoradamente, selando o tumulto no silêncio sufocante que se instalou entre os dois.

-XX-

Os últimos três dias de recesso transcorreram para Hermione sob a névoa de uma inquietude constante.

Após a visita ainda injustificada de Draco, Harry agiu com uma sensatez surpreendente na contenção de danos. Ele solicitou, com uma firmeza prática, que ninguém expusesse o ocorrido, inclusive a James.

Foi apenas por isso que a celebração de Ano Novo manteve o clima festivo esperado, embora, para Hermione, a tensão deixada pelo herdeiro Malfoy persistisse como uma assombração.

A virada no Largo Grimmauld, nº 12, organizada por Sirius em seu estado mais animado, ajudou a dissipar parte da sombra. A festa, que se estendeu até o amanhecer entre amigos próximos, ofereceu momentos em que Hermione conseguia, enfim, esquecer.

O anúncio tácito do relacionamento dela e de Harry também trouxe um alento genuíno. A acolhida foi calorosa. Lily e as outras mulheres não pouparam suspiros de alegria, enquanto os homens tratavam Harry com uma camaradagem ruidosa. Até James ofereceu uma aprovação muda que trouxe a Hermione uma sensação definitiva de pertencimento.

Aquele cerco todo também serviu como uma esperança de que nem tudo parecia estar tão em risco de desabamento como ela chegara a cogitar desesperadamente.

Depois das acusações distorcidas e repletas de absurdos de Draco, sua mente ficara completamente tomada pela perspectiva de que, de alguma forma, Harry tivesse absorvido aquela versão corrompida dos fatos.

Na noite do ocorrido, ela tentou falar com ele, arrancar as sementes da dúvida antes que elas germinassem. Mas Harry, com uma tranquilidade desconcertante, apenas dissera que precisavam descansar e não permitir que o mal-estar instalado por Draco vencesse.

No dia seguinte, ela buscou uma nova brecha. Estavam a sós, a luz do dia trazendo uma falsa clareza. Harry, contudo, permaneceu gentil e inabalável. Ele foi categórico: não pretendia que a pauta da entrada do ano de 1998 fosse ditada por Malfoy.

Eu vou escutar tudo o que você tem a dizer”, ele prometeu, “mas apenas quando retornarmos a Hogwarts”.

Embora Harry não tivesse dado nenhum sinal de desconfiança, o receio de Hermione era um hóspede inevitável. Ela sentia um medo gélido de que o homem que amava — com quem finalmente experimentava a plenitude de pertencer sem reservas — duvidasse de sua integridade.

A ideia de que passasse um único pensamento pela cabeça dele sugerindo que um interesse pessoal ou o desejo de fazer a coisa certa fora o gatilho para a reaproximação dos dois, era excruciante.

E, entrelaçado ao medo, veio o remorso. Um gosto amargo, antigo e conhecido.

Hermione compreendeu, na própria pele, o isolamento que Harry enfrentara no quinto ano. Recordou de quando não lhe deu o benefício da dúvida, permitindo que um orgulho ferido e um pessimismo imaturo o condenassem antes de qualquer explicação. Naquela época, ela escolhera acreditar no pior cenário, apesar de amá-lo desesperadamente.

Agora ela estava ali, andando de um lado para o outro dentro do seu dormitório, os dedos entrelaçados e doloridos de tanto estalar enquanto tentava controlar a ansiedade que a dominava.

Eles haviam retornado à escola há poucas horas. Harry disse que apenas deixaria seus pertences no dormitório antes de encontrá-la, e foi o que ele fez.

Hermione ouviu o clique suave da porta ao se fechar. Em seguida, um leve tremor no ar anunciou o momento em que ele desfez o feitiço de desilusão.

— A maioria dos alunos ainda não chegou... os corredores estão quase vazios — ele comentou, retirando o casaco. Ao fitá-la, sua expressão suavizou-se em uma preocupação imediata. — Está tudo bem?

— Vai ficar... assim que finalmente conversarmos — ela respondeu, as palavras atropelando-se, um sinal claro de que sua paciência havia se desintegrado. — Senta aqui, por favor. — ela apontou para a própria cama.

Harry assentiu com calma, sentando-se de frente para onde ela continuava sua marcha nervosa.

Hermione evitava o contato visual, as mãos gesticulando no ar.

— Harry... sobre o que o Draco falou naquele dia...

— Hermione... — Harry tentou intervir, a voz baixa.

— Não, deixa eu falar! — ela o cortou, a voz subindo um tom, trêmula. — Em parte era... verdade. Eu fui orientada a investigar os movimentos dele. Foi... ah, dane-se. Foi o Sirius!

Ela sentiu o rosto esquentar ao quebrar o acordo com o padrinho dele, mas o peso daquela omissão era um fardo que ela não carregaria mais.

— Ele me pediu para ficar atenta. Já existiam suspeitas sobre o Lucius Malfoy… possíveis tentativas a ataques contra nascidos-trouxas… — ela passou a mão pelos cabelos, inquieta. — Eu sugeri você, eu disse que você era a melhor escolha, mas ele não quis te colocar nessa posição por causa da sua amizade com o Draco.

— Hermione... — Harry tentou novamente.

— Eu não queria ter omitido isso! — ela continuou, ignorando a interrupção. — E eu sinto muito, Harry, de verdade!

Ele se levantou devagar, encurtando a distância entre eles.

— Mas aquele estúpido mentiu descaradamente quando afirmou que foi por isso que eu me aproximei de você de novo. Harry… eu te amo! Eu estou com você porque você é o amor da minha vida.

— Por favor… — a voz dela quebrou — você precisa acreditar que eu nunca usaria você.

Harry segurou os ombros dela, forçando-a a parar de fugir do olhar dele.

— Hermione! Eu acredito em você!

— A-acredita? — um soluço escapou por entre seus lábios.

Harry assentiu com um leve sorriso. Foi o suficiente. Hermione o abraçou com força, escondendo o rosto no peito dele, permitindo que todo o peso acumulado finalmente desabasse.

— Oh, Harry… — a voz saiu abafada contra o tecido da camisa dele. — Eu tive tanto medo… de você ter evitado o assunto só para chegar aqui e... e...

— Ei… — ele ergueu o queixo dela com os dedos, fazendo-a fitá-lo — Eu só queria que você tivesse um final de ano tranquilo, amor. Em momento algum eu dei crédito ao veneno do Draco.

Ele suspirou de leve, acariciando a bochecha dela com o polegar.

— A parte da investigação podia até ser verdade, e pelo que você contou, realmente era. E tudo bem. Claro, eu preferia que o Sirius tivesse confiado em mim também, mas eu entendo. Entendo os motivos dele. E entendo o seu. Você só cumpriu o que foi acordado.

Hermione fechou os olhos, inclinando o rosto em direção ao toque dele.

— É que… eu fiquei apavorada. Eu não suportaria te perder. Eu me culparia para sempre se você se afastasse por algo que eu fiz… ou que você achasse...

Harry não a deixou terminar. Ele se aproximou mais, o olhar tornando-se mais penetrante.

— Não existe absolutamente nada que você faça, ou deixe de fazer, que vá me fazer ir embora. A não ser que você me peça para ir. E mesmo assim… eu ainda lutaria incansavelmente para te convencer de que o seu lugar é aqui, comigo.

Os corpos deles já estavam colados, as mãos buscando o calor da pele um do outro em carinhos instintivos. Hermione soltou um suspiro longo, deixando toda a tensão dos últimos dias evaporar.

— Eu nunca vou querer isso — ela sussurrou contra os lábios dele. — Não pretendo viver um dia sequer sem você, Harry.

Os lábios dele logo se uniram aos dela num beijo lento e profundo, que fez Hermione finalmente voltar a respirar aliviada — mesmo que o ar lhe faltasse a cada segundo em que se perdia nele.

Não demorou para que o silêncio do dormitório os acolhesse. Eles estavam deitados, a penumbra suavizando os contornos do quarto.

Hermione repousava a cabeça sobre o peito de Harry, enquanto ele acariciava suas costas em um ritmo quase hipnótico.

— Ele estava transtornado, não é? — murmurou ela. — Parecia fora de si, vulnerável e perigoso ao mesmo tempo.

Harry soltou o ar com força, o peito subindo e descendo sob o rosto dela.

— Minha mãe estava certa sobre a tal poção. Aquilo não era apenas o Draco sendo ele mesmo. Ele estava sob o efeito de algo pesado... só assim para ele chegar àquele nível de exposição.

Hermione se remexeu, apoiando-se nos cotovelos para encará-lo.

— Você está falando sobre... aquela confissão?

— A confissão do interesse dele por você — Harry completou, sustentando o olhar.

Hermione sentou-se devagar, e Harry a acompanhou, ambos de frente um para o outro. No momento do confronto, ela ficara sim chocada com a forma como Draco expôs sentimentos que iam além do desdém puro, mas, honestamente, não tivera tempo para refletir sobre aquilo. Toda a sua energia estava canalizada em resolver o impasse com Harry.

— Aquilo... tinha algum fundo de verdade, Harry? — ela perguntou, o cenho franzido em uma mistura de confusão e descrença. — Tem certeza de que não foi um delírio químico?

Harry a observou por alguns segundos antes de desenterrar a resposta.

— Você se lembra do bilhete no terceiro ano? Aquele que eu disse ter sido enviado por um amigo meu?

— Claro...

— Era ele — Harry revelou.

Hermione piscou, estática, enquanto as peças de um quebra-cabeça que ela nunca planejou montar começavam a se encaixar.

— A ideia do desafio do Primus Sonserinae no quinto ano... — Harry continuou, a mandíbula contraída — as ordens para que Crabbe e Goyle te atraíssem para a Floresta Proibida... foi tudo ele. Draco nunca aceitou o fato de eu ter me envolvido com você. Ele agiu sistematicamente para nos sabotar.

— Mas... Harry, isso é impossível! Ele sempre me odiou! — ela exclamou, balançando a cabeça em negação. — Ele nunca desperdiçou uma oportunidade de me humilhar, de usar os termos mais vis sobre a minha origem...

— Esse é o ponto — Harry disse, desviando o olhar para um espaço qualquer do quarto. — Draco nunca aceitou o fato de desejar você. Eu via isso nele a cada provocação exagerada. Ainda assim desenvolveu uma obsessão doentia, mesmo sabendo que eu tinha me interessado por você primeiro. Era uma mistura tóxica de competição, raiva por querer alguém que a doutrina da família dele classificaria como inaceitável e orgulho ferido por você não ter ido ao encontro às escuras quando... — ele voltou a encará-la com intensidade — quando descobriu que o remetente não era eu.

Um silêncio se instalou entre os dois, apenas interrompido pelo toque rítmico da neve contra o vidro da janela. Sobre o colchão, suas mãos permaneciam entrelaçadas, a carícia lenta e contínua que trocavam servindo como uma âncora necessária.

— Eu nunca percebi — Hermione admitiu em um fio de voz. — E, sinceramente, todo esse cenário me causa náuseas. Aquela acusação de eu o seduzir... por Merlin...

— Se não foi parte do delírio, foi apenas mais uma tentativa desesperada de nos atingir. Não dê atenção a isso. — Harry declarou, um leve revirar de olhos denunciando seu tédio com as manipulações do loiro.

Ele então se ajeitou, envolvendo a cintura dela com delicadeza e puxando-a para que não houvesse mais qualquer espaço entre eles.

— Era isso que eu não podia te contar sobre ele, Hermione. E quando ele se expôs daquela forma, eu nem soube o que pensar. Só sei que, para mim, Draco agora é menos que nada. Não consigo resgatar nenhum traço da nossa amizade antiga quando o vejo te tratando daquela maneira. No fim, ele é apenas o preconceituoso asqueroso que o sobrenome dele exige que seja. — ele inspirou profundamente — Lamento muito por você ter sido arrastada para o meio disso.

Hermione levou a mão aos cabelos desalinhados de Harry, os dedos traçando um caminho terno por entre os fios rebeldes.

— Eu também lamento, Harry. Pelo fim de uma amizade que um dia te fez bem e por ele ter escolhido esse caminho de podridão. Mas eu passaria por tudo isso de novo, mil vezes, só para ter a oportunidade de estar aqui com você. É isso que me importa.

Harry sorriu, e Hermione sentiu qualquer resquício de mal-estar se dissipar. O calor das mãos dele a reivindicando e a solidez daquele amor faziam com que se sentissem como uma fortaleza impossível de ser abalada por qualquer tormenta externa.

E foi ali, naquele casulo de segurança, que ela tomou uma decisão definitiva. Não deixaria mais nada no escuro entre eles. Independente das consequências, ela exporia a última peça que vinha omitindo cautelosamente.

— Harry... — ela começou, o tom de voz ganhando uma firmeza nova. — Eu pensei em esperar um pouco mais para tratar desse assunto com você... mas creio que o momento chegou.

-XX-

Os passos de Harry pareciam pesar toneladas enquanto ele cruzava os corredores do Ministério da Magia em direção à ala das chefias de aurores. Em meio ao ruído de memorandos voadores e conversas abafadas, sua mente trabalhava em uma exaustão frenética, repassando cada palavra da abordagem que planejara.

Mesmo que o esforço de concentração o ajudasse a manter uma fachada de serenidade, era a mão de Hermione, firmemente entrelaçada à sua, que realmente o ancorava.

Haviam se passado apenas cinco dias desde a revelação feita por Hermione — algo tão impactante que parecia surreal. Aquela informação havia tirado o chão sob seus pés, abalando as estruturas de um rancor que ele cultivara com disciplina contra o próprio pai durante anos.

Em meio ao caos de suas certezas desfeitas, Hermione fora seu porto seguro, ouvindo cada desabafo carregado de dor e confusão. Em troca de seu apoio incondicional, ela lhe fizera um único pedido: que, antes de qualquer reação radical — motivada pela surpresa compreensível —, ele permitisse aos pais o que deveria ter ocorrido desde o princípio: a chance de, finalmente, confessarem a verdade por suas próprias vozes.

O pretexto foi um almoço casual no primeiro dia de retorno ao estágio no Ministério após o recesso. Era um hábito que haviam cultivado algumas vezes desde que Hermione estreitara laços com Lílian, o que tornava o convite natural.

Ao pararem diante da porta de carvalho que ostentava os nomes do casal Potter, Hermione apertou a mão dele com mais força, forçando-o a encará-la.

— Tem certeza de que está pronto para isso? — ela perguntou, a voz não passando de um sussurro preocupado.

Harry respirou fundo, forçando os ombros a relaxarem sob um esforço consciente de vontade.

— Com você ao meu lado — ele respondeu, sustentando o olhar dela com uma determinação renovada —, eu enfrento qualquer coisa.

— Queridos! Estou apenas finalizando a assinatura destes documentos para podermos ir ao restaurante — Lílian anunciou com um sorriso radiante, já se levantando ao notar a entrada dos dois.

Harry soltou a mão de Hermione, que permaneceu estática próxima à porta. Conforme ele se aproximava da mesa, o sorriso da ruiva vacilou. Ela franziu o cenho, captando a rigidez no rosto do filho.

— Aconteceu alguma coisa?

Sem dizer uma palavra, Harry estendeu a mão e entregou-lhe um pergaminho. Lílian o pegou, ainda confusa, mas conforme seus olhos percorriam as linhas detalhadas, a cor foi drenada de seu rosto até que ela empalidecesse completamente.

— Isso… — a voz dela falhou, sumindo na garganta — isso é sobre…

Brianna.

Harry pronunciou o nome com uma firmeza cortante. Ele inspirou fundo, o peito subindo em um ritmo errático.

— O mesmo nome... a mesma maldita palavra pronunciada anos atrás. Quando vocês afirmaram se tratar de uma amante do meu pai. — A voz dele começou a subir, a tensão finalmente rompendo a barragem. — O dia em que vocês selaram o meu rompimento com ele… para esconder isso.

Ele apontou para o pergaminho com um gesto brusco.

Lílian balançou a cabeça, o choque paralisando suas feições. Seu olhar desviou-se rapidamente para Hermione, como se subitamente entendesse a obviedade.

— Como você descobriu? — perguntou ela, a voz mal passando de um sopro direcionado à garota.

Hermione se mexeu, desconfortável, mas manteve a postura.

— Eu li sobre ela em um livro avançado de toxicologia bruxa no mês passado. O nome me soou familiar, foi quando lembrei que Harry o mencionou ao contar sobre... o conflito dele com o pai.

Ela deu um passo à frente.

— Mas a confirmação veio... quando você falou com tanta convicção sobre a poção entorpecente que Draco fez uso. Além disso, a senhora tinha a poção revitalizadora exata em mãos para oferecer a ele, conhecia cada nuance dos efeitos colaterais... reconheceu os sintomas, Lilian, porque já os testemunhou antes. Dentro da sua própria casa.

Hermione baixou o olhar por um breve instante, mas logo o ergueu, convicta.

— Lamento muito por ser eu a pessoa a expor isso. Mas eu não podia deixar o Harry no escuro diante de uma suspeita dessas. Vocês tiveram tempo mais do que suficiente para contar a verdade a ele.

— A questão aqui — Harry interrompeu, a revolta agora evidente — é o que levou vocês a acreditarem que uma infidelidade forjada seria um fardo mais leve do que a verdade? Por que esconder que meu pai estava com problemas?

— Porque nós acreditamos… — a resposta emergiu do cômodo anexo — que seria mais fácil para você superar uma falha moral do que encarar o fato de que seu pai havia se tornado um viciado.

James surgiu na soleira da porta, o semblante carregado. Ele caminhou com uma lentidão solene em direção ao trio, mantendo os olhos fixos no filho.

— Eu estava sobrecarregado. Tinha acabado de assumir a chefia dos Aurores, as crises de ansiedade eram constantes e meu orgulho me impedia de aceitar ajuda. Eu achava que daria conta sozinho. — ele soltou um suspiro trêmulo, as mãos escondidas nos bolsos das vestes.

— Foi quando cometi a maior estupidez da minha vida. Provei a Brianna após uma apreensão de contrabando. Achei que seria apenas uma vez, para aguentar o ritmo.

James parou a poucos passos de Harry.

— Eu quase destruí nossa família. Sua mãe me resgatou do fundo do poço, mas ela sofreu o indizível no processo. Queríamos te poupar, Harry. Naquela discussão que você presenciou… a mentira sobre a amante foi uma saída desesperada.

— Isso é um absurdo! — Harry vociferou, os olhos ardendo com intensidade. — Eu poderia ter ajudado! Poderia ter compreendido e apoiado se soubesse que era uma doença, uma luta...

— Você era uma criança, filho — Lílian interveio, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. — Sentimos muito... mas achamos que estávamos fazendo a coisa certa. Depois os anos foram passando e… a oportunidade de consertar o erro pareceu se dissolver. Ficamos com receio de que a verdade fosse ainda mais destrutiva.

— Se quiser culpar alguém, Harry, culpe a mim — James declarou, a voz ganhando uma firmeza dolorosa. — Eu falhei. Como marido, como pai e como homem.

Houve uma pausa longa, onde apenas o som do choro contido de Lily era ouvido.

— Mas estou limpo. Desde o dia em que vi o desprezo em seu olhar por acreditar que eu tinha traído sua mãe... eu decidi que nunca mais te decepcionaria daquela forma. Mesmo que isso significasse carregar o seu ódio por algo que eu não fiz.

O silêncio que se seguiu era quase sepulcral. Harry sentiu a garganta fechar, uma mistura violenta de alívio e fúria disputando espaço em seu peito.

Sem proferir uma palavra, ele girou nos calcanhares e caminhou em direção à saída, ignorando o chamado embargado de sua mãe.

Hermione o observou, os olhos marejados de uma compreensão dolorosa. Ela lançou um último olhar de pesar ao casal antes de segurar a mão que Harry estendia para ela e acompanhá-lo até a saída.

-XX-

O sentimento era, acima de tudo, libertador.

Embora Hermione não fosse alguém que apreciasse o peso de muitos olhares, dessa vez a atenção constante tornou-se encantadoramente suportável.

O motivo era simples: os olhos não estavam voltados apenas para ela, mas para o que ela e o seu Harry representavam juntos. Ver-se caminhando de mãos dadas com ele, apoiando a cabeça em seu ombro ou roubando um beijo no meio do dia era algo que envolvia o peito de Hermione em uma felicidade inominável.

Naturalmente, houve o inevitável pedágio social. Ela precisou lidar com a enxurrada de comemorações de Parvati e Lavander, que insistiam em dizer o quanto eles haviam demorado para se render novamente ao óbvio. Houve o surto quase frenético de Ginny, que alugou seus ouvidos por horas, genuinamente radiante ao ver a amiga finalmente vivendo uma entrega plena.

E, surpreendentemente, houve Ron — com seus comentários bobos, porém honestos —, afirmando que estava feliz pelos dois e que, talvez, desse uma trégua nas zoeiras com Harry, justificando que, agora que o novo amigo namorava alguém que ele prezava (e admitidamente temia) em medidas iguais, o instinto de preservação falava mais alto.

Após sobreviver ao escrutínio dos amigos, qualquer outro sussurro nos corredores era apenas ruído de fundo. Nada se comparava à satisfação de não precisar mais medir gestos ou conter o brilho no olhar. Ver Harry sentir-se completo e entregue na mesma realidade trazia a ela uma paz que beirava a plenitude.

No entanto, ainda restava a ferida aberta entre ele e os pais.

Hermione entendia a introspecção dele, necessária para processar a queda de um muro de ressentimento que durara anos. Mas ela sabia que o tempo, por si só, não curaria a distância se ninguém desse o primeiro passo.

— Recebeu alguma carta deles hoje? — ela perguntou suavemente.

Eles estavam aninhados em uma das profundas poltronas de veludo em uma área de convivência comum que unia as alas das torres e das masmorras, observando a neve gélida que caía do lado de fora, onde alunos do primeiro ano se divertiam em uma guerra de bolas de neve.

Harry continuou a acariciar a coxa dela, mas Hermione sentiu a respiração dele, próxima ao seu pescoço, tornar-se subitamente tensa.

— Umas duas ou três — ele respondeu, o tom carregado de exaustão. — Pensei que, depois de duas semanas, eles entenderiam que eu ainda não estou pronto para conversar.

Hermione virou-se para encará-lo, buscando o contato visual.

— Eles também têm escrito para mim, Harry — admitiu ela. — Seu pai quer falar com você novamente. Ele quer expor os detalhes, sem as máscaras de antes. E eu realmente acho que você deveria ouvi-lo.

Harry suspirou, finalmente olhando para ela.

— Eu não pretendo resistir por muito tempo. Só... ainda estou processando. Eu não quero ser injusto, mas também não consigo agir como se tudo estivesse bem só porque o assunto verdadeiro é... delicado.

— Que tal falar apenas de filho para pai? — ela sugeriu com um sorriso encorajador. — Já passou da hora de vocês se permitirem isso... um recomeço.

Ela inclinou a cabeça, o olhar brilhando com uma doçura travessa.

— Recomeçar é bom, não é? Deu muito certo para nós dois.

Harry não conseguiu conter o sorriso que se formou em seus lábios, as defesas finalmente desmoronando diante da lógica e do afeto dela. Em um movimento rápido, puxou o gorro de lã dela para baixo, cobrindo-lhe a visão.

— Ei! — ela protestou entre risos, tentando se livrar do tecido.

A brincadeira foi interrompida quando Harry a puxou para si com mais urgência. Seus dedos deslizaram pela nuca dela, enredando-se nos cabelos castanhos enquanto ele inclinava o rosto e capturava seus lábios num beijo voraz. O sabor dele invadiu os sentidos de Hermione como uma onda quente — um misto de menta, calor e algo unicamente dele que sempre a deixava leve.

Ela sentiu um arrepio subir pela espinha quando ele sugou levemente seu lábio inferior, mordiscando-o com cuidado antes de mergulhar novamente, explorando sua boca com uma intimidade familiar.

— Eu quero você para sempre, Hermione — ele murmurou contra a boca dela, os olhos ainda fechados, como se fizesse uma prece.

— Eu também, meu amor — ela respondeu, os olhares voltando a se encontrar com intensidade. — E isso inclui ver você vivendo toda a felicidade que merece. Inclusive com a família que tanto te ama... e que eu aprendi a amar também.

Harry sustentou o olhar dela por um longo tempo, até que finalmente assentiu, um pequeno sorriso rendido surgindo.

— Eu farei isso. Por mim, por eles... e por você.

Ele a envolveu em um abraço caloroso, e naquele instante, a imensidão do mundo parecia caber perfeitamente no batimento sincronizado de dois corações que se pertenciam.

-XX-

Na Mansão Malfoy...

Draco caminhava em direção à última porta do corredor escuro, onde a luz das tochas parecia lutar contra as sombras que devoravam as paredes.

O arrepio em seu corpo intensificava-se a cada passo, alimentado pela voz grave e gélida que ditava ordens do lado de dentro.

Ao abrir a porta pesada, o som metálico da maçaneta ecoou como um veredito. O homem alto e loiro, posicionado à cabeceira, interrompeu a fala no mesmo instante. Dezenas de rostos pálidos e atentos, reunidos em volta da grande mesa, voltaram-se para a figura solitária de Draco na entrada.

— Estou pronto, pai — disse, a voz endurecida, desprovida de qualquer traço da vulnerabilidade que demonstrara semanas antes. — Estou pronto para fazer o que for preciso.

Os lábios de Lucius Malfoy se curvaram em um meio sorriso diabólico, uma expressão de triunfo cruel que iluminou seus olhos frios.

— Finalmente.

Chapter 17: Colisão Final

Notes:

Chegamos ao último capítulo, pessoal… mas já adianto que teremos um epílogo bem especial, preparado com todo carinho para vocês. ✨🥰

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

O final da tarde se instalava com maestria, intensificando o frio que a neve incessante espalhava lá fora, quando o grupo de estágio de DCAT retornava da atividade de campo em direção ao Ministério.

Embora a formação original já não fosse obrigatória há semanas, os cinco que iniciaram juntos — Harry, Hermione, Susan, Daphne e Neville — haviam mantido uma coesão natural, forjada na confiança mútua que desenvolveram.

— Susan, você foi fantástica na liderança hoje! — Harry elogiou, enquanto caminhavam pelos corredores nevados.

— Brilhantemente precisa na orientação — completou Hermione, com um sorriso orgulhoso.

Susan sorriu, limpando os resquícios de fuligem das mangas do casaco.

— Ah, graças à convivência com vocês dois. Observar a liderança de vocês nos ensinou a não fazer feio quando chegasse a nossa vez.

— É a mais pura verdade — Daphne acrescentou. — Repetindo as técnicas que vocês ensinaram, a insegurança de assumir a frente finalmente desapareceu.

— Eu acompanho o elogio das meninas — Neville declarou —. Mas, no meu caso, prefiro continuar fugindo de cargos de comando. Meu estômago ainda revira só de lembrar da última vez.

A risada coletiva que se seguiu foi inevitável. Aproveitando o ritmo descontraído, Harry reduziu o passo, guiando Hermione discretamente para a retaguarda do grupo.

Ele inclinou-se, os lábios roçando a curva de seu ouvido.

— Você está linda.

Hermione sentiu o calor subir pelo rosto, um sorriso tímido desabrochando.

— Mesmo com o meu cabelo neste estado após a missão?

Harry levou a mão aos cabelos dela, contornando a rebeldia insistente de alguns cachos que escapavam do coque prático, com uma devoção que não pedia permissão.

— Principalmente assim — ele murmurou, a voz caindo para um tom rouco. — É um esforço constante ignorar a vontade de me perder neles enquanto o meu único pensamento é beijar a sua nuca.

Ela riu, lançando um olhar de soslaio para os amigos, que ainda seguiam à frente.

— Estamos em público, mocinho. Mas, por favor, guarde esse entusiasmo — ela mordeu o lábio com uma falsa inocência — Mal posso esperar pelo nosso retorno a Hogwarts para você por em prática o que tem em mente...

Harry fez um movimento súbito para que ambos parassem, a expressão transmutando-se em uma seriedade focada.

— Antes disso... estive pensando em ter a conversa ainda hoje com meus pais, se ainda estiverem no Ministério. Pretendo dar o passo final e deixar tudo finalmente resolvido.

A expressão de Hermione suavizou, transbordando uma felicidade profunda ao ver a convicção nos olhos dele.

— Fico feliz por isso, amor. Se quiser que eu esteja com você...

Harry entrelaçou os dedos nos dela com firmeza.

— Eu quero você em toda e qualquer parte da minha vida.

Ele então se inclinou e depositou um beijo lento nos lábios dela, prolongando o contato segundos suficientes para que tudo ao redor se tornasse um borrão irrelevante.

— Lamento atrapalhar o casalzinho — murmurou o auror Jackson, que os acompanhava como supervisor, com um revirar de olhos divertido. — Mas chegamos ao ponto de aparatagem.

Os outros três amigos trocaram risadas cúmplices. Harry e Hermione aproximaram-se, levemente corados, mas ainda sorridentes. Deram-se as mãos, prontos para aparatar.

Em milésimos de segundo, o cenário se converteu num caos asfixiante. Os corredores do Ministério fervilhavam em uma desordem violenta.

Gritos cortavam o ar, aurores tentavam impor uma linha de defesa caótica e a mídia aglomerava-se nas áreas externas, tentando, a qualquer custo, registrar o horror.

— Por Merlin, o que está acontecendo aqui? — Hermione sussurrou, os dedos apertando o braço de Harry, puxando-o para perto instintivamente.

— Parece ser um atentado... — Harry respondeu, o estômago dando um nó enquanto o olhar varria a multidão.

— Dentro do Ministério? — Susan questionou, a voz trêmula. — É uma ousadia absurda…

Antes que ela pudesse completar a frase, a silhueta de Sirius surgia entre eles. Ele avançou contra o fluxo de pessoas, segurando os ombros de Harry com uma força que beirava o desespero.

— Harry! Graças a Merlin vocês estão bem! — o homem exclamou.

— O que aconteceu?! — Harry indagou.

— Um ataque coordenado, aqui e em Hogwarts simultaneamente! Bombardearam os andares das chefias. Lançaram uma fumaça tóxica, sustentada por um feitiço de selamento… forçaram a evacuação imediata. Os Níveis 1 e 2 foram tomados.

Harry sentiu um arrepio gélido percorrer sua espinha.

— Onde... onde estão meus pais?

A hesitação de Sirius foi um golpe devastador.

— Venham comigo.

Com ordens rápidas, Sirius instruiu o auror Jackson a levar os demais estagiários para um ponto estratégico de segurança. Em seguida, conduziu Harry e Hermione pelo labirinto de corredores, desviando de feridos que jaziam sobre o mármore frio.

Quando adentraram em uma das salas que serviam de posto médico improvisado, Harry sentiu as pernas falharem. James estava sentado em uma cadeira, a perna gravemente ferida, enquanto curandeiros tentavam conter a hemorragia com feitiços de estancamento.

— Pai! — Harry exclamou, aproximando-se às pressas. — O senhor foi atacado?

— Eu... eu tentei ajudar na evacuação — James começou, interrompido por uma tosse violenta, o rosto manchado por fuligem. — Consegui retirar algumas pessoas antes que a névoa tóxica nos alcançasse... mas fui atingido quando cheguei ao Nível 4.

— Cadê a mãe? — Harry perguntou, o suor frio brotando em sua nuca.

James prendeu a respiração, os olhos marejados de pavor.

— Ela... permaneceu no Nível 2. Disse que subiria até o Nível 1 para auxiliar quem ficou no gabinete do Ministro... Harry, ela ainda não apareceu por aqui.

O ar pareceu ser sugado para fora do ambiente. A visão de Harry turvou, e ele só não desabou porque sentiu a mão firme de Hermione em seu ombro, ancorando-o.

— Você precisa encontrá-la, filho… precisamos saber se ela… — James tentou se levantar, mas a dor e a exaustão o forçaram de volta.

— Se acalme, pai. Eu vou trazê-la de volta. Tenho certeza que ela está bem.

Harry voltou o olhar para Hermione, a urgência nos olhos dela espelhava a sua.

— Harry, se a invasão está contida naqueles níveis, ela deve estar lá... tentando ajudar ou...

— …ou rendida — Sirius completou a fala de Hermione, baixo, certificando-se de que James não ouvisse.

Ele arrastou os dois para um canto isolado, o tom de voz visivelmente preocupado.

— Recebemos mensagens ameaçadoras. É um ataque liderado por Lucius Malfoy. Já confirmamos traidores infiltrados no próprio Ministério, além de uma milícia de alunos da Sonserina em Hogwarts. A suspeita é que estão mantendo alguns nascidos-trouxas como reféns. É um movimento político sujo… ou uma execução planejada para enviar uma mensagem.

— Então eles capturaram minha mãe? — Harry perguntou, os punhos cerrados.

— É uma possibilidade — Sirius admitiu com pesar. — Lílian é excepcional, mas eles vieram preparados.

— Podemos ajudar — Hermione declarou, dando um passo à frente. — Sabemos o suficiente sobre o protocolo de combate. Podemos nos infiltrar e...

— De jeito nenhum — Sirius negou categoricamente. — Não posso expor vocês a esse risco.

— Sirius, temos treinamento — Harry retrucou, a convicção em sua voz não deixando brechas. — E eu preciso encontrar minha mãe. Vou até lá com ou sem o seu consentimento.

O homem sustentou o olhar determinado do afilhado. Com um aceno lento, ele se rendeu.

— Tudo bem... Vou passar as orientações táticas. Mas, pelo amor de Merlin, não sejam imprudentes. Vocês vão juntos?

— Sempre — Harry e Hermione responderam em uníssono.

Eles trocaram um vislumbre rápido — uma convergência de medo e determinação estampada nos olhos e firmada nas mãos que se recusavam a se soltar.

-XX-

Já haviam se passado minutos intermináveis desde que Harry e Hermione se infiltraram no Nível 1 por uma das passagens secretas. Os aurores que os acompanhavam haviam ordenado que permanecessem na sombra enquanto avaliavam o perímetro — uma manobra tática replicada simultaneamente por outras unidades em diferentes pontos do Ministério.

Hermione podia sentir a eletricidade que irradiava de Harry. Ele estava em um estado de vibração contida, a musculatura rígida como se estivesse pronta para romper a qualquer milésimo de segundo.

Ela sabia, com absoluta certeza, que se não fosse por sua presença ali, Harry já teria ignorado qualquer protocolo, mandado as ordens de contenção para o inferno e se lançado sozinho em uma caçada desesperada pela mãe.

— Amor... — ela sussurrou, a voz contornando a angústia dele. — Tente manter a calma. Se corrermos pelo andar sem saber como está o terreno, nos tornaremos um estorvo, em vez de um auxílio.

Harry respirou fundo, a cabeça encostada na pedra fria da parede.

— Eu sei. Mas estou desesperado, Hermione. Se minha mãe estivesse bem, ela já teria aparatado ou sinalizado. Algo grave aconteceu.

O corpo de Harry tensionou subitamente quando Hermione o puxou para mais fundo na escuridão.

Shh... — ela mal soprou o aviso. — Tem alguém vindo.

Os dois prenderam a respiração enquanto três figuras emergiam do corredor. O centro do trio não era outro senão Draco Malfoy.

— Malfoy, siga as ordens do seu pai e vá para a sala onde estão as prisioneiras nascidas-trouxas — um dos homens murmurou. — Fique lá até ele chegar para executar o plano. Vamos dar um jeito naquele auror que interceptamos.

Eles desapareceram pelo lado oposto.

— Desgraçado... — Harry sibilou, a voz carregada de ódio. — Hermione, precisamos detê-lo.

— Não — ela disse, segurando o braço dele com firmeza. — Vamos apenas segui-lo. Ele pode nos levar até onde as vítimas estão retidas.

Ambos lançaram feitiços de desilusão sobre si mesmos e começaram a seguir o loiro com precisão cirúrgica. Ao cruzarem um corredor aparentemente deserto, porém, o autocontrole de Harry se rompeu. Num movimento fluido, ele empurrou Hermione para a segurança da escuridão e saltou sobre Draco.

O loiro mal teve tempo de reagir antes de ser imobilizado. Harry dissipou a própria camuflagem, a varinha já cravada na jugular do garoto.

— Seu pedaço de merda! — Harry vociferou, os olhos faiscando — Era isso, então? Um plano nojento da sua família para atacar o Ministério e Hogwarts?

— Droga, Harry! — Hermione surgiu do ar, também desfazendo o feitiço e apontando a varinha para impedir qualquer contra-ataque de Draco.

Draco arregalou os olhos, perplexo.

— O que… — ele disse, a voz vacilante — o que vocês estão fazendo aqui?

— Cala a boca! — Harry rosnou, pressionando mais a ponta da varinha, até que um filete de sangue começasse a escorrer pela garganta do rival. — Quero saber onde está minha mãe e os demais.

— Vocês vão acabar sendo pegos! — Draco arfou, a voz carregada de uma urgência genuína. — Está infestado de apoiadores da causa por aqui…

— Eu não vou te dar uma segunda chance, Malfoy! Ou você fala, ou…

Segunda chance? — Draco o interrompeu, soltando uma risada amarga e trêmula. — Agora você quer me ouvir? Era exatamente sobre isso que eu fui na sua casa naquele dia, seu idiota! Eu tentei expor os planos do meu pai! Mas vocês preferiram me tratar com desprezo em vez de me escutar.

— Do que você está falando? — Hermione perguntou, franzindo a testa.

— Eu tentei evitar essa loucura dele! — Draco exclamou, a voz embargada. — Por mais ódio e rancor que eu estivesse sentindo de vocês, eu não queria ser o monstro que ele me doutrinou a ser. Eu quis ser… — ele engoliu em seco — o amigo que um dia você se orgulhou em ter, Harry. Alguém que vocês não olhassem com nojo. Mas depois do que vocês deixaram claro pensar sobre mim…

— O que você esperava, seu imbecil? — Harry rebateu, a mão que segurava a varinha tremendo de fúria e confusão. — Depois de tudo o que você fez? De tudo o que falou?

— Eu sei! — Draco explodiu. — Eu só queria consertar às coisas. Mas, naquele dia... eu cometi a estupidez de ir até sua casa sob o efeito daquela porcaria...

Brianna — Hermione completou.

Ela trocou um olhar rápido com Harry. O olhar dela parecia pesar sob a potencial veracidade daquele desabafo desesperado. Harry voltou-se para Draco, ainda firme, mas com a guarda mental revelando uma sutil brecha.

Antes que qualquer outra palavra fosse dita, vozes ecoaram novamente ao longe.

— Merda — Draco sibilou. — Comensais em ronda. Vocês precisam sair daqui! Agora!

— Nem pensar...

— Harry, me desculpa.

O pedido de Hermione foi um comando. Ela invocou novamente o feitiço de desilusão em Harry e o lançou para o recuo mais escuro do corredor.

— O que você… — Draco começou, atônito.

— Finja que me capturou, Malfoy — ela murmurou baixo, já se colocando na rota dos invasores. — Me leve até onde os reféns estão. Harry, nos siga.

Ela então se jogou contra Draco, que a segurou instintivamente.

— Mais uma sangue-ruim, Draco? — um dos comensais surgiu na esquina, com um sorriso cruel. — Maravilha.

Draco engoliu em seco, mas assentiu.

— Sim… vou levar ela para a sala de isolamento.

Ele começou a conduzi-la, os passos pesados. Mas antes de virar a esquina, seus olhos buscaram o canto escuro onde Harry estava. Hermione fez o mesmo.

Naquele breve contato visual, havia uma súplica muda da parte dela, implorando para que Harry confiasse na estratégia improvisada e não se entregasse ao impulso de agir por conta própria.

-XX-

Harry cerrou os dentes até a mandíbula latejar. O instinto gritava para que ele arrancasse Hermione dos braços de Draco e estuporasse qualquer um que ousasse se colocar no caminho. Contudo, ele forçou o ar para dentro dos pulmões, obrigando-se a manter a coordenação.

Era evidente que Hermione tomou aquela atitude arriscada justamente para corrigir sua imprudência anterior. Se ele não tivesse se revelado tão cedo, talvez estivessem em vantagem.

Agora, para evitar uma posição ainda mais desfavorável, ela estava sendo levada direto para o que claramente era um cativeiro improvisado… e tudo o que restava era confiar — mesmo que minimamente — nas possíveis boas intenções de Draco.

Harry seguiu o grupo à distância, movendo-se como um espectro, até notar que eles adentraram no gabinete do Ministro da Magia. Seja lá o que planejavam contra os nascidos-trouxas, os invasores queriam que a mensagem ecoasse diretamente do centro do poder bruxo.

Ele esperou, contendo a ânsia. Os comensais partiram momentos depois em direção ao setor dos prisioneiros masculinos, deixando o loiro para trás, na vigia.

Assim que o eco dos passos dos homens se dissipou no corredor, Harry emergiu da invisibilidade.

— Agora — ele ordenou, a voz cortante e a varinha cravada com precisão no peito de Draco. — Abra a porta.

— Tudo bem... — Draco respondeu, a voz contida. — Mas dá para se controlar? Sem alvoroço, elas já estão assustadas o suficiente lá dentro.

Draco destrancou o gabinete e Harry entrou. O ambiente estava pesado, carregado de uma tensão que sufocava. Oito mulheres, incluindo Lily e Hermione, ocupavam o espaço. Algumas exibiam cortes e hematomas, outras um terror absoluto de quem havia vivido horas à mercê de uma ameaça iminente.

— Por Circe, filho! — Lily correu para ele, o abraço apertado revelando o alívio desesperado. — Quase entrei em pânico quando vi Hermione, mas ela me explicou... Seu pai, como ele está?

— Ele vai ficar bem, mãe — Harry se apressou, acariciando o rosto dela com urgência. — Ele está sendo tratado. Vamos tirar vocês daqui, mas precisamos ser rápidos e cautelosos.

— Eles confiscaram nossas varinhas, Harry. A minha, a de todas as outras — Lílian explicou, a voz trêmula — Só podemos contar com a sua, a do Draco e a da Hermione.

Enquanto Lílian extraía informações cruciais de Draco sobre as rondas, Harry aproximou-se de Hermione. Ela estava recostada contra a parede, as mãos pálidas pressionando o próprio abdômen.

— Amor, eu sinto muito — ele sussurrou próximo ao ouvido dela, sentindo-se culpado pela forma como tudo escalara. — Eu deveria ter mantido o controle...

Ele franziu o cenho ao notar a falta de resposta.

— Hermione? Você está bem?

Ele a virou para si com cuidado, e o choque foi imediato. O rosto dela estava desprovido de cor, os lábios desbotados, as mãos tremiam violentamente e um suor frio brotava em sua testa.

— Merlin... — Harry murmurou, a compreensão atingindo-o como um golpe físico.

— Harry... a poção...

Hermione mal terminou de falar quando o corpo dela cedeu contra o dele. Ele a segurou antes que o impacto com o chão fosse inevitável, erguendo-a com uma facilidade desesperada até a poltrona mais próxima.

— Calma… calma, meu amor — ele sussurrou, a voz carregada de uma urgência que ele mal conseguia mascarar. — Vamos dar um jeito de tirar você daqui.

— O que ela tem? — Draco perguntou, aproximando-se, a confusão estampada no rosto. — Ninguém encostou nela...

Harry não desperdiçou energia respondendo ao loiro. Seu olhar buscou Lílian, que já se aproximava com os olhos arregalados.

— Está na hora da Vitae Doloris — Harry disparou. — Ela está sem forças para usar a magia. A poção é o que mantém o sistema dela operante… sem ela, o colapso é inevitável.

A ruiva examinou Hermione com agilidade, seus dedos mapeando o pulso da bruxa.

— Por Merlin... ela está em exaustão mágica profunda. Nesse estado, ela não tem energia sequer para lançar um Lumus.

Foi quando o som da porta sendo escancarada ecoou como um estilhaço. Dois comensais adentraram o recinto com as varinhas em punho, os olhos varrendo o gabinete até se fixarem em Harry.

— Mas o que significa isso? — um deles questionou, a voz carregada de veneno.

Harry não hesitou, já postado em posição de duelo.

— Ora, ora… o filhotinho dos Potter em pessoa… — o outro debochou, um sorriso cruel serpenteando seus lábios. — Bom trabalho, Draco. Vamos, garoto… renda-se. Sozinho, você não é páreo para nós.

Eles avançaram, mas antes que pudessem cercar Harry, uma varinha surgiu pressionada contra as costelas do comensal mais próximo.

— Caiam fora daqui — a voz de Draco ecoou, fria e ameaçadora.

O homem virou-se, incrédulo.

— Vai nos trair, seu imbecil? Quer que seu pai te mate também?

— Talvez seja uma opção melhor do que me transformar em um verme que nem você — Draco retrucou.

O caos explodiu. Antes que o outro comensal reagisse, Harry disparou um feitiço de desarme, e a sala transformou-se em um turbilhão de feixes de luz.

Enquanto Harry e Draco lutavam lado a lado, as mulheres se encolheram no canto buscando proteção. Lílian tentava manter Hermione desperta, que lutava contra a escuridão que insistia em lhe roubar a consciência.

O primeiro embate terminou com os comensais derrotados, mas a vitória foi efêmera. A porta se abriu novamente. Mais dois entraram. E estes eram implacáveis, tornando o duelo ainda mais brutal.

Protego! — Harry gritou, sua barreira rachando sob o impacto de uma maldição pesada.

Um clarão devastador surgiu: Draco foi arremessado com violência contra a parede, caindo inerte. Harry correu até ele, mas não havia tempo para prestar socorro. Ele arrancou a varinha da mão do loiro e a lançou para Lily.

— Lute comigo!

Lílian entrou no combate com a ferocidade de uma leoa, mas o cenário mudou com uma luz ofuscante que paralisou a todos. Quando a visão retornou, Lucius Malfoy estava parado no centro da sala, a autoridade gélida emanando de cada poro.

— O que aconteceu aqui? — Lucius vociferou. — Como esse garoto entrou? Dolohov, responda!

Dolohov, caído ao chão, apontou o dedo trêmulo.

— Foi seu filho, senhor. Ele nos traiu.

Lucius caminhou até Draco, o desprezo em seus olhos era quase palpável.

— Seu pedaço de esterco. Eu deveria ter previsto. Desde o dia em que soube que você e Potter haviam se tornado amiguinhos, você deixou de ser um herdeiro para se tornar uma mancha na pureza do meu nome. Eu deveria tê-lo erradicado da árvore genealógica antes que você se transformasse nesta… desgraça patética.

Draco ergueu a cabeça com dificuldade, o sangue escorrendo do canto da boca.

— Vergonha eu tenho de ser seu filho! E isso não se resume ao Potter. O fato é que eu passei uma vida inteira tentando me convencer de que queria ser como você... até perceber que prefiro ser qualquer coisa, menos a sua cópia. E, pela primeira vez, estou disposto a morrer para garantir que nunca serei.

Aproveitando a brecha mínima, Lílian e Harry tentaram avançar contra Lucius, mas o homem foi mais rápido. Com um movimento ágil e impiedoso, ele conjurou um feitiço de impacto amplificado por um Golpe Gêmeo.

A brutalidade da magia dupla foi devastadora. Mãe e filho foram arremessados contra a alvenaria, o impacto tamanha que o ar foi extirpado de seus pulmões, deixando-os atordoados e momentaneamente imobilizados.

Harry, com a visão nublada e o desespero pulsando nas têmporas, buscou por Hermione. Ele a encontrou caída alguns metros à frente, o corpo inerte e a respiração falhando, um som entrecortado que parecia rasgar o silêncio da sala.

Lucius caminhou até ele, pressionando a ponta da varinha contra sua garganta.

— Sabe… — começou, um sorriso sádico surgindo. — O plano original era executar alguns nascidos-trouxas em uma transmissão pública, um recado definitivo do movimento que ressuscita o objetivo do nosso saudoso Lorde das Trevas. Mas, refletindo bem... a morte do filho dos grandes heróis será uma manchete muito mais eficiente.

Harry tentou desesperadamente se mover, mas seu corpo agia como um traidor, a sensação de impotência era um veneno que corria por suas veias.

De repente, um grito gutural rasgou o ar do recinto. Era o próprio Lucius, caído de joelhos, o corpo contorcendo-se em um espasmo de agonia inimaginável, as mãos garras sobre o próprio crânio.

Harry piscou, atordoado. Sua mãe estava caída a metros de distância, ele mesmo ainda estava inerte sob o peso da magia de Lucius. Quem poderia ter atingido o homem com tamanha potência?

Foi quando seus olhos, num instinto óbvio, fixaram-se em Hermione. Ela ainda estava prostrada no chão, o corpo trêmulo, mas dessa vez com a varinha erguida com um esforço sobre-humano.

Ela havia invocado um feitiço de dor e paralisia de nível avançado, potente o suficiente para fazer com que o patriarca Malfoy se prostrasse.

A feição de Hermione era um mapa de agonia e determinação dolorosa, seus olhos ardiam com um fogo que parecia consumir o pouco que lhe restava de vitalidade. Era evidente que ela estava canalizando uma força que nem se sabia que existia, uma manifestação pura da sua magia em resposta ao terror.

— Hermione… — Harry sussurrou, chocado.

O mundo parecia girar ao redor daquele momento, mas a visão dela lutando foi o gatilho de que Harry precisava.

Em um surto de adrenalina que ignorou a dor de seus músculos, ele recuperou o controle sobre o próprio corpo. Com um rugido de fúria contida, ele pegou sua própria varinha caída e bradou:

Estupefaça!

Foi o suficiente para que Lucius caísse de cara no chão, inerte e a beira da inconsciência.

Ignorando totalmente o mundo ao redor, Harry, ainda sangrando, arrastou-se até Hermione. Ele a puxou para seus braços com uma facilidade desesperada, seu peito subindo e descendo em uma luta agonizante para respirar.

— Meu amor… — a voz de Harry falhou. — Como você conseguiu? Como lançou um feitiço nesse estado?

Ela o fitou, os olhos semicerrados perdendo o brilho, resistindo para não ceder a inconsciência.

— Eu não sei… — ela murmurou, quase num suspiro. — Só sei que… ele te ameaçou... eu não podia... não podia ver ninguém te machucar. Foi mais forte do que... a minha fraqueza.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, fraco, mas real. Harry a abraçou com a firmeza de quem tenta impedir a vida de escapar.

-XX-

Em poucos minutos, o cenário havia mudado drasticamente. Com a eficiência tática dos aurores, a insurgência foi sufocada. Paralelamente, em Hogwarts, reforços garantiram a contenção dos alunos da Sonserina que haviam se rebelado.

A ameaça imediata fora dissipada, deixando um rastro de cinzas, baixas e feridos, agora confinados sob o rigor dos cuidados do St. Mungus.

Contudo, para Harry, o mundo ainda não havia retomado o ritmo. Mesmo que os curandeiros insistissem na necessidade de repouso, ele permanecia como uma sentinela imóvel na poltrona ao lado da maca de Hermione.

Desde que ela desabara, momentos após salvá-lo, o tempo para ele se tornara uma entidade alheia. Um vácuo de pânico que só começou a se dissipar quando Lílian avaliou a garota.

— O pulso está estável, Harry. Foi um desgaste mágico crítico. A privação da Vitae Doloris foi o gatilho, mas o custo do feitiço que ela forçou... foi o que realmente a afetou.

Graças à intervenção dos curandeiros, que administraram a poção via intravenosa para garantir uma absorção imediata, Hermione já apresentava uma palidez menos fúnebre. O monitoramento constante indicava o retorno gradual de suas funções.

E, quando isso ocorreu, foi como se o ar no quarto mudasse.

Ela abriu os olhos lentamente, como quem desperta de um sono profundo. Harry inclinou-se à frente, o movimento fluido e carregado de uma urgência contida.

— Ei, princesa... como se sente?

Hermione ofereceu um sorriso tênue, a fraqueza ainda nublando seus movimentos, mas o brilho característico de sua mente voltava a habitar seus olhos. Ela ergueu a mão, os dedos trêmulos acariciando o rosto dele, e Harry, pela primeira vez em horas, permitiu-se soltar o fôlego que prendia.

— Acredito que bem melhor do que você aparenta. Pelo jeito não descansou nada, não é?

Harry negou com a cabeça, inclinando-se para unir seus lábios aos dela em um beijo que, finalmente, trouxe o alento que ambos buscavam.

— Eu tive tanto medo… — ela confessou contra a boca dele — Pensei que aquele monstro fosse tirar você de mim.

— Pelo visto, ele subestimou gravemente a minha heroína — Harry respondeu, um meio sorriso alcançando seus olhos.

— Eu ainda não entendo, Harry. Não faz sentido… lançar um feitiço daquela magnitude, nas minhas condições? A física mágica simplesmente não permite.

Harry segurou a mão dela entre as suas.

— Quando comentei com o curandeiro sobre o seu feito, ele disse que era algo inédito. Mas encontrou uma lógica quando descrevi a natureza do nosso vínculo. É análogo a um bruxo invocando um Patrono através da essência de outro.

— Parece que, em momentos de extrema necessidade, o sentimento pode sobrepor as limitações da estrutura mágica. Quando o amor exige mais do que a energia vital disponível… as leis da magia simplesmente se dobram.

Ele começou a traçar o contorno do rosto dela com o polegar, os olhos transbordando uma emoção crua.

— Se for realmente isso... então temos um novo campo de estudos para as pesquisas da Vitae Doloris. Além disso… vou ter que encontrar uma declaração de amor que esteja, no mínimo, à altura do que você acaba de provar.

Hermione mal conteve as lágrimas. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para perto.

— Você já me deu a maior de todas — ela soluçou baixinho, o rosto escondido em seu ombro. — Me amando durante todo esse tempo, e se recusando a desistir de nós.

Eles trocavam carícias, as testas coladas, quando James e Lilian adentraram o recinto.

— Pelo visto, vocês dois estão ótimos — Lily disse, o rosto banhado por um alívio materno indescritível.

— Pai! — Harry se adiantou. — O senhor está totalmente recuperado?

— Nada que feitiços de cicatrização não resolvessem — James sorriu, embora seus olhos estivessem úmidos. — Obrigado, Harry. Você e Hermione... salvaram sua mãe e foram a diferença entre o caos e a vitória. Tenho um orgulho imenso de vocês.

James aproximou-se, afagando os cabelos de Hermione em um gesto de carinho genuíno. Ao virar-se para Harry, porém, sua mão pairou no ar, hesitando sobre o ombro do filho — o fantasma de anos de distanciamento e mal-entendidos ainda pairava entre eles como uma sombra.

Mas Harry, antecipando o movimento, levantou-se e envolveu o pai em um abraço firme. O contato foi a barreira final sendo estilhaçada. James soltou um suspiro profundo, retribuindo com o amor que fora reprimido por tanto tempo.

— Eu também tenho orgulho de você, pai. E sempre terei.

Lily e Hermione entrelaçaram as mãos, um sorriso de satisfação compartilhado ao verem aquele momento.

Quando se recompuseram, James pigarreou.

— Bom... assim que puderem, precisam ir até a ala onde Draco está. Lily já deu o depoimento dela para o investigador, explicando como ele foi uma ajuda necessária em tempo hábil. Mas o Ministério exige o relato de vocês também.

Após prestarem os depoimentos oficiais, confirmando a versão de Lílian e formalizando a colaboração decisiva de Draco, Hermione insistiu. Embora Harry estivesse visivelmente relutante, ele cedeu, acompanhando-a até a ala onde o loiro se recuperava.

Draco, ao vê-los, sentiu-se visivelmente desconfortável. Ele tentou ajeitar-se na maca, a postura rígida denunciando tanto a dor física quanto a carga psicológica daquele reencontro.

— Espero que a recuperação esteja sendo menos penosa do que o esperado — Hermione iniciou, a voz suave, destituída de qualquer tom acusatório.

— Estou vivo. Isso já é um avanço considerável em relação ao meu estado há algumas horas — Draco respondeu, a voz arrastada.

Harry deu um passo à frente, a expressão séria, porém desarmada.

— Queremos te agradecer, Malfoy. Sem a sua ajuda, o desfecho teria sido muito pior.

— Eu poderia ter evitado esse espetáculo deplorável muito antes. Da próxima vez que a sede de vingança me parecer uma ideia brilhante, vou tentar ser menos... dramático. Ou talvez só menos estúpido. — Draco soltou, com uma risada seca e sem humor.

— Você terá nosso respaldo no julgamento — Hermione afirmou. — Faremos o possível para ajudar.

Um meio sorriso, genuinamente grato, surgiu no rosto de Draco.

— Obrigado. E... eu não vou ser hipócrita de pedir desculpas como se tudo pudesse ser apagado. Mas sinto muito. Por cada palavra, cada plano, cada investida tóxica que fiz contra vocês. Com o meu pai fora de cena, acho que terei a chance de ser algo que não seja apenas o reflexo do que ele esperava de mim.

— Você vai conseguir — Harry respondeu, a voz firme, carregada de uma convicção que não era apenas um desejo, mas um reconhecimento.

Draco assentiu, e naquele silêncio, a tensão parecia, finalmente, ter se dissolvido em algo menos opressor.

— Eu tenho certeza disso — Harry completou.

-XX-

Os meses que se seguiram ao ataque foram um longo processo de cicatrização. O trauma do atentado forçou uma mudança radical na sociedade bruxa: o combate ao preconceito contra nascidos-trouxas e mestiços deixou de ser um debate acadêmico para se tornar uma prioridade legislativa.

O Ministério estabeleceu decretos rigorosos, e Hogwarts transformou-se em um terreno de conscientização, com grupos de apoio e palestras semanais que buscavam erradicar, pela raiz, qualquer resquício daquele fanatismo.

Harry e Hermione tornaram-se as vozes dessa mudança na escola, liderando discussões e atuando como mentores incansáveis.

A justiça foi implacável com os envolvidos: Crabbe, Goyle e outros que, sob a orientação de Draco que estava sob o comando de Lucius, praticavam feitiços ilegais, foram expulsos e responderam criminalmente por seus atos.

O depoimento de Draco fora o pilar para essa celeridade. Ele revelou como o plano do pai vinha sendo gestado há quase um ano, arquitetado para semear o terror e garantir ao patriarca um assento de poder sob a bandeira da pureza.

Enquanto famílias como os Parkinson e os Zabini recuaram a tempo — seja por medo ou um tardio vislumbre de consciência —, Lucius e seus seguidores mais leais foram confinados às celas de Azkaban, onde o silêncio finalmente substituiria sua retórica de ódio.

Quanto a Draco, embora a delação lhe garantisse o retorno a Hogwarts, ele preferiu concluir seus estudos sob a tutela de professores e orientadores particulares, buscando o exílio necessário para reconstruir sua própria identidade.

Antes do fim do semestre, o horizonte parecia finalmente límpido. O sétimo ano caminhava para o encerramento, e com ele, Harry e Hermione desfrutavam da completude de se pertencerem sem reservas, saboreando a plenitude de um amor que finalmente não precisava mais se esconder nas sombras ou sobreviver ao caos.

Sentados à beira do Lago Negro pela última vez, a brisa do verão que começava a despontar trazia o perfume de um futuro cheio de promessas.

— Harry! — Hermione o censurou, embora o riso contido em seus lábios traísse qualquer tentativa de seriedade. — Pela terceira vez, você não cansa de fazer os alunos do primeiro ano ficarem ruborizados quando te veem com o rosto enfiado no meu pescoço?

Harry riu, o som abafado pelo contato com a suavidade da pele dela. Ele se afastou apenas o suficiente para fitá-la, os olhos brilhando com uma afeição profunda.

— Eles deveriam estar acostumados. Estamos nessa exibição pública há meses. E, de qualquer forma, no próximo ano eles se verão livres de nós. Agora, só o Ministério e o St. Mungus terão que nos aturar.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— Se me lembro bem, eu estarei no St. Mungus e você no Ministério. Não estaremos juntos o tempo todo como aqui, roubando esses momentos.

Ele lançou-lhe um olhar provocador, a mão subindo para contornar o rosto dela com uma ternura quase reverente.

— Ah, mas eu garanto que você sempre será muito bem vinda no Ministério… — ele disse, com uma sugestão de provocação na voz — até porque, você como futura curandeira especializada em poções de cura, também daria uma excelente auror.

Ela deu de ombros, rendida.

— É verdade. Assim como você, um auror em potencial, provou que tem dotes ímpares na pesquisa avançada de poções.

— Então… — Harry murmurou, aproximando-se até que suas respirações se misturassem. — A chance de nossos mundos profissionais colidirem é tão inevitável quanto a nossa vida amorosa.

Hermione deixou escapar um suspiro, entregando-se completamente àquele momento de paz.

— Que colidam, então. Em todos os turnos, em todos os instantes, até o fim dos nossos dias.

Harry deslizou a mão para a nuca dela, puxando-a para um beijo que carregava o peso de tudo o que haviam superado e a promessa de tudo o que ainda estava por vir.

Ao se afastarem, o verde dos olhos dele encontrou o castanho profundo do dela, selando uma verdade que não precisava mais de palavras.

— Disso eu nem tenho dúvida... futura Sra. Potter.

Notes:

Como já adiantei, ainda teremos um epílogo — porque esse casal merece aqueles momentos que aquecem o coração e encerram a história do jeitinho que ela merece. E claro… ainda tem algumas pontas pra gente amarrar 👀
Vai sair logo logo, tá?
Até já ❤️