Chapter Text
O final da tarde se instalava com maestria, intensificando o frio que a neve incessante espalhava lá fora, quando o grupo de estágio de DCAT retornava da atividade de campo em direção ao Ministério.
Embora a formação original já não fosse obrigatória há semanas, os cinco que iniciaram juntos — Harry, Hermione, Susan, Daphne e Neville — haviam mantido uma coesão natural, forjada na confiança mútua que desenvolveram.
— Susan, você foi fantástica na liderança hoje! — Harry elogiou, enquanto caminhavam pelos corredores nevados.
— Brilhantemente precisa na orientação — completou Hermione, com um sorriso orgulhoso.
Susan sorriu, limpando os resquícios de fuligem das mangas do casaco.
— Ah, graças à convivência com vocês dois. Observar a liderança de vocês nos ensinou a não fazer feio quando chegasse a nossa vez.
— É a mais pura verdade — Daphne acrescentou. — Repetindo as técnicas que vocês ensinaram, a insegurança de assumir a frente finalmente desapareceu.
— Eu acompanho o elogio das meninas — Neville declarou —. Mas, no meu caso, prefiro continuar fugindo de cargos de comando. Meu estômago ainda revira só de lembrar da última vez.
A risada coletiva que se seguiu foi inevitável. Aproveitando o ritmo descontraído, Harry reduziu o passo, guiando Hermione discretamente para a retaguarda do grupo.
Ele inclinou-se, os lábios roçando a curva de seu ouvido.
— Você está linda.
Hermione sentiu o calor subir pelo rosto, um sorriso tímido desabrochando.
— Mesmo com o meu cabelo neste estado após a missão?
Harry levou a mão aos cabelos dela, contornando a rebeldia insistente de alguns cachos que escapavam do coque prático, com uma devoção que não pedia permissão.
— Principalmente assim — ele murmurou, a voz caindo para um tom rouco. — É um esforço constante ignorar a vontade de me perder neles enquanto o meu único pensamento é beijar a sua nuca.
Ela riu, lançando um olhar de soslaio para os amigos, que ainda seguiam à frente.
— Estamos em público, mocinho. Mas, por favor, guarde esse entusiasmo — ela mordeu o lábio com uma falsa inocência — Mal posso esperar pelo nosso retorno a Hogwarts para você por em prática o que tem em mente...
Harry fez um movimento súbito para que ambos parassem, a expressão transmutando-se em uma seriedade focada.
— Antes disso... estive pensando em ter a conversa ainda hoje com meus pais, se ainda estiverem no Ministério. Pretendo dar o passo final e deixar tudo finalmente resolvido.
A expressão de Hermione suavizou, transbordando uma felicidade profunda ao ver a convicção nos olhos dele.
— Fico feliz por isso, amor. Se quiser que eu esteja com você...
Harry entrelaçou os dedos nos dela com firmeza.
— Eu quero você em toda e qualquer parte da minha vida.
Ele então se inclinou e depositou um beijo lento nos lábios dela, prolongando o contato segundos suficientes para que tudo ao redor se tornasse um borrão irrelevante.
— Lamento atrapalhar o casalzinho — murmurou o auror Jackson, que os acompanhava como supervisor, com um revirar de olhos divertido. — Mas chegamos ao ponto de aparatagem.
Os outros três amigos trocaram risadas cúmplices. Harry e Hermione aproximaram-se, levemente corados, mas ainda sorridentes. Deram-se as mãos, prontos para aparatar.
Em milésimos de segundo, o cenário se converteu num caos asfixiante. Os corredores do Ministério fervilhavam em uma desordem violenta.
Gritos cortavam o ar, aurores tentavam impor uma linha de defesa caótica e a mídia aglomerava-se nas áreas externas, tentando, a qualquer custo, registrar o horror.
— Por Merlin, o que está acontecendo aqui? — Hermione sussurrou, os dedos apertando o braço de Harry, puxando-o para perto instintivamente.
— Parece ser um atentado... — Harry respondeu, o estômago dando um nó enquanto o olhar varria a multidão.
— Dentro do Ministério? — Susan questionou, a voz trêmula. — É uma ousadia absurda…
Antes que ela pudesse completar a frase, a silhueta de Sirius surgia entre eles. Ele avançou contra o fluxo de pessoas, segurando os ombros de Harry com uma força que beirava o desespero.
— Harry! Graças a Merlin vocês estão bem! — o homem exclamou.
— O que aconteceu?! — Harry indagou.
— Um ataque coordenado, aqui e em Hogwarts simultaneamente! Bombardearam os andares das chefias. Lançaram uma fumaça tóxica, sustentada por um feitiço de selamento… forçaram a evacuação imediata. Os Níveis 1 e 2 foram tomados.
Harry sentiu um arrepio gélido percorrer sua espinha.
— Onde... onde estão meus pais?
A hesitação de Sirius foi um golpe devastador.
— Venham comigo.
Com ordens rápidas, Sirius instruiu o auror Jackson a levar os demais estagiários para um ponto estratégico de segurança. Em seguida, conduziu Harry e Hermione pelo labirinto de corredores, desviando de feridos que jaziam sobre o mármore frio.
Quando adentraram em uma das salas que serviam de posto médico improvisado, Harry sentiu as pernas falharem. James estava sentado em uma cadeira, a perna gravemente ferida, enquanto curandeiros tentavam conter a hemorragia com feitiços de estancamento.
— Pai! — Harry exclamou, aproximando-se às pressas. — O senhor foi atacado?
— Eu... eu tentei ajudar na evacuação — James começou, interrompido por uma tosse violenta, o rosto manchado por fuligem. — Consegui retirar algumas pessoas antes que a névoa tóxica nos alcançasse... mas fui atingido quando cheguei ao Nível 4.
— Cadê a mãe? — Harry perguntou, o suor frio brotando em sua nuca.
James prendeu a respiração, os olhos marejados de pavor.
— Ela... permaneceu no Nível 2. Disse que subiria até o Nível 1 para auxiliar quem ficou no gabinete do Ministro... Harry, ela ainda não apareceu por aqui.
O ar pareceu ser sugado para fora do ambiente. A visão de Harry turvou, e ele só não desabou porque sentiu a mão firme de Hermione em seu ombro, ancorando-o.
— Você precisa encontrá-la, filho… precisamos saber se ela… — James tentou se levantar, mas a dor e a exaustão o forçaram de volta.
— Se acalme, pai. Eu vou trazê-la de volta. Tenho certeza que ela está bem.
Harry voltou o olhar para Hermione, a urgência nos olhos dela espelhava a sua.
— Harry, se a invasão está contida naqueles níveis, ela deve estar lá... tentando ajudar ou...
— …ou rendida — Sirius completou a fala de Hermione, baixo, certificando-se de que James não ouvisse.
Ele arrastou os dois para um canto isolado, o tom de voz visivelmente preocupado.
— Recebemos mensagens ameaçadoras. É um ataque liderado por Lucius Malfoy. Já confirmamos traidores infiltrados no próprio Ministério, além de uma milícia de alunos da Sonserina em Hogwarts. A suspeita é que estão mantendo alguns nascidos-trouxas como reféns. É um movimento político sujo… ou uma execução planejada para enviar uma mensagem.
— Então eles capturaram minha mãe? — Harry perguntou, os punhos cerrados.
— É uma possibilidade — Sirius admitiu com pesar. — Lílian é excepcional, mas eles vieram preparados.
— Podemos ajudar — Hermione declarou, dando um passo à frente. — Sabemos o suficiente sobre o protocolo de combate. Podemos nos infiltrar e...
— De jeito nenhum — Sirius negou categoricamente. — Não posso expor vocês a esse risco.
— Sirius, temos treinamento — Harry retrucou, a convicção em sua voz não deixando brechas. — E eu preciso encontrar minha mãe. Vou até lá com ou sem o seu consentimento.
O homem sustentou o olhar determinado do afilhado. Com um aceno lento, ele se rendeu.
— Tudo bem... Vou passar as orientações táticas. Mas, pelo amor de Merlin, não sejam imprudentes. Vocês vão juntos?
— Sempre — Harry e Hermione responderam em uníssono.
Eles trocaram um vislumbre rápido — uma convergência de medo e determinação estampada nos olhos e firmada nas mãos que se recusavam a se soltar.
-XX-
Já haviam se passado minutos intermináveis desde que Harry e Hermione se infiltraram no Nível 1 por uma das passagens secretas. Os aurores que os acompanhavam haviam ordenado que permanecessem na sombra enquanto avaliavam o perímetro — uma manobra tática replicada simultaneamente por outras unidades em diferentes pontos do Ministério.
Hermione podia sentir a eletricidade que irradiava de Harry. Ele estava em um estado de vibração contida, a musculatura rígida como se estivesse pronta para romper a qualquer milésimo de segundo.
Ela sabia, com absoluta certeza, que se não fosse por sua presença ali, Harry já teria ignorado qualquer protocolo, mandado as ordens de contenção para o inferno e se lançado sozinho em uma caçada desesperada pela mãe.
— Amor... — ela sussurrou, a voz contornando a angústia dele. — Tente manter a calma. Se corrermos pelo andar sem saber como está o terreno, nos tornaremos um estorvo, em vez de um auxílio.
Harry respirou fundo, a cabeça encostada na pedra fria da parede.
— Eu sei. Mas estou desesperado, Hermione. Se minha mãe estivesse bem, ela já teria aparatado ou sinalizado. Algo grave aconteceu.
O corpo de Harry tensionou subitamente quando Hermione o puxou para mais fundo na escuridão.
— Shh... — ela mal soprou o aviso. — Tem alguém vindo.
Os dois prenderam a respiração enquanto três figuras emergiam do corredor. O centro do trio não era outro senão Draco Malfoy.
— Malfoy, siga as ordens do seu pai e vá para a sala onde estão as prisioneiras nascidas-trouxas — um dos homens murmurou. — Fique lá até ele chegar para executar o plano. Vamos dar um jeito naquele auror que interceptamos.
Eles desapareceram pelo lado oposto.
— Desgraçado... — Harry sibilou, a voz carregada de ódio. — Hermione, precisamos detê-lo.
— Não — ela disse, segurando o braço dele com firmeza. — Vamos apenas segui-lo. Ele pode nos levar até onde as vítimas estão retidas.
Ambos lançaram feitiços de desilusão sobre si mesmos e começaram a seguir o loiro com precisão cirúrgica. Ao cruzarem um corredor aparentemente deserto, porém, o autocontrole de Harry se rompeu. Num movimento fluido, ele empurrou Hermione para a segurança da escuridão e saltou sobre Draco.
O loiro mal teve tempo de reagir antes de ser imobilizado. Harry dissipou a própria camuflagem, a varinha já cravada na jugular do garoto.
— Seu pedaço de merda! — Harry vociferou, os olhos faiscando — Era isso, então? Um plano nojento da sua família para atacar o Ministério e Hogwarts?
— Droga, Harry! — Hermione surgiu do ar, também desfazendo o feitiço e apontando a varinha para impedir qualquer contra-ataque de Draco.
Draco arregalou os olhos, perplexo.
— O que… — ele disse, a voz vacilante — o que vocês estão fazendo aqui?
— Cala a boca! — Harry rosnou, pressionando mais a ponta da varinha, até que um filete de sangue começasse a escorrer pela garganta do rival. — Quero saber onde está minha mãe e os demais.
— Vocês vão acabar sendo pegos! — Draco arfou, a voz carregada de uma urgência genuína. — Está infestado de apoiadores da causa por aqui…
— Eu não vou te dar uma segunda chance, Malfoy! Ou você fala, ou…
— Segunda chance? — Draco o interrompeu, soltando uma risada amarga e trêmula. — Agora você quer me ouvir? Era exatamente sobre isso que eu fui na sua casa naquele dia, seu idiota! Eu tentei expor os planos do meu pai! Mas vocês preferiram me tratar com desprezo em vez de me escutar.
— Do que você está falando? — Hermione perguntou, franzindo a testa.
— Eu tentei evitar essa loucura dele! — Draco exclamou, a voz embargada. — Por mais ódio e rancor que eu estivesse sentindo de vocês, eu não queria ser o monstro que ele me doutrinou a ser. Eu quis ser… — ele engoliu em seco — o amigo que um dia você se orgulhou em ter, Harry. Alguém que vocês não olhassem com nojo. Mas depois do que vocês deixaram claro pensar sobre mim…
— O que você esperava, seu imbecil? — Harry rebateu, a mão que segurava a varinha tremendo de fúria e confusão. — Depois de tudo o que você fez? De tudo o que falou?
— Eu sei! — Draco explodiu. — Eu só queria consertar às coisas. Mas, naquele dia... eu cometi a estupidez de ir até sua casa sob o efeito daquela porcaria...
— Brianna — Hermione completou.
Ela trocou um olhar rápido com Harry. O olhar dela parecia pesar sob a potencial veracidade daquele desabafo desesperado. Harry voltou-se para Draco, ainda firme, mas com a guarda mental revelando uma sutil brecha.
Antes que qualquer outra palavra fosse dita, vozes ecoaram novamente ao longe.
— Merda — Draco sibilou. — Comensais em ronda. Vocês precisam sair daqui! Agora!
— Nem pensar...
— Harry, me desculpa.
O pedido de Hermione foi um comando. Ela invocou novamente o feitiço de desilusão em Harry e o lançou para o recuo mais escuro do corredor.
— O que você… — Draco começou, atônito.
— Finja que me capturou, Malfoy — ela murmurou baixo, já se colocando na rota dos invasores. — Me leve até onde os reféns estão. Harry, nos siga.
Ela então se jogou contra Draco, que a segurou instintivamente.
— Mais uma sangue-ruim, Draco? — um dos comensais surgiu na esquina, com um sorriso cruel. — Maravilha.
Draco engoliu em seco, mas assentiu.
— Sim… vou levar ela para a sala de isolamento.
Ele começou a conduzi-la, os passos pesados. Mas antes de virar a esquina, seus olhos buscaram o canto escuro onde Harry estava. Hermione fez o mesmo.
Naquele breve contato visual, havia uma súplica muda da parte dela, implorando para que Harry confiasse na estratégia improvisada e não se entregasse ao impulso de agir por conta própria.
-XX-
Harry cerrou os dentes até a mandíbula latejar. O instinto gritava para que ele arrancasse Hermione dos braços de Draco e estuporasse qualquer um que ousasse se colocar no caminho. Contudo, ele forçou o ar para dentro dos pulmões, obrigando-se a manter a coordenação.
Era evidente que Hermione tomou aquela atitude arriscada justamente para corrigir sua imprudência anterior. Se ele não tivesse se revelado tão cedo, talvez estivessem em vantagem.
Agora, para evitar uma posição ainda mais desfavorável, ela estava sendo levada direto para o que claramente era um cativeiro improvisado… e tudo o que restava era confiar — mesmo que minimamente — nas possíveis boas intenções de Draco.
Harry seguiu o grupo à distância, movendo-se como um espectro, até notar que eles adentraram no gabinete do Ministro da Magia. Seja lá o que planejavam contra os nascidos-trouxas, os invasores queriam que a mensagem ecoasse diretamente do centro do poder bruxo.
Ele esperou, contendo a ânsia. Os comensais partiram momentos depois em direção ao setor dos prisioneiros masculinos, deixando o loiro para trás, na vigia.
Assim que o eco dos passos dos homens se dissipou no corredor, Harry emergiu da invisibilidade.
— Agora — ele ordenou, a voz cortante e a varinha cravada com precisão no peito de Draco. — Abra a porta.
— Tudo bem... — Draco respondeu, a voz contida. — Mas dá para se controlar? Sem alvoroço, elas já estão assustadas o suficiente lá dentro.
Draco destrancou o gabinete e Harry entrou. O ambiente estava pesado, carregado de uma tensão que sufocava. Oito mulheres, incluindo Lily e Hermione, ocupavam o espaço. Algumas exibiam cortes e hematomas, outras um terror absoluto de quem havia vivido horas à mercê de uma ameaça iminente.
— Por Circe, filho! — Lily correu para ele, o abraço apertado revelando o alívio desesperado. — Quase entrei em pânico quando vi Hermione, mas ela me explicou... Seu pai, como ele está?
— Ele vai ficar bem, mãe — Harry se apressou, acariciando o rosto dela com urgência. — Ele está sendo tratado. Vamos tirar vocês daqui, mas precisamos ser rápidos e cautelosos.
— Eles confiscaram nossas varinhas, Harry. A minha, a de todas as outras — Lílian explicou, a voz trêmula — Só podemos contar com a sua, a do Draco e a da Hermione.
Enquanto Lílian extraía informações cruciais de Draco sobre as rondas, Harry aproximou-se de Hermione. Ela estava recostada contra a parede, as mãos pálidas pressionando o próprio abdômen.
— Amor, eu sinto muito — ele sussurrou próximo ao ouvido dela, sentindo-se culpado pela forma como tudo escalara. — Eu deveria ter mantido o controle...
Ele franziu o cenho ao notar a falta de resposta.
— Hermione? Você está bem?
Ele a virou para si com cuidado, e o choque foi imediato. O rosto dela estava desprovido de cor, os lábios desbotados, as mãos tremiam violentamente e um suor frio brotava em sua testa.
— Merlin... — Harry murmurou, a compreensão atingindo-o como um golpe físico.
— Harry... a poção...
Hermione mal terminou de falar quando o corpo dela cedeu contra o dele. Ele a segurou antes que o impacto com o chão fosse inevitável, erguendo-a com uma facilidade desesperada até a poltrona mais próxima.
— Calma… calma, meu amor — ele sussurrou, a voz carregada de uma urgência que ele mal conseguia mascarar. — Vamos dar um jeito de tirar você daqui.
— O que ela tem? — Draco perguntou, aproximando-se, a confusão estampada no rosto. — Ninguém encostou nela...
Harry não desperdiçou energia respondendo ao loiro. Seu olhar buscou Lílian, que já se aproximava com os olhos arregalados.
— Está na hora da Vitae Doloris — Harry disparou. — Ela está sem forças para usar a magia. A poção é o que mantém o sistema dela operante… sem ela, o colapso é inevitável.
A ruiva examinou Hermione com agilidade, seus dedos mapeando o pulso da bruxa.
— Por Merlin... ela está em exaustão mágica profunda. Nesse estado, ela não tem energia sequer para lançar um Lumus.
Foi quando o som da porta sendo escancarada ecoou como um estilhaço. Dois comensais adentraram o recinto com as varinhas em punho, os olhos varrendo o gabinete até se fixarem em Harry.
— Mas o que significa isso? — um deles questionou, a voz carregada de veneno.
Harry não hesitou, já postado em posição de duelo.
— Ora, ora… o filhotinho dos Potter em pessoa… — o outro debochou, um sorriso cruel serpenteando seus lábios. — Bom trabalho, Draco. Vamos, garoto… renda-se. Sozinho, você não é páreo para nós.
Eles avançaram, mas antes que pudessem cercar Harry, uma varinha surgiu pressionada contra as costelas do comensal mais próximo.
— Caiam fora daqui — a voz de Draco ecoou, fria e ameaçadora.
O homem virou-se, incrédulo.
— Vai nos trair, seu imbecil? Quer que seu pai te mate também?
— Talvez seja uma opção melhor do que me transformar em um verme que nem você — Draco retrucou.
O caos explodiu. Antes que o outro comensal reagisse, Harry disparou um feitiço de desarme, e a sala transformou-se em um turbilhão de feixes de luz.
Enquanto Harry e Draco lutavam lado a lado, as mulheres se encolheram no canto buscando proteção. Lílian tentava manter Hermione desperta, que lutava contra a escuridão que insistia em lhe roubar a consciência.
O primeiro embate terminou com os comensais derrotados, mas a vitória foi efêmera. A porta se abriu novamente. Mais dois entraram. E estes eram implacáveis, tornando o duelo ainda mais brutal.
— Protego! — Harry gritou, sua barreira rachando sob o impacto de uma maldição pesada.
Um clarão devastador surgiu: Draco foi arremessado com violência contra a parede, caindo inerte. Harry correu até ele, mas não havia tempo para prestar socorro. Ele arrancou a varinha da mão do loiro e a lançou para Lily.
— Lute comigo!
Lílian entrou no combate com a ferocidade de uma leoa, mas o cenário mudou com uma luz ofuscante que paralisou a todos. Quando a visão retornou, Lucius Malfoy estava parado no centro da sala, a autoridade gélida emanando de cada poro.
— O que aconteceu aqui? — Lucius vociferou. — Como esse garoto entrou? Dolohov, responda!
Dolohov, caído ao chão, apontou o dedo trêmulo.
— Foi seu filho, senhor. Ele nos traiu.
Lucius caminhou até Draco, o desprezo em seus olhos era quase palpável.
— Seu pedaço de esterco. Eu deveria ter previsto. Desde o dia em que soube que você e Potter haviam se tornado amiguinhos, você deixou de ser um herdeiro para se tornar uma mancha na pureza do meu nome. Eu deveria tê-lo erradicado da árvore genealógica antes que você se transformasse nesta… desgraça patética.
Draco ergueu a cabeça com dificuldade, o sangue escorrendo do canto da boca.
— Vergonha eu tenho de ser seu filho! E isso não se resume ao Potter. O fato é que eu passei uma vida inteira tentando me convencer de que queria ser como você... até perceber que prefiro ser qualquer coisa, menos a sua cópia. E, pela primeira vez, estou disposto a morrer para garantir que nunca serei.
Aproveitando a brecha mínima, Lílian e Harry tentaram avançar contra Lucius, mas o homem foi mais rápido. Com um movimento ágil e impiedoso, ele conjurou um feitiço de impacto amplificado por um Golpe Gêmeo.
A brutalidade da magia dupla foi devastadora. Mãe e filho foram arremessados contra a alvenaria, o impacto tamanha que o ar foi extirpado de seus pulmões, deixando-os atordoados e momentaneamente imobilizados.
Harry, com a visão nublada e o desespero pulsando nas têmporas, buscou por Hermione. Ele a encontrou caída alguns metros à frente, o corpo inerte e a respiração falhando, um som entrecortado que parecia rasgar o silêncio da sala.
Lucius caminhou até ele, pressionando a ponta da varinha contra sua garganta.
— Sabe… — começou, um sorriso sádico surgindo. — O plano original era executar alguns nascidos-trouxas em uma transmissão pública, um recado definitivo do movimento que ressuscita o objetivo do nosso saudoso Lorde das Trevas. Mas, refletindo bem... a morte do filho dos grandes heróis será uma manchete muito mais eficiente.
Harry tentou desesperadamente se mover, mas seu corpo agia como um traidor, a sensação de impotência era um veneno que corria por suas veias.
De repente, um grito gutural rasgou o ar do recinto. Era o próprio Lucius, caído de joelhos, o corpo contorcendo-se em um espasmo de agonia inimaginável, as mãos garras sobre o próprio crânio.
Harry piscou, atordoado. Sua mãe estava caída a metros de distância, ele mesmo ainda estava inerte sob o peso da magia de Lucius. Quem poderia ter atingido o homem com tamanha potência?
Foi quando seus olhos, num instinto óbvio, fixaram-se em Hermione. Ela ainda estava prostrada no chão, o corpo trêmulo, mas dessa vez com a varinha erguida com um esforço sobre-humano.
Ela havia invocado um feitiço de dor e paralisia de nível avançado, potente o suficiente para fazer com que o patriarca Malfoy se prostrasse.
A feição de Hermione era um mapa de agonia e determinação dolorosa, seus olhos ardiam com um fogo que parecia consumir o pouco que lhe restava de vitalidade. Era evidente que ela estava canalizando uma força que nem se sabia que existia, uma manifestação pura da sua magia em resposta ao terror.
— Hermione… — Harry sussurrou, chocado.
O mundo parecia girar ao redor daquele momento, mas a visão dela lutando foi o gatilho de que Harry precisava.
Em um surto de adrenalina que ignorou a dor de seus músculos, ele recuperou o controle sobre o próprio corpo. Com um rugido de fúria contida, ele pegou sua própria varinha caída e bradou:
— Estupefaça!
Foi o suficiente para que Lucius caísse de cara no chão, inerte e a beira da inconsciência.
Ignorando totalmente o mundo ao redor, Harry, ainda sangrando, arrastou-se até Hermione. Ele a puxou para seus braços com uma facilidade desesperada, seu peito subindo e descendo em uma luta agonizante para respirar.
— Meu amor… — a voz de Harry falhou. — Como você conseguiu? Como lançou um feitiço nesse estado?
Ela o fitou, os olhos semicerrados perdendo o brilho, resistindo para não ceder a inconsciência.
— Eu não sei… — ela murmurou, quase num suspiro. — Só sei que… ele te ameaçou... eu não podia... não podia ver ninguém te machucar. Foi mais forte do que... a minha fraqueza.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, fraco, mas real. Harry a abraçou com a firmeza de quem tenta impedir a vida de escapar.
-XX-
Em poucos minutos, o cenário havia mudado drasticamente. Com a eficiência tática dos aurores, a insurgência foi sufocada. Paralelamente, em Hogwarts, reforços garantiram a contenção dos alunos da Sonserina que haviam se rebelado.
A ameaça imediata fora dissipada, deixando um rastro de cinzas, baixas e feridos, agora confinados sob o rigor dos cuidados do St. Mungus.
Contudo, para Harry, o mundo ainda não havia retomado o ritmo. Mesmo que os curandeiros insistissem na necessidade de repouso, ele permanecia como uma sentinela imóvel na poltrona ao lado da maca de Hermione.
Desde que ela desabara, momentos após salvá-lo, o tempo para ele se tornara uma entidade alheia. Um vácuo de pânico que só começou a se dissipar quando Lílian avaliou a garota.
— O pulso está estável, Harry. Foi um desgaste mágico crítico. A privação da Vitae Doloris foi o gatilho, mas o custo do feitiço que ela forçou... foi o que realmente a afetou.
Graças à intervenção dos curandeiros, que administraram a poção via intravenosa para garantir uma absorção imediata, Hermione já apresentava uma palidez menos fúnebre. O monitoramento constante indicava o retorno gradual de suas funções.
E, quando isso ocorreu, foi como se o ar no quarto mudasse.
Ela abriu os olhos lentamente, como quem desperta de um sono profundo. Harry inclinou-se à frente, o movimento fluido e carregado de uma urgência contida.
— Ei, princesa... como se sente?
Hermione ofereceu um sorriso tênue, a fraqueza ainda nublando seus movimentos, mas o brilho característico de sua mente voltava a habitar seus olhos. Ela ergueu a mão, os dedos trêmulos acariciando o rosto dele, e Harry, pela primeira vez em horas, permitiu-se soltar o fôlego que prendia.
— Acredito que bem melhor do que você aparenta. Pelo jeito não descansou nada, não é?
Harry negou com a cabeça, inclinando-se para unir seus lábios aos dela em um beijo que, finalmente, trouxe o alento que ambos buscavam.
— Eu tive tanto medo… — ela confessou contra a boca dele — Pensei que aquele monstro fosse tirar você de mim.
— Pelo visto, ele subestimou gravemente a minha heroína — Harry respondeu, um meio sorriso alcançando seus olhos.
— Eu ainda não entendo, Harry. Não faz sentido… lançar um feitiço daquela magnitude, nas minhas condições? A física mágica simplesmente não permite.
Harry segurou a mão dela entre as suas.
— Quando comentei com o curandeiro sobre o seu feito, ele disse que era algo inédito. Mas encontrou uma lógica quando descrevi a natureza do nosso vínculo. É análogo a um bruxo invocando um Patrono através da essência de outro.
— Parece que, em momentos de extrema necessidade, o sentimento pode sobrepor as limitações da estrutura mágica. Quando o amor exige mais do que a energia vital disponível… as leis da magia simplesmente se dobram.
Ele começou a traçar o contorno do rosto dela com o polegar, os olhos transbordando uma emoção crua.
— Se for realmente isso... então temos um novo campo de estudos para as pesquisas da Vitae Doloris. Além disso… vou ter que encontrar uma declaração de amor que esteja, no mínimo, à altura do que você acaba de provar.
Hermione mal conteve as lágrimas. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para perto.
— Você já me deu a maior de todas — ela soluçou baixinho, o rosto escondido em seu ombro. — Me amando durante todo esse tempo, e se recusando a desistir de nós.
Eles trocavam carícias, as testas coladas, quando James e Lilian adentraram o recinto.
— Pelo visto, vocês dois estão ótimos — Lily disse, o rosto banhado por um alívio materno indescritível.
— Pai! — Harry se adiantou. — O senhor está totalmente recuperado?
— Nada que feitiços de cicatrização não resolvessem — James sorriu, embora seus olhos estivessem úmidos. — Obrigado, Harry. Você e Hermione... salvaram sua mãe e foram a diferença entre o caos e a vitória. Tenho um orgulho imenso de vocês.
James aproximou-se, afagando os cabelos de Hermione em um gesto de carinho genuíno. Ao virar-se para Harry, porém, sua mão pairou no ar, hesitando sobre o ombro do filho — o fantasma de anos de distanciamento e mal-entendidos ainda pairava entre eles como uma sombra.
Mas Harry, antecipando o movimento, levantou-se e envolveu o pai em um abraço firme. O contato foi a barreira final sendo estilhaçada. James soltou um suspiro profundo, retribuindo com o amor que fora reprimido por tanto tempo.
— Eu também tenho orgulho de você, pai. E sempre terei.
Lily e Hermione entrelaçaram as mãos, um sorriso de satisfação compartilhado ao verem aquele momento.
Quando se recompuseram, James pigarreou.
— Bom... assim que puderem, precisam ir até a ala onde Draco está. Lily já deu o depoimento dela para o investigador, explicando como ele foi uma ajuda necessária em tempo hábil. Mas o Ministério exige o relato de vocês também.
Após prestarem os depoimentos oficiais, confirmando a versão de Lílian e formalizando a colaboração decisiva de Draco, Hermione insistiu. Embora Harry estivesse visivelmente relutante, ele cedeu, acompanhando-a até a ala onde o loiro se recuperava.
Draco, ao vê-los, sentiu-se visivelmente desconfortável. Ele tentou ajeitar-se na maca, a postura rígida denunciando tanto a dor física quanto a carga psicológica daquele reencontro.
— Espero que a recuperação esteja sendo menos penosa do que o esperado — Hermione iniciou, a voz suave, destituída de qualquer tom acusatório.
— Estou vivo. Isso já é um avanço considerável em relação ao meu estado há algumas horas — Draco respondeu, a voz arrastada.
Harry deu um passo à frente, a expressão séria, porém desarmada.
— Queremos te agradecer, Malfoy. Sem a sua ajuda, o desfecho teria sido muito pior.
— Eu poderia ter evitado esse espetáculo deplorável muito antes. Da próxima vez que a sede de vingança me parecer uma ideia brilhante, vou tentar ser menos... dramático. Ou talvez só menos estúpido. — Draco soltou, com uma risada seca e sem humor.
— Você terá nosso respaldo no julgamento — Hermione afirmou. — Faremos o possível para ajudar.
Um meio sorriso, genuinamente grato, surgiu no rosto de Draco.
— Obrigado. E... eu não vou ser hipócrita de pedir desculpas como se tudo pudesse ser apagado. Mas sinto muito. Por cada palavra, cada plano, cada investida tóxica que fiz contra vocês. Com o meu pai fora de cena, acho que terei a chance de ser algo que não seja apenas o reflexo do que ele esperava de mim.
— Você vai conseguir — Harry respondeu, a voz firme, carregada de uma convicção que não era apenas um desejo, mas um reconhecimento.
Draco assentiu, e naquele silêncio, a tensão parecia, finalmente, ter se dissolvido em algo menos opressor.
— Eu tenho certeza disso — Harry completou.
-XX-
Os meses que se seguiram ao ataque foram um longo processo de cicatrização. O trauma do atentado forçou uma mudança radical na sociedade bruxa: o combate ao preconceito contra nascidos-trouxas e mestiços deixou de ser um debate acadêmico para se tornar uma prioridade legislativa.
O Ministério estabeleceu decretos rigorosos, e Hogwarts transformou-se em um terreno de conscientização, com grupos de apoio e palestras semanais que buscavam erradicar, pela raiz, qualquer resquício daquele fanatismo.
Harry e Hermione tornaram-se as vozes dessa mudança na escola, liderando discussões e atuando como mentores incansáveis.
A justiça foi implacável com os envolvidos: Crabbe, Goyle e outros que, sob a orientação de Draco que estava sob o comando de Lucius, praticavam feitiços ilegais, foram expulsos e responderam criminalmente por seus atos.
O depoimento de Draco fora o pilar para essa celeridade. Ele revelou como o plano do pai vinha sendo gestado há quase um ano, arquitetado para semear o terror e garantir ao patriarca um assento de poder sob a bandeira da pureza.
Enquanto famílias como os Parkinson e os Zabini recuaram a tempo — seja por medo ou um tardio vislumbre de consciência —, Lucius e seus seguidores mais leais foram confinados às celas de Azkaban, onde o silêncio finalmente substituiria sua retórica de ódio.
Quanto a Draco, embora a delação lhe garantisse o retorno a Hogwarts, ele preferiu concluir seus estudos sob a tutela de professores e orientadores particulares, buscando o exílio necessário para reconstruir sua própria identidade.
Antes do fim do semestre, o horizonte parecia finalmente límpido. O sétimo ano caminhava para o encerramento, e com ele, Harry e Hermione desfrutavam da completude de se pertencerem sem reservas, saboreando a plenitude de um amor que finalmente não precisava mais se esconder nas sombras ou sobreviver ao caos.
Sentados à beira do Lago Negro pela última vez, a brisa do verão que começava a despontar trazia o perfume de um futuro cheio de promessas.
— Harry! — Hermione o censurou, embora o riso contido em seus lábios traísse qualquer tentativa de seriedade. — Pela terceira vez, você não cansa de fazer os alunos do primeiro ano ficarem ruborizados quando te veem com o rosto enfiado no meu pescoço?
Harry riu, o som abafado pelo contato com a suavidade da pele dela. Ele se afastou apenas o suficiente para fitá-la, os olhos brilhando com uma afeição profunda.
— Eles deveriam estar acostumados. Estamos nessa exibição pública há meses. E, de qualquer forma, no próximo ano eles se verão livres de nós. Agora, só o Ministério e o St. Mungus terão que nos aturar.
Hermione arqueou uma sobrancelha.
— Se me lembro bem, eu estarei no St. Mungus e você no Ministério. Não estaremos juntos o tempo todo como aqui, roubando esses momentos.
Ele lançou-lhe um olhar provocador, a mão subindo para contornar o rosto dela com uma ternura quase reverente.
— Ah, mas eu garanto que você sempre será muito bem vinda no Ministério… — ele disse, com uma sugestão de provocação na voz — até porque, você como futura curandeira especializada em poções de cura, também daria uma excelente auror.
Ela deu de ombros, rendida.
— É verdade. Assim como você, um auror em potencial, provou que tem dotes ímpares na pesquisa avançada de poções.
— Então… — Harry murmurou, aproximando-se até que suas respirações se misturassem. — A chance de nossos mundos profissionais colidirem é tão inevitável quanto a nossa vida amorosa.
Hermione deixou escapar um suspiro, entregando-se completamente àquele momento de paz.
— Que colidam, então. Em todos os turnos, em todos os instantes, até o fim dos nossos dias.
Harry deslizou a mão para a nuca dela, puxando-a para um beijo que carregava o peso de tudo o que haviam superado e a promessa de tudo o que ainda estava por vir.
Ao se afastarem, o verde dos olhos dele encontrou o castanho profundo do dela, selando uma verdade que não precisava mais de palavras.
— Disso eu nem tenho dúvida... futura Sra. Potter.
